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Hoje foi conhecido um estudo que mostra que não existe uma ligação direta entre as infecções da Covid-19 e a utilização de comboios em Lisboa. Conosco temos Milton Severo, um dos autores deste trabalho. Mais do que as pessoas que andam diariamente de comboio, o objeto de análise deste estudo foram as freguesias atravessadas pelas principais linhas de comboio na região de Lisboa. Pergunto-lhe qual foi o objetivo.
Perceber se essas freguesias mais próximas das estações de comboio tinham maior risco de infecção comparado com as freguesias que estavam mais afastadas da zona de passagem dos comboios. E o que verificamos foi que esse risco não era superior às freguesias que eram atravessadas pelas linhas de comboio, e verificamos que ele variava ao longo do tempo. Ou seja, que no início, por exemplo, a linha de Cascais apresentava um risco superior comparado com as regiões não atravessadas pelas linhas, e depois mais para junho e julho, aparecia a linha de Sintra com maior risco. Ou seja, esse risco não era homogêneo. As linhas não estavam associadas durante todo o tempo e nem sequer sempre com maior risco. Por exemplo, a linha do Sado apresenta um menor risco de infecção comparativamente, por exemplo, às próprias freguesias que não são atravessadas. Ou seja, em conclusão, nós esperávamos que o risco fosse superior, verificamos que não era e, desta forma, quer dizer que provavelmente existe outro tipo de explicações que levaram a haver essas diferenças. Nós, por exemplo, verificamos que o índice de privação europeu, que era um indicador socioeconômico, por exemplo, não apresentava nenhuma associação no início, em março, e depois ao longo do tempo, começou a apresentar uma associação em que quanto maior a privação, maior o risco de infecção. Traduzido, achamos que há outros fatores, principalmente as condições socioeconômicas, que estão a refletir essas diferenças de risco entre as freguesias da Grande Lisboa.
Mas aqui falamos também de um período que envolve o confinamento e que as pessoas deixaram de usar os transportes, certo?
Exatamente. Ou seja, nós temos o período de abril e maio, nessa altura estavam desconfinados, e aí verifica-se que nenhuma das linhas apresentavam um risco superior. Mas depois no período de junho, julho, que já estávamos na fase em que estávamos a desconfinar, aí, sim, como eu já tinha dito, a linha de Sintra apresentava um risco superior. Mas, por exemplo, a linha do Sado e da Fertagus apresentavam um risco inferior comparado com as outras freguesias que estavam afastadas das linhas de comboio. E por isso, basicamente, se o risco fosse o uso em particular do comboio, esperaríamos que esse risco fosse semelhante em todas as linhas ou pelo menos fosse homogêneo em todas as linhas, o que não se verifica. Principalmente também quando se ajusta para os tais indicadores socioeconômicos, verifica-se que estes têm uma força superior à própria linha de comboio. É a tal coisa, nós estamos, no mínimo, a dizer que o risco do uso do transporte do comboio ferroviário poderá ser semelhante ao risco de outros tipos de transportes na grande área de Lisboa, exatamente o mesmo risco, ou até que outros fatores poderão estar envolvidos, principalmente os fatores socioeconômicos.
Ainda assim, se pudermos falar numa linha mais preocupante, neste caso, em Lisboa, é a linha de Sintra.
A partir de junho, julho, que foi a altura em que nós fizemos a análise, ele apresentava um maior risco na linha de Sintra. Embora, é a tal coisa, por exemplo, em março, ainda na fase em que não estávamos confinados, a linha de Cascais apresentava maior risco. Ou seja, traduzido, provavelmente nessa fase seriam casos mais importados. Ou seja, são outros fatores que se associam com aquelas freguesias que explicam o fato dessas freguesias, neste momento, terem mais risco e não especificamente a linha de comboio. Tornando a reforçar, isso não quer dizer que não haja contágio nas linhas de comboio. Significa que ela não é mais determinante do que outro tipo de contágio no trabalho, familiar, etc.