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Bem-vindos à Rádio Observador. Bem-vindos a mais um "Saúde no Limite". O meu nome é Maria Martinho e estou aqui na companhia do doutor António Araújo, que é diretor do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar do Porto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e também presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos. Doutor, obrigada, antes de mais, por ter aceito o nosso convite. Começava por lhe perguntar: aparentemente, o cenário pandémico do norte está um pouco mais controlado relativamente ao sul do país. Que retrato é que faz, neste momento, da pandemia? Que diferenças é que existem e se este cenário pode ser reversível de um dia para o outro, na sua opinião?

A pandemia, quando começou, se bem se recorda, em março, abril, começou no norte. Começou aqui no Porto, basicamente. E depois estendeu-se a todo o norte e foi progredindo depois para o sul, até atingir muito Lisboa. E, portanto, eu acho que a população nortenha aprendeu muito com esses primeiros meses da pandemia. E se bem se recorda também, ali em agosto, setembro, outubro, depois de virem os imigrantes, na região de Penafiel, houve um surto muito grande que colocou o hospital de Penafiel, o Centro Hospitalar Cova da Beira, muito tenso, com um número muito grande de doentes internados, e internados em cuidados intensivos, de tal forma que vieram muitas notícias à luz na altura, na comunicação social, sobre isso, e o próprio hospital teve que transferir doentes para outras unidades de saúde, porque tinha ultrapassado o limite da sua capacidade. Quero com isto dizer que a população nortenha foi se habituando a respeitar muito a pandemia e a ter em consideração todas as normas de distanciamento social, a utilização da máscara sempre ou quase sempre, a lavagem frequente das mãos. E com isto diminuiu, aparentemente, nesta fase, muito o número de contágios aqui na região norte. Não estamos livres, como dizia na pergunta que me fez, de que eventualmente isto pode, de repente, como é evidente, alterar o panorama de um dia para o outro. Nós estamos com números muito elevados de infecção e, portanto, nada nos garante que o norte também não possa, daqui a umas semanas, estar também com números muito elevados de infecção. Nesta fase, felizmente, temos podido respirar um pouco mais de alívio, ao contrário daquilo que se tem verificado, infelizmente, na região centro e na região da Grande Lisboa.

E o norte estará preparado para mais casos do que estes que se verificam em Lisboa?

Nesta questão da pandemia, nós temos reparado que muito do sucesso ou insucesso que tenha havido na estratégia de combate à pandemia tem sido o resultado muito mais de estratégias locais do que propriamente de grandes estratégias ou planeamentos de nível central. Infelizmente, o Ministério da Saúde, em particular, e o governo, em geral, não têm tido propriamente uma estratégia muito definida de combate à pandemia e, sobretudo, estratégia de planeamento para prevenir ou então para fazer face a um grande número de doentes, quer em regime de internamento, quer em regime de cuidados intensivos. E, portanto, a nível do norte, felizmente, temos tido um número de presidentes dos conselhos de administração que são muito bons e que vão planeando na sua região, no seu local, na sua área de influência, formas, estratégias para fazer face a um eventual agravamento dos números. E isso tem se verificado. Não só se verificou na primeira vaga, verificou-se depois ali em setembro, outubro, novembro, e estou convencido que nós estamos minimamente preparados para um aumento substancial dos números. Sendo que é evidente que se houver um aumento muito grande desses números, todos os hospitais vão entrar em tensão, em esforço, eles já estão, mas vão estar muito perto daquilo que hoje em dia se chama muito e muito facilmente a rutura e vamos ter graves dificuldades, como é evidente.

Essa estratégia que fala relativamente ao Ministério da Saúde e ao governo no geral, é uma estratégia de resposta e não de planeamento e antecipação. É essa a crítica que é feita.

