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Sabemos quais os grupos prioritários para as primeira e segunda fase, mas não é claro se, no caso dos militares, são só os que têm contactos de risco que vão ser vacinados ou se vão ser todos. O plano de vacinação também diz pouco sobre como é que as vacinas vão ser armazenadas e transportadas. A vacina da Pfizer, por exemplo, sabemos que precisa estar a uma temperatura de cerca de 80 graus negativos e tal como a da Moderna, implica tomar duas doses, o que duplica o esforço de conservação e também de distribuição. Para as regiões autónomas, vão ser as autoridades a assegurar a entrega das vacinas, mas também ainda falta saber como. Joaquim Ferreira é professor de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e está agora em direto ao telefone neste jornal. Muito bom dia, Joaquim Ferreira, obrigada por estar connosco. Se tudo correr como previsto, poderemos estar a cerca de um mês do início do processo de vacinação em Portugal. Daquilo que sabe, daquilo que foi apresentado ontem, está tranquilo com a preparação deste processo?

Bom dia. Em primeiro lugar, é bom ter havido já uma apresentação pública daquilo que é um pré-plano e portanto, o que noto é que há uma comissão a trabalhar e que há alguém a tentar responder a todos esses pontos que mencionaram agora nesta peça introdutória. O que sabemos são os dados globais, digamos que são os dados mais genéricos, e o que eu posso dizer é que as prioridades definidas pelo plano português, de alguma forma, refletem aquilo que são o plano de prioridades, que já era público em muitos dos países europeus e países norte-americanos, o Canadá, a Austrália. Portanto, sinto-me seguro, que eu acho que há uma preocupação de fundir aquilo que são os dados científicos que já dispomos em relação às vacinas que vão estar disponíveis, e aquilo que é uma prioridade clara, eu diria, de saúde pública a nível global, que é tentar evitar situações de doença grave ou morte nos grupos mais frágeis e tentar evitar que as pessoas que se colocam em risco, essas mesmas pessoas também se infectem. Obviamente, há um nível de detalhe que seguramente irá ser conhecido ao longo dos próximos dias, das próximas semanas, mas eu diria, num país em que habitualmente somos muito reativos e tendemos a não planear, digamos que já não é mau, que um mês antes das vacinas começarem a estar disponíveis, haja publicamente dados que nos permitam ficar já a pensar sobre como é que as coisas irão acontecer.

E é por isso que lhe chama um pré-plano, não é? Porque ainda faltam detalhes, mas vê com bons olhos já estarmos pelo menos a discutir como é que o processo vai decorrer. A verdade é que estão a ser depositadas grandes expectativas na vacina e na vacinação. Parece-lhe que estamos mesmo a abrir a porta para o regresso à normalidade?

Regressar à normalidade, claramente que não. É bom sermos prudentes naquilo que podemos extrair daquilo que está a acontecer. O que está a acontecer é notável, tenho dito isto múltiplas vezes. É de facto notável que como civilização, ao fim de um ano de uma pandemia, tenhamos dados que sugerem que temos próximo o início da administração de uma vacina e portanto, isso é algo com que devemos ficar de facto muito satisfeitos. Primeiro, é preciso perceber que os dados preliminares que temos em relação às vacinas, de facto se confirmam e que a Agência Europeia e a Agência Norte-Americana do Medicamento, de facto vão licenciar as vacinas como esperamos. Tudo a acontecer de acordo com as nossas melhores expectativas, vamos ter as primeiras pessoas a serem vacinadas no início de janeiro. Mas depois isto é um processo lento e eu diria que no melhor cenário, que as pessoas começarem a ficar protegidas à medida que vão sendo vacinadas, isto é algo que vai durar pelo menos os primeiros seis meses do próximo ano. E portanto, como comunidade, ninguém esteja convencido de que no dia 2 de janeiro ou no dia 3 de janeiro, um dia depois das pessoas começarem a ser vacinadas, podem tirar a máscara, podem deixar de lavar as mãos, podem deixar de manter uma separação física, que seguramente será a regra ainda durante muitos meses.

Ainda durante muitos meses. Ontem, alguns especialistas no Infarmed apontavam o verão já como o início dessa retoma, até da retoma econômica e das movimentações sociais mais normais. Também apontaria para isso, a meio de 2021 estaremos já mais próximo daquilo que desejamos?

Eu diria que se o verão do próximo ano for o fim deste período de maiores restrições e portanto, a partir de setembro, outubro, começarmos de alguma forma a voltar a alguma da normalidade anterior, eu ficaria muito satisfeito. E eu diria que as coisas tinham corrido pelo melhor e que tudo aquilo que são estas expectativas boas e positivas que estão a acontecer nestes dias, de alguma forma decorriam com enorme satisfação e com enorme sucesso. Portanto, claramente, eu apontaria para o verão do próximo ano como a meta para todos, sobrevivendo e estando bem e conseguindo manter a saúde das pessoas e a economia minimamente a funcionar, seria notável que a partir de setembro, outubro, começássemos a voltar um pouco à normalidade anterior.

E com o regresso às aulas e o novo ano letivo, seria importante conseguirmos encaixar mais isso. Professor Joaquim Ferreira, quem toma a vacina fica automaticamente protegido da Covid-19, é isso?

