Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Dr. Miguel Guimarães, hoje tivemos conhecimento desta informação que diz que os estudantes de medicina vão entrar no grupo prioritário de vacinação contra a Covid-19. Começava por lhe perguntar como é que reage a esta informação, se faz sentido para já vacinar os estudantes de medicina e, por outro lado, também se entender que faz sentido, se é uma medida que peca por tardia.

Sim. Os estudantes de medicina que estão nos anos clínicos, que fazem clínica, nomeadamente no último ano, estão também a colaborar com os profissionais de saúde naquilo que é a resposta que se tem dado aos nossos doentes. Aliás, uma parte significativa da formação dos estudantes de medicina no sexto ano é feita com os doentes. Feita a observar doentes, a propor diagnósticos, propor terapêuticas, etc. Portanto, faz sentido que nesta primeira fase os estudantes de medicina também sejam vacinados, porque de facto também correm um risco maior de exposição. E essas aulas, aulas de medicina e outras do gênero, não se devem suspender, não devem parar.

Que informações é que tem neste momento sobre quando é que os estudantes vão ser vacinados? Quantos é que vão ser vacinados? Já tem alguma indicação nesse sentido?

Essa informação ainda não é propriamente concreta. Os estudantes de medicina vão ser vacinados através das escolas médicas. Em princípio, tudo indica que assim seja, mas poderá eventualmente haver alguma alteração, nas escolas onde estão a estudar. As escolas onde estão a estudar têm os hospitais associados, chamados hospitais-mãe. E, em princípio, o que deve acontecer é que os estudantes de medicina vão ser vacinados aí.

E qual é que será o papel que a Ordem dos Médicos terá neste processo? Por exemplo, identificar os alunos, isso passará pela Ordem ou passará pelas escolas?

Não, quem identifica os estudantes de medicina são as escolas médicas e, sobretudo, as associações de estudantes. Agora as associações de estudantes vão ter que identificar, de facto, os estudantes de medicina. Os que querem ser vacinados, porque pode haver alguns que eventualmente não queiram ser vacinados, do último ano, do ano clínico. E dão essa informação aos diretores das escolas médicas, que os diretores das escolas médicas depois farão uma parceria com os hospitais onde as escolas médicas estão inseridos ou eventualmente com a própria Ordem dos Médicos para vacinar os estudantes de medicina. Agora, importante, deixe-me dizer-lhe uma coisa que é fundamental. Eu acho que vocês próprios já se estão a esquecer daquilo que é a primeira das prioridades, que são os profissionais de saúde. Nós, neste momento, o que estamos a assistir, e eu espero que haja aqui algum bom senso da parte do novo coordenador, que me parece uma pessoa diferente do anterior, e acredito que ele vá fazer um trabalho bastante melhor, mas é fundamental que nós sigamos as prioridades. E os médicos estão muito habituados a isto, porque têm que tomar decisões. Se não seguirem prioridades, os doentes podem morrer, por exemplo. E portanto, quando nós temos prioridades e se define que a primeira das prioridades são os profissionais de saúde, a par ou concomitantemente com as pessoas com mais de 80 anos de idade. Aliás, lembra-se certamente daquilo que foi a regra definida pela OMS: 80-80-80. Ou seja, a OMS queria que até ao fim, acho, na primeira fase, estivessem vacinados pelo menos 80% dos profissionais de saúde e 80% das pessoas com mais de 80 anos. Portanto, 80-80-80. Isto em Portugal não está a acontecer de todo neste momento, e eu espero que isto, de facto, rapidamente comece a funcionar exatamente como nos outros países.

A Ordem dos Médicos tem, de resto, sido muito crítica e tem pedido a vacinação de todos os profissionais de saúde o quanto antes. Mas não entende que esta medida de vacinar também os estudantes pode indicar que esse processo de vacinar todos os profissionais de saúde vai avançar e que, de facto, vai dar essa atenção especial para que os profissionais de saúde sejam vacinados o quanto antes ou não? Pode ser aqui um abrir de porta para que isso aconteça?

Sim, eu acho que sim. Eu acho que é um abrir de porta. Aliás, os estudantes de medicina são, na prática, profissionais de saúde também. Por quê? Porque são os últimos anos. São os estudantes de medicina que estão a ver doentes connosco, que estão a trabalhar connosco, que, aliás, têm ajudado no combate à pandemia. Quer dizer, eu não estou aqui a falar dos estudantes de medicina. Acho que sim, e é bom avançarem também rapidamente. E claro, vacinar os médicos, enfermeiros, etc. Eu estou a falar relativamente àquilo que é os grupos que se vão vacinando, que também estão na primeira fase e que têm uma prioridade diferente. Por um motivo óbvio. Quer dizer, se não tivessem uma prioridade diferente, nós estaríamos, de facto, num país de terceirista. Estou a falar de polícia, de bombeiros, enfim, agora falo dos magistrados. Qualquer dia, nós já não temos prioridade. É quem fizer mais barulho ou quem tiver mais oportunidade, ou quem tiver mais capacidade de influência, capacidade. E isto é péssimo do ponto de vista da vacinação. As regras têm que ser seguidas e eu espero que sim. Eu fiz há bocado um grande elogio ao senhor coordenador, ao novo coordenador da task force, e acho que ele tem uma atitude diferente e nós acreditamos nele. Mas as regras têm que ser seguidas, porque se não há regras, é a pior coisa que pode existir num plano de vacinação.

