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A Argentina é campeã do mundo de futebol. Um jogo intenso do início ao fim. A França demorou a acordar, mas acordou. O jogo foi para prolongamento, foi para pênaltis e, portanto, um jogo muito rico para quem gosta de futebol. Foi uma prenda de Natal antecipada, mas sendo um jogo muito longo e muito intenso, sendo uma final, temos também aqui alguns lances para analisar, como sempre, com o nosso alto árbitro Pedro Henriques, ex-árbitro internacional. Pedro, muito boa noite, bem-vindo.
Boa noite.
Que final esta, não é? Que final. Vamos começar, até porque tivemos muitos pênaltis durante a final, e não estou a falar do desempate por pênaltis, estou mesmo a falar dos 120 minutos. Começamos com o primeiro pênalti. Minuto 21, pênalti para a Argentina, Leo Messi marcou. Começou bem este jogo em termos de arbitragem ou houve aqui algum erro?
Não, para mim começou bem e acabou bem. Portanto, este é um lance, para mim, para pontapé de pênalti. Não é dos mais claros e evidentes, porque há dois contactos do Dembélé em relação ao Di María. Em primeiro lugar, o Di María vai na frente e isto é logo uma vantagem. O Dembélé é que vai atrás e ao ires atrás, ao tentares interceptar uma jogada, uma bola, não sequer estás a assistir bola ao lado, todas essas tentativas, se não forem bem-sucedidas, corres o risco de cometeres falta. O que é que o Dembélé fez? Duas coisas. Com o braço direito, empurrou claramente o Di María, ajudando a desequilibrar. Vamos aqui discutir sempre a questão da intensidade, mas, e esta é que é a problemática, é que o Dembélé ao aproximar-se, porque vem por trás, e o Di María está a correr, quando nós corremos, levantamos sempre um dos pés, um está no chão e o outro a levantar, quando levanta o seu pé esquerdo, acaba por tropeçar no pé/perna direita do Dembélé. Portanto, tu ao ires a correr e ao tropeçares porque alguém se aproxima por trás e coloca-te a perna muito próxima e ao mesmo tempo empurra-te, toca-te atrás no pé e empurra-te para frente, o desequilíbrio é maior. E daí nós podemos dizer: "Não, aquele empurrão não foi suficiente". Acaba por ser suficiente, porque empurra e ao mesmo tempo toca-te no pé que te ajuda a desequilibrar. E portanto, para mim, não sendo o mais claro e evidente, é pontapé de pênalti bem assinalado. Por não ser uma coisa clara e óbvia, dificilmente o VAR iria intervir no sentido de contrariar esta decisão, porque para o fazer tinha que ter a certeza que não era pênalti. E portanto, para mim, boa decisão técnica no sentido de ser pontapé de pênalti.
Muito bem, vamos avançar então para mais um pênalti. Aqui andamos bastante no jogo, mas é o próximo momento decisivo. Vamos até ao minuto 79, em que há o pênalti que acaba por mudar o jogo. Pênalti para a França, Kylian Mbappé marcou. É o pênalti que dá origem depois ao 2 x 1. Bem assinalado, na tua opinião, este pontapé de pênalti?
Bem assinalado e com características idênticas à outra. Otamendi agora mais próximo e mais lateral em relação ao Muani, mas com dois momentos de contacto. O primeiro, aquele que aparentemente é o que parece mais visível, é o seu braço, mão, mais concretamente, e com o braço esquerdo no ombro direito do Muani. Mas depois, com o joelho por trás também, e aqui mais próximos na corrida, dá com o joelho esquerdo na coxa direita por trás. Há uma imagem que depois aparece mais à frente e quando a gente fotografa o momento, percebe claramente que há esse duplo contacto. E portanto, se por um lado estás a impedir a entrada de um jogador na área, porque não consegues, e ao mesmo tempo estás a lhe retardar o movimento, porque vais colocando a mão, embora não puxe a camisola, se sucessivamente no ombro para retardar esse movimento, ao mesmo tempo, dás uma joelhada na coxa por trás e isso ajuda também a desequilibrar e a cair. E por isso pontapé de pênalti bem assinalado. Esse, para mim, mais evidente do que o primeiro.
Ora o minuto 87, Pedro, e aqui estamos a falar mesmo no final do jogo. Marcus Thuram cai na área, há ali um grande momento em que muita gente pede pênalti. O árbitro, perentoriamente, Simon Marciniak leva o cartão amarelo na mão, dá o cartão amarelo por simulação a Thuram. Parece-te bem ajuizado pelo árbitro ou havia aqui pênalti?
Sim. Muito bem ajuizado. Eu acho que este lance até é com o Enzo Fernández, acho que é o 24 da seleção argentina, mas de qualquer maneira, o que é que acontece? O Enzo Fernández estica a sua perna direita, ou o seu pé direito, mas para o movimento e o pé está sempre no chão. E vê-se depois em câmera lenta, a última repetição é perfeita, muito slow motion, o Thuram, que ia passar com o seu pé ao lado, faz aquele jeitinho que é abrir o pé direito para fora e ele próprio vai ponteapear ou vai ao encontro da perna e do pé do seu adversário. Portanto, não é pênalti. E mais do que não ser pênalti, é mesmo simulação, porque é ele que tenta claramente cavar o pênalti, é ele que faz esse movimento para dentro e é ele que vai ao encontro do pé do adversário. E por isso, tenta cavar claramente o pontapé de pênalti e por isso bem o árbitro, e o VAR acaba sempre nestes lances por confirmar, por isso simulação e não pontapé de pênalti.
