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Vamos falar com o José Cortez, um português de 26 anos. Chegou ao Líbano há um dia para fazer um mestrado este ano. Vamos entrar em direto com o José Cortez. Boa noite, José, consegue ouvir-me?
Boa noite. Sim, consegue me ouvir?
Consigo ouvir muito bem, José. Obrigado pela disponibilidade a esta hora, na Rádio Observador. José, foi uma chegada muito azarada, podemos dizer. Chegaste há um dia ao Líbano e foste recebido com esta situação. Como está, nesta altura, a cidade de Beirute e como está o ambiente por aí?
Está bastante caótico. Na altura, quando houve a explosão, eu pensava que tinha sido uma coisa pequena, só onde eu estava, mas à medida que fui caminhando para casa, uns 4 km ainda, dava para ver que não, que na realidade o caos estava em todo lado. Estavam os edifícios todos destruídos, pessoas feridas em todo lado a tentar encontrar uma ambulância, um caos completo e continua um bocado. Agora está relativamente mais calmo, mas até há meia hora, uma hora, só se ouviam sirenes.
José, não sei se consegues dizer-nos, mas a que distância estás da zona em que se deu a explosão, na zona portuária de Beirute?
Quando se deu a explosão, eu estava no Bairro de Geitawi, há volta de 1 km, 1,5 km, e pareceu uma coisa fortíssima. A casa é a volta de 3,5 km, 4 km, e só para teres uma noção, quando cheguei a casa, portas abertas, vidros partidos por todo lado, a porta do meu quarto tinha saído completamente, mobília toda virada do avesso. Mesmo o próprio apartamento, 3,5 km de distância, está um bocado destruído.
Tendo em conta que chegaste há pouco tempo, agora tens este percalço de teres toda a tua casa praticamente virada do avesso, terás com certeza muitos prejuízos, muita coisa para arranjar. Já recebeste alguma mensagem, alguma ligação por parte do governo, da embaixada, de alguém ligado a Portugal para te dar algum apoio?
Não, mas quem precisa de apoio neste momento não sou eu. Quem precisa de apoio neste momento são os libaneses que estão cá a viver, são os libaneses que não só com esta explosão, mas já antes, viviam numa crise económica gravíssima. A moeda perdeu 80% do valor só nos últimos três, quatro meses e acima disso ainda tinham o Covid-19 e agora foi destruído com esta explosão. Quem precisa de ajuda são claramente eles. Não sou eu que cheguei cá, que tenho uns vidros partidos, umas portas partidas e mobília partida que preciso de ajuda.
Olhando para o momento da explosão, como é que descreves esse momento? Porque temos visto muitos vídeos, muito arrepiantes, todos eles, vídeos quase inéditos, e não conseguimos ter essa sensação que tu sentiste. Como é que foi esse momento da explosão, essas ondas de choque a passar, como é que descreves essa situação?
É um bocado difícil descrever. Eu estava no passeio, estava a pedir um café e ouço primeiro o barulho de uma explosão, não sabia o que era bem, e de repente sente-se um bocado de calor, mas de um momento para o outro, vem a tal onda e aí de um microssegundo para o outro, de repente estava tudo no ar. De repente vias a poeira toda, estava tudo no ar e eu próprio também não consigo descrever bem, porque eu também voei para aí 1 m contra a máquina de café e mesmo nos momentos a seguir estava a tentar perceber onde é que eu próprio estava. Ou seja, é um bocado difícil descrever por causa disso. Mas depois do momento da explosão, o que aconteceu foi que estava um caos tremendo, estavam imensas pessoas feridas à minha volta, pessoas a tentar encontrar ajuda, tudo partido por todo lado, pessoas aos berros, portanto, um caos autêntico.
José, chegaste há pouco tempo, mas tens conhecimento de mais portugueses em Beirute e se tens conhecimento da situação deles nesta altura?
Não, não tenho conhecimento de nenhum português.
No teu caso, disseste-nos agora que nesse momento da explosão ainda voaste 1 m, viste muitos feridos à tua volta, como é que tu estás neste momento em termos de saúde?
Estou bem, um corte ou outro, mas nada especial. Coisas muito ligeiras. Tive muita sorte.
José, uma sorte dentro do azar. Chegaste no dia anterior, chegaste ontem a Beirute e recebido então com esta explosão, que é o tema do dia.
Podia só deixar mais alguma coisa antes de acabar?
Sim.
Ok, como eu disse há bocado, quem precisa de ajuda neste momento são os próprios libaneses que estão cá a viver há algum tempo. E não só por causa da crise económica e do Covid-19, mas alguns dos hospitais foram agora danificados. Há imensos feridos que estão a ir aos hospitais e os hospitais recusam, não têm simplesmente espaço para atender todos os feridos e, portanto, eu queria só deixar uma mensagem de que quem puder ajudar, por favor, ajudem. Podem ajudar a Cruz Vermelha Libanesa e isso já seria uma ótima ajuda, porque neste momento está uma situação muito complicada aqui.
E fica esse belo apelo. Obrigado, José Cortez. Ele tem 26 anos, é português e esteve aqui na Rádio Observador em direto a descrever esta situação, esta explosão. Ele que foi também afetado por este momento da explosão no Líbano. Aconteceu esta tarde. Não ficou ferido o José, nem nenhum português, por enquanto, pela informação que o Observador conseguiu apurar junto da Secretária de Estado das Comunidades, não há nenhum português ferido nesta altura. Assim, a conta de um português que ficou com a casa destruída.