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"Semáforo Político" na Rádio Observador, é a última edição desta semana. Vamos sinalizar a atualidade, e que atualidade! Temos protesto de agricultores, temos uma nova sondagem na véspera das legislativas, ou quase em véspera de legislativas, falta um mês e uma semana. Vamos começar com este protesto de agricultores e com a resposta da ministra Maria do Céu Antunes a estas manifestações. E para já, Pedro Rainho, editor adjunto de sociedade do Observador, ele que se junta aqui hoje à Judite França e ao Bruno Vieira Amaral. Para já, esta resposta do governo merece um sinal vermelho pra ti.

Sabe a pouco, não é? Nós temos ouvido nos últimos dois dias, ontem e hoje, os agricultores que saíram em peso, pode dizer-se assim, à rua falar numa gota d'água. E a gota d'água, só pra darmos aqui um contexto sobre do que é que se está a falar, a gota dágua é o momento em que os agricultores, na semana passada, se apercebem de que a distribuição de apoios com que estavam a contar ou de que estavam à espera desde outubro, deveria chegar em outubro, foram esperando. Passados três meses, essa distribuição de apoios começa a chegar, ou pelo menos a informação de que eles iam ser distribuídos, e passado estes três meses, os agricultores são confrontados com a informação de que esses apoios iam chegar com cortes de 25% a 35%. E pensemos no trabalho que tinha sido feito até aí, com encomendas feitas, com créditos pra serem pagos junto das instituições bancárias, enfim, de repente percebem que vão ter que responder essas obrigações que tinham com um financiamento em um terço inferior àquilo com que estavam a contar. E depois, e era aí o ponto a que eu queria chegar, vemos a reação do Ministério da Agricultura, pela voz da própria ministra da Agricultura, que até assume que houve uma comunicação menos feliz, uma comunicação antes do tempo por parte do Instituto de Financiamento de Agricultura e Pescas, o IFAP. E a minha pergunta é: a ministra não sabia que essa comunicação ia ser feita aos agricultores? Só pra esclarecer, este instituto, este IFAP, é tutelado pela ministra da Agricultura. Aparentemente, até toma decisões importantes, porque se não fosse assim, a reação dos agricultores quando souberam da distribuição dos fundos não seria "vamos sair à rua e em peso". Ora, aquilo que a ministra nos está a dizer é que não sabia que esta notícia estava a caminho. Se sabia e ela foi dada antes do tempo, a ministra não teve nenhuma intervenção neste processo. De uma forma ou de outra, se sabia e deixou que a comunicação fosse feita sem o processo estar concluído, a coisa não correu bem. Se não sabia, alguma coisa se passa no Ministério da Agricultura, porque a ministra, que tutela este instituto, parece também ter sido apanhada de surpresa com a comunicação aos agricultores. E depois há o resto da reação do ministério, do governo, mas do ministério em concreto, aos protestos dos agricultores. Há uma reunião hoje por videoconferência entre a ministra e alguns destes agricultores que estavam, pelo que eu percebi, em Alcochete, uma coisa assim muito em cima da hora. Já a conferência de imprensa de ontem da ministra é marcada no próprio dia, quando se sabe ou quando se percebe que de fato os agricultores estão mesmo a sair à rua e em peso e a provocar alguns constrangimentos numa série de pontos do país. E, portanto, há uma reação atabalhoada, há uma reação, parece-me que a tentar compensar erros. E depois há aqui um ponto que é: ontem podia pensar-se que pelas reações que houve, por um lado, dos agricultores que saíram à rua com os tratores e, em contraponto, a posição que foi assumida pelas confederações que representam estes profissionais, parecia haver ali uma dicotomia, não é? Não estavam todos do mesmo lado. Mas aquilo que percebemos é que passadas 24 horas do início deste processo, temos uma das confederações, pelo menos, a CNA, a Confederação Nacional de Agricultura, a dizer: aquilo que o governo apresentou, a expressão é um caderno de encargos para quem vier a seguir. No fundo, aquilo que o governo fez foi: nós temos aqui umas soluções, a reação é as soluções não chegam, e ainda por cima as soluções que o governo apresenta estão dependentes em parte de decisões de Bruxelas. E, portanto, não é a forma mais organizada de responder a este protesto e claramente o governo está aqui a tentar compensar algo que falhou neste processo todo.

De qualquer modo, esta reação da CNA, esse comunicado que foi emitido esta tarde, nós escutamos aqui um membro da direção no jornal há bocado, e ele estava a dizer que o comunicado é sobre essas propostas que vieram a público nestes últimos dias, mas hoje, em teoria, pelo menos, a ministra reuniu-se com esses agricultores e haverá medidas em cima da mesa e os agricultores do movimento civil disseram que o encontro foi positivo. Também se nota aqui talvez algum desalinhamento entre o movimento civil, pelo menos, e as confederações que, em teoria, representam estes trabalhadores.