E precisamente sobre essa questão do plano de vacinação, também gostava de lhe perguntar se esta medida de vacinar os estudantes de medicina se entende que é uma boa estratégia do governo e das autoridades de saúde. A Ordem dos Médicos e o doutor, o bastonário Miguel Guimarães, têm sido muito críticos também desse plano. Agora, com um novo coordenador à frente do plano de vacinação contra a Covid-19, se entende que esta vacinação dos estudantes também é um bom sinal de uma estratégia diferente.

Sim, é uma boa notícia. É um sinal positivo, que vem de encontro àquilo que nós cremos, que é que as pessoas que estão ligadas ao sistema de saúde, diretamente ou indiretamente, mas que também é muito possível, que também veem doentes, também ajudam. Aqui devo dizer que nos profissionais de saúde incluímos os cuidadores informais, que tratam dos nossos velhinhos, das lares, etc. A parte dos cuidadores informais funcionam como um profissional de saúde. E, portanto, eu acho que este é um sinal positivo. Agora vamos avançar com bases sólidas, rapidamente, para ver se conseguimos cumprir aquilo que a OMS propôs para o resto do mundo.

Doutor, só mesmo para terminar, eu gostava de lhe perguntar sobre um assunto que não tem a ver diretamente com esta questão da vacinação dos estudantes de medicina. A União Europeia está a estudar várias opções para facilitar as viagens no verão sem restrições. Foi uma informação conhecida hoje. Algumas ideias passam por testes rápidos e, sobretudo, por um certificado de imunidade à Covid-19, um certificado em que a pessoa garante que já foi vacinada. Como médico, doutor, estas ideias fazem sentido? Obviamente, são ainda muito prematuras.

Estas ideias só fazem sentido se nós já tivermos, nos vários países, 70% da população imunizada. Senão, não faz efetivamente nenhum sentido.

Portanto, não se deve avançar para este tipo de medidas. A prioridade deve ser vacinar e atingir a imunidade de grupo.

E nós estamos com sorte, porque temos uma pandemia pelo SARS-CoV-2. Porque se tivéssemos uma pandemia por outros vírus, que são bem mais perigosos do que esse SARS-CoV-2, nós neste momento teríamos uma situação, todos, a nível mundial, muito crítica. E isso pode acontecer, de facto. As viagens de avião disseminaram a epidemia para o mundo todo. As pessoas às vezes não pensam nisso de forma direta, de forma simples. A pandemia existe porque existem viagens de avião, senão não havia pandemia. Ficava restrito a alguns países, poucos, mas ficava por aí. Esta pandemia já mostrou que tem várias ondas. Que, de repente, o vírus parece estar a meio de dormir, a gente controlou e ele, de repente, começa a crescer. E isto tem a ver com o facto de nós estarmos juntos uns dos outros. Por isso é que os confinamentos são sempre a medida mais efetiva para combater o crescimento de uma onda pandémica. Não há margem para dúvidas. Se hoje, ainda, algum político tem dúvidas disso, o melhor é desistir. É evidente que nós precisamos sair. Eu preciso fazer férias num outro sítio qualquer. Toda a gente pensa nisto, está a fazer muita falta mental das pessoas. Mas a verdade é esta: nós temos a vacina. É claro que as vacinas, não sabemos exatamente qual é que vai ser a capacidade real de produção das empresas farmacêuticas. Mas, porventura, nós tivermos, de facto, no verão, imagine no mês de julho, agosto ou até antes, mais ou menos, 70% da população vacinada nos vários países europeus e até no resto do mundo, então aí já existe alguma segurança para, na realidade, se começar a ativar os vários voos e as várias férias, as pessoas começarem a fazer a sua vida mais normal ou vida normal. Se nós começarmos isto com 20, 30, 40, até que seja 50% da população vacinada, nós vamos ter, obviamente, problemas e a pandemia vai outra vez começar a crescer. Portanto, isto são fatores que são muito importantes ter em linha de conta dentro daquilo que é uma abertura global, sobretudo, quando estamos a falar de aviões e de viagens intercontinentais e dentro da Europa.