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Olá, bem-vindos à Vixi Suave. Continuamos em serviço de takeaway porque o confinamento ainda é para cumprir. É a ironia destes dias que faz com que se celebre a liberdade, com a liberdade ainda, de certa forma, condicionada. Enfim, há de melhorar, que aqui somos pouco dados ao drama. Portanto, saquem lá dos cravos para pôr na lapela ou de qualquer outra flor que prefiram usar, desde que celebremos a democracia.

Bom dia e bem-vinda.

Bom dia.

É um gosto olhar para si assim completamente.

Muito obrigada.

Isto agora é tudo com a distância. Deixe-me só aqui fechar a porta. Pode ir andando, se quiser.

Quando eu era miúda e até à adolescência, gostava e continuo a gostar muito das coisas da terra, continuo a gostar muito de plantas, continuo a gostar muito de hortas, de plantações.

Sabendo do seu gosto, que leve para a sua casa.

Que bom!

Estava aqui escondidinha.

Que bom, ponha aqui, faz favor.

Exatamente. Eu pouso aqui para depois a poder levar, porque sei do seu gosto pelas orquídeas.

Muito obrigada. De facto, eu sou só um grãozinho.

Eu sou o Pedro Benovides, editor de política do Observador. Comigo está também o João Alexandre, editor da rádio e um pouco mais à distância, os jornalistas Rita Diniz e Rui Pedro Antunes. Ouvíamos, naturalmente, Graça Freitas no programa da incontornável Cristina Ferreira, que não faz parte da Vixi Suave, mas às vezes parece. Quem sabe se um dia não há mexidas na equipa. Para já, consta que Cristina Ferreira é um bocadinho fora do alcance do nosso orçamento. Em todo o caso, Rita, Rui Pedro, João Alexandre, bem-vindos a mais uma edição da Vixi Suave. Vou começar por propor que sirvamos no nosso menu de entradas uma sopa irresistível. Alguém tem alguma pista sobre os ingredientes desta sopa ou querem que comece eu?

Força, podes começar se quiseres, já estás lançado.

Hoje estou com vontade de revelar os segredos logo de início. Eu diria que a sopa irresistível desta semana é uma receita de Ferro Rodrigues, que não apenas nestas últimas semanas, mas eu diria quase desde que começou o seu mandato como presidente da Assembleia da República, ainda na anterior legislatura, nunca resiste a um bom picanço quando se começa a discutir esquerda e direita, o Presidente da Assembleia da República é pouco dado àquela posição de juiz imparcial e gosta sempre de mostrar de que lado é que está, às vezes de uma forma um bocadinho mais atabalhoada. Eu diria que nestas últimas semanas foi isso que se foi vendo. Houve uma série de intervenções, quer no plenário, quer até fora do plenário, em várias entrevistas que deu, que me lembro pelo menos três entrevistas ou quatro, que Ferro Rodrigues foi multiplicando, onde naturalmente a polémica sobre se o Parlamento devia ou não acolher estas celebrações do 25 de Abril num tempo de pandemia em que se pede às pessoas para ficarem em casa, Ferro Rodrigues falou várias vezes e em vez de ser aquela estratégia de comunicação habitual dos políticos e de todos os protagonistas, que é tentar conter danos, eu acho que ele basicamente ia sempre munido com um fresquinho não de desinfetante álcool gel, mas de gasolina para regar um bocadinho mais a fogueira que já estava ali à volta do Parlamento relativamente a esta polémica. Às vezes dá a ideia de que a própria bancada do Partido Socialista não fica muito confortável com algumas das tiradas do presidente da Assembleia da República. Às vezes dá a ideia de que mesmo as bancadas à esquerda, que acham aquilo um pouco estranho. Não sei se vocês têm essa ideia ou não, mas Ferro Rodrigues às vezes nem as bancadas de esquerda consegue agradar.

Sim, eu acho que nos momentos em que o embate é com André Ventura, o ambiente no Parlamento é todo muito aceso. Mas neste caso até nem foi assim, portanto, eu acho que até apanhou toda a gente muito desprevenida, incluindo a bancada do PS, como estavas a dizer, porque foi numa intervenção do João Almeida que começou esta picardia. João Almeida, do CDS, estava a fazer uma intervenção no debate onde, a meio da intervenção, referiu que, na opinião do CDS, não se devia realizar a sessão solene do 25 de Abril nos termos em que ia acontecer, etc. E Ferro Rodrigues, assim de repente, sem ninguém estar muito bem à espera, disse: "Há uma grande maioria que quer celebrar o 25 de Abril e por isso vamos celebrar o 25 de Abril neste Parlamento". Parecia que estava à espera de uma enorme salva de palmas. Mas ficou toda a gente ali assim um bocadinho: "Sim, pois." Foi um bocadinho estranho. Ele depois numa entrevista, numa dessas muitas entrevistas que deu, chegou a dizer que sentiu aquilo como um ataque de caráter da parte de João Almeida e por isso é que reagiu daquela forma, porque ele estava de boa fé na maneira de proceder e é a opinião dele, portanto, ele acha que como o Parlamento está em funções, nunca seria descabido abdicar de se realizar a sessão solene do 25 de Abril. Portanto, definiram aqueles moldes de uma participação mais reduzida de convidados e de deputados e portanto, seria impensável não se realizar a sessão. Claro que havia outro entendimento à direita, nomeadamente nas bancadas da direita. Mas o que ele entendeu foi que não era ali o momento de se falar disso.

