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Os objetivos da missão são diversos. Essencialmente caracteriza-se por ser uma missão para fazer o estudo de vida microbiana no planeta Marte. Se compararmos isto com as missões anteriores, em particular a última, que foi uma missão mais de análise geológica, também virada para as questões da vida, mas para ver as estruturas geológicas ligadas com a vida. Esta nova missão tem uma série de testes e os equipamentos a bordo estão muito virados para a detecção de traços associados à vida microbiana. Foi escolhido um local de pouso que também é ou esteve ligado à existência de um pequeno lago em Marte. A história de Marte de há 3,5 giga de anos foi de ter água líquida, água que fluiu, água que criou barros, estruturas geológicas associadas à existência de água líquida em grande quantidade e, portanto, o local escolhido para pousar é o local em que esse lago existiu. Aliás, existem vestígios de saída de um delta, como se fosse de um rio aqui na Terra, que obviamente agora está tudo seco, mas que terá criado toda a estrutura geológica por baixo, que persistiu até os dias de hoje. E obviamente, quando se fala da existência de água, está-se a falar também da possibilidade de se terem desenvolvido organismos ligados com a vida. Também repare porque isso está a ser feito. De tudo aquilo que já foi feito com Marte pela NASA, e já foram feitas oito missões que estudaram Marte a tentar apanhar vestígios de vida, esta aqui irá complementar. Por quê? Porque até à data nunca foi encontrado nenhum indicador absolutamente acima de todas as suspeitas de que se tenham encontrado traços ligados com a existência de organismos vivos. Portanto, esta é mais uma, mas não é a última. Por quê? Porque existem diversas tarefas que irão ser executadas e uma delas é a recolha de amostras que serão deixadas à superfície, portanto no solo, já a planear uma próxima missão para daqui ao que está pensado, cerca de 10 anos, haver um segundo rover que poderá recolher as amostras agora captadas por este roverzinho, do tamanho de um automóvel. E as amostras serão depois recolhidas, colocadas num minifucotão e o objetivo para daqui a 10 anos é ter uma missão que poderá trazer de volta à Terra as amostras que serão coletadas por este rover que vai agora ser lançado. Portanto, são objetivos interessantes e, em particular, o trazer para a Terra. Por quê? Porque aqui na Terra existem muito mais equipamentos que podem ser manuseados de diversas formas do que propriamente aquilo que é programado e é construído para estar a funcionar à superfície. Há muito mais limitações.
E este rover tem braços robóticos, tem uma cabeça. Com que instrumentos é que vão ser recolhidas estas amostras do planeta Marte?
O braço robótico tem toda uma estrutura que pousa no chão, que analisa o solo, tem radar de profundidades, tem espectroscopia, tem análise de Raman, mas depois também tem uma broca, que depois de escolhido um certo local, perfura e recolhe amostras. E depois de recolher essas amostras, imagina a broca que faz um furo, que cria um pequeno núcleo de rocha, que em vez de ser destruído e pulverizado para ser analisado por todo o equipamento que está também ali no braço robótico, é na realidade guardado em pequenos frascos. Estamos a falar de coisas do tamanho de uma pequena caneta. É guardado num frasco, fica isolado, fica deixado à superfície. Portanto, esta é a parte que está pensada para o futuro. Por um lado, existe a análise local imediata, que é feita com os instrumentos que vão a bordo. Por outro lado, existe esta recolha de amostras. A novidade está aí.
E estava a me dizer há pouco que ainda não se sabe como é que estas amostras vão ser transportadas até a Terra, é isso?
Já existe um plano que envolve também a ESA, portanto a Agência Europeia também está envolvida para a próxima nave a ser lançada. A próxima nave que vai ser lançada, o que se pretende é que recolha o que esta agora fez. As pessoas podem dizer: "Deixe-me passar um pouquinho aqui ao lado a ideia, saltar um pouco, que é: então e por que essa não faz tudo?" A questão é que não se consegue com as limitações que existem nos envios, com a quantidade de equipamento que é possível enviar. Repare, isto é o peso de um pequeno carro. Não, estamos a falar mais do que duas toneladas de equipamento e neste momento é impossível enviar um rover mais um pequenino fucotão que faça tudo. Por causa disso. É que isto está a ser planeado em partes. Este agora irá fazer a recolha de amostras, tem todo o equipamento pra analisar o solo e fazer a escolha do local que deve ser Isto obviamente é feito através de análises dos equipamentos que vão a bordo. Fará também a recolha de amostras, mas depois deixará no solo essas amostras, obviamente devidamente protegidas. Terá de ser um segundo rover, esse sim agora equipado essencialmente para coletar, apanhar do chão estes pedaços que são deixados, que são fechados em pequenos núcleos metálicos tapados. O outro rover irá apanhá-los, irá recolhê-los, pô-los dentro de um pequeno foguetão que será lançado para fazer o regresso à Terra. Este plano é único, nunca se fez isso. O objetivo é que exista material genuinamente marciano, que venha com as suas condições pristinas, isto é, no modo como estão à superfície de Marte, que é muito diferente daquilo que nós apanhamos aqui na Terra, que são os meteoritos marcianos, aqueles que provieram de Marte. A diferença é que o meteorito teve que entrar pela atmosfera terrestre, foi calcinado, obviamente bateu no chão e terá sido contaminado à sua superfície. É claro que em Terra se consegue analisar o interior. Neste caso será muito melhor, porque o material original geológico e eventualmente com os vestígios de microbianos que possa ter, terá sido tudo preservado. Isto é um plano para o futuro, é uma grande novidade. Depois existe uma outra experiência tecnológica que é bastante interessante, que não tem tanto de científico, mas é essencialmente uma experiência de demonstração de ser possível fazer ou não, que é a experiência de um mini helicóptero.
