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Temos visto vários países, nos últimos dias, a aprovarem as vacinas contra a Covid-19 a crianças dos 12 aos 15 anos. A pergunta que eu lhe faço é: que impacto psicológico pode ter a vacinação nas crianças, no sentido em que elas passaram um ano e meio em casa e agora podem estar a regressar à sua vida normal? Que impacto é que pode ter a vacinação nas crianças?

Eu acho que há duas perspectivas que nós temos que tomar nesta altura, relativamente ao impacto. A primeira parte tem a ver com as crianças que não querem ser vacinadas. Ou seja, há muitas crianças que têm uma relação difícil com as vacinas, com as seringas e, portanto, essas provavelmente vão dizer que não querem ser vacinadas. Para essas não é uma notícia particularmente interessante. E depois temos outras, que são aquelas que se apercebem do impacto que o Covid tem nas suas inter-relações e na sua vivência habitual, normal, e que essas ficarão certamente muito contentes, porque — existe aqui um detalhe muito importante — este será provavelmente um dos primeiros movimentos em que elas são incluídas do ponto de vista da solução. Eu posso dizer isto porque já foi evidenciado em sessão, em consulta: ficaram muito tristes quando pensaram ou perceberam que não podiam ser vacinadas e a verbalização é: "Então eu vou ter que continuar a usar máscara, vou ter que continuar a ter estes cuidados todos?" Julgo eu que agora, sabendo que podem ser vacinadas, as crianças e os jovens, no caso, nós estamos a falar de adolescentes, provavelmente vão ficar mais aliviados, porque isto lhes vai permitir um aumento da normalidade da vida delas.

Falava há pouco de crianças que não têm uma boa relação com as seringas e com as vacinas, principalmente. Eu perguntava qual é o papel dos pais neste processo, ou seja, as crianças podem não querer levar vacina porque viram os pais a levar e tiveram um efeito secundário que não era desejado, ou antes pelo contrário, ou podem ter visto os pais a ter uma boa experiência. Qual é o papel dos pais neste processo?

Todas as situações em que as crianças têm que participar e que observam os pais, sempre que os pais passam uma imagem de tranquilidade, de segurança, de controlo, essencialmente, as crianças vão normalmente seguir essa perspectiva e essa tranquilidade. Agora, se os pais têm uma reação muito exacerbada do ponto de vista negativo, nós vamos ter identificações, porque é isso que as crianças fazem. Apesar de, particularmente os mais velhos, já terem alguma capacidade de escolha, as outras provavelmente vão seguir muito aquilo que é a postura que os pais têm. Pais assustados, filhos assustados.

E em relação a uma questão que tem sido levantada agora há dias, que tem a ver com a ética de vacinar estas crianças, porque falamos de uma faixa etária que é menos propensa ao vírus e por isso tem sido levantada esta questão ética de se as crianças devem ser vacinadas ou não. Eu perguntava qual é a sua opinião sobre esta vacinação.

O meu ponto de vista sobre estas coisas passa sempre por uma ideia que tenho defendido desde o início, que é a inclusão de todas as pessoas em todos os processos. Ou seja, é óbvio que as crianças também podem, em partilha com os seus pais, optar por tomar ou não tomar, exatamente como os pais podem fazer. Mas eu acharia que teria sido uma grande injustiça, considerando que estas crianças, os jovens, foram muito empenhados e continuam muito empenhados em serem ordeiros e organizados neste processo da pandemia. Eu acho que seria, do ponto de vista até moral e ético, muito desagradável que eles não tivessem, no mínimo, a possibilidade de escolha. E até há uns tempos atrás, eles não sequer tinham a oportunidade de escolha. Portanto, eu acho que a ética sem escolha ou a moral sem escolha, é não ética, é não moral. E portanto, eles têm escolha e isso é, para mim, o elemento mais ético que pode existir relativamente a tomarem ou não tomarem a vacina.