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Bem-vindo a mais um "Tratar da Saúde". Comigo está a doutora Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bom dia.

Bom dia.

Bem-vinda. Hoje celebramos o Dia Mundial da Saúde Oral e por isso é importante explicar que escovar os dentes, sim, é fundamental, mas não chega. Não chega porque, doutora, a saúde da boca pode influenciar não só o coração, como o cérebro, e pode também estar relacionada com algumas doenças crônicas.

Sim, é verdade. Aqui o ponto fundamental é que a boca não está isolada do resto do organismo. A cavidade oral é uma porta de entrada para bactérias, processos inflamatórios que podem ter um impacto sistêmico. Uma das situações mais relevantes é, sem dúvida, a doença periodontal, que é uma inflamação crônica, para não dizer aqui o palavrão. Uma inflamação crônica das gengivas e dos tecidos que suportam os dentes. Estima-se que cerca de metade da população adulta tenha algum grau de doença periodontal. São números significativos.

Que nos devem preocupar.

Exato. E nas formas mais graves, pode levar à perda de peças dentárias, aos dentes. Por isso, tem um impacto muito além da boca.

Mas como é que, por exemplo, um problema nas gengivas chega ao resto do organismo?

Sim, principalmente por dois mecanismos. Primeiro, as bactérias da cavidade oral podem entrar na circulação sanguínea e depois, a inflamação crônica das gengivas também aumenta o estado inflamatório geral do organismo. E sabemos hoje que a inflamação crônica está associada a várias doenças sistêmicas.

Como por exemplo, que doenças são essas?

Sim, a mais estudada é, sem dúvida, a doença cardiovascular. Pessoas com doença periodontal têm mais risco de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral ou AVC, aterosclerose, que é a deposição de colesterol nas artérias, mas não é só o coração. A doença periodontal também tem sido associada à diabetes tipo 2, podendo dificultar o controle da parte da glicemia, o parto prematuro e baixo peso à nascença, doença de Alzheimer, também a parte neurológica é importante e o declínio cognitivo. E também, por último, as doenças respiratórias, sobretudo em pessoas mais vulneráveis. Portanto, a boca pode contribuir para um estado inflamatório que, na verdade, afeta todo o organismo.

E para além do sangramento das gengivas, que é o primeiro de que me lembro, quais são os outros sinais que nos devem fazer suspeitar?

Sim, existem alguns sinais comuns, nomeadamente as gengivas ficarem mais vermelhas ou inchadas, o mau hálito persistente, o recuo das gengivas, os dentes que parecem mais soltos. Estes são sinais que não devem ser ignorados e que devem procurar consulta com o médico dentista. E por isso, há algumas medidas que apesar de simples, podem fazer toda a diferença, nomeadamente a parte da escovagem correta. Pelo menos duas vezes ao dia, o uso de fio dentário, as consultas regulares com o médico dentista e também os controlos de fatores de risco como o tabaco, a diabetes.

Ou seja, e para concluir, doutora, fica a mensagem de que cuidar da boca vai muito para lá de cuidar exclusivamente dos dentes.

Sim. A verdade é que durante muito tempo pensamos que a saúde oral dizia respeito apenas aos dentes. Mas hoje sabemos que não é bem assim. A inflamação das gengivas pode ter um impacto em todo o organismo e, portanto, cuidar da boca não é apenas uma questão estética, é sem dúvida uma parte fundamental da nossa saúde de forma geral.

Por isso, já sabe, se tem uma qualquer queixa e anda há meses a adiar aquela ida ao dentista, não espere mais. Não há nada como garantir que está tudo bem. Não é por adiar que o problema vai passar, porque não se resolve sozinho. Segunda-feira falamos de alergias que tendem a piorar com a chegada da primavera, que começa hoje. Até lá. Doutora, bom fim de semana.

Bom fim de semana. Obrigada.