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Temos connosco o Nuno Afonso, vice-presidente do Chega, coordenador autárquico e candidato do partido a Sintra. Este congresso vai servir para fazer mudanças na direção do Chega. André Ventura já o assumiu, já confirmou que vai mexer inclusive nos vice-presidentes e sabemos que a proposta é que saiam os três vice-presidentes mais antigos. Neste caso, o Nuno Afonso é um deles, Diogo Pacheco Amorim será o segundo e José Dias o terceiro. Aceita esta decisão? Está confortável com esta decisão?

Em primeiro lugar, boa tarde. A decisão creio que ainda não é oficial. Eu acho que o André ainda não assumiu que seriam essas as trocas. Ele assumiu, sim, que haveria mexidas na direção, inclusivamente acho que falou nas vice-presidências, mas não assumiu ainda. Aceitar, mesmo que isso fosse verdade e eu assumindo que poderia ser uma das trocas, todos nós temos que aceitar, porque a decisão, segundo os estatutos do partido, a direção é nomeada pelo presidente. Irá a sufrágio aqui na convenção ou no congresso, mas a decisão da escolha é do presidente. Por isso eu acho que nós temos que aceitar. Se o presidente foi eleito com 90 e tal por cento dos votos, temos que aceitar as decisões que ele toma.

E se essa decisão for tomada por André Ventura neste congresso, mantém-se na direção sem ser na vice-presidência?

Depende da proposta que ele me fizer. Há bocado perguntou-me se eu aceitaria. Aceitar, eu aceitaria. Ficaria magoado, mas aceitaria, não sei, acho que sim.

Mas compreende essa decisão, se de facto ela se confirmar?

Se compreendo?

Estamos a falar do militante número dois do partido, logo a seguir a André Ventura, de um vice-presidente, de um coordenador autárquico e até de um candidato a Sintra. É uma opção certa, na sua visão, por parte de André Ventura?

Eu vou ser sincero, como sou sempre, e objetivo. Eu acho que sendo um candidato a uma câmara tão importante como é Sintra, deixar de ser vice-presidente e passar para uma outra função qualquer, em vésperas de eleição, não sei que tipo de imagem passará. Mas a tomar essa decisão, a ser uma decisão real, há de haver uma lógica por detrás disso. O André não é pessoa de tomar decisões impulsivamente, portanto há de ter um motivo para fazer as trocas que irá fazer.

Mas pelo que soubemos, e noticiámos no Observador, a decisão de André Ventura prende-se pela antiguidade, pelo facto de serem os três vice-presidentes mais antigos.

Para me chamar velho?

Não, mais antigos na direção. Essa é uma razão para si?

A questão da rotatividade dos vice-presidentes.

Sim, considera uma razão válida para mexer na direção?

Todas as razões serão válidas se forem passadas como regra e for uma regra que se mantenha depois para o futuro. Se a decisão é que cada vice-presidente só possa fazer um mandato e for para cumprir por todos, é uma regra.

André Ventura sugeriu na entrevista que deu ao Observador, que saiu ontem no início do congresso, que há críticos internos que esperam mais moderação do partido e deixou até bem claro que não está disposto a abdicar dessa posição mais radical. Acredita que faz parte destas pessoas que André Ventura considera que tem uma posição mais moderada no partido?

Honestamente, a palavra moderado, eu não sei se moderado é bom, se é mau, o que é que é, porque é uma palavra que não é nem carne nem peixe. Eu acredito, sobretudo, que sou uma pessoa sensata e que tomo as minhas decisões de uma forma sensata. Se essa questão dos moderados é para mim, eu sinceramente não acredito. Eu estive no Melho esta semana a discursar e eu disse claramente que a importância do Chega em Portugal é precisamente porque somos o único partido que tem a capacidade de dizer aquilo que mais nenhum dos outros desta suposta direita ou centro-direita tem coragem de dizer. Nós falamos de temas que nenhum dos outros fala. Não sei se isso será uma posição um pouco radical ou menos radical.

Mas acredita que é preciso uma posição mais moderada para que o partido cresça, para que deixe de ser este partido novo e mais pequeno em relação aos outros com que compete?

