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Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa. Vamos falar sobre este novo estudo que foi publicado nesta segunda-feira por uma universidade da Escócia, a Universidade de Strathclyde, que diz que a variante de Covid-19, a chamada variante Delta, que foi originalmente encontrada na Índia, tem o dobro do risco de hospitalização quando comparada com a variante britânica. Miguel Castanho, falamos aqui de algo que pode representar um perigo para Portugal ou será que estes números vão apenas preocupar a Escócia e, consequentemente, também o Reino Unido?
Não, é um estudo que nos vem dizer que devemos estar alerta para esta nova variante e todos os países estão à mercê destas novas variantes. Alguns podem estar mais expostos, outros menos expostos, portanto uns sofrerem primeiro do que outros, mas a prazo, todos os países estarão expostos a estas novas variantes, porque se tornam incontroláveis. Já que os vírus acompanham a mobilidade das pessoas, há mobilidade entre países e portanto, todos os países ficam expostos. Para Portugal, uma vez que a situação no Reino Unido é uma situação crítica e nós já temos a experiência do que aconteceu no período do Natal, por exemplo, em que a variante britânica chegou muito rapidamente a Portugal e se multiplicou muito. E agora com a chegada do verão e turistas britânicos e com o regresso de alguns emigrantes, é expectável também que haja, de facto, uma introdução da variante indiana, que, aliás, em larga medida já cá está. Portanto, já alastra em Portugal. Estes dados também servem muito às autoridades portuguesas perceberem que já estamos a lidar com a perspectiva de uma variante que é potencialmente mais perigosa ainda do que a variante britânica. Até agora existiam dados que apontavam para uma transmissibilidade maior, portanto, uma maior capacidade de infecção. O que este estudo traz de novo é a consciência, porque foram contados os números de casos de infecções com a variante indiana, comparado com os casos com infecções com a variante britânica, foram contados os números de hospitalizações e aquilo que é demonstrado pelos números é que de facto as hospitalizações são muito mais frequentes para quem está infetado com a variante indiana. E é um aumento muito significativo, porque passa para o dobro.
E aqui em Portugal, entretanto, também já começamos a receber turistas que vêm precisamente do Reino Unido. E aliás, daqui até agosto, possivelmente ainda vamos receber cada vez mais turistas. Estes turistas que são vacinados no momento de chegada ao país, pelo menos. Será que apesar disto, mesmo a contar com esta medida de precaução, será que esta variante mais forte acaba por nos ameaçar na mesma?
Sim, porque é muito significativo que este estudo tenha sido feito precisamente no Reino Unido, que é um país onde o plano de vacinação vai relativamente adiantado. Ainda assim, eles estão com muitas cautelas com esta nova variante, a variante indiana. Também chamada Delta, se quiser. E não é por acaso. Enfim, este estudo demonstra. Não é só aquilo que se está a observar em termos de número de hospitalizações, este estudo tem outra vertente, que tem a ver com a eficácia das vacinas, o facto de se confirmar que vai havendo um decréscimo gradual da atividade das vacinas à medida que o vírus vai mudando. Já tinha havido um decréscimo pequeno, mas real, com o aparecimento da variante do Reino Unido, aliás, também com a de Manaus, também com a da África do Sul, e agora confirma-se um novo decréscimo de atividade das vacinas com esta variante indiana. Ainda assim, a atividade ainda é significativa, só que não é 100%. E portanto, o facto de uma pessoa estar vacinada quer dizer que ela está mais protegida contra a doença, sobretudo está mais protegida contra formas graves da doença. Mas ninguém tem uma proteção a 100% e, portanto, não nos podemos comportar como se a vacina fosse um escudo impenetrável para o vírus, que não é. E, sobretudo, à medida que vai havendo um decréscimo, que é pequeno, mas real, da atividade das vacinas com estas novas variantes, é claro que ao mesmo tempo também nós vamos tendo mais casos de reinfeção, vamos tendo hospitalizações e o aparecimento da doença mesmo para pessoas que já foram vacinadas e, portanto, não podemos ver na medida de exigir a vacinação, por exemplo, aos turistas, uma proteção completa contra a entrada de vírus no nosso território. E ao contrário também. Quando os portugueses vão para fora, vão para outros países, mesmo que vacinados, existe sempre o risco de mesmo assim estarem infetados e, portanto, contribuírem para eventualmente o espalhar do vírus para outros países. Nada é 100% seguro, as vacinas também não. E portanto, temos que juntar à proteção das vacinas, a proteção de outras medidas e manter alguns comportamentos defensivos, pelo menos até que a situação esteja muito mais estável do que está hoje. E isto implica muito mais gente vacinada e implica uma quantidade de vírus em circulação muito menor que o atual.
