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Bem-vindos. Estamos na sede do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, com o presidente do IPMA, professor Miguel Miranda. Muito obrigado por receber a Rádio Observador aqui na sede do IPMA. Queria começar por lhe perguntar sobre os oceanos. Os oceanos são uma das forças fundamentais do nosso planeta. Alguns cientistas, inclusivamente, comparam os oceanos a uma espécie de ar condicionado do planeta, que garantem que as temperaturas mais frias dos polos se disseminam pelo resto do planeta. Enfim, ainda assim, parece que temos uma tendência de olhar para o mar apenas como forma de extrair recursos, seja o peixe, seja o petróleo, ou como via de transporte, ou até como lixeira, com estas notícias que vamos tendo da quantidade de microplásticos que temos no oceano. A minha questão é: por que temos tanta dificuldade em relacionar-nos com o oceano?

Porque o oceano é um ambiente hostil. O oceano é um ambiente calmo e confortável quando nós o vemos de uma praia, no verão, com a agitação marítima baixa, reduzida, e nessa altura ele é amigável, é convidativo, convida-nos ao lazer. Quando nós pensamos no oceano como uma massa de água que ocupa 70% da superfície da Terra, que é atravessado por tempestades relevantes, em que a luz penetra apenas algumas dezenas de metros, e que guarda no seu seio um conjunto de recursos e de serviços que nós temos dificuldade ainda hoje em descrever, então vemos que o que temos pela frente é uma espécie de segunda travessia do oceano. A primeira foi à superfície, ligou os continentes, a segunda será em profundidade, ou seja, levar-nos-á ao conhecimento dos processos físicos, químicos e biológicos que têm lugar na massa de água.

Pensando, por exemplo, no caso português, grande parte do território da jurisdição portuguesa é oceano. Se pensarmos que, do ponto de vista europeu, até somos um país periférico, se olharmos para os mares, estamos no topo da Europa em termos de quantidade de oceano de que dispomos. Mas parece que Portugal sabe usá-lo.

Portugal é um país periférico em todos os sentidos da palavra, o que significa que os recursos que tem disponíveis para fazer a exploração do oceano são reduzidos. Isso tem que ser compreendido, porque nós estamos a falar de uma aventura tecnológica e científica que é comparável, por exemplo, à Lua ou a Marte.

Explorar o oceano.

Exatamente. Só que nós não temos recursos para explorar nem Lua, nem Marte, e temos, da mesma forma, falta de recursos para explorar o oceano.

E que recursos são esses?

Estamos a falar de recursos logísticos, de recursos humanos e de recursos financeiros. Recursos logísticos, porque temos uma capacidade de presença no mar que é reduzida, tem que ser compreendido que mesmo com o novo navio oceanográfico que o IPMA dispõe a partir de agora e que está operacional, nós estamos a falar de recursos que são muito inferiores ao que tem uma autonomia espanhola, qualquer uma delas. Em termos de recursos humanos, nós estamos a falar também de que, apesar de todo o esforço que tem sido feito nas universidades, em que em praticamente todas elas existem hoje em dia grupos significativos de investigação oceânica, nós temos ainda uma presença no mundo que é desproporcionalmente reduzida, comparada com a área do oceano que nós somos supostos gerir e explorar.

Ainda por cima com a expansão da plataforma continental.

A plataforma, que ainda se agrava mais, mas não só por causa disso, porque nós temos Açores, temos a Madeira, são Portugal, e portanto, nós temos presença no Atlântico Nordeste muito significativa, mas até agora o oceano tem sido essencialmente a superfície sobre a qual nós transitamos para nos deslocarmos de um ponto pra outro.

E há muito mais que isso.

E há muito mais que isso. Tem sido muito perto da costa, a área onde podemos fazer pesca, alguma pesca também podemos fazer lá em profundidade, mas vamos imaginar que tudo isso é muito pouco ao pé da responsabilidade que nós temos do ponto de vista como nação essencialmente marítima.

E do ponto de vista político, parece-lhe que o mar tem a importância que devia ter na política nacional? Eu reparei, por exemplo, que o ministro do Mar é o último na lista das pastas do Governo, na lei orgânica do Governo. Não sei se isto é só simbólico.

A parte da organização do Governo, francamente, devo lhe dizer que do meu ponto de vista pessoal, não é a parte mais importante, porque os governos têm tido geometrias diferentes ao longo do tempo e apesar dessas geometrias diferentes, o esforço tem sido feito num quadro ou noutro. Claro que a existência do Ministério do Mar é em si um fenômeno significativo. Eu espero que continue, mas a verdade é que o mar é sempre descrito do ponto de vista político como um problema político, é aquilo que se designa habitualmente pelo mar como desígnio. Agora, o mar não é um desígnio, porque na vida nada é um desígnio. O mar pode ser um plano, pode ser uma estratégia, mas não um desígnio. Não há nada escrito nos astros que tenha levado os portugueses para o mar, além da coragem, que foi demonstrada até agora, e da capacidade de fazer muito com muito poucos recursos.

E do fato de estarmos na costa.

E do fato de estarmos na costa. Portanto, se me diz assim, os recursos que estão atribuídos A observação e a exploração do mar que são significativos? Não. São muito pequenos e muito reduzidos com aquilo que é minimamente necessário.

Já agora, se nos puder explicar do ponto de vista prático, o IPMA em Portugal tem essa missão de estudar, observar os oceanos. Que recursos é que temos e que recursos é que precisávamos?

Isso é muito simples de escrever. Do ponto de vista do IPMA, mais de metade do orçamento do IPMA é obtido de projetos de investigação. Mesmo em relação às missões que são obrigatórias do Estado, não existe dotação orçamental pra elas. Nós existimos porque temos uma equipe que é muito esforçada, muito competitiva e muito competente, e que tem sido capaz de recuperar e obter os fundos necessários para manter a operação no ar. Isto é desde assim há muitos anos, não é de agora. Se me perguntar que recurso é que eu tenho pra manter o navio que começa hoje a navegar, eu diria, à partida, nenhuns. O que eu tenho é a capacidade de obter, se for capaz disso, recursos de investigação que permitam manter a operação sempre no ar. Claro que isto provavelmente não é uma característica apenas desta área e deste instituto, é uma característica da capacidade orçamental do país e da necessidade que se tem demonstrado absoluta nos últimos anos, de concentrar recursos nas áreas da saúde, nas áreas da educação, muito na área da segurança social, e que leva a que as áreas que não estão nestas três estão normalmente muito longe da capacidade de execução orçamental. Eu acharei sempre extraordinário como é que o navio Mário Ruivo, que nós começamos agora a operar de uma forma regular, levantou tanta celeuma quando correspondeu a um investimento que orçou, eu diria, pouco mais que 10 milhões de euros, todo ele obtido de um financiamento do programa EEA, que é o programa dos países do Norte da Europa pra os países do Sul, com uma participação do orçamento de Estado de dotação em 15%, mas pagando o IVA, ou seja, o IVA é maior do que a participação, tem que ser compreendido isto. Como é que isto anda tanta celeuma, quando isto é, pra ter uma ideia, um quarto do que custou qualquer um dos navios espanhóis, qualquer um deles. E é, por exemplo, um sexto do que custou o navio angolano.