Mais particularmente no CDS. E sobretudo porque o PSD até estava bastante confortável com o modelo que foi encontrado e que até teve uma participação ativa na definição desse modelo.

Ele que o sugeriu.

Agora, o que eu acho engraçado, pegando naquilo que vocês estavam a dizer, é que de facto, mesmo à esquerda, houve ali algum desconforto com as declarações de Ferro Rodrigues. E eu até citava aqui um tweet de Daniel Oliveira, que obviamente é um suspeito de ser um homem que não vive ativamente o 25 de Abril e sobretudo do ponto de vista ideológico, não há qualquer dúvida onde é que ele se posiciona, mas ele escreveu um tweet onde dizia que a polémica em torno do 25 de Abril encerrou com esclarecimentos e adaptações. Claro, participante também aqui um bocadinho fazendo a leitura da polémica dos dias em que ficou claro quem criticava de boa fé ou com objetivos políticos e depois relativamente a Ferro Rodrigues, ele dizia que não deve alimentar o que quer combater e que no seu lugar é tão importante saber quando falar como quando parar de o fazer. Na verdade, ele não diz isto, mas Ferro Rodrigues também devia saber quando estar calado. E de facto houve aqui algumas declarações que eram E foram importantes e causaram aqui nova polêmica fazendo aquele efeito de que eu falava, que era regar com um pouquinho de gasolina aquilo que já era um fogo bastante visível, quando falou do uso de máscaras no Parlamento na sessão do 25 de Abril, numa entrevista à TSF.

Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril. Eu diria até, um pouco a brincar, embora o momento não seja para grandes brincadeiras, que houve muita gente mascarada de abrilista durante estes anos todos e que agora deitou as garras de fora.

Deitou as garras de fora quem se mascarou de abrilista. Claramente aqui ia querer deixar alguns soundbites daqueles que são discutidos e isso, sem dúvida, foi bem-sucedido. A dúvida é se o bom gosto esteve presente nestas metáforas sobre os mascarados, sendo que o uso da máscara também tem sido amplamente discutido e tido como um instrumento de saúde pública nos tempos estranhos que vivemos. Gostava de ouvir agora também Rui Pedro Antunes, que tem estado hoje estranhamente calado. Eu não sei se estás aí a tentar escrever as tuas piadas que vão deixar-te dois ou três segundos sem resposta.

Deixou as piadas para o Ferro Rodrigues, parece-me.

Exatamente.

Hoje não pus essa máscara. Quanto a isso que estás a dizer, o que me parece é que, de facto, essas declarações são um bocadinho infelizes, tendo em conta toda a circunstância, mas o próprio tentou logo retificar aí. E também não me parece que agora se tenha destapado tudo quanto é fascistas ou anti 25 de Abril por causa desta situação. Isto acontece todos os anos, o mesmo festival, se me permitem a expressão. Eu, aliás, estudei em Coimbra com o João Alexandre e ele sabe bem que em Coimbra qualquer pessoa que se mexa por qualquer motivo é fascista. Se vestiu uma capa, é fascista, se vai à Queima das Fitas é fascista. Até o Trotsky com jeitinho em Coimbra pode ser fascista.

Nós ainda não somos ouvidos em Coimbra, pois não? Não há frequência FM ainda em Coimbra, por enquanto. Estava só a calcular os e-mails e as cartas que íamos receber, eventualmente os artigos de opinião para publicar no Observador. Mas continua, Rui Pedro.

Não, e eu a dizer. Mas na parte mais efervescente da luta acadêmica é muito fácil alguém ser considerado fascista. E aqui neste debate direita, esquerda, 25 de Abril, há sempre esta coisa de quem é contra ou a favor do 25 de Abril. Agora, também me parece que há aqui uma verdade nesta declaração de Ferro Rodrigues e nas coisas que vai dizendo, é que há muita gente que, de facto, está a utilizar a questão da saúde pública para aquilo que é a crítica habitual à cerimônia. Não gostam, e era preferível assumirem que não gostam deste tipo de comemoração do que estar esta coisa meio mascarada e de que é só uma questão de saúde pública. E o maior exemplo disso, e estavas a falar do PSD, que por acaso referiu isso, acho que foi o Ricardo Baptista Leite até no início da intervenção, que estavam mais pessoas no último quinzenal do que vão estar na cerimônia. E nós já tivemos a oportunidade de olhar até para o desenho do que vai ser a cerimônia do 25 de Abril no sábado, e vai estar menos gente do que a que está nas plenárias, menos gente do que está nos debates quinzenais, nas declarações de estado de emergência, e nunca vi a esmagadora maioria das pessoas que estão no espaço público preocupadas com a questão de saúde pública terem preocupação nessa altura. Nós escrevemos artigos, há um artigo que escrevi, já não me lembro agora se foi o plenário ou se foi o debate quinzenal, que a Rita Tavares é que estava lá, que diz que se sentiu incomodada. Nós contámos até depois para a RTV mais de 80 pessoas dentro do Hemiciclo. Não houve um pingo de indignação. Portanto, eu acho que a questão aqui não é só por ser uma questão de saúde pública, é por ser o 25 de Abril e é por isso que tem este picante todo.

Tu não deixas de fazer aqui a leitura de que houve também uma espécie de aproveitamento político da época e da cerimônia em si, ou um aproveitamento político da questão de saúde pública para precisamente mandar aqui mais umas ferroadas no 25 de Abril.