Aquilo que me parece é que estão todos a tentar agarrar-se a um fogacho de esperança, porque há sim esse sinal de que os agricultores que estão na rua dizem que o sinal é positivo, que as notícias até são positivas, mas também dizem outra coisa: vamos esperar pela próxima semana pra perceber se efetivamente aquilo que está em cima da mesa se concretiza. Não me parece que estejam tão convictos de que as notícias sejam tão positivas assim. Talvez seja aqui a esperança a falar mais alto.

Entretanto, já não valerá de muito, tendo em conta que o governo está em gestão, mas Maria do Céu Antunes foi criticada até, Judite França, por Eurico Brilhante Dias, o líder parlamentar do PS, esta tarde, que criticou esse erro, esse problema de comunicação que houve.

É certo que Maria do Céu Antunes também não está nas listas e, portanto, é mais fácil criticá-la, porque com o governo em gestão e já não fazendo parte das listas que vão a eleições no dia 10 de março, é mais fácil criticar.

Mas poderia sempre vir a ser convidada para ministra da Agricultura por um governo do PS.

Pois não, isso de fato não parece. E Eurico Brilhante Dias diz que a imagem pública não é boa e que o erro foi corrigido por pressão da rua e essa é uma imagem que já não se consegue ultrapassar. Portanto, são críticas bastante contundentes A Maria de São Antunes. E isto parece-me que acaba por ser muito honesto de parte de Eurico Brilhante Dias.

Entretanto, passamos para a sondagem que saiu hoje, SIC Express, uma sondagem que dá 29% ao PS, 27 ao PSD e 21% ao Chega. Bruno Vieira Amaral, trazes aqui um verde.

Um verde. Se uma sondagem é, como se diz, uma fotografia do momento, esta é uma fotografia muito nítida deste momento, e o verde é para essa nitidez da fotografia. Durante muito tempo nós ouvimos falar de uma espécie de imunidade do país ao populismo. E quando se diz populismo, estava a referir-se ao populismo da direita, não ao populismo de esquerda. Mas durante esse tempo também ouvimos críticas, sobretudo por parte dos partidos mais à esquerda, ao centro político, ao grande centrão, e no fundo, com aquele discurso populista, fazer equivaler PS e PSD, são todos iguais. Ouvimos esse discurso ao longo de muitos anos. Um discurso que é, verdade, populista, mas era populismo de esquerda. Não o ouvíamos à direita porque não havia outros partidos à direita. O partido mais à direita era o CDS e era um partido do chamado arco da governação. Portanto, não alinhava nesse discurso, mas esse discurso já existia. A novidade agora é que temos alguém, temos um partido a capitalizar, de acordo com as sondagens, esse discurso, a capitalizar bastante, porque nunca na história da nossa democracia, um terceiro partido, o terceiro partido mais votado, chegou aos 20%, como indica esta sondagem.

O PRD foi.

Aproximou-se e depois também sabemos o que lhe aconteceu.

Também desapareceu. Mas a questão é que agora é fácil perceber, olhando para trás, que o PRD era um projeto transitório. Na altura, as pessoas não tiveram essa noção.

Na altura não havia e para já vamos ver que resultado é que o Chega alcança.

Verdadeiramente.

Verdadeiramente, para além das sondagens. Mas o facto de haver uma sondagem que dá 21% é relevante, tem uma leitura política importante. Não é um terramoto, mesmo a acontecer, não é um terramoto completo, por quê? Porque mesmo assim o centro aguenta-se. Estamos a falar de mais de 50% dos eleitores a votarem nos dois grandes partidos de referência do centro, centro-esquerda e centro-direita. Também quer dizer que o Chega está a conseguir ir buscar muita gente à abstenção. E esse é também outro dos dados relevantes. E há também aqui a ideia que há uns tempos parecia ridícula, quando André Ventura falava disso, que é a ameaça de o Chega poder aproximar-se e eventualmente ultrapassar, não é isso que indica esta sondagem. Mas já não parece uma ideia tão descabida de o Chega ultrapassar, sobrepor-se ao PSD. Porque outra leitura que podemos fazer desta sondagem é que o efeito AD não existiu.

Nada. O PSD não ganhou nada com o AD.

Nada. O CDS também tinha tido 1%.

Exatamente.

Mas acho que agora, até em relação às últimas sondagens, até perde 1%. Bem, não ganhou nada, a verdade é que não houve um efeito AD, mesmo com aquele encontro, não sei se chamou convenção, no Estoril. Em termos da perceção do eleitorado, aquilo não beneficiou em nada.

