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Estamos de volta para mais um episódio da Rota dos Saberes e Sabores, um programa que tem o apoio da região dos Vinhos Verdes. Falar sobre esta região é também falar da gastronomia portuguesa, que tem uma enorme diversidade e grande tradição, que se vai mantendo nos nossos dias. Não podemos esquecer que a sua profunda ligação com o vinho é fundamental para entender a sua história. Os Vinhos Verdes têm uma apetência natural para este tipo de ligações, mas a sua versatilidade vai muito além disso, a ponto de fazerem casamentos incríveis com toda a gastronomia nacional, de norte a sul, e mesmo com comidas de outros locais do mundo para onde já é exportado com grande sucesso. Para falar sobre isso mesmo, tenho comigo Mário Monteiro, que pertence à família proprietária da Quinta das Arcas, em Sobrado, o chef Renato Cunha, proprietário do restaurante Ferrugem, que fica em Famalicão, e ainda Luís Freitas, gerente da Casa da Toujeira, em Cabeceiras de Basto. Mário, temos visto que o vinho começa a sair da sua zona de conforto e tem ido pro mundo afora com sucesso. Qual é a experiência da Quinta das Arcas em relação a isso?

Antes de mais, queria agradecer o convite para poder estar aqui presente neste podcast. Efetivamente, o vinho verde é um tipo de vinho produzido numa região muito especial, que é esta região verdejante, e por isso, se calhar, o nome da região dos Vinhos Verdes, não porque o vinho é verde, às vezes há muito essa confusão. Ainda há pouco estive no Brasil com pessoas que estavam à espera de consumir um vinho com uma cor verde, porque pensavam que o vinho verde era a coloração do vinho. Mas é um vinho que tem uma característica única, que é a frescura, a fruta. É um vinho que tem uma amplitude gastronômica muito grande e nos últimos anos esta região tem conseguido crescer bastante nessa matéria, com vinhos cada vez mais diversos e abrangentes na própria gastronomia, e que tem feito uma combinação muito boa com a gastronomia deste mundo. E isso tem ajudado muito à divulgação dos Vinhos Verdes e desta região em si.

Falaste em gastronomia, em comida, e realmente os Vinhos Verdes têm ligação ótima com muito tipo de gastronomia. E por isso que não podemos deixar de fora o restaurante Ferrugem e o chef Renato Cunha. Renato, o Renato é um restaurante de grande nível, com uma abordagem de comida tradicional mais sofisticada, mas que trabalha muito bem os Vinhos Verdes. Como é que tem sido essa aposta?

Também eu agradecer, obviamente, o convite que me foi endereçado. O tema é muito querido para mim, falar de vinhos e concretamente da região dos Vinhos Verdes. Não tem sido difícil, bem pelo contrário. Primeiro, como Mário Rui já referiu, nós temos uma diversidade de tal ordem na região e estando num restaurante que tem um nível de diferenciação fora do comum para aquilo que é habitual encontrarmos na mesma região, que é uma região muito mais conservadora, e sendo um restaurante contemporâneo, as pessoas vêm à espera realmente de serem arrebatadas, de serem surpreendidas com produtos que têm a ver com o terroir. Quando digo o terroir, estou a falar dos produtos agrícolas, de tudo, das raças de animais, mas também dos próprios vinhos. Por isso, digamos que vêm com uma apetência completamente diferente. Mas dizer que, curiosamente, se há região que é conservadora até ao nível dos restauradores para a região vitivinícola local, é a região dos Vinhos Verdes. E eu acho que é uma região que está a mudar bastante, tem mudado muito, mas é uma região que, de um modo geral, os restauradores, a restauração, não trata muito bem os vinhos da região. E eu acredito nos vinhos da região. Nós temos, dentro de uma macroregião, temos sub-regiões, múltiplas sub-regiões, temos muitos perfis numa região como esta e a par do vinho, temos uma diferença cultural ou temos uma diversidade cultural muito grande. O que significa que isto para mim dá uma ferramenta incrível, que é falar quando estamos a fazer uma harmonização, quando estamos a fazer um pairing de vinhos, que é um dos exercícios que eu mais gosto de fazer no Ferrugem. E eu posso dizer que nós, cerca de 75% dos clientes fazem pairing de vinhos nas refeições, o que é um número muito acima daquilo que é habitual. E poder falar dos produtos, poder apresentar os produtos, as pessoas poderem experienciar perfis e castas que muitas vezes até desconhecem e ao mesmo tempo poder aportar aquilo que é o storytelling que está à volta desses mesmos vinhos, tem sido uma oportunidade. Eu vejo não como uma dificuldade, mas como uma oportunidade e acho que estamos, francamente, e desculpem a falta de modéstia, no bom caminho naquilo que é a afirmação da região em termos vinícolas.