Haverá as duas coisas, sim, pessoas genuinamente preocupadas com a questão de saúde pública que é séria, e pessoas que, à boleia disso, aproveitam para criticar a cerimônia. É legítimo criticarem, não gostarem, podem eventualmente assumir.

A questão, parece-me, é a palavra celebração. Na verdade, isto é uma celebração, mas não é uma festa. Porque as pessoas na sua vida pessoal deixaram de poder celebrar o que quer que seja, aniversários, casamentos, batizados, e o Parlamento está a fazer uma celebração. Parece que dessa forma se está a dar exemplo errado. Mas acho que temos que separar as coisas e acho que as pessoas de bom senso separam as coisas.

Na verdade, é uma sessão solene e no fundo faz parte dos trabalhos da Assembleia da República. É uma sessão, neste caso é uma sessão que é uma sessão comemorativa, podemos utilizar essa expressão, mas é uma sessão solene e a ideia que eu fico é que ao longo dos dias fomos falando sempre em comemorações e deu sempre a ideia de que tínhamos sempre aqui centenas de pessoas a rebentar foguetes dentro do Hemiciclo. Eu queria só chamar também a atenção para uma coisa, que é: nós na semana passada tínhamos entrevistado Manuel Alegre, houve aqui aquela guerra de petições também aqui na BXDSoase, tivemos aqui o histórico socialista. Na altura, nós até confrontamos Manuel Alegre com esta questão que falávamos aqui também do aproveitamento político. Manuel Alegre não se quis meter muito nisso, mas a verdade é que mais ou menos 24 horas ou 48 horas depois avançava com uma petição que era para responder à hipocrisia e ao mau gosto e também à questão do aproveitamento político. Portanto, eu acho que todo este debate sobre o 25 de Abril e sobre essa sessão solene, sobre quem é que ia estar por lá, e acho que foi completamente tudo ao lado. Foram os grandes defensores do 25 de Abril, foram aqueles que também gostando mais ou menos do 25 de Abril, também acho que nunca centraram muito bem a questão no essencial. Foi Ferro Rodrigues que é o presidente da Assembleia da República, onde vai acontecer essa sessão solene. Portanto, eu acho que aqui não houve propriamente ninguém que tenha estado bem. Acho que já deviam ter se lembrado logo ao início de uma coisa muito simples, que era o que fizeram agora. Se era o 46º aniversário, vamos fazer aqui uma coisa simbólica, metemos lá 46 pessoas. Fazemos assim e dizemos: "Bom, isto aqui foi o número que nos lembrámos, são 46, há a lei dos 46, faz-se isto com os 46 e resolve-se a coisa muito mais facilmente e as pessoas pensam: "Bom, faz sentido. São 46 anos, 46 pessoas." Portanto, acho que aí todos iam acabar por aceitar isto um bocadinho melhor.

Porque, na verdade, o critério que usaram inicialmente na tal reunião da conferência de líderes, onde chegaram a um consenso sobre os moldes da realização da cerimônia, foi um bocadinho estranho, no mínimo, porque nas sessões plenárias normais, onde há debate, a regra é um quinto dos deputados presentes na sala. Nas sessões em que há votação, é preciso estar metade do quórum para efeitos de votação. Portanto, são 116 deputados mais um. E neste caso, era um terço das bancadas. Portanto, por que estar a avançar com outro critério diferente que não um quinto, que já existia para as outras sessões? Foi assim uma coisa um bocadinho estranha, que era desnecessária, como dizes, mais valia ter se encontrado um modelo simbólico, e já se tinha que se prever que iria dar este gênero de discussão. E fazia-se assim um modelo simbólico, claro que os deputados têm que estar presentes, claro que têm que convidar pessoas, personalidades de fora, mas fazia-se a coisa dentro dos moldes destes novos tempos que exigem.

E entretanto houve um debate quinzenal onde praticamente não se falou disso e a única vez que se falou foi Ricardo Batista Leite do PSD, se não estou em erro, para elogiar o modelo que foi encontrado, portanto, acabou tudo bem. Precisamente. E a verdade é que vai haver, de facto, muito menos gente do que aquilo que tem sido habitual nestes dias em que há debates ou que há votações, enfim, e portanto, talvez a polêmica tenha sido um bocadinho uma polêmica estéril, com o contributo de todos, inclusivamente do presidente da Assembleia da República. Tu querias terminar com mais uma intervenção, Rui Pedro?

Não, só ia dizer aquilo que a Rita disse, só reforçar isso, que de facto a primeira versão não é esta e de facto a primeira versão previa mais pessoas. Ainda assim acho que seriam menos das que estão normalmente no plenário, eventualmente, porque se diziam que era o máximo de 130. Podia ser mais ou menos a mesma coisa, não diria menos, mas eu julgo que às vezes podem estar ali nas imediações mais de 120, 130 pessoas, até porque há muitos deputados que ficam no bar e nós também já denunciámos isso noutras ocasiões.

Sim, todos os dias recente.

Mas depois houve uma redução da parte de praticamente os grupos parlamentares todos. O PS reduziu, o PSD reduziu, o Bloco reduziu e o CDS reduziu.