Para que o partido deixe de ser novo, é preciso tempo. É preciso que ganhe idade para deixar de ser novo. Para que cresça, e isto é uma opinião pessoal, eu acho que o que precisa não tem propriamente a ver com moderação, porque eu acho que estes temas são os temas que realmente nos trouxeram até aqui. Acho que tem que haver, não é moderação, tem que haver é formas de explicar às pessoas aquilo que nós defendemos, porque o André tem um minuto para falar na Assembleia da República e é muito difícil conseguir passar uma mensagem concreta e densa num minuto. Também não temos o respaldo da comunicação social que outros partidos têm. Portanto, eu não acho que seja preciso moderar. O que eu acho que é preciso para o partido crescer é aparecerem outras pessoas a falar, é aparecerem outras vozes, outras formas discursivas. E eu acho que é isso que vai fazer com que o partido cresça.

Deixe-me perceber. Não sei se teve a oportunidade de ver um artigo que publicámos no Observador por causa do facto do Chega, da possibilidade de ter atingido um limite de crescimento. Ouvimos até o vice-presidente Diogo Pacheco Amorim, que dizia que para o partido crescer, como acabou de dizer, além da ordem financeira e organizativa, é também preciso mais palco, digamos assim, mais pessoas a falar. Mas, por outro lado, alguns politólogos diziam que abdicar da ideia de protesto seria, entre aspas, matar a ideia com que o Chega cresceu. Concorda com isso, que o partido até se pode moderar, mas não tanto assim?

Concordo. Como já disse anteriormente, creio que para o partido crescer precisa, de facto, que apareçam novas pessoas. E pessoas com discursos diferentes. É diferente ter um político que representa um partido que tem uma determinada personalidade. Aparecendo outras pessoas com outras personalidades, se calhar podem chegar a mais pessoas que não chegaria um político só, uma pessoa só como o André. Sobre a questão de moderar, mas nem tanto assim, eu acho que não podemos perder o caráter antiprotecista. Eu acho que nós somos um partido antissistema, basicamente, e que não nos podemos moderar demasiado, porque senão vamos nos aproximar daquilo que já existe e ninguém vai votar em lados B. Se nós nos tornarmos demasiado próximos de um CDS, de um PSD ou até de uma nova democracia que não deu em nada, não vamos longe, como eles não foram.

André Ventura tinha dito há cerca de oito meses, na última convenção, aliás, em Évora, na segunda convenção do partido, que não ia negociar cargos para o governo. O discurso mudou um bocadinho. Agora, o líder do partido quer ser vice-presidente de um executivo. Apontou pelo menos quatro ministérios, sendo eles Administração Interna, Segurança Social, Justiça e Agricultura. Acha que se conquista estes objetivos sem moderação? Ou seja, o Chega tem capacidade de chegar ao governo sem esta moderação?

Chegar ao governo sozinhos dificilmente chegaremos. Eu acho que não é uma questão de moderação. Como falamos há pouco, eu acho que nós temos que manter muitas das nossas bandeiras e muito da nossa parte discursiva para conseguir crescer, além do aparecimento de novas pessoas, que eu acho que isso é fundamental. Mas para chegar ao governo, vamos sempre precisar negociar. Portanto, a abertura à negociação.

Estamos a falar de pastas muito importantes, a Administração Interna, a Justiça, a própria Segurança Social.

Sim, terá que haver negociações com outros partidos que possam estar na esfera do arco governativo. E falando assim com nomes nas coisas, se o PSD tiver um bom resultado e que com a nossa ajuda conseguisse formar governo.

Só os dois.

Só os dois, ou se fosse mesmo com o CDS. A questão seria quão dispostos eles estariam para fazer governo, sabendo que nós, e esta é a minha opinião e creio que é do André também, não abdicaremos de muitos dos princípios que defendemos para formar governo. Eu acho que o André disse numa entrevista há pouco tempo que ou era como nós queríamos ou não era. Tem que haver negociações, obviamente, e tem que haver cedências de parte a parte, tem que haver bom senso acima de tudo, mas depois vai depender da forma como o PSD quererá fazer governo ou não. Eu disse isso no Melo, eu tive a oportunidade de dizer exatamente isso. Neste momento, e eu acho que foi uma das conclusões que tiramos do meu painel em que falávamos das convergências de direita, foi que não me parece que haja neste momento grandes convergências, porque o PSD atacou o Chega, o CDS atacou o Chega, eu ataquei os dois, tive que defender o partido. Eu tenho certeza que vai haver convergências, porque não há um governo de direita sem o Chega, de certeza, nos próximos anos. Portanto, a convergência vai ter que existir, quer eles queiram, quer não queiram.