O Ministério da Saúde tem vindo muito a reboque da crise. Isto é, tem sido muito mais reativo do que propriamente pró-ativo. E dou-lhe um exemplo muito simples. Aqui no Porto, quando em março e abril se começaram a verificar os novos casos e o número de casos começou a aumentar muito rapidamente, pensamos em abrir um hospital de campanha, um hospital de retaguarda que desse resposta a doentes que tivessem sintomas ligeiros ou que não tivessem sintomas, mas que necessitassem de ficar internados, por exemplo, por não terem condições sociais para isolamento, e de forma a aliviar a pressão nos hospitais. E isto poderia ter sido planeado para o país inteiro com tempo, de forma que quando houvesse um acréscimo grande do número de doentes, de alguma forma tentar aliviar a pressão nos hospitais Nada foi feito. Viu-se agora que abriram um hospital de campanha, primeiro a nível do Algarve, e isso até através da visão da senhora Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Algarve. Abriu agora um em Lisboa, há muito poucos dias, mas tem sido tudo muito reativo à situação e não planeado com antecipação, não projetado para. E é evidente que mesmo aqui no norte se verifica um pouco essa falta de planeamento de nível central, porque os hospitais vão planeando em termos de organização das enfermarias, do trabalho diário, de como funciona a urgência, como se enviam os doentes pra internamento, etc. Mas não têm capacidade, por si só, pra criar grandes hospitais de campanha, porque para lá das instalações físicas, que são relativamente fáceis, e isto digo com experiência própria, relativamente fáceis de arranjar e de adaptar, falta depois o meio humano, os recursos humanos.

Isso leva-me a outra pergunta, outra questão, dr. António Araújo. Isto porque o principal problema neste momento não se prende tanto com o número de camas ou o número de ventiladores, mas sim com o número de profissionais de saúde, tanto médicos como enfermeiros, auxiliares. O que é que ainda pode ser feito neste sentido para reforçar estas equipes?

Isso, diz e muito bem. Sabe que arranjar estrutura física é relativamente fácil. O grande problema, neste aspecto, são os recursos humanos. E é um problema grave, por quê? Porque são recursos humanos muito especializados e que não se formam em duas ou três semanas, ou um mês, ou num ano. E portanto, é evidente que aqui há um problema grave em termos de recursos humanos. E isso é mais grave porque no dia a dia, em tempos pré-pandemia, sempre se limitou muito o acesso, o recrutamento de recursos humanos para o Serviço Nacional de Saúde. E se for ver as estatísticas, quando nós analisamos, por exemplo, o número de médicos, já nem vamos falar do número de enfermeiros, porque o número é muito abaixo em todas as estatísticas europeias. Mas quando analisamos o número de médicos, verificamos que Portugal, em termos de média pra União Europeia, nós estamos mais ou menos equivalentes à média da União Europeia. Nós temos cerca de cinco médicos por mil habitantes. Qual é o problema? Isto daria no total pra dez milhões de habitantes, 50 mil médicos. Qual é o problema? É que desses 50 mil médicos, existe já uma fatia muito grande que está só na privada e portanto, não está no setor público. E estamos a falar do gênero de, os últimos números que eu vi eram cerca de 18 mil a 20 mil médicos que estavam já só no setor privado. E portanto, sobram 30 mil médicos para o setor público. E desses 30 mil médicos, à volta de 10 a 12 mil estão em formação, estão a tirar a especialidade ou no ano comum. E portanto, o rácio de médicos no Serviço Nacional de Saúde para a população não chega a ser de três médicos para mil habitantes, o que é um número muito inferior à média desejável que existe na União Europeia.

Qual é a solução? É reforçar com profissionais de saúde internacionais, por exemplo?

