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E neste dia em que começa o processo gradual de desconfinamento, com a reabertura de algumas atividades econômicas, foram muitos os que voltaram às ruas depois de algumas semanas de confinamento. E tempo, por isso, para refletirmos sobre alguns dos efeitos da pandemia na sociedade, além dessas consequências econômicas, João Santos.

E para nos ajudar a refletir sobre estes tempos e sobre o que aí vem, convidamos José Manuel Mendes. É professor de Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, também investigador no Centro de Estudos Sociais. E é lá que coordena o OSIRIS, o Observatório de Risco. Muito boa tarde, José Manuel Mendes. Obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador.

Boa tarde. Obrigado.

O que é que pode mudar agora nestes momentos? Vivemos em confinamento durante largas semanas. Muitos ainda vão continuar esse confinamento. O que é que pode mudar neste momento no que diz respeito aos relacionamentos pessoais, às questões relacionadas com a solidariedade? O ser humano é mesmo de hábitos e tende a voltar ao mesmo ou pode haver aqui mudanças de fundo?

Não. Obrigado pelo convite. Há mudanças de fundo. Aquilo que temos chamado de uma pedagogia do desconfinamento. É uma aprendizagem coletiva, em que todos e todas vamos aprender lentamente a aproximar-nos uns dos outros. É importante esta reapropriação do espaço público. E observa-se que há algum cuidado. As pessoas realmente estão a usar máscara, tanto no espaço aberto como no interior, é obrigatório, estão a seguir as regras e as autoridades políticas têm sido cuidadosas a chamar a atenção àquilo que o professor Ventura Santos, aqui no centro, chama de uma emergência intermitente. Ou seja, nada diz que não tenhamos que voltar a uma losca de confinamento. E os indicadores são contraditórios, porque vamos regressar, mas permanecendo em casa, mantendo o confinamento, uma grande parte, um milhão de estudantes, de jovens entre os 6 e 16 anos.

O observatório que coordena tem analisado estas questões também relacionadas com a pandemia da Covid-19. Há, neste momento, um momento de maior confiança que surge agora com esta reabertura ou por aquilo que vai percebendo e estudando, há uma confiança que está, no fundo, minada?

Não. Os dados indicam que há uma confiança nas autoridades políticas e nas autoridades de saúde. E isso é muito importante e o discurso tem sido uníssono. Por exemplo, muito importante aquilo que eu disse de uma pedagogia do desconfinamento, o senhor presidente da Assembleia da República ter decretado a obrigatoriedade do uso da máscara. Era incompreensível que assistíssemos a imagens no Parlamento sem as pessoas tomarem cuidado. Claro, a distância estava lá, física, mas não estava o uso da máscara.

Ainda hoje ficamos a saber que Ferro Rodrigues, através de um despacho, já determinou que quem estiver agora neste momento na Assembleia da República terá mesmo de usar máscara. Agora é de uso obrigatório.

Muito importante que a mensagem seja coerente. Já não é tão coerente. A polêmica em torno do 1º de Maio, das celebrações, e a comparação com o 13 de Maio. Acho que, hoje, o senhor Presidente da República, o senhor Secretário de Estado, já houve aqui alguma dissonância que é, não digo perigosa, mas que dá uma imagem de uma certa dessintonia que pode afetar a perceção das pessoas. E repare, o 11 de Maio foi celebrado, e bem. O espaço público tem que ser reapropriado, a democracia e a cidadania faz-se em relação com o espaço público, mas com regras. O que falhou no 1º de Maio? O trânsito dos autocarros de um conselho para o outro.

Ou seja, essa inconsistência por parte da informação que é prestada por parte das autoridades, numa altura em que devia haver aqui uma maior união e também uma mensagem clara.