Mas com este ADN de protesto, acho que foi assim que André Ventura disse ontem.

Lá está, como falou há bocado e falou das opiniões dos politólogos, eu acredito que sem o ADN de protesto, nós não cresceremos muito mais do que isto. Portanto, o protesto tem que se manter. Nós representamos aquilo que as pessoas, e isto pode parecer um clichê, mas nós dizemos aquilo que as pessoas querem dizer, e muitas vezes veem que os políticos não têm coragem para dizer.

André Ventura falava ontem do partido das conversas de café que se orgulha e quer que o Chega continue a sê-lo.

Sim, é a opinião dele. Eu acho que temos que ser isso, mas temos que ser isso e muito mais. Não pode ser só conversa de café. Nós temos mesmo que apresentar ideias concretas, temos que falar para muito mais gente e para vários tipos de pessoas.

Considera que estão a faltar essas propostas e não só as bandeiras que chegam às pessoas? Ou seja, o Chega tem algumas bandeiras nas quais tem insistido muito nos últimos dois anos. Acha que falta concretizar mais algumas propostas?

Não, eu acho que o problema das propostas não se põe. O que se põe é o problema de as propostas serem divulgadas ou conhecidas. Nós fazemos imensas propostas, saiu um artigo há uma semana, se não me engano, em que diz claramente que o André Ventura é o deputado com melhor rendimento na Assembleia da República, que apresenta mais propostas no rácio deputado/propostas. Portanto, não é por nós não termos propostas, é porque elas não são votadas. Nós só tivemos um projeto de resolução, dos cento e tal que submetemos, que foi aprovado, que foi a criação do Dia da Sustentabilidade. Mais nada foi aprovado. Nós fizemos uma proposta que eu achei aquilo inacreditável, que eu quando fiz aquilo pensei que ia ser aprovado, que era a renovação dos cadernos eleitorais. Nós temos pessoas nos cadernos eleitorais que já morreram e continuam nos cadernos eleitorais e os partidos votaram todos contra. Acho que a deputada não inscrita Cristina Rodrigues foi a única que votou favoravelmente, conosco. Portanto, são coisas que não fazem sentido. E nós somos bloqueados na própria Assembleia da República, e não tenho dúvidas nenhumas disso, e é por demais evidente. Portanto, a questão não é a falta de propostas, a questão é as propostas não passarem, até porque a comunicação social nem sempre passa tudo. Se bem que passam e vão passando as propostas que nós fazemos, mas a verdade é que elas são bloqueadas ali. É diferente dizer "o Chega fez uma proposta" e depois no dia seguinte já não se fala disso, porque ela chumbou, ou dizer "o Chega fez uma proposta que foi aprovada e isto vai acontecer". Isso já dá uma divulgação maior. Portanto, nós somos é bloqueados aí.

Estamos mesmo a chegar ao fim. Gostava de perguntar-lhe, já muita gente disse que este congresso vai ou pode vir a ser um ponto de viragem no partido e nesta ideia estratégica do Chega pretender chegar ao governo. Gostava de perceber que estratégia é que sai daqui, o que muda a partir deste dia para que o Chega consiga esse objetivo?

Eu acho que todos os congressos são um ponto de viragem. É preciso depois perceber qual é o ângulo da viragem. Uma viragem de forma a que nós possamos entrar em via de governo. Eu acho que a direção, o presidente, vai apresentar uma moção estratégica. E eu acho que, seguindo essa moção estratégica, é aquilo que ele, enquanto presidente, prevê que seja o ideal para chegar a esse objetivo final. Eu acho que ele, como presidente eleito, com uma porcentagem tão grande de votos, não só tem legitimidade para escolher a direção, como tem legitimidade para escolher a estratégia. Portanto, vamos ver como os delegados vão votar a moção estratégica e vamos esperar que seja realmente a estratégia certa para chegar ao governo.

Obrigada, Nuno Santos.

Obrigado