E Miguel Castanho, este estudo da Universidade da Escócia fala também dentro deste risco dobrado de hospitalização, da eficácia da vacina para diminuir este mesmo risco. Aqui não estamos a falar da vacina ou da eficácia da vacina em combater a Covid-19, estamos a falar só mesmo em combater este risco de hospitalização, em que o estudo diz que quem já tem a vacina completa, portanto, as duas doses, tem menos 70% de probabilidade de ir para o hospital. Olhando agora para os números mais recentes da vacinação em Portugal, cerca de 23% dos portugueses é que têm a vacina completa, portanto, cerca de um quarto do país é que já tomou as duas doses. Isto é um número preocupante, tendo em conta agora estes dados deste estudo?
É um número que inspira cautela. A primeira regra é que em qualquer circunstância, é sempre melhor estar vacinado do que não vacinado. Independentemente da variante que estejamos a falar ou da circunstância que estejamos a falar, uma pessoa vacinada está sempre mais protegida do que uma pessoa não vacinada. Portanto, a vacina confere sempre alguma proteção, não a 100%, mas confere sempre alguma proteção. Nas populações que já têm um grau de vacinação muito avançado, é claro que a propagação do vírus está muito dificultada e, portanto, estão numa situação geral muito melhor do que os países onde a fração de pessoas vacinadas é pequena e, portanto, o vírus tem quase toda a população para poder infectar e para poder prosperar. Portugal tem um plano de vacinação que tem progredido de forma razoável, relativamente modesta, porque se quisermos atender àquilo que é realmente importante para a situação epidemiológica, nós não devemos atender ao ritmo da vacinação, isto é, não é à velocidade a que estamos a vacinar pessoas, mas é quantas pessoas é que ainda não estão vacinadas. Portanto, quantas pessoas é que ainda não têm a proteção máxima que as vacinas conferem. Esse é que é o dado relevante do ponto de vista epidemiológico, porque esse é o dado real para a progressão do vírus. E Portugal aí tem uma meta ainda relativamente modesta e, portanto, tem que manter um esforço muito grande de vacinação, porque a meta principal deve ser chegar tão próximo quanto possível dos 100% das pessoas que podem ser vacinadas, vacinadas, e atingir essa meta antes do outono, porque chegando o outono, e chega também o regresso das aulas, temos todas as condições para a multiplicação de vírus respiratórios. E aí, na entrada do outono e entrada do inverno, a situação pode, de facto, piorar. E o importante mesmo é completar o plano de vacinação, chegando próximo de 100%, ainda antes do outono. Claro que aquela meta que nós falávamos da imunidade do grupo, dos 70% das pessoas vacinadas, neste momento é algo que não se aplica. Era uma ideia mais ou menos simples e ingênua do início da pandemia, porque neste momento sabemos que as vacinas não previnem completamente a infecção e o contágio, e portanto, todas as pessoas podem contribuir em alguma medida, mesmo as vacinadas, para a propagação do vírus. Portanto, a meta da imunidade do grupo já não se aplica, tal como nós pensamos nela no início, e aquilo que temos que atingir mesmo é de todas as pessoas que podem ser vacinadas, conseguir o 100% da vacinação.
E Miguel Castanho, também de certa forma relacionado com esta notícia, está uma outra, se me permitir trazê-la aqui pra conversa, que é o aumento de casos em Lisboa. E aqui falo especificamente de um dado que foi noticiado hoje, de que há 170 surtos em Lisboa. A que é que se pode dever este aumento de casos?
