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Junta-se agora a nós Rui Moura, professor do Instituto de Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, para nos ajudar a compreender o que aconteceu com este foguetão chinês que está a cair em direção à Terra e vai ser visível em Portugal esta madrugada. Rui, primeiro as coisas primeiro, qual era o objetivo deste foguete de longa marcha que tinha sido lançado em abril?
O objetivo foi lançar o primeiro módulo da nova estação espacial Tiangong. É a nova estação espacial chinesa. Já se fala de uma ocupação desse módulo num futuro muito próximo, há quem fale já em julho. O objetivo principal era mesmo esse, era lançar o primeiro módulo da nova estação espacial chinesa.
E como é que esta história acabou com cerca de 20 toneladas deste foguete a circular na órbita?
Ainda se sabe muito pouco das fontes oficiais, da agência espacial chinesa, mas muito provavelmente o que aconteceu foi que a manobra chamada de deorbit, ou seja, para impedir que ele entrasse em órbita, fazer com que aquele estágio abrandasse a sua velocidade e não entrasse em velocidade orbital, ou seja, próximo dos 28 mil km/h, porque o andar obviamente carregou esse módulo que eu falei há pouco, de modo a ficar numa velocidade orbital, cerca de 370 km de altitude. E o que normalmente acontece é que esse andar, esse estágio, esse pedaço do conjunto, desse lançador, normalmente tem que abrandar para reentrar e para não ficar em órbita. O que deve ter havido foi um erro de cálculo ou de racionamento dos motores de órbita, que no fundo são motores que atuam no sentido contrário à direção que seguem e travam o avanço desse estágio e ele obviamente abrandando, cai e é apanhado pela gravidade terrestre. Isso não deve ter acontecido.
Em termos de probabilidades, este estágio pode atingir terra, mar? Neste momento, o que é que já se sabe?
Estas órbitas, como qualquer veículo que entra em órbita, dá uma volta à Terra em uma hora e meia. O problema é muito complicado em termos de calcular ou ter uma estimativa de onde é que ele vai cair precisamente, porque ele nem tem uma trajetória circular. Ele tinha um ponto mais alto cerca dos 360, 370 km de altitude e depois ao dar a volta, chegava a um ponto mais baixo na ordem perto dos 200. Há uns dias atrás andava nos 170 e penso que agora anda ainda mais baixo, está nos 150, 155 km de altitude, o ponto de altitude mais baixo. O que é que acontece? Quando ele vem ao ponto mais baixo, apesar de estar na termosfera, ou seja, naquilo que se convenciona, que é quase vácuo, mesmo assim há moléculas e as moléculas aumentam em concentração na proximidade da Terra, ou seja, nas camadas mais baixas. E ele viaja a uma velocidade chamada hipersónica, ou seja, está a viajar a uma velocidade muito rápida. Só para terem uma ideia do que é hipersónico, 28 mil km/h, estamos a falar de 7,8, 7,7 km/s, é uma velocidade incrível. Apesar de ser um quase vácuo, mas havendo algumas moléculas, a essas velocidades, um cilindro que tem 30 metros de altura, cinco metros de largura, tem um atrito enorme quando passa naquele ponto da sua órbita mais baixo. E isso torna o problema muito complicado de prever o que é que vai acontecer, porque ele não tem controle nenhum. Ele pode vir com uma trajetória de frente ou de lado, e ao apanhar esse atrito, a diminuição de velocidade e depois aquilo que acontece em termos da orientação do veículo, ou seja, desse pedaço do lançador, é um problema um bocado difícil de prever. O que é facto é que ele continua, das últimas informações que eu obtive, a velocidades orbitais, mas está a diminuir bastante em altitude. Ele agora já não atinge os tais 350 ou 370 km que atingiu no início e o ponto mais alto neste momento já vai nos 230 km. A probabilidade, obviamente, dando ele a volta à Terra em uma hora e meia, dependendo daquilo que acontece nessa hora e meia no ponto mais baixo, ele pode depois cair no mar, porque há mais superfície de mar, ou também pode cair em terra. Mas obviamente que se calculamos as probabilidades com as proporções de terra-mar, ele obviamente vai mais provavelmente cair no mar, mas nada impede que ele caia em terra, porque já o ano passado, em maio, também com o Long March 5B, também caiu um pedaço, salvo erro, na costa do Marfim.