Por que acha que levantou tanta forma?

Porque os aspectos simbólicos do mar muitas vezes têm tirado a racionalidade à discussão. Porque casa em que não há pão, todos ralham, ninguém tem razão, porque alguns organismos ligados à defesa imaginavam que isto era uma espécie de substituição dos meios da defesa, porque alguns organismos ligados à ciência achavam que isto ia ser usado essencialmente pra atividade científica, por muitas e variadas razões, mas no essencial, porque não há compreensão racional de que os meios que nós temos, mesmo somando todos os meios em todas as instituições, sem exceção, são ainda muito pequenos pra missão obrigatória, não estou a falar da missão facultativa.

Pois. Dizia há pouco que qualquer comunidade autônoma de Espanha tem mais meios do que Portugal no seu todo.

Com certeza. Aliás, nós quando temos dificuldades, pedimos ajuda a uma das comunidades ou pedimos ajuda à Secretaria de Estado de Espanha, porque é a única forma de nós realmente sermos capazes de cumprir as nossas obrigações.

Para os nossos ouvintes perceberem um bocadinho melhor de que estamos a falar, quando fala da missão do IPMA em termos de observação e monitorização do oceano, estamos a falar essencialmente de quê?

Do ponto de vista da observação do oceano, nós trabalhamos em complementaridade com o Instituto Hidrográfico. O Instituto Hidrográfico é uma organização que está muito dedicada à componente hidrográfica, ou seja, segurança da navegação e segurança da navegação nos portos, e à componente oceanográfica, mantendo observação e boias de medição em oceano aberto. Devo dizer que esta é uma missão altamente dispendiosa e que eu imagino que o esforço que eles têm que fazer pra manter isto operacional é brutal. Nós vamos complementar esta observação. Nós fazemos a observação dos recursos vivos, aquilo que as pessoas habitualmente designam de uma forma materialista por estoques de pesca. Temos também enormes obrigações do ponto de vista ambiental, ou seja, verificamos a existência de contaminantes, verificamos as propriedades químicas do oceano, fazemos amostragens pra aquilo que se chama DEQM, que é a Diretiva Europeia da Qualidade do Ambiente Marítimo, que nos obriga regularmente a publicar relatórios sobre o estado ambiental. Aí somos o lado do mar, em que o lado da Terra é o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, o ICNF, e portanto, pra além disto, mantemos a observação no mar meteorológica, porque nós, como autoridade meteorológica, temos que manter a observação no mar, o que significa que mantemos equipamentos a bordo, neste momento, de embarcações comerciais, que têm a boa vontade de trabalhar conosco de forma gratuita, tem que se perceber isso.

Há outros países a fazê-lo?

Não, há outros países a fazê-lo. Toda esta observação oceânica é uma observação que é coordenada globalmente.

Eu pergunto se há outros países a ter de recorrer a embarcações comerciais.

Com certeza. Isso é normal. A meteorologia recorre muito a embarcações comerciais pra ter observações junto ao mar e recorre a companhias de aviação pra obter informação no âmago da atmosfera. E portanto, isso é uma situação que é estabelecida e é de proveito mútuo, uma vez que esta informação é depois reutilizada pelos próprios operadores que estão no mar pra garantir as suas condições de segurança.

Portanto, estava a falarmos da missão.

Isso é a missão do IPMA na parte do mar. E temos muita observação do lado geológico, tem que ser compreendido também, uma parte dela virada para os riscos, porque nós também somos autoridade sismológica, portanto, temos que estudar os riscos que têm a ver com os sismos e com os landslides submarinos. E mantemos a observação geológica junto à costa, porque tem a ver essencialmente com as manchas de empréstimo, com os locais em que se podem colocar inertes ou o contrário, dos locais de onde se podem extrair inertes que tenham condições de contaminação que sejam aceitáveis para utilização em meio humano.

Tudo isto com aqueles recursos muito limitados.

Com isso, com aqueles recursos muito limitados.

O IPMA já deixou coisas por fazer, por falta de recursos?

Com certeza. Por enquanto, nunca deixámos de fazer nada de essencial. Ou seja, apesar de tudo, com o esforço que tem havido do nosso lado, da nossa tutela, temos conseguido garantir todas as obrigações essenciais do IPMA, tanto no lado da atmosfera como no lado do oceano. Basta ver que, e perdoem-me a imodéstia, em todos os casos dramáticos que existiram dos fogos de 2017, nós fomos talvez a única instituição que cumpriu completamente todas as suas obrigações. E do ponto de vista dos grandes acompanhamentos, grandes tempestades do Atlântico, em particular esta última, o Lourenço ou Leslie, nós fomos capazes de manter o nosso sistema de observação sempre no ar. Agora, não lhe vou dizer que não é muitas vezes por arames, que não é muitas vezes apenas porque há pessoas que são tão dedicadas à causa, que são capazes de passar horas sem fim, fins-de-semana ocupados, noites inteiras, sabendo à partida que não vão ter nenhuma compensação por esse facto.

Falávamos há pouco desta limitação de recursos que, quer ao nível só do IPMA, quer ao nível de todo o país, acaba por nos deixar um bocadinho limitados sobre o que conseguimos fazer do ponto de vista da exploração do oceano e até da exploração sustentável. Queria depois falar desse conceito um bocadinho à frente. Mas que potencial é que Portugal está a desperdiçar desta grande massa de oceano que temos?

Vamos lá ver. Nós temos que ver as coisas em várias dimensões e em vários ambientes. Do ponto de vista do oceano próximo da costa, perdoem-me a expressão, o que nós chamamos habitualmente nearshore, portanto, próximo da costa, nós temos um dispositivo de observação, em particular de biotoxinas e de qualidade microbiológica da água, vista do ponto de vista dos bivalves, que é fundamental para o setor económico e que precisava mesmo de ser alargado, aumentado e intensificado para ser possível que os operadores económicos tivessem operações mais sustentáveis e menos arriscadas. Compreendam que, por exemplo, basta haver um pequeno deslize na medição ou no tempo da medição da contaminação por biotoxinas, para lhe dar um exemplo recente, do berbigão da região de Aveiro ou da conquilha da região de Olhão, Vila Real de Santo António, para que a exportação desses produtos seja integralmente devolvida e que os operadores económicos fiquem com a sua operação em risco. Portanto, a nossa capacidade de apoiar o setor económico é essencial. O IPMA é uma organização que, desde o princípio, desde que foi fundado, tem uma vocação de colaboração estreita com o setor económico. É por isso que nós, por exemplo, não fazemos comércio de dados, não fazemos nada que tenha a ver com isso. Todos os nossos dados são abertos e disponíveis e, pelo contrário, dedicamos o meio dos nossos esforços para apoiar as empresas portuguesas e as autoridades portuguesas no seu trabalho. Se contar agora um pouco mais longe que isto, digamos, em termos de recursos vivos, francamente, não me parece que haja nenhum futuro de aumentar os recursos vivos da pesca. Isso não corresponde à situação. Há sobrepesca ainda nalguns raros casos, mas existe ainda sobrepesca e, portanto, a ideia é mais a sustentabilidade do que outra coisa qualquer. Do ponto de vista dos recursos genéticos, que também é uma das nossas preocupações, é verdade que o número de operações que temos feito de recolha e identificação de recursos genéticos é muitíssimo reduzido. Nós agora temos meios para as fazer de uma forma razoável e qualificada de nível internacional, mas só agora que vamos começar eventualmente a fazer. Do ponto de vista de recursos geológicos, fizemos uma operação significativa na margem do Alentejo, cujos resultados ainda estão a ser analisados, e provavelmente vamos fazer uma outra operação de avaliação de recursos. Nós não temos nenhuma vocação para exploração, nós temos vocação para avaliação e depois será as autoridades governamentais ou os operadores económicos que verão o que querem ou não querem fazer com esses recursos.