De todo. Primeiro, é preciso perceber que estes grupos prioritários, o que sugerem e o que propõem, é que as primeiras pessoas a serem vacinadas sejam as pessoas que estão em institucionalidade, as pessoas mais velhas que estão em lares e os profissionais dessas instituições. E portanto, estamos a falar, num primeiro tempo, de cerca de, na totalidade, mesmo incluindo os profissionais que têm estas profissões mais importantes do ponto de vista cívico, estamos a falar de 1 milhão de portugueses. Um milhão de portugueses é um décimo da população, portanto, ainda é muito pouco para termos a grande parte da população vacinada. Depois, cada pessoa individualmente, os dados que nós temos das vacinas é que a proteção parece já existir, eu diria, um mês depois da primeira administração. Se formos razoáveis, eu diria que cada um deve pensar que sendo vacinado e a vacina funcionando, eu esperaria por um mês e meio, dois meses, até que o efeito protetor da vacina seja algo com que já possamos confiar. Depois, é importante perceber que a vacina, mesmo com os dados que temos, que são muito bons, a dizer que a eficácia de 90%, 95% é excecional, portanto, a confirmar-se essa eficácia, significa que a maioria das pessoas fica protegida, mas ainda alguns não vão ficar protegidos. E nós não sabemos quais são esses alguns. Portanto, mesmo nesse cenário, todos teremos que continuar de alguma forma a ser prudentes, embora o contexto global obviamente vá melhorando, ou seja, menos pessoas vão ser internadas em hospitais, menos pessoas vão ser internadas em unidades de cuidados intensivos e vamos ter uma mortalidade menor, o que seguramente será muito importante.

O vacinado fica protegido e se tiver consigo o vírus, pode transmiti-lo a outras pessoas ou não?

Há dados que nós ainda não sabemos na totalidade. Aquilo que nós sabemos das vacinas é que há menos pessoas a serem infectadas. E nós esperamos que, com isso, ao não serem infectadas, portanto, ao não estarem doentes, transmitem menos o vírus a outros. E, portanto, sim, é essa a nossa expectativa, de que cada um fique protegido e, ao ficar protegido, não fica doente e, desta forma, o risco de transmitir o vírus a outras pessoas ser menor. Há um outro efeito que também temos que ter em conta, que é: quanto mais pessoas forem vacinadas, melhor a comunidade está protegida. Ou seja, se nós vacinarmos de um grupo de 100 pessoas, só vacinarmos 20 ou 30, o efeito de proteção nessas outras 100 pessoas é menor. Se conseguirmos vacinar 70 em 100, o efeito de proteção sobre todos é maior. E, portanto, eu diria que daqui para frente, quer médicos, quer investigadores, quer a comunicação social, é importante começarmos a partilhar informação justa, correta, para que as pessoas possam tomar uma decisão consciente e informada sobre se se querem vacinar ou não. E o meu apelo é que, havendo uma aprovação pelas agências internacionais do medicamento, que são constituídas por pessoas muito competentes, no fundo, isso nos deu uma segurança de que, globalmente, como comunidade, devemos todos vacinar-nos.

Essa era a minha questão e gostava que a pudesse reforçar, por favor. A questão da confiança, da eficácia e da segurança estão asseguradas. Não se está a passar a ideia de que se saltaram etapas na segurança do processo de criação das vacinas.

De todo. De facto, eu acho que é legítimo as pessoas terem essa desconfiança, porque este processo é tão rápido que nos deixa dúvidas. E de facto, eu diria que é uma dúvida muito legítima e diria que é um ato de inteligência de todos questionarmos como é que é possível em tão pouco tempo. Eu diria que as etapas não foram omitidas. O que aconteceu foi que houve várias etapas a serem feitas em simultâneo e isso permitiu acelerar brutalmente todo o processo. E depois houve um enorme investimento por parte dos países, das organizações internacionais. Portanto, de facto, investir em ciência acelera os processos. As coisas foram feitas, eu diria, corretamente, mas de facto, de forma sobreposta, ou seja, fizeram-se várias tarefas em simultâneo e já havia um enorme conhecimento anterior, portanto, não se partiu do zero. Eu diria em janeiro, fevereiro, quando se começou a trabalhar nas vacinas, já havia muito conhecimento que estava disponível. Agora, obviamente, é um medicamento novo e temos que ser sensatos. E, portanto, qualquer medicamento novo há um conhecimento que é menor do que um conhecimento que já está nas farmácias há muitos anos. E por isso, vai haver uma monitorização ao longo de todo o processo e qualquer sinal de que haja algum problema será identificado. O outro aspecto é: nós vamos começar a vacinar pessoas depois de mais de 100 mil voluntários em todo o mundo terem sido já vacinados. E, portanto, esta vacina, que vai ser a primeira a estar disponível, que é a vacina da Pfizer BioNTech, já foi administrada a 44 mil participantes nestes últimos ensaios. E, portanto, não estamos a falar de ter vacinado 50 ou 100 pessoas e tirar conclusões abusivas sobre um número muito pequeno de participantes. Eu diria que há uma quantidade de informação que, tanto quanto é possível, nos dá essa confiança.