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E vocês têm notado um decréscimo na venda de café? Tem tido impacto forte neste setor, da pandemia?
É assim, tem tido um impacto enorme, porque o café é um produto que, ao contrário da maioria das outras bebidas, bebe-se quente e portanto tem que ser preparado na hora. Neste momento, com os restaurantes e os cafés todos fechados, a quebra de vendas foi de 100%. O café que se vende neste momento é só no mercado da distribuição, ou seja, nos supermercados, hipermercados e mercearias, mas não compensa o café que deixou de se vender na restauração. Só para lhe dar um exemplo, o ano passado, em 2020, o mercado interno desceu 12,96% em valor e quase 20% em quantidade. E em termos de restauração, o ano passado houve um decréscimo das vendas de café de 40%. E o ano passado tivemos menos tempo fechados do que estamos este ano. Portanto, este ano, apesar do ano ser mais pequeno, eu acho que já vamos num período maior de encerramento, o que vai ter consequências dramáticas para o setor da torrefação do café. E o que se venda mais na distribuição, que se vendeu a mais 16%, não compensa a quebra dos 40% anteriores. E mais, há empresas de torrefação que vendem para o canal de distribuição e que vendem para a restauração, como é a Delta, a Nestlé, a Massimo Zanetti, a Nicola. Há outras empresas que só vendem para a restauração. Há muita empresa de torrefação pequena, como a Sotocal, como a New Coffee, como outras empresas que têm marcas de café diferentes, que vendem apenas e só para a restauração, portanto, que neste momento estão paradas, literalmente. Isto vai ter um impacto muito grande neste setor, que é um setor representativo do mercado português, porque emprega vários milhares de pessoas e que num ano normal faturaria, ou movimentava em Portugal, cerca de 800 milhões de euros. E passou de 800 milhões de euros em 2019 para 700 milhões de euros em 2020. Teve aqui uma quebra muito representativa.
E em relação a fecho de empresas, há alguma coisa que entrou em falência ou que tenha fechado a nível da venda do café?
Há muitas empresas pequenas que estiveram em lay-off e que continuam em lay-off. Encerrar propriamente ditas, já tive uma empresa que minha associada encerrou, o resto, sinceramente, não lhe sei dizer, mas presumo que sim, que irão encerrar mais empresas ao longo deste ano. Eu acho que a maioria das empresas ainda está um pouquinho com a esperança das coisas abrirem e retomar o negócio, mas eu acho que das empresas mais pequenas, vai haver empresas que vão fechar, não tenho dúvida que sim. De qualquer maneira, na crise de 2012, houve muitas empresas de torrefação que fecharam e, portanto, houve aqui uma alteração do setor, do tecido empresarial deste setor. As mais pequenas, algumas foram compradas pelas grandes e, portanto, houve já uma reestruturação do setor. Mas este ano eu acho que vai haver, outra vez, falências e encerramentos de empresas do setor. Não tenho dúvidas que sim.
E estava a falar de uma quebra de 40%, não é? De 2019 para 2020. Por exemplo, neste momento, os cafés em si, já nem venda ao postigo conseguem fazer. Vocês estão a prever uma quebra maior agora em 2021 do que em 2020?
Sim. Logo no início, os cafés também não vendiam ao postigo, ninguém se lembrou disso. Demoraram um bocadinho a adaptar-se e a ter copos e embalagens de takeaway. Mas sim, houve uma adaptação rápida, investiu-se em copos de papel, em tampas, em alternativas, e agora este ano, com este encerramento total, a quebra vai ser superior. Claro que sim, não tenho dúvidas. Mas como é no princípio do ano, pode ser que haja aqui um boom, porque eu acho que as pessoas estão todas desejosas e desesperadas por vir beber café à rua, porque o café que se bebe em casa não é igual. Os equipamentos são diferentes, as máquinas, mesmo o próprio café às vezes é diferente e, portanto, eu espero que quando o setor puder abrir, que tenha, de facto, um crescimento que compense a quebra de 100% que teve durante este período.
Ou seja, só vão conseguir recuperar se abrirem em breve, é isso?
É. Se abrirmos em breve.
Retomar o funcionamento.
Exato. Se pudermos vender normalmente, seria fantástico, mas pelo menos começarmos a vender ao postigo para ativar as pequenas empresas e o setor. E mesmo assim, para compensarmos o ano, temos que depois ter um ano já mais movimentado e temos que voltar, se calhar, a ter turismo, porque senão as quebras não vão ser compensadas, porque o turismo também consumia muito café.