O mundo mudou — e a cooperação internacional tem de mudar com ele.  Crises climáticas, económicas, alimentares e geopolíticas sobrepõem-se,  enquanto a transição digital e a inteligência artificial redesenham economias,  sociedades e relações de poder. As desigualdades persistem, agravadas pelo  peso da dívida, pela redução da ajuda pública ao desenvolvimento e por uma  recuperação pós-pandemia profundamente desigual. Perante esta realidade,  cooperar não pode significar apenas gerir a escassez ou repetir fórmulas do  passado: tem de ser uma escolha política para construir respostas com os  países, e não apenas para os países.

É esta a visão de Portugal: uma cooperação assente no multilateralismo, na  solidariedade e na responsabilidade partilhada. A relação tradicional entre  doador e beneficiário já não descreve o mundo atual. Muitos países do Sul  Plural são hoje polos de inovação, conhecimento e políticas públicas com  valor muito para além das suas fronteiras.

A cooperação Sul-Sul parte exatamente desse reconhecimento: países com  desafios e experiências comparáveis partilham soluções testadas em áreas  cruciais como a saúde, a educação, a agricultura sustentável, a ação climática  ou a transformação digital. A cooperação triangular acrescenta a este  binómio um terceiro parceiro — um Estado, uma organização internacional,  a academia, a sociedade civil ou o setor privado — capaz de mobilizar  recursos, competências e redes de financiamento.

Não se trata de substituir a cooperação Norte-Sul, mas de a tornar mais  horizontal, inclusiva e eficaz. O valor político desta abordagem reside em  reunir atores diversos em torno de objetivos negociados de igual para igual.

É um modelo exigente, porque permite o diálogo contínuo e a partilha de  poder, mas é também o mais duradouro, por gerar confiança, apropriação  local e compromisso de longo prazo.

É este debate que Lisboa acolhe nos dias 26 e 27 de outubro de 2026, na 10.ª  Reunião Internacional sobre Cooperação Triangular, coorganizada por  Portugal e pela OCDE. O lema — «Moldar a próxima década da cooperação  triangular: da evidência ao impacto» — traduz a urgência do momento. Mais  do que um fórum técnico, este encontro pretende transformar experiências  dispersas em políticas públicas estruturadas, financiamento sustentável e  soluções com escala.

A agenda é clara e orientada para a ação:

• Métricas e resultados: passar da intenção à avaliação rigorosa de  impacto;

• Resiliência e reconstrução: intervir com eficácia em contextos de  fragilidade e pós-conflito;

• Ação local: envolver ativamente cidades, municípios e comunidades;

• Inclusão digital: promover a soberania de dados e evitar novas  dependências tecnológicas;

• Ação coletiva: desenhar novas formas de cooperação num cenário  internacional fragmentado.

Portugal chega a este fórum com provas dadas e instrumentos consolidados.  A Estratégia da Cooperação Portuguesa 2030 assume a cooperação triangular

como uma prioridade clara, aprofundando o trabalho conjunto com os nossos  países parceiros, as Nações Unidas, a OCDE, a Secretaria-Geral Ibero Americana (SEGIB) e diversos atores da sociedade civil. Ao reunir em  Lisboa governos, bancos de desenvolvimento, universidades e fundações, o  nosso país afirma-se como uma ponte natural entre regiões e diferentes  tradições de cooperação.

Projetos emblemáticos no terreno demonstram a eficácia deste modelo.  Desenvolvido por Moçambique, Brasil e Portugal, o Tricafé é um caso  paradigmático. Na região da Gorongosa, a produção de café ajuda a restaurar  a biodiversidade, gera rendimento e reforça a segurança alimentar.  Especialistas brasileiros partilham conhecimento técnico; agricultores  moçambicanos adaptam práticas agroflorestais ao seu território; e Portugal,  através do Camões, I.P. e do Instituto Superior de Agronomia, apoia o  financiamento, a formação e o acesso aos mercados. Mais de mil famílias já  beneficiam diretamente desta iniciativa.

Da mesma forma, o Fundo de Cooperação Triangular Portugal–América  Latina–África, gerido pela SEGIB e financiado pelo Camões, I.P., confere  estabilidade a projetos concebidos em conjunto. Nas Nações Unidas,  Portugal apoia também a Janela de Cooperação Triangular, que inclui um  projeto-piloto de economia azul a envolver Angola, Chile e Jamaica. O passo  seguinte consiste em ligar estas iniciativas a redes regionais e plataformas  globais, consolidando uma verdadeira arquitetura internacional de ação  coletiva.

A reunião de Lisboa terá também de enfrentar os dilemas da próxima década.  Num contexto de recursos escassos e crises prolongadas, não basta fazer  mais com menos; é preciso mobilizar melhor o conhecimento e as  capacidades existentes. Isso exige financiamento previsível, instituições  fortes, avaliação credível e o envolvimento de cidades, empresas e  organizações comunitárias desde a fase de conceção dos projetos — e não  apenas na sua execução.

Na era da inteligência artificial e da transição tecnológica, este debate ganha  uma urgência acrescida. Não basta transferir tecnologia: é essencial discutir  quem define as regras, quem gere os dados e como assegurar infraestruturas  públicas interoperáveis e inclusivas. A cooperação triangular permite aos  países passar da mera adoção à verdadeira apropriação das soluções digitais,  enquanto mobiliza recursos para proteger bens públicos globais — do clima  à saúde pública, da segurança alimentar ao conhecimento.

Num cenário global de crescente competição e retração de fundos, cooperar  é um ato de defesa do multilateralismo pela prática. É o reconhecimento que  nenhum país detém sozinho todas as respostas e que o benefício mútuo não  pode subordinar o desenvolvimento sustentável a interesses de curto prazo.

Portugal propõe uma cooperação aberta, ambiciosa e consequente. A nossa  matriz europeia, a nossa vocação universalista e a relação de profunda  proximidade com os países de língua portuguesa conferem-nos uma posição  singular para aproximar continentes, construir consensos e traduzir  solidariedade em capacidade de ação.

A próxima década da cooperação triangular não pode ser uma década de  ambição adiada. A 10.ª Reunião Internacional de Lisboa deve marcar essa  viragem decisiva: do potencial ao impacto, de projetos isolados a redes  globais, de declarações de intenção a resultados mensuráveis na vida das  pessoas. Num mundo fragmentado, Portugal escolhe unir, aproximar e  realizar. Portugal escolhe cooperar!