Eu já vou responder à pergunta. E isto por quê? Porque ao longo destes últimos anos, o governo, a tutela, não tem sabido criar mecanismos que ajudem a fixar os médicos no Serviço Nacional de Saúde. O Serviço Nacional de Saúde deixou de ser atrativo ou muito atrativo para grande parte dos médicos, porque têm salários baixos, porque o esforço e o trabalho que exercem no dia a dia não é reconhecido por ninguém, porque têm um sem número de obstáculos no seu dia a dia pra vencer, pra poderem praticar os melhores atos médicos, etc. E portanto, isto tudo leva a que neste momento, nós tenhamos um déficit muito grande de recursos humanos, ainda mais numa época de pandemia. O que é que se pode fazer para combater isto? É evidente que nós devemos envolver o setor social e privado a nível de Portugal. Nós não estamos numa altura em que nos devemos reger pelas nossas convicções políticas. Nós precisamos de mais recursos humanos e eles existem, pode não ser o número necessário, mas existem a nível do setor social e principalmente do setor privado, e portanto devemos ir buscá-los lá. De uma forma ou de outra, seja por acordo, seja por requisição civil, que já se falou ainda há muito pouco tempo, nós devemos envolver o setor social e o setor privado no apoio ao esforço que está a ser feito para a pandemia. Seja para tratar doentes Covid positivos, nomeadamente a nível dos cuidados intensivos, e também, como é evidente, com apoio às enfermarias, mas seja também para cuidar de doentes não Covid, que é uma franja da população que neste momento está com graves dificuldades de acesso aos cuidados de saúde. Primeiro, começam por ter logo uma grande dificuldade de acesso aos cuidados de saúde primários. Infelizmente, os cuidados de saúde primários neste momento estão descentrados, têm a sua atividade descentrada. Os nossos colegas de medicina geral e familiar estão a trabalhar imenso, muitas horas, mas estão a trabalhar sobretudo para fazer trace Covid, para fazer o rastreamento de indivíduos infectados na sociedade. Isto faz com que não tenham horário Para atender os utentes que lá chegam. Portanto, neste momento, os doentes não Covid têm uma dificuldade muito grande de acesso aos cuidados de saúde primários. E depois de vencer essa dificuldade, têm uma dificuldade também grande em aceder aos cuidados de saúde hospitalares. Nós estamos a ter muitas consultas feitas por telefone, temos algum atraso na marcação das primeiras consultas, temos atraso na realização de alguns exames complementares de diagnóstico e temos, como é evidente, e a senhora ministra ainda deu ordem por decreto há umas semanas atrás para parar toda a atividade não programada, portanto tem também atrasos na realização dos tratamentos, principalmente tratamentos cirúrgicos. O setor social e o setor privado deviam ser envolvidos não só no esforço de tratar os doentes Covid, mas também dar apoio e tratar os doentes não Covid.

Isso, na sua opinião, está a ser feito neste momento?

Não.

Defende que há recursos humanos em Portugal e que não é preciso reforçar essas equipes com profissionais de saúde?

Nós ainda temos, felizmente, muitos recursos humanos a nível do setor da saúde em Portugal que não estão a ser aproveitados como deviam para o esforço que está a ser feito. Isso é uma realidade. E depois é evidente, se esgotarmos toda esta capacidade, então sim, deveríamos tentar procurar a nível internacional. Sendo certo que depois qualquer profissional de saúde que seja recrutado a nível internacional não pode chegar cá e começar a exercer medicina logo de imediato, porque tem que vencer toda uma série de aprovações para poder exercer medicina e exercer a enfermagem e que demora ainda alguns dias ou semanas. Acho que o Estado tinha a obrigação de já ter negociado com o setor social e o setor privado estratégias para fazer face à Covid e para fazer face aos doentes não Covid. Mais uma vez, estão a ser reativos e não proativos e deveriam, sim, esgotar as capacidades a nível nacional. E só depois então pensar em outras estratégias.

Transferir doentes para outros países da Europa é algo que faz sentido para si?