Claro, porque uma coisa é a CGTP celebrar, e bem, ao ar livre, à distância, marcações. Acho que aí não há nada a apontar. Outra coisa é haver circulação entre conselhos. Então as pessoas que não visitaram os familiares no Dia da Mãe, ficaram condicionados. E há uma exceção. A mensagem tem que ser coerente e tem que ser uma de pedagogia. Por exemplo, estava a ler hoje, o Joint Research Centre emitiu uma nota sobre o impacto da escola. A ida das crianças para a escola entre os 6 e os 16 leva a um aumento do risco, porque realmente muitas das crianças vão a pé, vão de autocarro, nem todos têm condições para irem de carros individuais, depois a acessibilidade na escola, o regresso. Mas se olharmos para a política europeia, não há uma política comum. Há países que vão abrir até ao nono ano, há outros que vão abrir até ao 12º, há outros que vão abrir só ao 11º e 12º, como nós, há outros que vão abrir só para os alunos da universidade, outros não vão abrir para a universidade. Portanto, é esta incoerência que tem que ser ultrapassada. E esta geração que eu estou a falar é muito importante. Por exemplo, quando eles e elas voltarem em setembro à escola, está prevista uma aferição dos conhecimentos, uma aferição das competências de sociabilidade e de relacionamento, porque os jovens e as jovens vão voltar. Isso não está no plano. Nós não lemos nada que programe as famílias para esse retorno. Isso havia de estar a ser falado das escolas com as famílias, do Ministério da Educação com as famílias. É uma aprendizagem que estamos todos a fazer e esperemos que durante o tempo não se faça as pessoas esquecer que a qualquer momento podemos ter que regressar a um confinamento. Eu fui contra o estado de emergência e as medidas draconianas, porque por estudos anteriores, os portugueses e as portuguesas têm uma reação aos alertas. Na gripe A, na gripe das aves, portaram-se de uma forma exemplar, um exemplo pra Europa, como agora foi. Quando chegou o estado de emergência, 40% das pessoas já estavam em autoconfinamento. Esta confiança tem que ser transmitida às pessoas.

E olhando aqui pra essa confiança, ainda nos últimos dias vimos, por exemplo, a autarquia de Cascais avançar com uma campanha também com outdoors, onde se podia ler: "Não tenhas medo de ter medo." Devemos ou não, neste momento, ter medo? Como é que se lida com o medo? E gostava também que abordasse aqui outra questão, que eu já o ouvimos falar noutros espaços sobre uma geração Covid. O que é isto da geração Covid? Está pra ficar?

Sim. Essa geração vai ser muito marcada por este período, porque se for agora nesta fase e houver uma certa normalização com o regresso à escola a partir de setembro, integral, todos os níveis de ensino, poderemos falar de uma geração Covid, mas que vai reaprender, porque as pessoas são muito resilientes e as famílias. Depende das classes sociais também. Há pessoas que têm condições para essa resiliência, há outras que não têm tanto. Esse outdoor que eu não conheço, não estou em Coimbra. Eu não concordo. Não se faz política e cidadania com medo. Faz-se com responsabilidade, com confiança e com solidariedade. As pessoas não precisam, digo a partir da experiência que tenho de comunicação de risco, as pessoas não precisam de papões. O medo não faz política, nunca. E as pessoas até podem ter uma coisa, sabe qual é? O contrário disso, as pessoas quererem transgredir estas mensagens negativas. Sempre que há mensagens negativas, há uma pulsão pessoal e coletiva para a transgressão. Não é bom. Não conheço nenhuma política que tenha sido implementada na base do medo. Não funciona, os dados existem, na pedagogia existe. 40% dos portugueses e das portuguesas já estavam em autoconfinamento quando chegou o estado de emergência e foi implementado a 22 de março. As pessoas estão prontas.

Ficamos com essa ideia. Não temos mais tempo. Agradeço-lhe ainda assim o seu contributo neste jornal Observador. José Manuel Mendes é professor de Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, também investigador do Centro de Estudos Sociais. É lá que coordena o OSIRIS, é o Observatório de Risco, que também se propôs ao longo das últimas semanas contribuir neste momento com trabalho e recolha de contributos a propósito desta pandemia da Covid-19.