Estamos em 48 neste momento. Tirando o PCP, toda a gente fez uma redução daquele número inicial que tinha previsto e até os próprios convidados acabaram por alguns deles recusar o convite, desde ex-presidentes da República até outras figuras do protocolo. Curiosamente uma das figuras do protocolo que não recusou o convite e que vai lá estar presente é o cardeal patriarca de Lisboa, o que significa que a Igreja não se quis pôr de parte desta cerimônia, o que não deixa de ser curioso, tendo em conta que se discutia tanto aqui, enfim, direita, esquerda, conservadores e tal, e a Igreja vai estar de facto presente nesta cerimônia. Estamos já com muito pouco tempo nesta primeira parte, antes de sentarmos à mesa o nosso convidado, e que não está inteiramente desligado daquilo que estivemos a falar daqui, já vamos falar sobre isso. Para já, eu queria, antes de servirmos a Vichy Soares, queria ainda servir de entrada uma sopinha de couves de Bruxelas, porque é inevitável, tendo em conta o que se passou ontem, quinta-feira, houve um Conselho Europeu e vimos, Rui Pedro, tu que ainda por cima segues com muita atenção tudo o que se passa em Bruxelas, viste um primeiro-ministro mais otimista do que aquilo que temos visto noutros conselhos europeus.

Sim, muito rapidamente, porque sei que temos pouco tempo. Vi mais otimista, sempre com alguma reserva, mas quis dar esse sinal de que houve uma evolução. Ele diz que ainda não sabe se tem uma bazuca ou uma pressão de ar. Eu diria que ele tem uma G3.

Para manteres a linguagem bélica do primeiro-ministro relativamente a isto. O que sabemos no essencial é que ele está à caça, não é mais ou menos isso.

É uma arma que também está associada, de uma maneira ou de outra, está associada ao 25 de abril. Mas é uma G3 por quê? Porque um dos problemas da G3 é que encravava algumas vezes, ouvi dizer, não sou especialista em armas nada do gênero. E portanto é uma arma que dispara bem, mas que pode encravar e eventualmente se estiver obsoleta e se se retira os erros do passado. E portanto, aí nesse aspecto, a grande dúvida que existe é se o tal fundo de recuperação será um fundo que chega em forma de transferências sem reembolso, ou seja, vem o dinheiro como fundo comunitário ou fundo perdido, ou se é empréstimo e cria mais dívidas sobre o país. Isso faz toda a diferença.

Ou se é um sistema misto que meta as duas coisas.

Só que se for misto não se sabe se é 90, 10 pra um lado, se é 55, 40, 60 e tudo isso pode fazer muita diferença em coisas avulso. Havia um draft da comissão que dizia que a fundo perdido era só o dinheiro que já era previsto pra coesão. Ora aí não se ganha nada. Aí ganha-se mais empréstimos em cima de outros empréstimos. Vamos ver o que é que vai sair de lá. Otimista, mas com reserva.

Com reservas, sobretudo porque é fundamental aquilo que sair aqui de Bruxelas. Espera-se para já várias semanas de negociações. Ainda há muita coisa no ar, muita indefinição, mas é importante para Portugal e é importante para António Costa, sobretudo porque ele tem feito finca pé de que em Portugal não vai haver austeridade como resposta à crise econômica que surge como consequência da pandemia, e é muito importante que ele tenha fundos disponíveis para precisamente evitar ter que tomar outras medidas. Assistimos a essas declarações ainda neste debate quinzenal desta semana e essa será precisamente a tônica e a estratégia de António Costa. Nós neste momento não temos mais tempo para discutir estes assuntos, que são bons e são produtivos, porque como é habitual convidamos sempre para almoçar conosco uma das figuras da semana política. E se falávamos de Ferro Rodrigues e falávamos da polêmica do 25 de abril, houve digamos um antagonista ao presidente da Assembleia da República, que foi precisamente João Almeida, chegamos a falar dele aqui nesta primeira parte. João Almeida, deputado do CDS, vai se sentar conosco na segunda parte da Vichy Soares. Até já.

Olá, sou Manuel Costa Machado, sou jornalista e escrevo sobre tecnologias e startups no Observador. Em fevereiro, estava em São Francisco e já escrevia sobre as medidas especiais num grande evento de lançamento de smartphones para evitar a propagação do coronavírus. Agora, estou envolvido nos esforços do Observador para encontrar e contar as melhores, as mais importantes histórias sobre a forma como este vírus mudou as nossas vidas, como as empresas se adaptam para funcionar e como as startups querem ajudar. A tecnologia muda o mundo e é uma arma importante. O jornalismo de qualidade é fundamental para compreender este novo mundo, mas isso tem um custo e precisamos da sua ajuda para continuar. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.

Olá, bem-vindos à segunda parte da Vicissudes. Mesa posta, convidado à mesa, João Almeida, deputado do CDS. Bem-vindo à Vicissudes.

Olá.

Esta semana foi uma semana onde esteve com bastante protagonismo no Parlamento, até por ter tido ali uma troca de argumentos com o presidente da Assembleia da República. O que é certo é que neste 25 de abril não vai estar no Parlamento. O lugar do CDS vai ser ocupado por Telmo Correia, se não estou em erro.

Ainda não está fechado.

Ainda não está fechado, mas admite a possibilidade de ir, é isso?

Como?

Admite a possibilidade de ir?

Não, eu não estarei, mas ainda não está fechado quem estará.

Muito bem. Pronto, em todo o caso, se estivesse nesta cerimônia do 25 de abril, há aqui uma dúvida que nos assiste, que é: ia ou não mascarado?