E esta sondagem também ainda não inclui nem a campanha nos Açores, nem o caso da Madeira.

Nem o caso da Madeira. E há outra coisa, é que as próprias sondagens.

Deixa-me trazer isto, não inclui para o PSD nem para o Chega.

Nem para o Chega, exatamente. E há outra questão que é: as sondagens não só são uma fotografia do momento, mas também contribuem para a dinâmica do eleitorado. É como aqueles filmes de viagens no tempo, em que se faz alguma coisa, mexe-se no passado e depois aquilo tem consequências. Uma sondagem também pode ter consequências, e uma sondagem com estes resultados também pode ter essas consequências.

Que consequências?

Por exemplo, levar o voto útil ainda mais para o PS, mais à esquerda, ainda que neste momento já se possa dizer que o facto de o PS estar à frente e de não ter sofrido muito com todos os problemas que teve e com o final do governo, também podemos dizer que já sente esse efeito do voto útil, porque neste momento, esse é outro dos elementos, outro dos dados a extrair desta sondagem muito importantes, é que a esquerda, à esquerda do PS, está completamente anémica. E isto é um facto relevante. Se há uma reconfiguração da direita, e já assistimos a essa reconfiguração nas eleições anteriores e agora pode ainda ser levada mais longe, à esquerda, o que temos é uma anemia completa de PCP e de Bloco de Esquerda, e ainda assim o PS a aproveitar alguma coisa, ou pelo menos a não ser prejudicado, porque não há crescimento dos partidos à sua esquerda.

Pelo contrário.

E talvez seja esse o efeito desta sondagem, é o PS cada vez a insistir mais que de facto não há uma alternativa que À esquerda que não passe por uma maioria do PS ou por uma vitória muito clara do PS. E isso também deve preocupar os partidos à esquerda que neste momento estão numa encruzilhada, estão constantemente a falar da ameaça da extrema-direita a entrar na governação, mas para os eleitores a alternativa não passa pelos partidos à esquerda, PCP e Bloco, passa pelo PS.

E há um dado muito interessante nesta sondagem, que é: 54% dos simpatizantes do PSD não querem um acordo com o Chega. Até preferem um acordo com o PS, em termos de resultados.

Mas os do Chega estão dispostos a não fazer um acordo com o PSD, ou não ir para o governo com o PSD e deixar o PSD governar. Também é outro dado.

É outro dado curioso. E eu acho que quando olhamos para o Chega e para o crescimento do partido de André Ventura, isto não se justifica apenas com os votos de protesto, isso é impossível. Não é possível, não é só xenofobia.

Até porque esses votos de protesto, ou esse voto de protesto supostamente bloquearia o Chega num resultado máximo incrível de 10%, 12%. Estamos a falar do dobro, portanto, já vai muito para além daquilo que seria o nicho do voto de protesto.

Eu não acredito que o resto sejam eleitores xenófobos ou fascistas. Não temos tantos eleitores em Portugal com esse tipo de tendência. Portanto, veem, de facto, o partido como uma forma de quebrar essa alternância PSD/PS.

Não traz lastro, é um partido sem lastro.

Era aquilo que tu dizias, se são o mesmo, PS e PSD são o mesmo, e depois temos um outro pormenor que entronca aqui, que é o facto de Luís Montenegro não conseguir descolar, não consegue, não há hipótese.

Esta sondagem sai a dois dias das eleições nos Açores e Luís Montenegro vai lá estar. É um erro ir aos Açores?

A última vez que foi à Madeira correu-lhe muito mal. Estava à espera de uma maioria absoluta.

E agora temos votos que José Manuel Bolieira abre a porta a entendimentos com o Chega.

Sair banhado em maioria absoluta, e eu lembro-me que ele saiu banhado foi em suor. Estava a suar em bica naquela noite eleitoral.

Tem que levar um lencinho desta vez.

Se é uma boa estratégia, depende do resultado. Se no domingo o resultado for bom para o PSD, vai tentar ensaboar-se nesse resultado. Se for mau para o PSD, que apanhe o próximo avião para Lisboa rapidamente.

Toma mais um banho de suor.

Até porque José Manuel Bolieiro não está a ser muito simpático para Luís Montenegro, para dizer o mínimo.

E Luís Montenegro corre o risco de na noite eleitoral dos Açores, ter o líder do PSD Açores a dar pelo menos algum sinal de que até há espaço, a ser mais taxativo, mais aberto, mais claro, e dizer que há espaço, de facto, para algum tipo de acordo com o Chega.

É o pior cenário para estar nos Açores.

Luís Montenegro aparecer na fotografia ao lado de uma declaração destas, é complicado.

O líder do PSD diz que vai dar o corpo às balas, faz parte de arriscar.

Talvez seja melhor usar um colete anti bala.