E eu fazia esta pergunta justamente porque Portugal é um dos locais onde estes detritos podem cair e estou em crer que, posso estar enganado, mas estou em crer que havia uma pressão, uma alta ou uma baixa pressão, que poderia levar esses detritos a caírem perto de Portugal. Isto tem alguma veracidade?
Não, neste momento é muito difícil. A janela de tempo que é estimada neste momento para a sua reentrada é muito ampla. Há um ponto central dessa janela, que é cerca daqui a 33 horas, é o que se estima, mas a amplitude, a incerteza é muito grande. Só para dar um exemplo Se nós tivermos uma incerteza de meia hora, ou seja, se atrasarmos meia hora, meia hora de incerteza na reentrada equivale a uma diferença de 10.000 km no ponto onde ele vai cair. Dez mil quilómetros é uma distância muito grande. Se compararmos com uma viagem de avião, é uma distância equivalente a um quarto do planeta. Não estou a ver agora uma viagem assim para comparar, mas sei lá, como daqui a São Francisco, talvez, ou um ponto intermédio nos Estados Unidos. É uma incerteza muito grande. Se eu tiver uma incerteza, se eu errar em meia hora, eu posso ter uma diferença de 10.000 km no ponto onde ele vai atingir. Eu não estou muito preocupado, porque o problema ainda é muito dinâmico, ou seja, é uma questão muito incerta. E sendo Portugal um território que, como eu disse há pouco, há uns dias atrás, mede 200 km de largura, tem 600 km de comprimento norte-sul, nós ocupamos uma área muito ínfima no planeta terrestre e, sendo a probabilidade proporcional à área que se ocupa, nós temos uma probabilidade baixa de este lançador ou os pedaços do lançador caírem em Portugal. Mas existe a possibilidade, obviamente.
Sim. E perguntava também, já aconteceu alguma vez um pedaço destes ter caído em terra? E se aconteceu, quais é que foram os estragos?
Já caíram. Ao longo da história, de lançadores, já houve na China, um pedaço, um estágio do Long March 3B, que é mais problemático porque o Long March 3B usa combustíveis hipergólicos, que são um bocado tóxicos, ou bastante tóxicos, não é um bocado, são bastante tóxicos. E esses pedaços caíram em território chinês. Mas fizeram o seu papel, porque obviamente não entraram em órbita. Como eu disse ontem passado, o Long March 5B, felizmente, usa combustíveis normais, que não são tóxicos e não há problema nenhum em termos de qualquer perigo para a saúde ou perigo ambiental. No ano passado caiu um pedaço desse lançador, não era muito grande, mas caíram uns pedaços na Costa do Marfim. No passado, houve, por exemplo, uma estação espacial que também caiu em terra, o Skylab, na década de 60, aqui na Austrália. Ao longo da história foram caindo alguns destes veículos. Nunca houve grandes consequências. E algumas das vezes até resultaram em pedaços que depois acabaram por ficar em museus, acabaram por ser artefactos curiosos que depois as pessoas acabaram por apreciar. Mas até hoje não houve assim nada de extraordinário. Houve, sim, no passado, o caso de um satélite que tinha um gerador de energia com radioisótopo. Isso foi talvez na década de 60, e isso causou alguma apreensão. Este não tem nenhum perigo ambiental, é apenas a questão dos pedaços metálicos poderem atingir bens ou pessoas, mas a probabilidade de isso acontecer é muitíssimo baixa.
Rui, uma última pergunta. Este pedaço vai ser visível a olho nu das 21h08 às 21h15. Como é que se parece este objeto? Se olharmos para o céu, como é que é suposto identificarmos? Há alguma forma de saber isso?
Normalmente estes objetos aparecem, às vezes até se confundem com aviões. A própria Estação Espacial Internacional, a ISS, muitas vezes aparece nos céus e há pessoas que confundem com um avião a passar. Eu recomendaria alguns sites para acompanhar, para fazer aquilo que em inglês se chama tracking, ou seja, para ver as trajetórias deste pedaço. Há um site que eu recomendo, que é o Stuff in Space. Se procurarem no Google, vão encontrar. Basta procurar por CZ-5B e vão encontrar a trajetória e o sítio onde ele está neste momento. Em qualquer altura, podem acompanhar o ponto onde ele está e confirmar se naquele momento aquilo que estão a ver, aquela luzinha ou aquilo que se possa parecer com um avião, é, ou não é, este estágio a passar no céu.