Muito bem, eu também acho, também concordo consigo. Luís, no caso da Casa da Toujeira, vocês fazem uma grande divulgação da cultura ligada à vossa propriedade e à vossa casa antiga. Onde funciona uma pequena adega e armazém de vinho. Mas a gastronomia está sempre presente ali. Vocês também fazem serviço, fazem coisas grandes, mas está sempre presente, inclusive vocês recuperaram uma cozinha antiga, com forno de lenha, etc., que vocês utilizam. Para fazer a companhia aos vossos vinhos, como é que isso tem funcionado?

Desde já agradeço o convite para estar aqui presente neste podcast. Efetivamente, nós entendemos que a gastronomia está estritamente ligada aos Vinhos Verdes e nós, como pertencemos à região dos Vinhos Verdes, estamos no Conselho de Cabeceiras de Basto, entendemos que é essencial termos essas harmonizações dentro da própria quinta. Temos feito desde provas de vinhos com produtos regionais e típicos da região, harmonizações com refeições vínicas. Vamos trabalhando um bocadinho nesse sentido e o feedback tem sido muito positivo, não só de pessoas fora da região dos Vinhos Verdes, quer seja de países como Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, mas como também dentro da própria região, dentro de Portugal, por exemplo, em Lisboa, Porto, as pessoas gostam de perceber um bocadinho da história, não só da Casa da Toujeira, que é uma casa do século XVII, mas sim da própria região de Cabeceiras de Basto. É um bocadinho nesse sentido.

Muito bem. Mário, nós estamos aqui a falar muito de gastronomia e é óbvio, porque é um dos temas deste podcast. Além dos vinhos verdes que vocês fazem, tradicionais. Eu lembro que vocês têm uma grande quantidade de vinhas de verdeinto, da casta Vinhão, mas vocês também fazem vinhos verdes especiais, vocês continuam a apostar em coisas diferentes nos vinhos verdes. E dando, por vezes, alguns dos vossos vinhos, um toque de modernidade. É o caso deste verdeinto. Vocês têm trabalhado também verdeinto num toque moderno?

Sim. A Quinta das Arcas é uma empresa com 40 anos de história, uma empresa relativamente recente na região dos Vinhos Verdes. A região dos Vinhos Verdes tem cerca de 100 anos de idade, por isso nós somos ainda um adolescente para esta região. Mas aquilo que nós pretendemos foi, de certa forma, dar um cunho pessoal e uma visão da família para aquilo que são os perfis dos vinhos do nosso Family Collection. E que são vinhos que efetivamente nos demos a liberdade de não pensar no mercado, mas são uma espécie, à semelhança, se calar, como no ramo automóvel. Existem os protótipos, damos a liberdade de criar coisas fora da caixa. E o facto de termos uma área de vinha bastante considerável para esta região, provavelmente somos o segundo produtor em área de vinha na região, dá-nos esta flexibilidade e esta liberdade de poder brincar a sério. É brincar a sério, porque já estamos a falar em áreas com algum significado, mas para além de podermos melhorar aquilo que são os nossos verdes tintos tradicionais, ou mesmo o verde branco, permite-nos inventar e redescobrir coisas que se calhar estavam perdidas. E fazer coisas que nós entendemos que fazem sentido para a região. E daí nós termos alguns vinhos, podemos falar aqui de um verde tinto que fermenta em barricas madeira, que estagia em madeira. Mas foi um produto que o primeiro ano que fizemos foi 2007. Estamos em 2024. A novidade já não é muita, mas é esse tipo de liberdade que nós pretendemos quando falamos na nossa coleção, que é o Family Collection, que é a visão da família para determinados produtos, como por exemplo, o espumante da casta Arinto, em modo biológico, um Trajadura. Temos um monocasta Trajadura, que é uma casta muito especial para mim nessa região dos Vinhos Verdes. E há muito poucos vinhos monocasta Trajadura. E que traduz aqui um bocado de levar aquilo que é a nossa visão em determinados momentos, em determinado tempo, daquilo que é aquele ano. E aquele ano faz parte também do terroir. O terroir também é o tempo. E é essa visão que nós queremos transpor. E isso permite-nos ter aqui uma elasticidade do portfólio muito interessante e poder descobrir conhecimento com esses mesmos vinhos, que depois aportamos para o resto do nosso portfólio.