Exatamente. O oceano, de acordo com os números da ONU, absorve 93% da energia adicional do calor, em excesso do aquecimento global. Ou seja, isto basicamente significa que é o oceano que nos está a salvar, nós que vivemos em terra, de efeitos muito mais dramáticos do aquecimento global.

A atmosfera tem uma pequena capacidade de absorção de calor. Tem que se perceber isso. A atmosfera é essencialmente um bom isolante. Nós quando compramos um casaco de penas, essencialmente compramos um casaco de ar, a pena está lá apenas para garantir que o ar está presente. O oceano é o contrário, o oceano é botija, tem uma grande capacidade calorífica e, portanto, perante um aumento de temperatura, tem uma grande capacidade de absorver calor. Essa absorção de calor tem o aspeto Positivo para nós, porque mitiga a taxa de aquecimento na baixa atmosfera.

Significativamente. Questiono mesmo qual seria o nosso destino se tivéssemos metade do oceano que temos no planeta.

A atmosfera, em boa parte, é oceano evaporado. Se nós não tivéssemos atmosfera, tínhamos temperaturas abaixo de zero. Tendo atmosfera e não tendo oceano, teríamos temperaturas acima de zero. Mas o problema não se põe, porque a Terra é um sistema único. A água que está no oceano circula, evapora, condensa, escorre pelos territórios e é neste ambiente, que é tão extraordinário e que provavelmente a probabilidade de encontrarmos outro segmento vai ser muito baixa, que a vida se criou. O que se passa é que o oceano, ao absorver esta quantidade de calor, sofre transformações, e transformações importantes.

Era isso, ou seja, permite-nos mitigar os efeitos do aquecimento global na Terra, mas à custa de quê?

À custa do oceano. O oceano vai controlar a taxa de aquecimento, modificando o seu ambiente. Ao modificar o seu ambiente, nós vamos ter, no futuro, situações, algumas das quais poderão até já ter acontecido no passado, em que a distribuição das espécies vegetais e animais no oceano vai ser alterada, em que a própria circulação oceânica pode ser alterada. Isso, aliás, como toda a frequência, é o grande terror, porque a circulação profunda oceânica é o tal que falava, o grande distribuidor de calor na Terra, uma vez que a água profunda, fria, é de certa forma formada nos polos ou arrefecida junto aos polos, e depois circula pelo interior do oceano até o resto do planeta, na grande circulação oceânica. E isso é um enorme estabilizador do clima. O que acontece se isso parar? O que acontece se houver alterações significativas de temperatura? Eu diria que nós temos ainda dificuldade de compreender. Não do ponto de vista físico, do ponto de vista físico, apesar de tudo, é a mais simples e a mais complexa das disciplinas, compreendemos. Mas os efeitos que tal terá na distribuição da biologia, biológica, ainda estamos longe de os compreender completamente.

Na região, particularmente do Atlântico Português, quais são os principais impactos das alterações climáticas no nosso mar?

O que nós estamos a observar? Estamos a observar a migração das espécies biológicas para norte, em particular dos pelágicos, que são uma parte do pescado que tem muito valor alimentar. Estamos a observar também a acidificação, como em todos os outros lados da Terra, o que seria completamente normal, e um aumento da temperatura nos primeiros 700 metros. A pergunta que não me fez, mas que eu posso tentar responder agora: como é que a gente sabe isso, se é tão difícil medir? Porque, na verdade, existem dois sistemas mundiais, do qual eu ainda não falei, no qual o IPMA participa, de uma forma modesta. O primeiro é o Argo. O Argo é um programa mundial que distribui em todo o oceano da Terra milhares de sensores que sobem e descem no oceano nas primeiras centenas de metros e quando chegam à superfície, enviam os parâmetros que mediram para um sistema chamado GTS, que é o sistema de meteorologia, que se baseia em satélites geoestacionários e, portanto, já sendo disponível. Isso permite-nos ter uma boa observação do que se passa em profundidade. A observação não é muito densa, mas hoje em dia já é muito significativa. A segunda questão é que a partir das observações à superfície, em particular daquelas que são validadas por satélites, nós somos capazes de validar modelos e os modelos são capazes de nos dar uma representação da realidade. Nós também temos uma presença significativa na área dos satélites. Por razões históricas, até a nossa especialidade é mais a terra do que o oceano, porque aqui a meteorologia se especializou-se em processos de superfície, que são muito importantes, por exemplo, para a seca e são muito importantes para a agricultura, e menos nos processos oceânicos, que só agora começamos a desenvolver know-how significativo. Só que neste mundo global, que é o mundo da meteorologia e do clima, compreenda-se que nem todos fazem tudo. Cada um faz um parafuso, uma porca, uma peça do sistema mundial. E a peça que nós estamos a fazer na área dos satélites é o que nós chamamos Land Saf, que é o estudo dos processos de superfície baseados em satélite. A peça que estamos a fazer do lado da modelação, essencialmente, a cooperação, a participação no Centro Europeu de Previsão de Tempo a Médio Prazo, com aquele que é considerado o melhor modelo de previsão do mundo e com um dos modelos de previsão de clima que alimenta o IPCC, do qual nós também fazemos parte. Nós temos uma comunidade que vista em dimensão parece muito grande, somos 600 pessoas. Agora, se pensar que nós estamos em todos os aeroportos, estamos em todos os portos, estamos em todos os navios de pesca, perceber-se-á que não é muita gente. Perceber-se-á também que nós estamos na NAFO, que é no norte do Atlântico, estamos no Índico com os palangreiros, estamos nas pequenas embarcações de pesca costeira que saem da costa todos os dias e que, portanto, tudo isto só é possível com esta dimensão, exatamente porque temos tido uma capacidade enorme de manter o espírito da equipa e o espírito da instituição. Hoje em dia, as equipas são mínimas, são garantidas por um esforço, eu diria, titânico. A perspectiva que as pessoas têm de poder mitigar esse esforço e ter um pouco mais de cooperação do recurso humano Humanos não são grandes, uma vez que a pressão que vemos nos mídia, e que é completamente compreensível, é uma pressão na saúde e uma pressão na educação, mas é preciso perceber que é absolutamente necessário que nós tenhamos capacidades mínimas em todas as áreas em que queremos ser alguém. E se nós, no mar, queremos ser alguém, se na atmosfera queremos ser alguém, então eu diria que nós temos que ter um pouco mais de meios do que os que temos agora.