Estava a dizer há pouco que ao estarmos a investigar água em Marte, estamos também a investigar vida nesse planeta. Podemos dizer que estamos a investigar vida em Marte?
É esse o objetivo. O objetivo é ir atrás novamente. Eu vou dizer novamente, por quê? Porque já diversas missões anteriores tiveram esse objetivo, em locais diferentes, com alguns equipamentos ligeiramente diferentes, outros nem tanto, mas o objetivo tem sido sempre isso, vir à procura de traços de vida em Marte. Por quê? Porque temos a garantia que Marte teve água em estado líquido há muitos gigas de anos. Giga é milhar de milhão. Há muitos gigas de anos atrás. Claro que depois Marte perdeu as condições de habitabilidade, as condições de sustentabilidade de vida à sua superfície. Perdeu-as. Porém, o que sempre se quis encontrar foram os vestígios que foram deixados à sua superfície. E obviamente estes locais que foram antigos rios, que formaram deltas, que permitiram criar toda a geologia associada à existência da água, e com a geologia ficam também vestígios de organismos vivos, os locais preferenciais onde as sondas pousaram, e neste caso rovers com capacidade de se deslocarem à superfície. Este em particular tem muito mais capacidade de se deslocar, é muito mais autónomo, consegue andar cerca de 200 metros tomando decisões ele próprio sobre o caminho a seguir, o que é que vai analisar. Portanto, não está tão dependente das decisões em Terra. Toda essa capacidade foi bastante melhorada, também na parte de baterias, ou seja, ter capacidade elétrica de fazer não só os seus movimentos, mas manter os equipamentos todos a funcionar. Tudo isto é sempre à procura de vida, efetivamente. Por outro lado, também fará o quê? Análise da atmosfera, tem sensores atmosféricos. Aliás, já agora para comparar com a missão que foi lançada pelos Emirados Árabes Unidos, que foi essencialmente para estudar a atmosfera e que foi lançada no dia 19. Este rover também irá fazer esses estudos. Também tem microfones para fazer um estudo ao nível do vento, das movimentações, o que se ouve à superfície de Marte, interessantíssimo. E depois a parte do helicóptero. É uma parte gira porque é tentar demonstrar que é possível ter um pequeno objeto voador. Neste caso não é um drone, tem que ser um helicóptero. Por quê? Porque as hélices têm que ser relativamente grandes. Se a pessoa abrir os braços de ponta a ponta, as hélices não são tão grandes, mas quase que é o tamanho de uma pessoa que abre os braços de ponta a ponta, e são elas que giram em alta rotação. E por que é necessário estudar essa tecnologia? Porque o objetivo é, se existir um pequeno helicóptero que se possa deslocar 1 km ou 2 de modo autónomo, isso é muito mais do que aquilo que um rover consegue fazer. Primeiro ponto. Segundo ponto, se esse helicóptero for equipado com câmaras que façam algum tipo de análise espectroscópica ou análise de imagem através da refletividade em busca de locais, isso é um auxiliar extremamente poderoso para depois o rover que está na superfície poder deslocar-se, ir até ao local que seja escolhido pelo helicóptero. O problema é o helicóptero em si. É que estamos a falar de uma atmosfera que é um centésimo daquela que existe na Terra Portanto, a densidade atmosférica e as pás do helicóptero foram testadas para estudar numa atmosfera que aqui na Terra é equivalente à que nós temos a 30, 40 km de altitude. Além disso, à noite fica sujeito a temperaturas que vão a -90 °C. Portanto, este equipamento, neste momento, aquilo que vai ser lançado, ainda não tem estes instrumentos de análise, porque aquilo que se quer testar é mesmo a capacidade de ter um helicóptero que consegue voar e deslocar-se na atmosfera marciana. Portanto, é um teste tecnológico. O outro teste que foi enviado, curiosamente, é já a pensar numa pessoa que possa ir para Marte e que precisará ter um espaçodoro diferente daquele que se tem na Lua. E então vão ser lançados também lá dentro tecidos que futuramente poderão ser utilizados para fazer o espaçodoro daquilo que será a pessoa astronauta que, eventualmente, um dia, num futuro longevo, possa andar à superfície de Marte.