Muito bem, portanto, até agora tudo limpinho. Vamos ao último lance, Pedro. Vamos saber se o árbitro consegue manter aqui a ficha limpa, entre aspas. Minuto 116, pênalti também decisivo, dá o empate, o 3 x 3 à seleção francesa. Lance em que Gonzalo Montiel entra pouquíssimo tempo antes, estica o braço, comete pênalti. Bem ajuizado, na tua opinião?
Sim, é aquela situação clara de um remate. É muito escusado este pênalti, mas existe. Ele faz a rotação. Repara, estás de frente para a bola, rodas o tronco quase 180º e vais com o braço que está mais fora, que é o braço direito, fazer exatamente o quê? Pô-lo do teu lado esquerdo do corpo, por assim dizer. Ao fazeres essa rotação com o braço aberto, a ganhar volumetria e a interceptar ali com a zona do cotovelo, porque o braço está aberto até o cotovelo, depois está dobrado, mas de qualquer maneira, vais fazer o quê? Fazer uma extensão do teu corpo, vais ganhar uma volumetria fora do plano do corpo, a uma altura do corpo que nem é normal, natural, porque levantaste o braço, cotovelo, e rodas ali ao nível do ombro e interceptas a bola e, portanto, pontapé de pênalti, que não deixa de ser curioso, e talvez toda aquela emoção do Montiel, que é ele depois que bate o pontapé decisivo, certo?
Sim, exatamente.
Para a vitória. Portanto, tem muito a ver exatamente com o fato dele ter entrado, ter cometido um pênalti a quatro minutos do fim, que permitiu este empate de novo, e até eventualmente uma perda do Campeonato do Mundo, que iria ficar registrado e marcado na cabeça dele. E depois é ele que ao pênalti quatro, para achar o vencedor, acaba por dar o tal gol que se torna decisivo na perspectiva da vitória da Argentina. De qualquer maneira, focando na arbitragem, pontapé de pênalti também assinalado.
Portanto, Pedro, analisamos aqui quatro lances, quatro lances corretos e lances difíceis de análise, tendo em conta que são pênaltis numa final de um Campeonato do Mundo. Tendo em conta isto, é uma boa nota para Simon Marciniak?
Não, eu vou fazer uma coisa diferente, porque repara uma coisa: isto é uma final do Campeonato do Mundo. Assinalar estes quatro pênaltis aqui não tem a mesma coisa que assinalar no distrital, com todo o respeito que temos por todo o tipo de futebol, numa taça interna, o que quer que seja. Isto é um momento planetário.
Mais alto que isto não há.
Mais alto que isto não há. E o árbitro esteve muito bem, muito confiante, fez uma grande arbitragem e por isso eu vou dar nota 10.
É a primeira de sempre?
É a primeira de sempre, porque é o contexto e não vamos aqui focar se há um amarelo, se há uma simulação ou um outro pormenor fora da área, sobretudo. Repara que são lances decisivos, são lances que nós estivemos aqui a analisar do penalty que não assinala, de três que assinalou. O VAR só se limitou a confirmar. Não foi o VAR que deu o penalty que foi corrigir, foi ele. Portanto, ele se não tivesse o VAR, teria tido estas decisões e teria acertado. E estamos numa final do Campeonato do Mundo e, portanto, há que valorizar a arbitragem. Este jogo vai ficar marcado na história para todas as pessoas. Claro que para os franceses ficará pelos motivos menos bons, mas para quem gosta de futebol, fica por todos os outros motivos, pelos 120 minutos, pelos penaltis, pelas emoções que foram vividas e até pelo jogo que foi jogado. E para a arbitragem, este árbitro tem 41 anos, ainda tem mais quatro anos para fazer, ainda vai fazer mais um mundial, mas se ele acabasse aqui a carreira, acabaria feliz, porque atingiu o topo máximo daquilo que um árbitro pode querer almejar quando pensa em ser árbitro. Por isso, parabéns à equipa liderada por este polaco, parabéns ao árbitro e, portanto, nota 10.
Nota 10. Parabéns também para ti, Pedro Henriques, que estiveste conosco durante todo o Mundial, a analisar todos os dias aquilo que aconteceu. É uma despedida, mas é uma despedida curta, acaba o Mundial, mas amanhã já temos outra vez futebol. É verdade, já voltamos ao futebol nacional, exatamente com Sporting-Braga, portanto também voltamos em força e em grande estilo com o futebol nacional. Pedro Henriques, um forte abraço. Obrigado.
Um abraço, até amanhã.
E o Mundial fica por aqui, mas voltaremos para mais jogos. Um abraço.
Obrigado.