Muitos desses vinhos ou desse estilo de vinhos são também utilizados hoje, outra vez, pelo chef Renato Cunha, quando aqui há uns tempos resolveu fazer uma aposta completamente diferente e fazer comida de pote. Potes de ferro, lenha tradicional, fogo cá fora, pratos tradicionalíssimos. Como é que surgiu essa ideia e como é que isso tem corrido?

Eu diria que é a menina dos meus olhos neste momento, um evento que se chama Ir com Sedao Pote. Ir com Sedao Pote, temos aqui um trocadilho no nome, que tem a ver com o facto realmente de ter uma componente vínica sempre presente, mas também para que todos possam gerir as expectativas durante o evento. Eu já cozinho nos potes há oito, nove anos. E eu não convivi com essa técnica de cocção em casa dos meus pais, nem em casa dos meus avós. Já não apanhei nada disso, mas tinha muita curiosidade e há uns anos atrás, num direto para um canal de televisão, decidi arriscar tudo e cozinhar pela primeira vez, fazer um arroz de cabidela num pote desses. Fiquei apaixonado e descobri que era uma técnica realmente ancestral, que tem um potencial incrível

Porque não é só pela magia da forma como se cozinha naqueles potes, mas também pelo despertar de memórias. Em 2020, com a pandemia e com a vontade que toda a gente tinha de ter eventos ao ar livre, as pessoas queriam esplanadas, não queriam estar no interior dos restaurantes, eu entendi que seria interessante fazer um ensaio. E já em 2020 fiz um ensaio com a Anabela, num jardim que nós temos numa casa antiga, um jardim muito bonito, muito bucólico. Decidimos fazer um ensaio e correu extraordinariamente bem. Em 2022, 2023 e agora em 2024 é que nós já apostamos verdadeiramente com um cartaz anual, em que desafiamos produtores para estarem presentes conosco, porque para além da comida, que é importante, e tudo acontece no pote, no fogo, com muita interação, é um momento de tertúlia. Isto acontece sempre a um sábado, são 10 datas anuais. Começamos às 17h. Eu começo a cozinhar às 9h para começar. Chegam os convidados às 17h e eu faço um briefing em que explico o que está a acontecer, a que horas é que começamos e quais são os caldos, as bases, o que está a estufar, o que é que está a acontecer. E daí até à meia-noite, tudo acontece em termos gastronômicos e também em termos de vinhos. Tenho muitos produtores associados a este evento da região dos Vinhos Verdes. Não é só a região dos Vinhos Verdes, tenho desde as ilhas, desde o Pico ao Alentejo, à Bairrada, mas os Vinhos Verdes obviamente que têm aqui um estatuto muito especial para mim, porque estamos na própria região. E o que é verdade é que desafiamos os produtores também a trazerem o quê? Colheitas mais antigas, trazerem grandes formatos, a trazerem coisas que sejam realmente muito diferenciadoras e o que é verdade é que toda a gente tem vindo a jogo. Eu, por exemplo, estava a falar aqui de colheitas antigas. O estigma de que o vinho verde é um vinho para se beber sempre jovem, é uma das coisas que eu tenho andado a combater e acho que tenho conseguido, não sou o único. Que é indicando que, por exemplo, os vinhos verdes brancos de grande qualidade, e são muitos neste momento, felizmente, têm uma capacidade de guarda invejável, muitas vezes superior a regiões que teoricamente toda gente pensa que tem uma afinidade para a guarda. Bem, este é um exemplo daquilo que acontece realmente nessa dinâmica, que é uma dinâmica que é para o mesmo target que eu tenho no Ferrugem, mas é um ambiente absolutamente informal, com uma informalidade esclarecida, como eu gosto de definir, onde se celebra boa gastronomia e bons vinhos.