O oceano, se me permite recuar um bocadinho, falávamos há pouco desta capacidade que o mar tem de regular a temperatura do planeta e de mitigar alguns dos efeitos das alterações climáticas. Parece-lhe, por isso, que o combate às alterações climáticas tem como grande prioridade a preservação dos oceanos?

A preservação e a monitorização. É preciso compreender que apesar de todos os modelos que existem, todas as previsões que se fazem, e que correspondem ao melhor da ciência mundial, que nós temos ainda um conjunto grande de incógnitas e temos que continuar a perceber exatamente o que se está a passar. Um caso histórico que teve com o oceano e que é muito conhecido, que foi o ciclo de aquecimento do oceano e da atmosfera não são idênticos. E, portanto, houve uma década, que eu espero não estar a enganar se foi a década de 90, em que até parecia que o ciclo de aquecimento da atmosfera estava a ser reduzido. Não é que tivesse a diminuir, não estava. Estava a aumentar mais devagar e na altura não foi compreendido que o que se passava era que o ciclo de aquecimento do oceano estava a acelerar. E, portanto, a quantidade de calor que a Terra recebia estava a ser mais absorvida pelo oceano, ainda mais do que era habitual. Portanto, nós precisamos monitorizar e precisamos de defender em que ponto de vista? Do ponto de vista de que se há efeitos externos que nós não vamos conseguir alterar, e não vamos conseguir alterar, tem que ser compreendido que até que se queira fazer operações tremendamente arriscadas de engenharia metrológica, que todos nós esperamos que não sejam feitas.

É preciso conhecer.

Se não se fizer isso, a componente de forçamento externo, como diz um físico expressa, vai se manter. E vai aumentar, os gases de efeito estufa, mesmo que aumentem mais devagar, vão continuar a aumentar e, portanto, o efeito de aquecimento vai se manter. Nessa altura, nós temos que fazer alguma coisa importante. Temos, pelo menos, de reduzir drasticamente todos os outros efeitos nocivos, de forma a preservar o mais possível os ambientes que existem. Temos que preservar os ambientes que garantem biodiversidade. A biodiversidade não se recupera. É um aspecto que penso que às vezes não é compreendido muito bem. Existem poucos valores absolutos na Terra, porque nós temos uma enorme capacidade, com recurso à tecnologia e à ciência, de reproduzir muitas situações. Mas há uma coisa que nós não conseguimos reproduzir. Nós não conseguimos reproduzir organismos que desapareceram.

Quando uma espécie se extingue, extingue-se.

E não é só uma espécie, porque as espécies não vivem isoladas. É quando um sistema se extingue, extingue-se. E nós não temos capacidade de o recriar. Até podemos recriar ADN de mamute e criar um mamute dentro de um laboratório. Podemos, mas nós voltamos a ter as espécies, muitas das quais nós nem sabemos que existem, tem que se compreender este assunto, nem sabemos que existem, é perder um valor que é insubstituível.

E nós, sobre os oceanos, temos um grau maior de desconhecimento do que sobre a Terra?

Muitíssimo maior. É preciso dizer também que nós na Terra já destruímos muito, só que não temos capacidade de reconstruir a agricultura, que muitas vezes é vista como um ambiente idílico e até a ruralidade é elogiada como sendo quase o ambiente da Terra primitivo. Note-se que não é o ambiente da Terra primitivo. A agricultura teve um grande efeito de normalização, entre aspas, ou seja, de regularização de ambientes. Nós nunca agricultamos o mar, mas contaminamo-lo. Nós enviamos produtos que não devíamos ter enviado, nós ainda hoje-

Oito bilhões de toneladas de plásticos todos os anos, não é?

Tudo e mais alguma coisa. Na ideia de que o volume era infinito e como era infinito o volume, o impacto nunca iria aparecer. Agora começamos a ver que o volume é finito e que o impacto começa a aparecer. Temos mesmo que recuar e refazer alguns dos nossos processos para ser possível viver com eles.

Nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, um deles é precisamente sobre os oceanos, conservar e usar de forma sustentável os oceanos. Há pouco dizia que na questão da pesca, por exemplo, em Portugal, o grande desafio é o da sustentabilidade. Como é que se faz uma gestão sustentável e ecológica dos oceanos? Quais são as linhas orientadoras?

As linhas orientadoras, entre nós, são bastante simples de estabelecer. Nós fazemos o acompanhamento do estado dos diferentes, entre aspas, recursos, fecha aspas. Eu não gosto nada de chamar recursos, dos estados das diferentes espécies, que têm o que se chama valor comercial, e as autorizações que são dadas para a pesca de cada uma delas podem ser emitidas por Bruxelas, chamam-se TACs, ou podem ser decididas apenas entre Portugal e Espanha. De uma forma ou de outra, baseiam-se sempre em conhecimento científico e na melhor informação que nós temos dos volumes que existem e da possibilidade de serem explorados sem pôr em causa a sua sustentabilidade futura. Note-se que aqui há também uma ressalva importante, quer dizer, nós não estamos a falar de extinção. Extinção é uma palavra dramática, estamos a falar de explorabilidade. Mas a explorabilidade também é importante, e é importante porque nós temos comunidades que vivem desse recurso, temos hábitos alimentares que vivem desses recursos e, portanto, a explorabilidade garante que eles vão continuar a existir. Claro que o ambiente oceânico Do ponto de vista dos recursos vivos, é um aumento competitivo e, portanto, quando protegemos uma espécie, despre protegemos outras, aquelas de que ele se alimenta, por exemplo, quando se for um carnívoro. Nós ainda estamos um bocadinho longe de ser capaz de compreender as consequências de todas as nossas ações. Existe um processo que está em curso neste momento, a nível europeu e mundial, que é a tentativa de desenhar aquilo que se chama um gémeo digital do oceano. A capacidade que nós temos de prever, porque o que se pede a um organismo como nós? Que seja capaz de prever. Pode ser prever o tempo, pode ser prever o estado da sardinha daqui a dois anos, pode ser prever quando é que as biotoxinas que entraram no rio D'Ávora vão desaparecer.

E a tecnologia pode ajudar-nos nisso.