Mascarado não ia, de certeza. Há que ter respeito por aquilo que é a situação atual e por quem tem que andar de máscara obrigatoriamente. De resto, há regras. Eu, no Parlamento, tenho feito o mesmo desde que esta situação começou, que é quando ando em espaços em que posso cruzar com as pessoas e que posso ter interação próxima com as pessoas, uso máscara. Quando estou em espaços em que obviamente o distanciamento social está assegurado, como na primeira fila da bancada para intervir, obviamente que aí retiro, porque o uso de máscara ou não, não é uma questão folclórica, como o senhor presidente da Assembleia da República opôs. É uma questão de saúde pública e há regras para isso, e todos nós devemos respeitar as regras.

Esta expressão "mascarado" foi exatamente uma expressão usada por Ferro Rodrigues, já que falamos disso na primeira parte da Vicissudes. Tem, aliás, o João Almeida sido um dos mais fortes críticos de Ferro Rodrigues na questão da gestão que tem sido feita desta cerimônia. Acha que Ferro Rodrigues não esteve à altura daquilo que lhe era exigido nesta altura, neste debate, nesta polêmica?

Eu sendo crítico, tenho tido imensa concorrência nessa função. Aliás, acho que tenho tido concorrência do país quase todo, porque se há coisa que é quase unânime é que um presidente da Assembleia da República, segunda figura de Estado, devia ter tido um comportamento substancialmente diferente relativamente a esta questão. Por duas razões: quer a questão de saúde pública ligada ao Covid, quer a questão da comemoração de uma data tão importante como o 25 de abril, onde se celebram valores como o valor da liberdade e o regime democrático em que vivemos, uma e outra são razões de união do país. Sendo razões de união do país, vá alguém conseguir explicar que a segunda figura de Estado, presidente da Assembleia da República, seja quem divide, quer por uma coisa, quer por outra. Ou começou por dividir, eu acho que no fim consegue unir quase, porque a esmagadora maioria do país está contra ele. Mas é uma união que não era certamente desejada nestes termos pelo presidente da Assembleia da República.

João Almeida, esta questão começou por ser uma questão de saúde pública, como é evidente, mas depois tornou-se, dada a altura, uma discussão mais de esquerda-direita. Mas a verdade é que parece que foi até o PSD que propôs este modelo da sessão solene e até saudou este modelo minimalista de sessão solene do 25 de abril e a responsabilidade que vai haver na comemoração do 1º de maio. Diria que o PSD dá mais importância ao 25 de abril do que o CDS?

Não, de maneira nenhuma. Acho que essa questão do PSD é usada pelo presidente da Assembleia da República pra se tentar legitimar. A questão, o PSD propôs aquilo que achava que faria mais sentido. Tudo bem, nós não concordamos, mas isso é uma discussão que é feita na conferência de líderes e que poderia ter ficado lá, não fosse o presidente da Assembleia da República, a partir daí, lançar-se numa cruzada e querer pôr uns contra os outros. Isto não é uma discussão de esquerda-direita, como aliás se viu pelas posições, seja de João Soares ou de Vítor Moreira. São insuspeitos de ser de direita. Ou António Pires de Lima, que ao contrário, achou que a celebração se devia fazer nestes termos. Portanto, isto não foi esquerda-direita. Nem é anormal que numa situação de exceção como esta, haja diferentes opiniões sobre como celebrar. O que é totalmente anormal é que um presidente da Assembleia da República se lance nesta cruzada pondo uns contra os outros, não apenas por um modelo de cerimônia, mas querendo tirar daí consequências que são próprias de quem acha que é dono de valores, dono de um regime e, no limite, até dono do Parlamento.

Então em nenhum momento receou que esta polêmica viesse reforçar a ideia de que a direita não gosta do 25 de abril?

Não, pelo contrário, acho que o que esta polêmica provou é que à esquerda há muita gente que lida muito mal com a liberdade de opinião e com a diversidade das opiniões. E, portanto, não houve ninguém à direita que questionasse a liberdade do Presidente da Assembleia da República e outros defenderem este modelo de comemorações. Ou foi à esquerda, um presidente da Assembleia da República, que resolveu criar toda esta situação, pondo rótulos, distribuindo acusações, sem qualquer sentido.

João Almeida, falava aí dessa questão da diferença de opiniões. O CDS neste momento é oposição. Temos visto António Costa, o primeiro-ministro, numa série de entrevistas. Aliás, já houve quem assinalasse isso mesmo, que António Costa e o governo têm estado num périplo por vários programas, conferências de imprensa. Quase todos os dias o primeiro-ministro tem falado. Reconhece que a pandemia da Covid-19 veio tornar também mais difícil o papel da oposição? Pode haver aqui algum momento em que esta pandemia possa favorecer de alguma forma o governo e o primeiro-ministro?

Acho que aí depende de como cada um exerce as suas funções. Eu acho que é um papel muito importante nesta conjuntura para a oposição, que é em tudo aquilo que o governo não age bem ou em tudo aquilo que escapa à ação do governo, fazer o papel que uma oposição tem que fazer antes de mais nada, que é representar todos aqueles que possam a qualquer momento não estar a ser ouvidos ou que possam não estar a ser tratados devidamente. Eu dou aqui dois exemplos. Se não houvesse a oposição a denunciar, tinha havido a noção de que, por exemplo, em relação aos lares, onde está grande parte do problema do efeito desta pandemia, que os equipamentos de proteção individual não estavam a chegar a quem lá trabalha e que os testes nos idosos não estavam a ser feitos de forma igual em todo o país? Se não tivesse ouvido a oposição a dizê-lo, isso podia ter demorado muito mais tempo a ser resolvido. Outra questão essencial: a questão do lay-off. Quantas alterações já foram feitas ao lay-off que foram provocadas, em muitos casos, por críticas da oposição? E ainda continuamos a fazê-las. Por exemplo, em relação aos sócios-gerentes, que continuam a ficar de fora na esmagadora maioria dos casos, o que pode pôr em causa indiretamente muitos postos de trabalho e diretamente uma parte da atividade económica. Portanto, há muito espaço para, sem pôr em causa o combate a esta situação, que é isso sim uma causa nacional, de todos contribuirmos dentro daquilo que são as nossas funções para o sucesso nesse combate. O que não é suposto é numa situação excepcional, o governo passar a fazer da oposição ou a oposição passar a fazer de governo. Cada um tem o seu lugar e deve interpretá-lo de forma competente num momento excepcional como este.