Hoje as pessoas realmente já vão atrás, na região dos Vinhos Verdes, de coisas diferentes. É um facto isso. E disse muito bem, tem o nível do Ferrugem. E também tem o nível do antigo Pote de Ferro feito hoje em dia. Muito bem. Luís, qual é a importância dos serviços que vocês prestam ligados aos Vinhos Verdes? Melhor dizendo, acha que a gastronomia tradicional é importante para a divulgação também dos Vinhos Verdes?

Sim, eu penso que as pessoas cada vez procuram mais as tradições, as raízes, perceber um bocadinho a cultura que se vive na região dos Vinhos Verdes. E acho que toda a gente, em parceria, quer os produtores de vinhos, quer a restauração, tem trabalhado um bocadinho nesse sentido de promover e divulgar a região dos Vinhos Verdes, não só o vinho em si, mas toda a parte gastronômica também.

Portanto, é importante.

É muito importante.

Os turistas que vocês recebem são abertos a isso, não é?

São muito recetivos. Ainda agora recebemos um grupo francês da zona de Borgonha e eles adoraram. Nós harmonizamos um vinho verde branco, um Azal da sub-região de Basto, com roões à minhota. Eles adoraram aquele prato, porque é as nossas tradições. Eu acho que as pessoas valorizam aquilo que as pessoas têm de melhor para dar.

Mas também é importante o trabalho que vocês fazem, vocês e todos os outros, na descoberta que proporcionam a turistas nacionais e estrangeiros. Eu conheço muita gente portuguesa que descobre e diz: "Eu não fazia ideia que estes vinhos que eram assim". É importante isso, não é?

Eu acho que isso também é um trabalho que todos nós temos trabalhado, eu entendo que em parceria, que é mostrar o que de melhor tem a região de Vinhos Verdes. E eu partilho aqui um bocadinho aquilo que o chefe Renato estava a dizer dos Vinhos Verdes brancos, que são vinhos de guarda, mas isso é um trabalho árduo que tem que ser feito e é mais difícil de fazer esse trabalho árduo aqui no Minho, em que as pessoas está estereotipado que o vinho verde é vinho do ano, do que fazer uma pessoa que desconhece o vinho verde por completo e uma pessoa apresentar. É muito mais simples esse processo, esse trabalho.

Exatamente. Turvar não deixa enganar. Mário, vocês fazem uma festa anual na vossa adega, que é a apresentação dos novos verdes tintos. Que é, no fundo, o São Martinho. E sempre com gastronomia.

Pelo São Martinho, vai adega e prova o vinho.

O vinho, exato.

Foi uma estratégia que começou há cerca de 14 anos, sensivelmente. Nós tínhamos uma vontade muito grande de lançar um vinho verde tinto com um estilo mais jovem, com um estilo mais moderno, que tivesse muito vincado a questão da fruta, da casta Vinhão. Estávamos um bocadinho cansados de ver no mercado a casta Vinhão, uma casta espetacular, tinta da região dos Vinhos Verdes, mas com um perfil muito difícil para o consumidor. E aquilo que vamos assistindo é que o consumidor do vinho verde tinto tem desaparecido, infelizmente. E, por exemplo, a região dos Vinhos Verdes era tradicionalmente uma região de vinhos tintos. Só agora há alguns anos é que tem sido uma região maioritariamente de brancos, ou quase 100% de brancos, e com os tintos a desaparecerem e os rosados a crescerem muito nesta região.

Sim.

E então criamos um perfil, não um Beaujolais Nouveau, mas com vinhos com uma fermentação que privilegiasse o frescor e a fruta. Vinhos quase intocados, que fossem com um perfil muito específico em que o consumidor quando o provasse, sentisse a fruta líquida, sentisse como se estivesse a beber um cacho de uvas. E isso tem resultado muito bem. Temos tido muita adesão por parte da restauração. Infelizmente, o vinho verde tinto ou vinhão ainda é muito regional. E é uma pena muito grande, porque é difícil encontrarmos no resto do país vinhos verdes tintos, porque é uma casta que está muito associada à gastronomia. Nós estamos num país muito pequeno, mas a gastronomia muda muito de localidade para localidade. E sentimos muito isso, que é uma festa que nós fazemos na nossa adega e que a restauração aqui desta região absorve por completo essa produção. São cerca de 15 mil garrafas que são vendidas em 24 horas.

