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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Álvaro Lessa, uma presença assídua neste programa, dirigente do Partido Socialista, apoiante desde a primeira hora de António José Seguro e amigo até, assumidamente amigo de António José Seguro. Bem-vindo mais uma vez à Vixi Suave.

É um gosto estar aqui.

Vamos ao assunto do momento. Durante muito tempo, o Partido Socialista pareceu com dificuldade em encontrar um candidato presidencial. Ficou satisfeito por esta semana ter arranjado não um, mas dois candidatos presidenciais?

Vocês têm sempre humor, é por isso que eu gosto de vocês. O candidato do Partido Socialista é o António José Seguro. Aliás, como seria de outra maneira, tendo um ex-líder candidato, é natural que o Partido Socialista o apoie. Agora, o Partido Socialista é uma casa de gente livre, de homens e mulheres livres, na velha tradição republicana e liberal. E portanto, é natural que haja alguns que não estejam com ele, sempre foi assim.

Mas nem era o alcance da nossa pergunta, é que Henrique Gouveia e Melo assumiu-se como representante do Partido Socialista.

Isso é um problema do almirante Henrique Gouveia e Melo. Eu acho que isso vai ser visível. Não quer dizer que não haja alguns socialistas, há gente do PSD. As candidaturas presidenciais são individuais e, portanto, é natural que o almirante tenha apoios no PS, no PSD, em vários partidos. Agora, a esmagadora maioria dos socialistas, dos militantes socialistas e eu espero, dos eleitores socialistas, vai votar no António José Seguro, até por uma questão de equilíbrio ou desequilíbrio atual do sistema político português, que está muito inclinado pra direita.

Mas consegue compreender o porquê de Henrique Gouveia e Melo ter dito o que disse? E já agora, que comentário é que lhe merece?

Isso é natural. São eleições, é natural que ele tente ir buscar eleitores ao PS. Faz parte. Sabe que eu gosto da política com fair play como o desporto. Portanto, a gente tem que respeitar os adversários. E sinceramente, eu já disse isto várias vezes, nós temos vários candidatos a presidente da República que dariam bons presidentes da República.

Henrique Gouveia e Melo daria um bom presidente da República?

Sim, são pessoas qualificadas. O almirante Gouveia e Melo é uma pessoa a quem o país deve muito. Deve muito na Covid, na organização da Covid, mas não só. Foi um grande comandante de submarino, foi um excelente chefe de Estado-Maior da Armada, mas também quando esteve com o anterior chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, ajudou uma reforma do Estado-Maior das Forças Armadas, de juntar, de agregar e uma reforma importante das Forças Armadas. Portanto, é um militar com provas dadas. A questão é que como em tudo na vida, isto são eleições presidenciais em que me parece óbvio, é pelo menos a minha opinião e acho que muitos portugueses, alguém que seja político, com experiência política, até porque o que está em causa hoje em Portugal e no mundo é esta ideia do sistema e do antissistema. Ora, o sistema é a democracia pluralista e a liberdade das democracias ocidentais que vêm das luzes e nomeadamente do parlamentarismo inglês com 500 anos, da república americana que vai fazer 250, dos países europeus após Segunda Guerra, nomeadamente com democracias consolidadas, e são os países melhores para se viver. Não é por acaso que são estes países, estas democracias, com políticos e partidos políticos, pra onde os imigrantes mais querem ir, seja para os Estados Unidos, pra Europa. Os imigrantes não vão pra Rússia ou pra China, não procuram outros países, procuram estes. Procuram pela economia, mas também pela liberdade que isto tem. Claro que é preciso regenerar a confiança das pessoas nos políticos. Nós precisamos de políticos decentes, éticos, à prova de bala. Isso acho que António José Seguro faz na perfeição. É uma pessoa que do ponto de vista ético, é absolutamente inatacável, tem experiência política e depois tem a vantagem de sendo um moderado vindo do Partido Socialista, sendo, portanto, um homem de esquerda, que sempre esteve à esquerda, mas é do centro-esquerda. É um homem que sabe fazer pontes também com setores à direita. O presidente da República tem que ser um árbitro, tem que ser um equilibrador e acho que ele tem essas condições pra o fazer muito bem.

Vamos tentar desfazer um bocadinho o fair play que tem demonstrado. Apesar de tudo, há um dado suportado por todas as sondagens feitas até o momento. Existe uma fatia expressiva do eleitorado do Partido Socialista a preferir Henrique Gouveia e Melo. Consegue perceber por quê?

Tem a ver também com o Covid, que eu gostava de dizer, a questão da gratidão daquilo que ele fez no tempo da Covid.

Mas não é por mérito de António José Seguro? É só uma questão de mérito de Henrique Gouveia e Melo?

Eu sinceramente acho que as sondagens são importantes, mas o candidato com mais sucesso nas sondagens são os indecisos e, portanto, são aqueles portugueses, vai metade, que ainda não decidiram quem vão escolher. Estou muito confiante que os portugueses vão querer equilibrar o sistema político. Aliás, hoje o sinal é um sinal claro da greve geral, de que os portugueses não querem ultraliberalismo.