E tem visto alguma oposição fazer de governo ou querer fazer de governo?

Não, isso é óbvio. Eu não gosto de falar indiretamente. Houve escolhas que foram feitas, o PSD fez uma escolha de estar numa lógica de cooperação ou de colaboracionismo, não quero ser eu a classificar, porque acho que isso é o PSD que deve clarificar, mas eu acho que é mais útil na oposição uma lógica de procurar representar todos aqueles que num momento tão difícil como este possam estar a ficar para trás. Acho que essa é a escolha do CDS, é uma escolha certa.

E o CDS não sente que por vezes está a fazer oposição ao PSD?

Não, porque o PSD não é governo.

Mas a verdade é que o PSD, assim como o PS, subiram nas sondagens em função desta resposta à pandemia e à crise. O CDS não corre o risco de estar a apostar na estratégia errada?

Eu acho que nunca é errada a estratégia de representar as pessoas, principalmente para um partido que na oposição tem obrigação de dar essa voz a quem não a está a ter. Mal do político que no meio de uma crise, a preocupação que tenha é a das sondagens. Não porque elas não sejam importantes, mas porque estamos obviamente a meio desta situação. Eu acho que se representarmos bem as pessoas, vamos conseguir explicar isso e vamos conseguir, no futuro, dar sentido a um voto no CDS, que é um voto que as pessoas sabem que vale para que, no momento, se não estiverem a ser consideradas, se não estiverem a conseguir fazer chegar a sua voz a quem decide, é um voto que lhes permitirá ter essa voz.

João Almeida, mas deixe-me só voltar aqui um pouco atrás quando falou da questão da oposição e do muito espaço que a oposição tem. A verdade é que antes desta situação que ninguém previa, havia sinais de que a economia podia arrefecer em Portugal. Isso já estava, aliás, a dar alguma complicação na relação entre o governo e a esquerda. Teoricamente, a oposição nessa altura teria mais espaço, porque o governo já não tinha os mesmos entendimentos com a esquerda, estava ali numa espécie de impasse onde teria de negociar à esquerda e à direita. Portanto, era previsível que o papel da oposição, sobretudo à direita, sobressaísse. Para além do mais, se os resultados económicos ficassem aquém, pelo menos agora, o governo não tinha tanta justificação para argumentar com a crise externa ou a situação lá fora. A verdade é que com a chegada desta pandemia, tudo isso mudou. E portanto, do ponto de vista político, tudo isso desapareceu. E a questão é se a oposição ainda tem agora uma narrativa para, de facto, se oferecer como alternativa a um governo que já não governa o país com projetos de curto, médio ou longo prazo, mas está apenas a tentar gerir uma situação inédita.

Eu tenho uma experiência exatamente contrária, de participar numa maioria que estava a gerir o país exatamente numa circunstância dessas, e o que não faltou foi oposição. Mais ou menos responsável, dependeu dos períodos e dos partidos. Agora, em democracia, o que não pode haver é unanimismo, porque se nós caminharmos para uma lógica de unanimismo, dizer a situação é tão grave que temos que estar todos com o governo, então e se o governo errar? Então e se o governo falhar a alguém? Não há problema, porque o que interessa é estarmos todos do mesmo lado? Eu não vejo a política assim, vejo a política como uma lógica de representação e, portanto, o que nós temos que fazer é não estar a fazer a oposição pela oposição, é não estar a ser contra o governo porque somos oposição, é estar a ser a alternativa ao governo Porque há áreas e há pessoas que não estão a ter a resposta que poderiam ter. E isso não se faz numa lógica destrutiva, faz-se numa lógica construtiva, apresentando e chamando a atenção para aquilo que é necessário fazer. Acho que é isso que o CDS deve fazer e acho que no espaço atual há à direita muito espaço para a criação dessa alternativa e para uma visão diferente.

João Almeida, passando agora um pouco para a vida interna do partido, já passaram alguns meses da liderança de Francisco Rodrigues dos Santos. Já é possível fazer um balanço destes primeiros tempos à frente do partido, já que o Enfermantou nas últimas eleições internas?

Sinceramente, acho que era injusto dizer. Desse período já passou, de facto, algum tempo, grande parte desse período correu numa situação manifestamente excepcional. Portanto, duas coisas: nunca faria a primeira apreciação disso em público, falei nos órgãos próprios do partido, quando houver condições para eles reunirem, mas também ainda que pudessem reunir já, há um condicionamento muito grande daquilo que é a intervenção partidária, em função daquilo que aconteceu, principalmente quando é uma liderança partidária que não está no Parlamento e, portanto, nestas circunstâncias, menos espaço tem ainda.