Pois, exato, eu sei. E esgota sempre.

Se me é permitido, eu gostava de partilhar convosco uma pequena história com Quinta das Arcas Vinhão, que aconteceu nos Açores. Isto só para mostrar a versatilidade que os verdes tintos têm. Num evento que todos nós conhecemos, em São Miguel, estávamos a comer um cozido das furnas com muitos cozinheiros, muitos enólogos, muitos produtores, com vinhos de um posicionamento de valor muito elevado em cima da mesa. Toda a gente trouxe tudo e estávamos a comer o cozido e a determinada altura estava cansado, porque vinhos com muita extração, muita concentração, os ícones de alguns produtores sobejamente conhecidos, para mim estavam a cansar o palato e não faziam sentido nenhum com o cozido. Então eu desafiei foi ter com uma pessoa da equipa da Quinta das Arcas e pedi um Quinta das Arcas Vinhão. E nós esgotamos no almoço, porque muita gente que desconhecia que havia vinhos verdes tintos na nossa região, começaram a perceber a função que tinha, por exemplo, com o cozido. E foi incrível quando preteriram todos aqueles ícones com um valor se calhar 10, 20 vezes mais elevado para acompanharem o cozido das furnas com um verde tinto da Quinta das Arcas. Isto aconteceu.

Só complementar aqui um bocadinho o Renato, mas eu acho que o vinho verde tem esta complementaridade. É que ele assume um papel não de prova em si. Ele é o melhor parceiro da refeição. Os vinhos verdes são um parceiro inigualável, porque consegue tornar a refeição num nível muito superior, porque consegue com que a comida tenha um sabor melhorado e consegue a comida também melhorar o vinho. E esta simbiose entre a gastronomia e o vinho verde está presente ao longo da história desta região.

Por vezes são difíceis, bebidos a solo, mas fazem uma harmonização extraordinária, porque complementam muito bem a gastronomia.

Isso é uma grande experiência que eu tenho. Eu adoro verde tinto, mas eu bebo a solo quando é muito bom, etc. Mas realmente aquelas pessoas que não gostam, tal quando se põem com a comida adequada.

Uma mudança de paradigma total.

Completamente. Luís, e vocês têm também essa experiência, sobretudo com turistas estrangeiros. Vocês recebem muitos turistas estrangeiros, têm essa experiência dessa reação aos vinhos verdes?

Olhe, pessoalmente, a nível de enoturismo, eu não costumo servir muito o verde tinto tradicional, porque tenho dificuldade em harmonizar com os petiscos. Agora, em refeição, acho que funciona muito bem. Todos nós temos um arroz de pequeno chá, acho que são coisas que funcionam bem. Agora, em prova de enoturismo para estrangeiros, por norma, são mais os brancos, os espumantes. Também temos agora uma nova tendência, que são os pet-nats.

Sim. Os espumantes, falou bem, ia lhe fazer essa pergunta, têm tido uma ascensão nos vinhos verdes absolutamente incrível.

Nós somos um pequeno produtor, nós produzimos cerca de 500 mil garrafas/ano, mas o ano passado crescemos cerca de 100% na venda de espumantes. E eu acho que quem está a absorver esse tipo de produto é a restauração. Acho que cada vez mais as pessoas bebem um espumante durante a refeição. Já não é só o momento de brinde, de celebração, acho que é mesmo de refeição, por norma.

E o espumante, eu costumo dizer isso, porque acho que assim é, é talvez o único vinho que vai bem desde sozinho, depois na entrada, depois no peixe, na carne, no bacalhau, etc., nas sobremesas. Eu tenho tido harmonizações absolutamente incríveis com espumante.

E ao pequeno-almoço também.

E ao pequeno-almoço também. Renato, na sua experiência, qual é o potencial dos vinhos verdes agora na cozinha moderna, que eu também pratico?

O potencial é total, mas pergunta-me na integração na cozinha?

A acompanhar, fazer a harmonização.