Exatamente. O que nos pede a nós é que sejamos capazes de prever. E melhor que os economistas, de preferência, porque as pessoas estão um bocadinho desmotivadas em relação aos economistas, pelo menos aos amadores, os profissionais não daria que seja tanto verdade, como estão agora em relação aos epidemiologistas, que aparecem três debaixo de cada pedra e que nós temos imensa dificuldade, como sabe, de distinguir o trigo do joio. A nós pedem-nos a sermos capazes de prever. Temos a vantagem de ter uma equipa que é internacionalizada, que é competente e que tem autoridade. São três coisas que são importantes, tem que se compreender. Ter autoridade, é conhecido que quando nós emitimos uma opinião, a opinião é sensata, está baseada em dados e corresponde a uma posição de sustentabilidade, qualquer que ela seja. Internacionalizada quer dizer que nós não vivemos apenas aqui, vivemos no mundo global e trabalhamos no mundo global. E competente, quer dizer que nós temos suficientes recursos humanos em cada uma das áreas para sermos capazes de emitir opiniões válidas em todas as áreas de que nos ocupamos. Com essas três componentes, nós temos sido capazes, ao longo destes nove anos, que o instituto existe, com esta geometria, de afirmar aquilo que se chama uma voz autoritativa, passe o neologismo, sobre estas áreas todas de que falámos. Não porque sejamos a única opinião possível, porque a ciência infelizmente é mais controvérsia do que opinião definitiva, mas porque tentamos dar o melhor balanço de opiniões que é possível dar aos cidadãos, porque é aquele o nosso objetivo. Nosso objetivo é dar informação aos cidadãos e apoio às decisões políticas.

Estávamos a falar de como fazer uma gestão sustentável dos oceanos. O que é que falta a Portugal, ou seja, o que estamos a fazer mal, o que é que podemos melhorar?

Portugal, do ponto de vista de político, eu diria que tem sido dos países que mais atenção tem dado e mais esforço tem feito para a sustentabilidade dos oceanos.

Pode dar alguns exemplos?

Posso. Foi um país muito ativo na definição das áreas marinhas protegidas, foi um país que sempre teve opiniões sustentadas e precaucionárias na gestão da pesca, desde sempre. Foi um país que teve um papel relevante em todas as orientações internacionais ao nível das Nações Unidas e da UNESCO, que têm a ver com o mar. Ao nível da ação prática, nós chocamos com as nossas próprias limitações. A nossa vontade é maior do que os nossos recursos. O que é que nós poderíamos fazer para fazer uma melhor gestão sustentável? Era essencialmente, do nosso ponto de vista, sermos capazes de fornecer aos cidadãos informação com o mesmo nível de detalhe e de rigor que somos capazes de fazer na atmosfera. Nós na atmosfera temos todas as nossas sessões online, temos todos os nossos dados fornecidos e, portanto, todas as pessoas podem acompanhar o que se diz, o que se pensa e o que se vai fazer. Há redes sociais que têm opiniões diversas das nossas, e ainda bem que as têm e que as difundem, tudo isso está correto. Em relação ao oceano, ainda não estamos exatamente nesse ponto. Nós precisávamos ter todas as nossas informações online, já temos muitas, precisávamos de fornecer dados qualificados em tempo real, que permitam a todos os cidadãos, qualquer deles, por si, formar uma opinião.

É a tal questão do ainda desconhecimento significativo.

É a questão do ainda desconhecimento. Uma parte está ao nosso alcance fazer, porque a informação já existe, é mais uma questão de a disponibilizar de uma forma compreensível. Outra parte é mesmo informação adicional que é preciso obter.

O que mais o preocupa olhando para o estado do oceano em Portugal e no mundo?

O principal problema é o aumento da temperatura e a acidificação. Quer dizer, o grande problema é mesmo a variação da dinâmica do oceano. Esse é o problema fundamental.

Que pode pôr em causa esse processo fundamental.

Claro. Nós sabemos historicamente, os estudos de paleo oceanografia, nós também temos o grupo de referência portuguesa de paleo oceanografia a trabalhar conosco, dentro do IPMA. Nós temos os estudos paleo oceanográficos que existiram já situações em que a dinâmica não foi exatamente a atual e qualquer alteração dramática nessa dinâmica faz variar tudo. Portanto, isso é a preocupação fundamental. Do ponto de vista da região perto da costa, eu diria que ainda é preciso um esforço suplementar na qualidade do tratamento das águas residuais. Nós verificamos muitas situações em que o nível de tratamento ainda tem mesmo que ser melhorado ou pelo menos que ser mais regular. Do ponto de vista dos processos naturais, como tem a ver com os volumes de algas tóxicas, bem, nós aí pouco podemos fazer. Eles são preocupantes, essencialmente, porque eles afetam de uma forma muito negativa o setor económico

Olhando para as alterações climáticas, o aumento da temperatura da água faz subir o nível da água, o degelo nos polos fará também aumentar o nível da água, e isso é preocupante para um país como Portugal, que tem metade da fronteira é costa.

A subida do nível do mar é um problema complexo. É complexo, sinceramente, em ambientes estuarinos, como nós temos, olha, por exemplo, aqui à nossa frente. É complexo em ambientes em que os declives da costa sejam muito reduzidos. Em Portugal, tem importância nalgumas situações, em ilhas, mas é um assunto que corresponde a uma subida lenta, portanto, se nós não nos adaptarmos, é porque não estamos a querer fazê-lo, porque temos tempo suficiente, as taxas de subida não são muito grandes, temos tempo suficiente para mudar, deslocalizar a ocupação do solo, e caracterizá-la por atividades que possam ser removidas rapidamente.

Devemos focar-nos mais na adaptação ou mais no combate?

Adaptação. Desse ponto de vista, desse tipo de situações, é adaptação, porque repare que o oceano é um meio muito lento comparado com a atmosfera, o que significa o quê? Mesmo que agora se parasse tudo, o aquecimento continuava. Portanto, não pensar que a subida do mar ia sequer parar. É um sistema com muito estresse, o tempo conta de forma diferente, o que leva a que, mesmo que haja alterações rápidas de política, os resultados vão ser sempre lentos. Portanto, é a mesma adaptação que tem que aparecer, tem que aparecer uma ocupação e uma relação com o mar que seja mais resiliente, tenha que ter mais capacidade de reação aos impactos. Nós, simultaneamente no mar, estamos a ter cada vez mais tempestades com impactos grandes, portanto, em termos da estruturação das cidades, da estruturação da vida das pessoas, nós temos que modificar-nos.

Para o que temos de nos preparar? Mais tempestades?

Temos que nos preparar para mais tempestades e velocidades de vento mais elevadas, o que significa que algumas medidas de proteção das habitações têm que começar a ser percebidas, têm que ser feitas. Temos que preparar para uma ocupação junto da linha de costa que seja resiliente a uma subida do metro do nível médio do mar. Temos que nos preparar para situações de chuva intensa, o que significa que a capacidade das obras e a capacidade das vias têm que permitir o escoamento rápido de grandes quantidades de água. Vede a semana passada. Temos que nos preparar para períodos de seca prolongados, o que significa que a agricultura e o abastecimento d'água têm que ter suficiente capacidade de armazenamento pra poder resistir. Estes são, eu diria, os principais. E temos já mais um, desculpe, temos que nos preparar para fogos florestais, que vão continuar a existir, cuja intensidade tendencialmente aumentará e que só vão ser estruturalmente resolvidos, ou pelo menos diminuídos drasticamente, com alterações significativas da paisagem.