Essa é mais outra estratégia ridícula que tem sido apontada pelo governo. Não faz sentido nenhum. E não faz sentido nenhum, porque repare: Espanha está com um número muito elevado também de doentes infectados. Espanha está também com uma pressão muito grande a nível das unidades de saúde. E depois de Espanha, Itália também está com um nível muito elevado de infecções. França está com um número muito elevado de infecções. Para onde é que nós vamos transferir os doentes? Vamos recrutar aqui aviões, charters de aviões, como dizia um futebolista uns anos atrás, e enviar charters de doentes para o estrangeiro? A que custo? Como? E as famílias ficam cá em Portugal. Que tipo de informação vão ter? E se os doentes falecerem nos outros países, como é que depois serão transladados para Portugal? Quem é que assegura esses transportes? Quem é que cobre os custos? Eu acho que é mais uma alternativa perfeitamente sem sentido que o governo coloca, demonstrando neste momento que está em desespero. O governo que nunca teve, como falei já antes no início da entrevista, grande planeamento nesta pandemia, neste momento não tem planeamento nenhum, está desesperado e tenta encontrar soluções, muitas delas perfeitamente estapafúrdias e que não se adequam à realidade. Infelizmente, Portugal é um país que fica numa extremidade da Europa, que apenas tem um país que confina, que é a Espanha. E não é lógico andar a transportar doentes de avião daqui para outros países, que também estão com graves problemas neste aspecto.

Doutor, pergunto-lhe se do conhecimento que tem, se há dificuldades nesta articulação em rede entre os hospitais do SNS e entre estes e setores privados. A ministra fala aqui de um equilíbrio bastante difícil com o setor privado, por vezes. Esta rede está a funcionar bem? Pensa que há margem para evoluir?

Esta rede está a funcionar muito mal, é evidente. Está a funcionar muito mal porque também nunca foi acarinhada, nunca evoluiu na relação entre o setor público e o setor privado. Se analisar muitas das afirmações que foram feitas pela senhora ministra há relativamente pouco tempo, no início da pandemia e pré-pandemia, a senhora ministra sempre teve uma convicção política muito forte contra o setor privado da saúde. E é evidente que isto cria um afastamento grande e uma desconfiança muito grande entre o setor público e o setor privado. Portanto, muitos dos protocolos que poderiam existir neste momento, muito do planeamento que poderia existir e da interligação que poderia existir entre o setor público e o setor privado, não existe. Existem muitos contratos. Ao contrário do que eu estou a dizer aqui, a senhora ministra vai dizer, se lhe perguntar hoje, que tem múltiplos contratos, múltiplas relações com o setor privado. Na prática, isso reflete em quê? Reflete em contratos pontuais. Eu contratualizo a ocupação de uma dúzia de camas, é um contrato com o setor privado. Contratualizo a realização de meia dúzia de TACs ou meia dúzia de exames subsidiários, é outro contrato que tem com o setor privado. E isso, no fim do dia, não é nada. Não reflete nada.

Doutor António Araújo, a Ordem dos Médicos, da qual também faz parte, atribui este aumento de casos nesta chamada terceira vaga a uma espécie de liberdade concedida pelo governo. Será mesmo esta a principal razão? Não há uma resistência também das pessoas em cumprir determinadas regras, a chamada fadiga pandémica? O que pode explicar este aumento?

Eu estou convencido que existem as duas coisas. Por um lado, o governo tem dado sinais muito contraditórios ao longo da gestão desta pandemia O governo foi dando sempre sinais muito contraditórios e mesmo contradizendo-se de quase um dia para outro. É evidente que ao dar sinais contraditórios, cria logo, à partida, a dúvida nas pessoas e um pouco a descrença nas pessoas. E depois é evidente que a própria fadiga que a pandemia impõe às pessoas vai levar a que as pessoas adiram muito menos às normas que têm sido recomendadas pela Direção Geral de Saúde. Isso é lógico.

A situação nos hospitais é crítica, como todos sabemos. Daquilo que tenho ouvido, quais são as principais dificuldades e preocupações dos médicos? Os médicos ainda têm alguma motivação para salvar vidas nesta altura do campeonato?

Os médicos só têm uma motivação, que é salvar vidas. Nós quando tiramos o curso, quando terminamos o curso e fazemos o juramento de Hipócrates, só temos um objetivo na vida: salvar vidas.

