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Em que consistiu este sismo? Estamos a falar de uma magnitude que é preocupante ou para já não há grande motivo para alarme?
Estamos a falar de uma magnitude de 3,4, que do ponto de vista de magnitude sísmica é uma magnitude relativamente baixa. Mas simplesmente como o sismo ocorre muito próximo de zonas habitadas, obviamente tem potencial para gerar níveis de vibração que são percecionados pela população. E foi isso que aconteceu. De qualquer forma, é um sismo, se bem que possa ter sido sentido por muita gente, nomeadamente na zona mais próxima, não é expectável que tenham ocorrido quaisquer tipos de danos. Os efeitos são apenas ao nível pessoal, em termos de sensação de vibração ou até da observação de alguns fenómenos, tais como alguns objetos que estejam suspensos que possam ter balouçado ou algumas janelas que possam ter vibrado. Efeitos deste tipo, mas não danos.
O facto de acontecer em Lisboa, é usual acontecer um sismo deste nível numa zona como Lisboa ou há aí alguma novidade nesse aspeto?
Não podemos dizer que haja novidade. É um sismo que ocorre num sistema de falhas conhecido como sistema de falhas do Vale do Inferno do Tejo, do qual é conhecido historicamente como tendo gerado sismos extremamente relevantes para a zona de Lisboa, para a área metropolitana de Lisboa e zona circundante, nomeadamente 1531, que foi particularmente destrutivo para a cidade de Lisboa naquela época, ou o mais recente sismo de Benavente de 1909. Mas nestes dois casos estamos a falar de sismos de magnitude acima de seis ou num deles bastante acima de seis. Aqui estamos a falar de 3,4, que é algo muitíssimo inferior em termos de energia libertada.
Costuma haver registo de sismos a este nível, pelo menos na zona de Lisboa?
Costuma haver, sim. Eles ocorrem de uma forma espaçada no tempo, não são tão frequentes quanto isso, mas ainda não há muito tempo, por exemplo, tivemos na zona sul de Oeiras, um sismo de uma magnitude um pouco mais baixa, de 2,7, mas que foi sentido por muita gente na margem norte do rio e na zona de Cascais, portanto Cascais, Lisboa, Sintra, que foi muitíssimo sentido. Só por si não é uma anomalia, é um sismo que podemos considerar normal nesta zona.
Nesta altura disse que não há registo de danos na zona.
Nem é expectável que tal tenha acontecido.
Há agora perigo de poderem existir novos abalos de uma menor dimensão, há agora essa possibilidade ou para já este será um sismo isolado?
Pode acontecer. A situação mais normal é que ocorram algumas poucas réplicas tendencialmente de magnitude menor. Mas também não podemos dar uma garantia de que é isso que vai acontecer. Normalmente é o que acontece nesta zona. Há a possibilidade de aparecerem algumas réplicas, obviamente de magnitude mais baixa, mas também não conseguimos garantir que aconteça dessa forma.
Mas há essa possibilidade?
Há essa possibilidade.
Mas sem risco para a população. Será tudo de dimensões muito mais reduzidas.
Sim, se as dimensões forem mais reduzidas, se as magnitudes forem mais baixas, não representarão risco.
Há pouco ouvi o diretor do IPMA, penso que na RTP, dizer que por um lado esta notícia é boa para os cientistas porque não é uma zona que normalmente tenha muitos dados.
É verdade.
E que pode ser bom também para conseguirem estudar de uma melhor forma a história sísmica desta região. Isto pode ser uma notícia positiva, apesar obviamente desta preocupação que pode causar para a população, pode ser uma notícia positiva para a ciência, neste caso?
Sim, cientificamente é uma notícia positiva porque, felizmente, o sistema de vigilância, o sistema de monitorização sísmica tem evoluído bastante. E nesta zona em particular, o Vale do Inferno do Tejo, a atividade sísmica não é tão frequente quanto isso. Não há muitos registos sísmicos numa época recente e a ocorrência de fenómenos como este de hoje, para nós é bom, porque representa dados de qualidade que podem ser utilizados no estudo e para a melhor caracterização desta zona. Que é uma zona que é uma fonte de perigo para a área metropolitana de Lisboa.
Nesta altura, que trabalho é que está a ser feito no terreno? Que tipo de trabalho é que se segue depois de uma deteção deste tipo de sismo?
Depois desta deteção, um deles será o estudo da fonte. Percebermos ou tentarmos reconstruir qual foi o mecanismo e no fundo tentarmos atribuí-lo a uma falha, que ocorre em profundidade, que não é percetível à superfície. Não se consegue ver à superfície, mas ela está em profundidade. E uma das primeiras coisas que irá ser feita é precisamente a análise da reconstituição da fonte sísmica. No fundo, perceber qual poderá ter sido a falha, qual a sua geometria, qual a sua orientação, qual a sua dimensão. É um dos trabalhos imediatos que irá ser feito.
Este é um trabalho que se mantém durante muitos dias no terreno depois da deteção de um sismo?
É trabalho de gabinete, essencialmente. É estudo e processamento de registos, no essencial, e depois também comparação, confrontação com dados geológicos. Poderá durar vários dias a ser feito. Haverá um primeiro relatório interno, que possivelmente será também publicado no site do IPMA, e esse poderá ser relativamente rápido, mas depois os trabalhos continuarão. Um outro trabalho importante, e este sismo serve para isso, é calibrar algumas das formas de estudo da atenuação sísmica, ou seja, calibrar aquilo que nós chamamos as equações de atenuação, que nos permitem perceber como é que a energia sísmica atenua nesta zona. Isso é também bastante importante do ponto de vista do estudo do perigo sísmico.
Podem-se esperar novas atualizações nas próximas horas e também nos próximos dias do que aconteceu hoje em Lisboa?
Sim, é expectável que isso venha a acontecer.