Na harmonização. É curioso que, por exemplo, os vinhos verdes tintos, e não quero estar mais uma vez a insistir na técua do verde tinto, acho que estão numa fase em que se estão a tornar trends. Eram vinhos esquisitos, preteridos, e agora já muita gente acha que são vinhos realmente tão diferentes, tão singulares, que faz sentido pensar neles para fazer um exercício desses. E pelas razões que até já enumerei aqui, pela versatilidade, pela diversidade tão grande que existe de perfis, porque nós temos, e ainda há pouco estávamos a falar da questão dos espumantes e do pet-nat, por exemplo. A frescura natural que têm os vinhos da região realmente são excelentes para espumantizar. E eu gosto muito de começar uma refeição com um espumante. Aliás, é importante dizer isto: nos pairings que se faço no Ferrugem, pelo menos dois vinhos são sempre da região dos vinhos verdes. Sempre. E muitas vezes, quando são pessoas de fora, quando são estrangeiros, eu gosto de fazer pairings só com vinhos da região. E nós conseguimos cobrir todo o espectro daquilo que é a refeição. Realmente, numa cozinha mais contemporânea, quando precisamos de um vinho com muita frescura, com muita mineralidade, nós temos na região. Quando precisamos de um vinho com textura, com densidade, com alguma evolução e até brancos estagiados, nós temos já muita oferta em muitas castas. Eu posso dizer que para mim há três castas que são as minhas preferidas em termos da região. Em termos de brancos, o oreiro em primeiro lugar. Estou dividido entre o avesso e o alvarinho. Claramente são três castas com potencial e com uma afinidade gastronómica única. Mas ainda continuando só a explicação, mesmo quando vamos para os tintos, nós tanto podemos ir para um clarete, como podemos ir para tintos mais rústicos, como é o caso do vinhão tradicional. Falando neste exemplo de um mono varietal, já temos bons exemplos, como é o caso da Quintas Arcas, mas também outros produtores com o vinhão estagiado, que já está muito mais polido, está muito mais refinado relativamente àquele perfil tradicional de alguma rusticidade. E depois quando chegamos até às sobremesas, além das excelentes aguardentes vínicas e algumas bagaceiras que temos na região, também temos alguns passitos, alguns late harvest, e também temos espumantes com perfis. Eu não gosto tanto de espumante numa sobremesa, mas o que é verdade é que também há alguns evoluídos que também podem funcionar. Ou seja, nós neste momento conseguimos fazer um exercício transversal com vinhos. Nós temos uma região que é muito eclética e nós conseguimos acompanhar todos os momentos da refeição com vinhos da região dos Vinhos Verdes.

Estou completamente de acordo. Estás de acordo, não estás, Luís?

Sim, sem dúvida. Eu só faço a harmonização só com Vinhos Verdes.

Mas funciona bem.

Eu já agora fazia aqui um desafio às pessoas que nos ouvem, que é experimentarem uma francesinha, que é um prato muito típico aqui da cidade do Porto, com pét-nat.

Com pét-nat. Sim. Eu já experimentei mais que uma vez com ver tinto. E podes crer que é uma surpresa.

Do conver tinto é em nossa casa com o bacalhau no Natal.

Mário, para vocês, nesta questão da gastronomia, o mercado nacional ainda é muito importante para a venda dos vossos vinhos?

O mercado nacional ainda é muito importante e espero que continue a ser importante. A Quintas Arcas está focada essencialmente nas vendas on trade no mercado nacional. E o mercado internacional tem sido um mercado que tem crescido imenso, porque a apetência pelo vinho verde tem crescido pelo mundo inteiro, com mercados com franco crescimento. Mas aqui em Portugal, eu queria essencialmente destacar o seguinte: o consumo de vinhos brancos tem crescido. E isso tem favorecido a região dos Vinhos Verdes, porque é uma região que, para mim, produz dos melhores brancos de Portugal.

Estou perfeitamente de acordo. Antes de fechar este podcast, resta-me agradecer aos três a vossa presença aqui e esta conversa, que continuaria por muitas horas, mas aí teríamos que ter um copo de vinho à mão.

Obviamente.

É a modernidade dos Vinhos Verdes que os leva a encontrar grandes ligações, por vezes mesmo surpreendentes, com tantos e tantos tipos de comida, um pouco de todo o mundo, mas mantendo sempre as suas ligações tradicionais com a excelência da comida portuguesa. Portanto, obrigado aos três por me terem acompanhado nesta conversa tão rica. Caro ouvinte, quanto a si, até ao próximo episódio da Rota dos Saberes e Sabores.

Obrigado, nós.

Obrigado.

Muito obrigado.