Mas é cada vez mais difícil fazê-lo.

Tentar encontrar a melhor forma de o fazer. Agora, é evidente que temos tido muitos obstáculos e neste momento enfrentamos obstáculos muito grandes. Estava a me perguntar quais são os pensamentos preponderantes no dia a dia, por exemplo, no hospital. E neste momento há dois pensamentos preponderantes no dia a dia do hospital. O primeiro é ter camas para internar doentes, como é evidente. Quer quem está no serviço de urgência, que muitas vezes tem doentes não COVID, que necessitam de internamento, quer os que estão na linha da frente, que contactam com doentes COVID e que também necessitam de internamento para eles. E depois, no internamento, é termos camas de cuidados intensivos disponíveis, quer para os doentes não COVID, que necessitam de ir ao bloco operatório e que por vezes podem complicar e necessitar durante algum tempo de apoio de uma unidade de cuidados intensivos, quer para os doentes COVID positivos, que muitas vezes estando internados têm agravamentos súbitos do seu estado clínico e que necessitam de cuidados intensivos. E este, neste momento, tem sido o principal problema em termos de gestão de doentes. Eu sou oncologista e lido todos os dias com doentes oncológicos, com doentes com câncer. É evidente que o nosso dia a dia tem muito mais a ver, não só primeiro, termos vagas de internamento quando é necessário internar doentes que estão com agravamento da sua sintomatologia ou que necessitam de algum apoio em regime de internamento, mas depois no dia a dia, a nossa principal preocupação prende-se com a realização de exames de diagnóstico e estadiamento dos nossos doentes, porque hoje em dia é muito mais complicado fazer os exames. Os exames acabam por demorar muito mais tempo, portanto, acabam por fazer menos exames por dia, porque é preciso desinfetar as salas, arejar as salas. Os doentes têm que fazer todos o teste COVID antes de se dirigirem para exames que são mais invasivos e, portanto, tudo isto complica o nosso dia a dia e acaba por nos quase levar a ver obrigatoriamente menos doentes que aquilo que nós gostaríamos ou ter menos tempo para disponibilizar aos nossos doentes, por causa de todo o processo administrativo que depois se junta a tudo isto. E, portanto, estas são as grandes preocupações.

A nível de médicos infetados, o número elevado de médicos infetados continua a ser uma preocupação, continua a ser um problema?

Sim.

Não sei se tem números atuais que nos possa dizer.

Não, infelizmente não tenho. Mas é evidente que o número de profissionais de saúde em geral e o número de médicos, em particular, infetados, é uma preocupação constante. E deveria ser, e foi com certeza, uma preocupação para o Ministério da Saúde, até porque quando chegaram as vacinas, eles quiseram vacinar logo à partida os profissionais de saúde, porque se nós não tivermos profissionais de saúde, se eles estiverem doentes, temos menos pessoas para dar apoio ao grande número de doentes que neste momento necessitam de assistência médica. E dou-lhe um exemplo: neste momento, quase todas as especialidades no hospital têm ou médicos de formação específica ou especialistas na área COVID. Portanto, que deixaram de estar a praticar atos médicos dentro do âmbito da sua especialidade, só para estarem focados na prestação de cuidados de saúde na área COVID.

Portanto, avalia positivamente o plano de vacinação até agora.