Eu já ouvi algumas intervenções suas em que achei curiosa a forma como consegue equilibrar uma certa defesa de uma abordagem radical às alterações climáticas, ou seja, em que esta mitigação em que é dado uma grande importância às questões econômicas não será suficiente para acabar com as alterações climáticas, mas ao mesmo tempo procurar olhar para os pontos positivos, para as oportunidades que possam surgir. Como é que um cientista, ainda por cima um cientista que todos os dias olha para o tempo e para o clima, é difícil fazer este equilíbrio, manter um certo otimismo? Como é que se classificaria nesse aspecto?

Eu penso que não é otimismo. Repare numa situação. Os países que têm capacidade, e as regiões que têm capacidade, para resistir e adaptar-se às mudanças do clima, são aquelas que têm uma situação econômica razoável. Não é possível imaginar, pelo menos no meu entendimento, a essência de políticas que mitiguem dramaticamente os problemas que estamos a ter e, ao mesmo tempo, temos uma sessão econômica destrutiva. Isso não é verdade. As políticas ambientais têm custos, e esses custos têm que ser absorvidos pelo setor econômico. Portanto, nós temos que ser capazes de encontrar um caminho que, simultaneamente, defenda a economia e defenda o ambiente. E se isso não for feito, nós não vamos conseguir resolver nenhum deles. Vamos ficar mais pobres e mais expostos. Não existe a ideia de mais pobres e menos expostos. Isso tem que ser compreendido.

Mas como é que isso se faz?

Eu acho que existe um exemplo em Portugal que é tão brilhante, que devia ser bem analisado, apesar dos defeitos que teve e de todas as críticas que recebeu e que teve a ver com a generalização das energias renováveis. Está-se a mostrar que é possível fazer uma transição de energias convencionais pra energias renováveis, criando-se valor econômico. Da mesma forma, como se vai demonstrar que é possível fazer transição de motores a combustão pra motores elétricos nos veículos, criando valor econômico.

É que há aquilo que se costuma dizer, e que corresponde à verdade, que atualmente ainda não é viável economicamente, até pra um cidadão comum, ser sustentável. Os produtos mais sustentáveis costumam ser mais caros.

Exatamente. Mas é mesmo assim. Os produtos mais sustentáveis são mais caros. Nós temos, ao mesmo tempo, que conseguir criá-los e criar valor econômico. Eu acho que é preciso voltar um bocadinho a Adam Smith, como é que se cria a riqueza das nações.

Mas é preciso reverter esta ideia de que é mais caro ser amigo do ambiente.

Não, o que é complicado nessa ideia é que quando nós queremos uma mutação tecnológica, qualquer que ela seja, nós temos perdedores e ganhadores. É impossível não ter. E quando estamos a falar do lado das empresas, evidentemente que nós temos que esperar reações, reações essas que, por vezes, são bastante agressivas. Repare, pra sairmos do clima pra uma área que é mais compreendida hoje em dia: tabaco Quem é que se lembra das décadas de discussão sobre os efeitos do tabaco no cancro dos pulmões? Hoje em dia é uma coisa que ninguém discute, seria ridículo alguém discutir. E quando a primeira reação da indústria foi de resistência à necessidade de fazer essa alteração, quando provavelmente o que seria racional, que não quer dizer que seja fácil de fazer, era a indústria, que era um industria de lazer, ser capaz de se converter num outro lazer que fosse, esse sim, sustentável. Todas as situações em que nós estamos a fazer uma mutação, temos perdedores e ganhadores. A indústria reage de forma normalmente agressiva, tem acesso a meios de comunicação, tem acesso a recursos financeiros que lhe permitem fazer campanhas. Os cidadãos têm outro problema, que é o emprego. É impossível evitar a ideia de que alguns setores, ao serem reestruturados, criam desemprego. E portanto, é completamente normal que as pessoas reajam a essa criação de desemprego. Como, por exemplo, estamos a ver hoje em dia, que as medidas de restrição ao Covid criam situações económicas muito complicadas e, portanto, esse equilíbrio entre manter a economia e manter a sustentabilidade é, desculpem, a profissão dos governos. É para isso que nós elegemos governos, é para eles tentarem obter o melhor trade off entre as duas componentes.

Ou seja, tornar-nos mais sustentáveis e valorizando-

E mais ricos. Vamos dizer a palavra, mais sustentáveis e todos mais ricos. Nós temos passado as últimas décadas na Terra, todos os anos mais ricos que no ano anterior, globalmente. Claro que no mais ricos é como o esquema dos frangos. Claro que enriqueceram mais os mais pobres do que a classe média, mas não os muito mais ricos, chama-se isso a globalização. Nós temos que pôr regulação nisso. Temos que pôr alguma regulação. Temos de tentar agarrar, não deixar ninguém para trás. E a grande dificuldade dos governos é com os recursos que têm nessas situações, simultaneamente, redesenharem a economia, redesenharem a indústria, redesenharem os serviços, com baixas taxas de desemprego e com apoio às tecnologias, às aproximações que vão ser as vencedoras.

É hoje mais fácil, concretamente por causa da pandemia da Covid-19, que os governos tomem decisões ouvindo os cientistas, chegarmos mais rapidamente à conclusão de que importa ouvir a ciência por causa da pandemia?

Num certo sentido, sim, mas existe um outro problema por trás deste, que veio à liça aqui na semana passada e que também a mim preocupa-me muito. A ciência não é uma política. A ciência tem em si controvérsia, tem opiniões diferentes e tem a tentativa da obtenção da verdade. Não cabe à ciência diretamente estabelecer medidas, isso cabe à política. E a política tem que defender o seu papel, tem que ouvir a ciência, mas tem que decidir por si. E pode acontecer que, por vezes, até decida contra a ciência mais estabelecida. Aliás, é bom que nas alturas de mudança de paradigma, a política tenha a cabeça suficiente para ir no sentido do futuro e não no sentido do passado. Claro que isso é uma situação complexa e contra o que está no hábito da atividade política democrática, que é tentar obter sempre o apoio da maioria. Mas a coragem é isso, a coragem é às vezes ser capaz de dizer, apesar de ser assim, a gente quer de outra maneira. Por que os cidadãos, nos últimos tempos, começaram a confiar mais na opinião da ciência que na opinião da política? É um problema complicado, que também tem os seus aspetos negativos, tem que ser compreendido. Tem os seus aspetos negativos por quê? Porque não cabe ao cidadão comum, não é possível distinguir a opinião que é validada da opinião que não é validada. Nós vemos hoje em dia discutir nos media a existência de artigos que ainda não tiveram avaliação por pares, como ouvia ontem num comentário televisivo.