Esta é a bala que está sempre a tentar escapar, é a bala do Chega. Está sempre a tentar convencer as pessoas que vai fazer um acordo com o Chega.

Mas o não é não. Também não se tem traduzido em nenhuma vantagem, pelo menos a acreditar nas sondagens. Ou seja, o discurso claro de Montenegro a dizer que não há qualquer tipo de acordo com o Chega, o que deveria levar uma parte do eleitorado da direita a dizer: "Então, bem, se é assim, voto útil no PSD." Isso não tem tido efeito nenhum. Portanto, não se pode acusar Montenegro de não ter sido claro. Tem sido claro. Agora, essa clareza não lhe tem trazido nenhuma vantagem.

Mas agora voltar atrás é que seria perder. Não se pode perder a face dessa forma.

Não é isso.

Portanto, vai ter que dizer no domingo, caso se comece a desenhar esse cenário, vai ter que falar na autonomia regional muitas vezes para convencer as pessoas.

É aquela história. Aquilo que acontece nos Açores, fica nos Açores.

Exatamente.

Não contamina, não passa para este lado.

Entretanto, tivemos também notícia esta tarde de que o Tribunal Administrativo confirma a decisão da Câmara de Lisboa de proibir a manifestação de extrema-direita que está prevista para amanhã na zona do Martim Moniz, na capital. Mas, ao que parece, o protesto pode mesmo acontecer, Pedro Rainho.

Trocando a expressão habitual, não passa nada, passará tudo. Porque, de facto, é uma notícia com poucos minutos, é uma validação daquilo que já tinha sido a posição da Câmara de Lisboa ao acatar o parecer da PSP que suscitava questões de segurança e de disrupção da ordem pública se esta manifestação fosse para a frente. Temos aqui um ponto, na verdade, do ponto de vista dos promotores desta manifestação, pouco interessava qual viesse a ser a posição do tribunal, o que também diz muito do respeito pelos princípios legais e constitucionais de quem está a promover esta manifestação. Mas de facto, se me é permitido dar um segundo semáforo, queria dar um verde ao Tribunal Administrativo. Eu não tenho de cor o nome do juiz que toma esta decisão, mas de facto tem aqui uma posição de coragem ao validar a posição da Câmara de Lisboa, ao não acatar o pedido de intimação dos promotores da manifestação. Esperemos que não seja um triste espetáculo, mas dar aqui um verde, porque é uma decisão de coragem, de respeito pelos preceitos legais e, sobretudo, uma mensagem para quem se predispõe abertamente a dizer que quer manifestar-se contra um determinado grupo de pessoas só porque elas estão cá e não nasceram cá. Estas pessoas não fizeram mais nada, e eu não estou a dizer que seria legítimo promover uma manifestação nesses termos, mas o que os promotores deste Desta manifestação dizem que querem ir para a rua para manifestar contra um grupo de cidadãos estrangeiros que estão em Portugal. Quando um tribunal diz que isto não pode ser, acho que é de se destacar.

De resto, estivemos em reportagem no Martim Moniz e há comerciantes que ainda antes desta decisão já estavam a ponderar fechar portas com receio.

Porque há aqui um historial, não é a primeira vez. Nós sabemos quem são os promotores desta manifestação, ia chamar-lhe espetáculo outra vez, não sei por quê. Sabemos quem são os promotores, sabemos qual é o historial e, neste caso, pode dizer-se qual é o cadastro que estas pessoas têm no momento em que chegariam ao Martim Moniz. Também já demos a notícia de que ainda antes do tribunal tomar a decisão, eles anunciaram que não iam para o Martim Moniz, muito bem, vamos para o Largo de Camões.

Que é 1,5 km, não é?

É 1,5 km e que tem aqui um peso histórico. Lembremo-nos da história do assassinato de Alcindo Ribeiro.

Monteiro.

Monteiro, perdão. O significado histórico tem que dizer: "Proíbem-nos ou não nos autorizam esta manifestação, então vamos aqui para o outro lado que até conhecemos bem". Um sinal muito verde para o tribunal.

Vamos, de resto, na edição das 18h, contar com um advogado para explicar o que pode acontecer a estes manifestantes se de facto forem para a rua, como prometem fazer, apesar desta decisão do tribunal administrativo validar a decisão da Câmara de Lisboa. Está proibida esta manifestação de extrema-direita na capital, está marcada para amanhã, para sábado. Parece que vai mesmo acontecer e pode haver aqui consequências legais. O Semáforo Político hoje percorreu aqui, penso eu, quase todas as cores. Vamos voltar na próxima segunda-feira, num novo horário, estejam atentos. Vem aí uma nova tarde política aqui na Rádio Observador, a partir das 17h, já de segunda-feira.