E eu já lhe respondo essa pergunta, porque essa pergunta é uma pergunta muito interessante. E, portanto, é evidente que se tivermos um número muito elevado de profissionais de saúde infetados, isto vai ter um impacto muito grande na prestação desses cuidados de saúde depois aos doentes que necessitam. Portanto, é uma preocupação constante, é evidente. Parece-me, no entanto, que o número de profissionais de saúde infetados tem vindo a diminuir ultimamente. E é possível por dois fatores. Por um lado, nós estamos muito mais habituados a lidar com doentes COVID. Estamos muito mais protegidos. Eu lembro, por exemplo, que no início da pandemia não havia sequer máscaras que chegassem para todos, não havia equipamentos de proteção individual que chegassem para todos e portanto, houve ali uma fase muito grande no início da pandemia em que nós estávamos com a nossa bata, muitas vezes sem máscara, a ver doentes COVID. E, portanto, neste momento estamos mais atentos, estamos mais protegidos e depois, entretanto, começamos a vacinar e, portanto, já temos um número apreciável de profissionais de saúde vacinados e por isso estou convencido que somando tudo isto, o número de profissionais de saúde começa realmente a diminuir hoje em dia em termos de infecção pelo COVID. Relativamente à pergunta que me colocou sobre a questão do plano de vacinação, eu ainda há um bocado estava a refletir um pouco sobre isso. É capaz de não haver um plano de vacinação ideal Nós poderemos ter várias estratégias. O Governo seguiu uma estratégia: começar a vacinar os profissionais de saúde, começar a vacinar quem protege a saúde dos cidadãos para que quando eles necessitem, tenham profissionais de saúde que cheguem. É uma estratégia tão válida como qualquer outra. É evidente que poderíamos pensar de outras formas, poderíamos delinear outras estratégias. Por exemplo, imagina quem são as pessoas que mais se infectam e que causam mais pressão no Serviço Nacional de Saúde. São os idosos, são os doentes. Então, se calhar, poderíamos começar o plano de vacinação por esses, de forma que tivessem menos infecções e, portanto, pressionassem menos o Serviço Nacional de Saúde. Era outra estratégia possível. Mas neste caso em particular, não existe certo e errado.

Mas faz sentido ser os profissionais de saúde a serem vacinados?

Faz todo sentido.

Em primeiro lugar, pergunto-lhe se correu bem, se avalia bem. Ou se muitos ficaram de fora, ou se conhece algum caso de alguém que tenha recusado ser vacinado, por exemplo.

Entre os profissionais de saúde, não. Não conheço ninguém que se tenha recusado a vacinar. Pelo contrário, neste momento a Ordem dos Médicos tem tido muitas reclamações de profissionais de saúde que ainda não tiveram a oportunidade de se vacinarem e que estão muito ansiosos para serem vacinados. E isto quer a nível do Serviço Nacional de Saúde, porque as vacinas têm chegado a conta-gotas e, portanto, não chegaram ainda para todos. E para aqueles que ainda não chegaram, eles estão muito ansiosos e querem se vacinar. Por outro lado, uma outra área que muito se tem falado, que são os profissionais de saúde do setor privado. E aí o número de vacinados ainda é muito pequeno e eles estão muito ansiosos e têm feito chegar à Ordem dos Médicos múltiplas reclamações por ainda não terem sido vacinados. E portanto, os profissionais de saúde aderiram muito à vacina, à vacinação, querem ser vacinados, têm expectativas muito elevadas e precisamos é de mais vacinas, como é evidente.

Doutor, pergunto-lhe se uma dessas reclamações ou preocupações que têm chegado à Ordem se prende com esta chamada medicina de catástrofe, que é uma coisa que provavelmente para muitos profissionais de saúde estão a lidar com isto pela primeira vez. Que feedback é que tem sentido destes profissionais? O que é que tem visto no terreno relativamente a este termo tão assustador e tão novidade ao mesmo tempo?

Primeiro, é um termo que nenhum de nós deseja ouvir na nossa vida, porque é sinal que o estado das coisas está muito esticado. E realmente, em alguns hospitais da Grande Lisboa, a pressão é tão grande que começa a ser difícil praticar bons atos médicos. Isso aconteceu também aqui no norte, no Centro Hospitalar de São Miguel Sousa, naquela altura crítica que atravessaram ali em outubro, também se chegou muito a esse nível de medicina de catástrofe, em que se começa a ter que decidir quem é que vamos tratar, porque o número de doentes é tão grande que não chegamos para todos, por mais que nos multipliquemos, e portanto temos que decidir a quem vamos dar atenção e a quem não vamos dar atenção. E isso é evidente que é altamente penalizador, não só para os cidadãos, como é evidente, mas também para os profissionais de saúde que prestam serviço nessas alturas.