Mas dá um álibi ou, por outro lado, está a demonstrar que está algo diferente?

Não é um álibi. Eu não estou a dizer que é insuficiente ou mau ou qualquer coisa, por causa do que está a acontecer. Eu estou a dizer que não se pode analisar por causa do que está a acontecer. É óbvio que não seria igual qualquer liderança partidária, muito menos uma liderança partidária nova, e ainda menos uma liderança partidária nova que não está no Parlamento, numa circunstância como esta que está a acontecer.

Como é que tem sido essa articulação entre o líder do partido e a comissão executiva com o grupo parlamentar? Tem sido frequente? Melhor do que se espera?

Isso é feito com o líder parlamentar e, portanto, terá que ser o líder parlamentar a dizê-lo.

Não há um contacto direto dos deputados com o presidente do partido, é sempre através do líder parlamentar Telmo Correia, esse contacto?

Sim, por regra, sim. Não tem havido solicitação da parte da direção do partido, que eu saiba, aos deputados individualmente. Houve contactos, mas muito poucos.

Não fala muito com Francisco Rodrigues dos Santos, é isso?

As vezes que ele entende que são úteis, presidente do partido. Eu, como presidente do partido, se tivesse ganho no congresso, nunca estaria à espera que as pessoas me ligassem. Tomava a iniciativa de ligar e, portanto, a quem eu ligasse ou com quem eu falasse, sentiria a utilidade da sua participação.

Mas já recebeu muitos telefonemas dele, do líder do partido?

Não.

O que é que faria de diferente? Eu sei que não é muito cordial, se calhar, estar a responder a esta questão.

Direi isso no Conselho Nacional do Partido quando reunir.

Mas significa que já identificou algumas coisas que eventualmente faria diferente.

Não precisava de identificar, isso é prévio ao Congresso. Eu apresentei uma perspectiva diferente. Perspectiva não tem o resto do pré, portanto, não tenho uma noção muito democrática daquilo que são as escolhas do partido. O partido fez determinado tipo de escolhas. Eu tinha apresentado projeto diferente. Nem passei a achar que aquilo que apresentei não fazia sentido, mas também não ignoro o resultado que saiu do Congresso e a legitimidade que tem quem pensa de forma diferente, porque ganhou o Congresso.

Mas em relação à resposta a esta pandemia, faria muito diferente do que aquilo que Francisco Rodrigues dos Santos está a fazer? Estes são tempos diferentes, não é um tempo normal de liderança partidária.

Seria profundamente injusto estar aqui a fazer essa apreciação, quer pela conjuntura, quer pelo fato de não ter ainda nunca reunido o Conselho Nacional do Partido, que é o espaço onde eu acho que essas questões devem ser discutidas, e falo aí lá.

João Almeida, deixe-me só fazer-lhe aqui uma pergunta antes de terminarmos esta parte, até porque sei que tem outros compromissos e, portanto, queria-lhe só perguntar: está confinado em casa, mas ainda assim, como é que vai celebrar o 25 de abril?

Provavelmente com alguma posição online, vendo aquilo que são outras celebrações. Agora, eu como sou democrata, mesmo na gestão caseira e profundamente defensor da liberdade, será um dia como os outros, em que a liberdade é provavelmente o valor mais importante, até nas pequenas escolhas que se faz em casa.

Muito bem, vamos, João Almeida, terminar a nossa refeição em conjunto nesta véspera do 25 de abril com o que falta do nosso menu. Servimos a vichyssoise, falta agora pedir-lhe que escolha entre a carne ou o peixe. E é muito simples, João Almeida, temos aqui quatro questões onde lhe damos duas hipóteses de resposta. Pedimos-lhe que escolha uma no menu porque não gostamos, naturalmente, que o nosso convidado saia deste programa com fome. Portanto, vamos agora oferecer-lhe aqui as duas opções, ou a carne ou o peixe. João Almeida, quem deve retomar primeiro a normalidade da atividade económica? O Luís, que é dentista, ou o Zeferino, que é cabeleireiro?

O Luís, que é dentista.

João Almeida, preferia usar um cravo na lapela ou vestir a camisola do Belenenses SAD?

Vestir a camisola do Belenenses.

Não era essa a opção. Se tivesse vencido as eleições internas para líder do CDS, quem escolhia para vice-presidente? António Carlos Monteiro ou Francisco Rodrigues dos Santos?

Francisco Rodrigues dos Santos, sempre disse que convidaria qualquer um dos outros candidatos para trabalhar comigo.

João Almeida preferia voltar a ser presidente do Belenenses ou voltar a ver o partido liderado por José Ribeiro e Castro?

Voltar a ser presidente do Belenenses.

E pronto, não podemos dizer que saiu conforme, fez as escolhas, escolheu tudo. Foi dos nossos convidados que respondeu mais rapidamente. Mais rapidamente, é verdade. A parte do Belenenses, é natural que não queira todos os pratos deste nosso menu de degustação. Apesar de tudo, há coisas que se mantêm iguais. Uma delas é que a sobremesa é trazida pelo nosso convidado para fecharmos o programa. Fez aqui uma escolha, eu não diria surpreendente, mas gostava que explicasse um pouco o porquê de escolheu Pedro Barroso. Chamar-lhe música é um bocadinho estranho.

É um poema ligeiramente musical.