Não devíamos estar a falar desses.

Devíamos estar a falar desses. Mas isso é uma linguagem que, não sei se você já reparou, na última década, toda a gente começou por saber tudo sobre tsunamis, depois tudo sobre crise económica, depois tudo sobre produtos financeiros complexos, tudo sobre a banca e o financiamento da banca e agora tudo sobre epidemias e epidemiologia. E é fantástico. Veja o aspeto isto de fora, veja como um marciano. Como é que é possível que uma parte importante da população tenha sido capaz e seja capaz de acompanhar a grande maioria dos tópicos que estão a ser discutidos nos media, que era uma coisa que nunca aconteceu no passado. Eu acho que isto é um grande desafio para os media, que têm que mediar, como o nome indica, exatamente este fluxo brutal de informação e esta profundidade de análise.

E curiosamente, as alterações climáticas também estão a ganhar essa dimensão no espaço público.

Também. Passaram de ser uma coisa que era polêmica, dizia-se: "Isso é uma ideia muito controversa, não se tem a certeza, se calhar isto vai tudo arrefecer". Para uma ideia que começou a ser generalizada. "Ah, não, se calhar eles têm razão, há bocado tantos que dizem a mesma coisa, que isto é capaz de ser verdade". Mas, na verdade, quando é que as pessoas acordam? Quando o Leslie lhe passa por cima da casa, quando o Lourenço passa por cima das florestas e destrói as florestas em Foião, quando os incêndios destroem dezenas de vidas e quando se vê a situação que nós ainda aqui não temos, não têm, da Califórnia e da Austrália, em que vê incêndios que nenhuns meios humanos são capazes de parar. Portanto, quando a evidência, isto é como São Tomé, neste momento nós estamos a ver na televisão, e isso é a grande diferença deste nosso tempo em que vivemos, é que neste momento não há grande margem para a interpretação do que está mesmo a acontecer. O repórter neste momento está lá

E dá-lhe alguma esperança o regresso dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, agora com a eleição de Joe Biden?

Eu diria que a eleição de Joe Biden obviamente que facilita muito a obtenção de medidas, mas é preciso também nós distinguirmos o histrionismo do Trump das medidas que a nível estadual já estavam a ser tomadas nos Estados Unidos e das organizações americanas responsáveis que existem em muitos locais. A transição, mesmo energética, já começou a ser feita. A política é sempre um bocadinho a espuma dos dias, é sempre mais o resultado do que a fonte, nem dos problemas, nem das soluções. O que nós estamos a ver na América é, de uma forma extrema, por um lado, a reação à mudança, às transições energética, à transição ambiental, à transição digital, que foi corporizada por Trump, quando ele diz que é contra as big techs.

Exatamente.

Estamos a ver, por um lado, isso, mas estamos a ver, por outro lado, que não há, aparentemente, grande alternativa a esse processo. Depois, o que pode haver é, do lado da regulação, a tentativa de, por exemplo, recuperação de impostos e taxas, de forma que ponha alguma normalidade nos processos de defesa, de criação de empregos com um nível maior de estabilidade, que acabem com a proletarização excessiva de todos os trabalhadores. E depois existem efeitos sociológicos que escapam completamente ao meu conhecimento técnico, mas não à minha presunção, e que têm a ver com as grandes mudanças que nós vamos observar pelo desaparecimento significativo do pequeno comércio e pelo desaparecimento dos pequenos atores econômicos individuais, que estão a ser substituídos pelo grande rolo compressor da globalização e da formação das grandes empresas multinacionais.

Mas para si, enquanto cientista, não o inquietava ver, ao longo dos últimos quatro anos, à frente do segundo maior poluidor do mundo e do segundo maior emissor de gases do mundo, um presidente com alguma tendência para negar a ciência climática?

Vamos lá ver. Há 10 anos, isso era tão vulgar.

Mas agora não.

Tão vulgar. Há 10 anos discutia-se isto como sendo uma invenção. Vocês não se lembram, mas quando aparece o primeiro desenho do aquecimento a partir das observações, num artigo do Michael Mann, nos Estados Unidos, que deu origem à expressão do hockey stick, a temperatura variava como um stick de hockey. A situação era tão polêmica, que ele era acusado por muitas de fraude. E uma das reuniões que teve enorme discussão sobre isso aconteceu em Lisboa, de uma forma muito pouco aberta, na FLAD, na Fundação Luso-Americana, também com alguma colaboração do nosso lado, como organizadores, obviamente, entre as várias presenças em contenda. Já viu aqueles filmes do regresso ao futuro e do regresso ao passado? O Trump foi um homem de um século atrás que, de repente, emergiu neste século e que eu espero que volte outra vez para dentro do automóvel e regresse ao passado.

Enquanto presidente do IPMA, não sei se lhe parece curioso que quando se confunde intencionalmente tempo e clima para corroborar as teses negacionistas, dizer: "Repare que até está frio, onde é que está o aquecimento global?" Irrita-o particularmente essa confusão?

A mim não me irrita, é apenas uma demonstração de ignorância, porque existem fenómenos que às vezes são muito difíceis de se tentar explicar. Não é? A primeira coisa que tem que se perceber é que desde há 30 anos nós medimos bem a temperatura na Terra toda e, portanto, a temperatura na Terra toda, obviamente, está a aumentar. Em média, não há nenhuma discussão sobre esse assunto. Claro que a temperatura está a aumentar, mas nas latitudes elevadas a humidade também está a aumentar, porque um ar mais quente também dá lugar a mais evaporação. Isso faz com que, por exemplo, há mais água disponível. Quando há mais água disponível na troposfera e a temperatura está a baixar, nós podemos ter mais neve e mais gelo. E, portanto, gera-se aquela situação que as pessoas nunca conseguem compreender: "Se isto está mais quente, por que é que neva mais?" Porque há mais água disponível num local da atmosfera cujo a temperatura é inferior a zero. A resposta é simples de dizer para um meteorologista, não tão simples de explicar para quem está a ver apenas o fenômeno, e essa é sempre a ideia de neve, a ideia de muito frio, quando às vezes a neve até faz, como devem saber, aumentar ligeiramente a temperatura. O outro aspecto tem a ver com que, é sempre difícil nós aceitarmos situações que são contra o nosso interesse pessoal. Isso está na natureza das pessoas e está na natureza da humanidade. Repare, quando nós dizemos assim: "Hoje, por exemplo, acho que não podemos andar a partir das 15 horas". Isso claramente é contra os meus interesses pessoais, porque gosto de trabalhar o dia todo e, portanto, eu crio alguns problemas. Trabalharei em casa, obviamente, ou onde for necessário. Mas nós temos sempre muita dificuldade em aceitar o que é contra nós e só aceitamos mesmo em última análise. E, portanto, a humanidade só se está a convencer da mudança climática, não por causa dos políticos, não por causa do trend de mudança climática que está a existir, que é reduzido, mas por um fenômeno que inicialmente nem sequer foi muito bem antecipado, e que é o fato de nós estarmos a subir a média dos parâmetros meteorológicos todos os anos, está a fazer com que estejamos a bater recordes Nos máximos e nos mínimos, todos os anos.