Mas é uma realidade que está a acontecer.

Mas é eventualmente uma realidade que parece estar a acontecer em alguns hospitais mais pressionados pelo número de doentes Covid.

Não é o caso de Santo António, neste momento.

Não é o caso de nenhum hospital, neste momento, na região Norte. Isso garanto. Eu volto a sublinhar, não é o caso de nenhum hospital na região Norte neste momento.

Mas pode vir a acontecer.

É evidente, o futuro ninguém sabe e esta infecção, esta pandemia já demonstrou que pode modificar-se a realidade, pode modificar-se muito rapidamente. E então com a introdução destas novas estirpes que têm surgido, quer a brasileira, da África do Sul ou da Inglaterra, é evidente que o panorama pode sofrer alterações muito rapidamente, não é lógico.

Como é que perspectiva o futuro mediante estas variantes tão surpreendentes do vírus?

Elas não são surpreendentes. Este vírus tem uma taxa de mutação alta, tal como o vírus da gripe e outros vírus deste tipo de famílias. E portanto, não é propriamente surpreendente. Nós esperamos é que a vacina ou as vacinas que estão a ser administradas e que existem no mercado, que possam cobrir também estas variantes e que se não nos tornarem imunes por completo a estas variantes, pelo menos que atenuem os seus efeitos. E portanto, que nós venhamos no futuro a conviver com o vírus como convivemos com o vírus da gripe ou o H1N1, por exemplo, o vírus da gripe A, que existem hoje em dia na comunidade, que vão causando alguns surtos, mas que nós vamos controlando e vamos, na maior parte dos casos, tendo doentes relativamente pouco graves.

Como diretor do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar do Porto, hoje sabe-se que os pedidos de ajuda, por exemplo, à Liga Portuguesa contra o Câncer, cresceram 30% devido à pandemia. Queria que me explicassem em que medida é que esta área tão sensível da medicina está a ser afetada neste momento.

Pois, eu por acaso estive a ver os números dos doentes. Eu trato, sobretudo, de câncer de pulmão nos últimos anos, nos últimos 20 anos, praticamente. E eu estava convencido que o número de doentes teria diminuído em 2020, comparativamente com 2019. E estive a levantar todos os doentes que nós vimos em 2018, 2019 e 2020 na área do câncer de pulmão, especificamente E curiosamente, o número de doentes que nós vimos em 2020 foi em tudo sobreponível ao que nós vimos em 2019. O que até faz algum sentido, porque o cancro não espera e o cancro, entre aspas, não mente. E portanto, acaba sempre por dar sintomas. Se tiver um cancro do pulmão, ele em janeiro, vai dar sintomas em fevereiro, em março ou abril, mas vai dar sintomas. E portanto, o número de doentes que veio, que nós registamos no nosso serviço, é em todo sobreponível de 2020 para 2019, quando comparativamente com 2019. O que se passa é que vêm em estádios mais avançados. Os doentes vêm com graus de desenvolvimento da doença muito maiores e vêm em pior estado geral. E portanto, tivemos uma taxa de mortalidade muito maior ou relativamente maior quando comparativamente com os doentes de 2019.

Mas chegam ao hospital tardiamente por medo ou porque não há capacidade para os atender antecipadamente?