E acha que isso dá um sinal pras presidenciais, o que está a passar hoje?

É um sinal pra vários, pra todos.

Sim, mas estou a falar das próximas eleições.

E pra esquerda, nomeadamente os eleitores que votam à esquerda, que têm que perceber que o sistema político está muito desequilibrado pra direita, todos os lugares que estão à direita, o atual presidente da República, Açores, Madeira, as principais Câmaras, o Governo, a maioria no Parlamento, nós precisamos de um equilíbrio, e esse equilíbrio faz sentido. Aliás, a própria Constituição foi desenhada pra haver esses checks and balances. E a maior garantia pra esse equilíbrio é alguém que venha da esquerda e que garante que o Estado Social será preservado E que a dignidade do trabalho também, o trabalho digno, que o Partido Socialista sempre defendeu e o anterior governo do Partido Socialista, e tenho a certeza que as pessoas percebem que alguém que é militante do Partido Socialista, mas que é um homem livre, independente, que pensa pela sua cabeça, tem essas características.

Mas deixe-me só perceber aqui uma coisa ainda relativamente a essa divisão que existe no Partido Socialista. Até agora, por exemplo, não há nenhum antigo líder do partido que tenha expressado o seu apoio a António José Seguro.

Ao atual.

Eu estou a falar de ex-líderes. Este ainda não é ex, até ver.

Mas vai ver, antigo líder.

Que também foi líder. É importante que figuras, por exemplo, que o podem fazer, como Eduardo Ferro Rodrigues ou Pedro Nuno Santos, apareçam em campanha?

É importante que apareçam todas as figuras relevantes do Partido Socialista, espero que elas apareçam. Isto é um caminho que se faz caminhando, e estou absolutamente certo que irão aparecer. É natural que o antigo primeiro-ministro do Partido Socialista, António Costa, é presidente da Comissão Europeia, não se queira meter nestas eleições, mas também já o disse numa frase, que ele é simbólico, que iria votar seguramente.

Acha que quer dizer que vai votar em António José Seguro?

Não sei, mas a frase é simpática, pelo menos.

E não tem dúvidas, então, que Pedro Nuno Santos venha a manifestar apoio?

Espero que sim, confio que sim, porque eu acho que o Pedro Nuno, independentemente de estar mais à esquerda, mais ao centro e de diferenças que há dentro do partido, o Pedro Nuno é um homem sério, uma pessoa decente, que luta na política por convicções, e isso é como António José Seguro. Sabe que hoje, o combate à corrupção e o combate à descrença na vida política faz-se pelo exemplo. Precisamos de políticos absolutamente exemplares. Do ponto de vista ético, da seriedade, que não confundem política com negócios, e que só estão a serviço dos portugueses. E, portanto, o partido do António José Seguro são os portugueses. Não é Portugal, são os portugueses.

Nessa perspectiva também, tem colocado António José Seguro como um exemplo dessas características que está a dizer, mas a verdade é que ele não tem conseguido disparar nas sondagens e até tem descido. O que está a falhar?

Não está a falhar nada.

Ou está a fazer tudo bem.

A campanha está agora a ser organizada, montada. Nós só teremos campanha a seguir ao Ano Novo. As pessoas também precisam de descanso para Natal. Agora é a altura de Natal e Ano Novo. Acho que também carregar muito em cima das pessoas com isto não faz sentido. Há depois o mês de janeiro, dá tempo de sobra pra campanha eleitoral propriamente dita. O António José Seguro vai pro terreno, vai falar com as pessoas, vai percorrer o país, vai falar com os portugueses. Eu gosto muito da política inglesa, desde sempre. Eu sempre defendi, como sabe.

E vai muito apoiado pelo partido.

Por círculos unaniminais. E portanto, eu acho que os políticos têm que falar com as pessoas.

E vai muito apoiado.

Com o senhor da mercearia, da farmácia, do supermercado, com a dona de casa.

Mas vai muito a contar com as estruturas do partido, também?

Não, o partido está motivadíssimo e na campanha, na direção de campanha da candidatura, estão imensos dirigentes do partido e militantes do partido por todo lado.

Portanto, no terreno conta com essa estrutura, é isso? Já está instalado e quem portanto.

Não quero estar-me a repetir. A candidatura é individual, é independente, não é do Partido Socialista. É natural que sendo o António José Seguro militante do partido há 45 anos, eu sou há 40, ele foi líder da Juventude Socialista.

E utiliza essa estrutura.

É natural, tem laços de amizade, de camaradagem. E depois há esta questão política que é relevante, que eu estava a dizer. Acorda, esquerda, o PS já acordou, isso pra mim é claro, o PS já acordou, porque senão dia 19 vamos ter duas pessoas do lado da direita a disputar as presidenciais.