Todos os anos foi o julho mais quente.

E quando batemos o recorde, as pessoas acordam para que estamos a bater no recorde. Ninguém é capaz de percepcionar os 0,1 graus ou os 0,25 milímetros de subida do oceano, isso não se perceciona.

É a notícia do recorde.

É só a notícia do recorde. É quando nós sabemos que temos variabilidade por cima da mudança, e quando a variabilidade toca em pontos que as pessoas nunca viram. Por exemplo, o cheio Lourenço, uma coisa fantástica. Não sei se houve compreensão daqui, foi um furacão que teve uma extensão horizontal tão grande que quando chegou às Açores nunca se desviou. Quando o Lourenço começa a ser seguido pelos serviços meteorológicos, e é preciso dizer que nós estamos a trabalhar com o NHC de Miami desde há quatro anos, numa altura em que fomos chamados à atenção de que a quantidade de acontecimentos que chegava a latitude dos Açores começava a aumentar e, portanto, que era preciso fazer o seguimento deles. Uma das questões mais importantes era saber qual era o impacto que ia ter nas ilhas. O que é interessante, entre várias coisas que teve com a Lourenço, e coisas muito pouco interessantes, em particular, o fato da destruição que aconteceu, e os prejuízos enormes que causaram nas ilhas do Faial e das Flores. É que se forem ver o percurso dele, o percurso dele praticamente nunca se desvia, ele é tão grande que ele não vê as ilhas. Enquanto que os nomes mais pequenos em dimensão, como eles se alimentam da energia do oceano, acabam por passar entre as ilhas. Neste caso, ele passou exatamente sempre em frente e passou por cima da Ilha das Flores. Portanto, a previsão foi 100%, o seguimento do fenômeno foi feito ao minuto, e o que é exatamente também, para nós, muito relevante, foi que a previsão dos estragos foi feita imediatamente, foi feita antes dele passar, já se sabia que estragos é que ia fazer em termos de dimensão. E é interessante perceber que a primeira reação das pessoas é sempre, felizmente, positiva. As pessoas não esperam que tenha sido tão mau. As pessoas passam a tempestade e depois da tempestade vem a bonança, mas uma parte da bonança é psicológica, porque quando a bonança começa a estabilizar-se, vão se analisar os prejuízos, os prejuízos são enormes e brutais.

Falava das notícias dos recordes. Pelo caminho que o planeta leva, vamos todos os anos continuar a ver notícias.

Todos os anos vamos ter recordes. Esses recordes vão levar a fenômenos meteorológicos extremos, tanto no oceano como em terra. Nós vamos nos adaptando progressivamente. Seria interessante que nós tivéssemos a capacidade de antevisão, de perceber que isto não vai abrandar. Não vai abrandar, mesmo com as medidas do Acordo de Paris, vai quanto muito manter-se neste ritmo, e que, portanto, se calhar, algumas das utilizações que nós fazemos do espaço têm que ser repensadas, algumas das normas construtivas e de utilização. Eu falo, por exemplo, dos outdoors, que é uma coisa que me preocupa. Têm que ser repensados, se é possível mantê-los com a situação que têm. Se não tem que haver normas de perfuração, mitigação de efeitos do vento. Nós estamos a observar velocidades de vento que são significativas.

Os outdoors, os cartazes.

Os cartazes que estão muitas vezes longe de muros e que são velas autênticas lançadas ao vento e que são armas de arremesso quando nós temos uma grande tempestade. Pensar também nos fenômenos que observamos no legião Vieira da Foz, em que as pessoas não estavam preparadas para perceber que era preciso fechar os estores e as janelas, para não criar diferenças de pressão significativas. E, portanto, existem certo tipo de comportamentos que são vulgares nos países que têm muitos fenômenos deste tipo, mas que não são vulgares aqui, porque nós não temos fenômenos deste tipo.

Temos que começar a formar-nos.

Temos que começar a formar-nos uns com os outros, para sermos capazes de ser mais resilientes como comunidade. E se reparar, do ponto de vista político, também é muito interessante perceber que a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, tem alargado progressivamente o seu âmbito e cada vez mais está a cobrir uma maior diversidade de riscos, porque se começa a perceber que há ações que têm que ser feitas do mesmo tipo, que envolve informação, envolve resistência, envolve alteração de comportamentos, envolve gestão de situações críticas.

Ou seja, chegamos a uma fase em que temos que nos focar, é, sobretudo, na adaptação da nossa própria espécie.

Temos que nos adaptar, essencialmente. Temos que mitigar alguns efeitos, aqueles que são antropogênicos, temos que os reduzir. E essencialmente, temos que nos preparar para os aspectos negativos e positivos que a mudança nos vai trazer.

Quais foram os positivos?

Positivos. Na semana passada, no meio de novembro, devido ao tempo que estava em Lisboa, dizendo a um grande amigo meu, que afinal ele era a favor da mudança climática. Ou seja, nós não podemos ver que é tudo essencialmente negativo. O processo não pode continuar, tem que ser parado, porque nós não sabemos, a partir de um certo momento, se o quão simples que é travar. Contudo, é verdade que algum aumento da temperatura em regiões que são muito frias pode ser agradável para a agricultura, por exemplo, por que não? O aumento da temperatura em regiões áridas vai ser horrível e vai exigir adaptação. Nós temos que nos preparar, se calhar, para ser capazes de utilizar a água que temos em excesso nalgumas regiões, para as regiões em que temos em déficit. Portanto, tudo isso é um mundo diferente para o qual nós temos que nos preparar, essencialmente porque, no passado, a humanidade resistia às mudanças de uma forma simples, mudava de local. Portanto, mudava do local de sol, até por vezes queimava pra ir pra outro lugar que era considerado mais fértil. Nós, neste momento, perdemos essa capacidade, porque a densidade humana no planeta é tão grande.

Já estamos em todo lado.

Já estamos em todo lado. E, portanto, nós agora o que temos que fazer é viver com isso. Portanto, é mudar o nosso estilo de vida. Temos uma tecnologia que nunca existiu no passado. Temos mais cientistas hoje a trabalhar do que existiram desde o princípio da história da humanidade, tem que ser percebido isso. E, portanto, aquilo que se demonstrou agora na corrida às vacinas do COVID-19, é uma evidência daquilo que vai ser o comportamento futuro da humanidade. Nós, a humanidade, só agora começa a existir. O que existiu até agora foram tribos, nações e outras formas de organização. Humanidade como um todo, a empatia que nós temos com qualquer cidadão, em qualquer parte do mundo, e que se começa agora a desenvolver, e que se pode chamar realmente de humanidade, eu diria que vai ser uma coisa que só existirá no século XXI.

Professor Miguel, muito obrigado pela entrevista e por nos receber aqui na sede do IPMA, de que é presidente. Muito obrigado.

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