Era isso mesmo que eu te queria perguntar. Há uma previsão de quando é que o homem pode ir a Marte?
Não, não há nenhuma previsão que seja fidedigna. Quer dizer, não há nenhuma previsão, neste momento, que seja fidedigna no sentido de alguém dizer: "Nós em 2030 garantidamente teremos lá pessoas." Neste momento, eu não ponho as mãos no fogo, acho que ninguém consegue fazer garantias dessas, porque há tanta coisa ainda que é necessário construir, há tanta coisa que é necessário estudar para garantir a sobrevivência de pessoas, porque a pessoa em si é um problema. O facto de enviar uma pessoa fechada numa nave, uma, duas, três ou quatro, e quanto mais pessoas quiserem enviar, pior ou maior é o problema. Fechar as pessoas numa viagem de sete meses até ao planeta, sete meses é muito tempo. Para depois ficar à superfície do planeta, ter que esperar cerca de um ano para fazer uma viagem de regresso durante mais sete meses, isso acarreta uma quantidade de problemas tecnológicos para os quais não existem soluções boas neste momento. E as soluções envolvem tudo. Envolvem a capacidade de enviar todos os sistemas de suporte de vida para essas pessoas. Não existem sequer os lançadores atualmente capazes de enviar essas toneladas todas. E tudo isso está a ser construído, tudo isso está a ser planeado, mas ninguém consegue fazer um mapa com garantias de que daqui a 10, 20 ou 30 anos a coisa estará feita. De modo que o que é que temos? Temos uma ideia, temos um objetivo, sim. Existe uma ideia, existe um objetivo, existe muito trabalho que está a ser construído, mas não há datas.
E esta missão já foi adiada algumas vezes. Qual é que é a possibilidade, se é que há alguma possibilidade, de ainda não ser hoje que vemos partir?
A possibilidade de não ser hoje depende das condições atmosféricas que existam. Porque é na verão. Quando existe mau tempo, não se arrisca a lançar um foguetão. Por quê? Porque a passagem pela turbulência atmosférica toda, a capacidade, a probabilidade de haver desvios de trajetória ou, pior do que isso, haver tempestades com descargas elétricas e que possam afetar os equipamentos são grandes e nunca ninguém arrisca a fazer o lançamento. Portanto, esse é o perigo imediato, é sempre a questão atmosférica. O que é que está a acontecer? Por causa disso, ela já tinha sido adiada. Também se houverem pequenos problemas em todo o equipamento que vai ser lançado no próprio foguetão, no próprio lançador que existe ou em qualquer uma das suas partes, isso pode fazer adiar o lançamento. Neste momento, está tudo com luz verde, é tudo para lançar. Agora, existe a questão da janela temporal de lançamento. Há uma janela temporal para fazer o lançamento. Por quê? Por causa da rotação da Terra. Um dos primeiros é a rotação da Terra. Ele tem que sair entre as horas X e Y, devido à posição em que a Terra está, porque o foguetão quando vai para o espaço, participa da velocidade de rotação da Terra. E o foguetão tem que ficar na direção certa da sua trajetória futura. Esta é uma das primeiras condicionantes. Se for no dia de hoje, eu não sei dizer as horas, mas se não for no dia de hoje até às tantas horas, tem que se passar para o dia a seguir. Não dá para lançar logo também. E depois há uma janela temporal que está ligada com a órbita da Terra em torno do Sol. Existe um prazo máximo para os finais de agosto e se isto não for lançado até essa data, então não se lança de todo e é necessário esperar 26 meses para voltarmos a ter a Terra e Marte em posições que permitam a esta nave fazer a trajetória entre os dois planetas. Portanto, a janela temporal maior é até perto do final de agosto. São estas as janelas temporais que vão estar aqui a jogar.
Muito obrigada.
Deixe-me só acrescentar, por outro lado, que o lançador que se chama Atlas V, tem um historial de 100% de sucesso. Portanto, foi escolhido um lançador da ULA, United Launch Alliance, que fez já 84 lançamentos, todos eles com sucesso. E isso é uma situação que costuma dar garantia de sucesso também. Quando há um lançador que tem funcionado bem, o que toda a gente espera é que agora a 85ª vez também funcione bem. Funcione tudo corretamente e que consiga pôr o rover com todos os seus equipamentos na trajetória certa para Marte, sabendo nós que vai demorar sete meses e muitos até lá chegar, até Marte. Portanto, espera-se que vá correr tudo bem.