Um poema ligeiramente musical, é assim que se refere a ele. Chama-se "Agora Nunca é Tarde", é do álbum "Memória do Futuro", ao vivo no Rivoli. E para quem está a ouvir agora este encerramento da "Vici Suas", talvez soe estranho, porque não vamos ouvir ninguém a cantar, vamos ouvir Pedro Barroso a declamar um poema com música e eu gostava de saber porque o João Almeida escolheu esta forma de encerrarmos o programa.

Escolhi por algumas razões que são simples de explicar. Acho que o Pedro Barroso foi um autor extraordinário, porque compunha, escrevia e cantava. Tem muito a ver com uma geração que é contemporânea do 25 de Abril, muito influenciada também por uma tradição francesa neste mesmo sentido dos cantautores. E o Pedro foi um amigo com quem muitas vezes, como calcularão, não estávamos propriamente do mesmo lado nas opiniões sobre política, é conhecido o pensamento do Pedro Barroso, mas que muitas vezes me mandava mensagens na sequência de debates parlamentares, conversávamos, nós conhecemo-nos de outra realidade, do Belenenses, onde surgiu a nossa amizade. Ele era adepto do Belenenses também. E durante muitas vezes troquei opiniões com o Pedro e era fantástico ser amigo de alguém com uma noção tão profunda da liberdade. E eu achei que celebrando o 25 de Abril amanhã, tendo o Pedro deixado o nosso mundo há muito pouco tempo, que era uma homenagem que fazia todo o sentido, ainda por cima num poema que na parte final tem duas expressões que eu acho extraordinárias e que nos dizem muito também neste momento que estamos a enfrentar, não agora do 25 de Abril, mas do combate a esta pandemia. O Pedro diz que nos cumpramos até ao fim e que não abdiquemos de pensar. Isso é muito importante. É muito importante que mesmo nas situações mais difíceis, nós nos cumpramos até ao fim. Nunca abdiquemos disso. E outra coisa que nunca podemos abdicar é de pensar, não deixar que os outros pensem por nós. Partilho muito estas reflexões do Pedro e acima de tudo, tenho uma grande admiração por ele e acho que ele merece esta homenagem.

E é com esta homenagem a Pedro Barroso que terminamos esta edição da "Vici Suas". Obrigado, João Almeida. Já sabe que o programa repete na Rádio Observador em vários horários durante o fim de semana e também está disponível em permanência em observador.pt e nas plataformas de podcast.

Cada um de nós nasce com um artista lá dentro, um poeta, um escultor, um aventureiro, um cientista, um pintor, um arqueólogo, um estilista, um astronauta, um cantor, um marinheiro. E o sonho e a distância e o tempo e a saudade darão-nos vida, amor, problemas, mentiras e verdade. E damos por nós mesmos descobrindo que agora, se calhar, já é um pouco tarde. E nas memórias velhas e secretas da menina, mora sempre aquele sonho de ser bailarina, atriz, modelo, princesa, muito rica ou sei lá. Mas os anos correram num assombro e a vida foi injusta em qualquer jeito pra chama indelével que ainda arde. E os filhos? Os filhos são bonitos no seu peito, mas agora é que pra certas coisas, agora já é tarde. E nos papéis antigos que rasgamos, há sempre meia dúzia que ainda guardamos. São os planos da conquista do Polo Norte, que fizemos um dia com sete anos, numa tarde, e que estiveram perdidos tantos anos. E agora, se calhar, maldita sorte, não é que por desnorte, acaso ou esquecimento, alguém já descobriu o Polo Norte? E agora pronto, agora já é tarde. Há sempre, sempre, nas gavetas, escritores secretos, cientistas e doutores, desenhos e projetos construtores, feitos em meninos, de tudo que sonhámos fazer quando fosse a nossa vez. Cientistas em busca de Plutão, arqueólogos do Egito, viajantes sempre sem destino, futebolistas de sucesso, caramba, no Inter de Milão. Mas o curso da vida foi traidor e o curso da vida foi cobarde e o ciclo do tempo completou-se. E agora pronto. Agora já é tarde. Agora é tarde. Emprego, casa, filhos muito queridos, sonhar um pouco com os amigos. Às vezes sair, beber uns copos pra esquecer ou pra lembrar e fazer ainda, é claro, um certo alarde. Talvez pra esconder ou pra abafar como é já tão demasiado e impiedosamente tarde. Ah, mas não, não. Não pode ser assim. Nunca é tarde pra roubar. Nunca é tarde pra sonhar. Nunca é tarde. Amanhã partimos todos pra Istambul, Vladivostok, Alasca, Oslo, Dakar. Vamos à selva Baltimore abraçar aquela gente e às montras de Amsterdã, que ao final também não são diferentes. E chegando a Tóquio, companheiros, chegando a Tóquio, são horas de jantar. É que ainda temos que voltar por Bombaim, passando por Macau e Calcutá, que eu encontro Portugal em todo lado e mesmo fugindo, nunca saio de mim. E se esse marinheiro Galã, aventureiro. Esse já não há? Pois que nos cumpramos ao menos agora até o fim, no que fazemos, na diferença do que formos e dissermos e perguntando, criando rebeldias, conferindo aquilo que acreditamos e o que ainda formos capazes de sonhar. E se aquilo que nos dão todos os dias não for coisa que se cheire ou nos deslumbre, que pelo menos nunca abdiquemos de pensar, com direito à ironia, ao sonho, ao ser diferente. E será talvez uma forma inteligente de, afinal, nunca ser tarde demais para viver. Nunca ser tarde demais para perceber. Nunca ser tarde demais para exigir e nunca ser tarde demais para acordar.

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