Vêm por dois motivos também. Um deles, porque tem muita dificuldade em aceder aos cuidados de saúde primários e, portanto, tem muita dificuldade em explicar aos médicos de medicina geral familiar e depois pedir exames, o raio-X, o TAC, e depois por medo. No caso do cancro de pulmão, por exemplo, os doentes entram-nos de duas formas. Uma delas vinda do seu médico de família, quando os sintomas são ligeiros a moderados e que agravam gradualmente, portanto, dá tempo ao doente ir ao médico de família, fazer exames, depois o médico de família enviar para o hospital, ou então quando tem sintomas que se desenvolveram muito rapidamente, o doente vem à urgência do hospital e a urgência reencaminha para a consulta. Neste momento, como eles têm muita dificuldade de ir ao seu médico de família, acabam por aguardar, demoram mais tempo a vir ao médico e vêm normalmente à urgência e a urgência reencaminha para nós e portanto vêm em estádios mais avançados. Mas isso a nível do cancro de pulmão. No caso de cancro da mama, por exemplo, os rastreios estiveram parados cerca de seis meses durante o ano 2020. Mas isso não quer dizer que os cancros parem. As mulheres, em vez de serem apanhadas mais precocemente, vão ser apanhadas mais tardiamente, mas o número de casos vai ser o mesmo ou mais ou menos o mesmo que era em 2019. Só que vão chegar é mais avançados.

A taxa de mortalidade, no caso do cancro de pulmão, qual é a percentagem? Subiu em que percentagem?

Eu não lhe vou dizer ainda os números porque isso vai ser publicado num artigo científico. Estamos a preparar isso.

Mas é um número significativo?

É um número relativamente significativo. Mais, nós contabilizamos também os doentes que entraram e a quem nós nem sequer fizemos tratamento nenhum, porque temos isso contabilizado em 2018, 2019 e vamos contabilizar também 2020. E portanto, esse número também é grande. Quer dizer, aqueles doentes que já chegaram tão tarde que nem sequer tivemos oportunidade de fazer algum tipo de tratamento.

E há pessoas que estão a fazer tratamento em casa, no domicílio, porque não o podem fazer no hospital. Isso acontece?

Os tratamentos, hoje em dia, os tratamentos oncológicos, na maior parte dos casos, fazem-se em regime de ambulatório, não precisam ficar internados. E portanto, os doentes vêm ao hospital o dia, fazer tratamentos nas veias, fazer tratamentos endovenosos, ou então em comprimidos e fazem em casa. E portanto, de uma forma ou de outra, na maior parte dos casos, são em regime ambulatório.

E esse medo de ir ao hospital a tempo e horas, como é que pode ser combatido, doutor?

E repare, reflete-se mesmo nos doentes oncológicos, que têm doença. Nós temos muitos doentes em seguimento, não tanto em tratamento, porque em tratamento os doentes é evidente que vêm na mesmo hospital, porque sabem que a vida deles está em jogo. Mas quando estão em fase de seguimento, por exemplo, os doentes manifestam muitas vezes, e temos uma taxa grande de consultas por telefone, entre aspas, porque eu não acredito que haja consultas por telefone. O que existe são contactos por telefone, mas os doentes têm muito medo de vir à consulta. E portanto, muitas vezes vêm, por acordo com o médico, fazer o exame de seguimento, mas não vêm à consulta e depois o médico vê o exame de seguimento e fala por telefone com eles. E portanto, há um número muito grande de pessoas que têm muito medo de vir ao hospital. Mas deixe-me também aproveitar para lhe garantir isto: não é no hospital que se vão infectar, na maior parte dos casos, e numa grande maioria dos casos. As pessoas têm que ter noção que quando vêm às consultas, ao seu médico, no hospital, que estão tomadas todas as medidas para proteger os utentes ou os doentes que vêm ao hospital. E se reparar, os números falam, as pessoas infectam-se muito era ou nas escolas, com os filhos que chegavam a casa infectavam os pais, os pais e eventualmente os avós, ou nos locais de trabalho, nas empresas, nos escritórios, muito mais aí do que propriamente na vinda ao hospital. E portanto, há que alertar aqui, chamar a atenção da população, que se tiver que vir a consultas ao hospital, se essas consultas estiverem marcadas presencialmente, que devem vir, que não devem ter medo, que devem tomar as medidas, como é evidente, usar máscara, manter o distanciamento nas salas de espera, mas que devem vir às consultas.

Muito bem. Obrigada, doutor António Arador.