Lisboa, as áreas metropolitanas, pela densidade populacional, pelas condições de vida em algumas zonas, pela mobilidade intensa de pessoas, sobretudo em transportes públicos, pela forma de vida urbana, digamos assim, são áreas sempre muito críticas, e nós já sabemos isso desde o ano passado. Porque o ano passado, durante todo o verão, a situação em Lisboa foi sempre substancialmente pior do que no resto do país. Não estamos a assistir nada que não tenhamos já visto. Aparentemente, enfim, segundo foi noticiado, a maior parte dos surtos em Lisboa deve-se a convívios de natureza familiar ou convívios de amizade ou convívios no âmbito de atividades escolares. Eu diria que há que acrescentar a estes eventuais motivos, também os transportes públicos. Os transportes públicos são sempre um pouco esquecidos no meio destas razões que se invocam para o estado das coisas na área metropolitana de Lisboa, sobretudo, mas os transportes públicos têm condições ótimas para o contágio e propagação do vírus. Porque são espaços fechados, porque as pessoas permanecem em grande proximidade durante um tempo razoável. Mas, de facto, era preciso tomar mais a sério tudo e tomar medidas excepcionais, creio eu, nas áreas metropolitanas, porque as áreas metropolitanas não têm um estilo de vida que seja igual ao do resto do país e exigiriam um plano que fosse específico e, portanto, ficarem um pouco de fora Daquelas medidas que são unicamente generalistas sobre a hora que fecha o comércio, o número de pessoas, as lotações que podem estar nos espaços. As áreas metropolitanas precisavam de planos específicos que até agora não têm existido.
Miguel Castanho, agora juntando estes dois temas, este aumento de surtos, neste caso em Lisboa, mas também como já disse, potencialmente também se pode estender a outras áreas metropolitanas e também pegando na nossa questão inicial, deste maior risco da hospitalização por parte da variante delta da Covid-19. Somando isto tudo, será que podemos prever alterações no desconfinamento que Portugal está a tomar neste momento? Ou será que, na verdade, ainda temos condições para manter o avanço tal como está a ser feito até agora?
Nós temos que ser consequentes com a forma de decisão a que chegámos e que estabelecemos. Em determinada altura, já com grande atraso, porque já foi quase passado um ano de pandemia, mas conseguiu-se fixar os parâmetros que devem ajudar ou devem sustentar a decisão sobre o controle da pandemia. Foi aí que foi criada a famosa matriz de risco, foi aí que se decidiu que era a incidência e o famoso Rt que deviam guiar a nossa ação. Para sermos coerentes e conseguirmos um combate sustentável à pandemia, nós devemos manter o plano de ação, isto é, devemos olhar para o que está a acontecer à incidência e ao Rt, não andar aos ziguezagues, manter o plano tal como ele foi concebido. E de facto, se não preenchemos os critérios para o desconfinamento, então não devemos progredir no desconfinamento e devemos tomar isso como algo normal dentro daquilo que foi decidido no plano de combate à pandemia. Não podemos é andar a mudar de critérios cada vez que os resultados não nos agradam e pensando que queremos, independentemente dos factos, chegar a um determinado resultado.
Quer isso dizer que a matriz de risco também não deve ser alterada, como algumas entidades defendem?
Eu creio que não, porque repare, era defensável que os parâmetros que guiam a decisão não fossem estes e fossem outros, nomeadamente, por exemplo, o número de internamentos, a capacidade de resposta. A matriz de risco poderia ter sido construída com outros parâmetros, isso teria sido absolutamente defensável no início. Agora, a decisão foi construir a matriz de risco e sustentar a ação utilizando aqueles dois parâmetros. Não podemos agora, passadas três semanas, quatro semanas, já não querer esta matriz de risco, querer outra, só porque afinal os resultados não são exatamente aqueles que nós esperávamos. Porque isso seria andar aos ziguezagues e seria um não plano. Mudar a matriz de risco cada vez que os resultados não nos agradam, é um não plano. É optar pela ambiguidade, em vez de optar pela clareza da decisão. Se, de facto, o número de internamentos era a preocupação principal, se a resposta da capacidade hospitalar era o parâmetro principal, então a matriz de risco deveria ter sido construída com esses parâmetros e não com os atuais. Mas a partir do momento em que construímos a matriz de risco e começamos com ela, com os parâmetros atuais, é bom que se mantenha o plano e que se consiga alguma consistência na clareza da decisão. Senão nunca ninguém vai perceber como é que são tomadas as decisões sobre confinamentos e desconfinamentos, e a adesão das populações obviamente vai se erodindo cada vez mais com a incompreensão do que está a acontecer.