Já vamos a essa parte da esquerda, deixe-me só aqui acabar de explorar esta parte relativa ao Partido Socialista. José Luís Carneiro esta semana veio a sair em defesa de António José Seguro depois do debate com Henrique Gouveia Melo. Isto não é um apoio que já vem tarde e a más horas, como se costuma dizer? Até aqui o PS mal tem estado oficialmente ao lado de António José Seguro desde que lhe expressou o apoio.

Acho que vem na altura certa e acho que este caminho tinha que ser feito como foi. Já agora, há uma característica de António José Seguro que é esta, e é também por isso que eu estou com ele. Acho que Portugal precisa de um presidente sóbrio, que faz as coisas no seu tempo. A campanha pra presidente da República não é igual a uma campanha pra uma câmara ou pra um governo, não é um lugar executivo. Acho que nós precisamos de não termos beiraria a mais. Temos a preocupação da politiquice do dia a dia constantemente. E, portanto, sinceramente, acho que o tempo da campanha eleitoral a sério será janeiro. Até lá, estes debates são importantes, porque as pessoas ficam, ficamos todos a conhecer melhor os candidatos. O António José Seguro esteve muito bem nos debates, muito bem. Ganhou-os todos e aqueles que pode não ter ganho, mas empatou-os, quer dizer, esteve muito bem, não perdeu nenhum debate e não vai perder, vai ganhá-los. E, portanto, eu acho que isso é bom sinal, mas sobretudo, não é um candidato contra ninguém. Ele é um candidato por um país mais decente, mais equilibrado. Nós temos um país muito desequilibrado. Não é só a questão política, essa também. Interior, litoral, ele é um homem que vem do interior, nasceu em Penamacor, sabe o que é viver do interior e vir depois pro litoral, mesmo assim vive fora de Lisboa, vive nas Caldas da Rainha. Eu acho que isto é importante, porque é um português normal, é um de nós, é uma pessoa normal. Ter estado afastado da política é bom, porque esteve na vida de cada um de nós, dá aulas, criou uma empresa. Já agora, isso de criar uma empresa é importante, porque nós precisamos de empreendedores, nós precisamos de empresários, nós precisamos de jovens que se aventurem a criar empresas. E portanto, ele criou essa experiência, teve essa experiência e nós precisamos de equilibrar assuntos que estão desequilibrados.

Mas deixe-me insistir aqui ainda nas declarações de José Luís Carneiro. O facto de o líder socialista ter decidido aparecer assim que Henrique Gouveia e Melo disse representar o Partido Socialista, não é uma assunção de alguma fragilidade da candidatura de António José Seguro? É preciso vir o líder dizer: "Não, este senhor é que é o candidato do Partido Socialista."?

Não houve pedido nenhum para o líder fazer nada, foi uma atitude espontânea do José Luís Carneiro.

Mas as pessoas podiam ter alguma dúvida em relação ao candidato oficial do Partido Socialista.

Foi claro, não é? Que é para que não houvesse às vezes essas dúvidas, precisamente o que estás a perguntar. Acho que é óbvio que o candidato do PS é o António José Seguro. Mas voltando aqui ao ponto, eu acho que as candidaturas vão para além dos partidos. O presidente tem que ser um homem independente dos partidos. Não é acima, é ao lado. Sem partidos não há democracia. Isto é que eu gostava que fosse mais discutido. Eu tenho muito orgulho em ser militante do Partido Socialista e como se sabe, não deixei de ser livre e manifestar as minhas opiniões por ser de um partido político. E o António José Seguro idem às. Ele é um homem livre, pensa pela sua cabeça, faz o seu caminho. Não é por sermos de um partido que nos tornamos piores pessoas, pelo contrário.

Mas estamos aqui de alguma forma-

Estou simplesmente a dizer que eu tenho causas, convicções, ideologia, é bom isso.

Estamos aqui de alguma forma a ignorar um certo desconforto, não diria generalizado, mas algum desconforto que existe no Partido Socialista-

Ser candidato é desconfortável

...em relação à candidatura de António José Seguro. Houve várias vozes que se levantaram contra ou não propriamente entusiasmadas com a candidatura.

Quando o Jorge Sampaio se candidatou, havia muita gente também no PS que não foi logo com ele e é natural.

Mas repare, horas depois deste toque a rebate de José Luís Carneiro, Carlos César, presidente do partido, em declarações ao Observador, veio deixar o seguinte recado: "Cada pessoa, seja dirigente ou simples militante, simpatizante ou votante, fará e votará como entender e não será penalizado por isso." Não é mais uma evidência que há uma divisão no Partido Socialista?

Eu acabei de dizer a mesma coisa há bocadinho.

Sim, mas Carlos César veio de alguma forma responder a José Luís Carneiro.

Ele disse aquilo que é verdade. O partido é feito de homens e mulheres livres, não há delitos de opinião, era o que faltava, e a candidatura presidencial é individual, ponto. Agora, eu não tenho dúvidas que o Carlos César estará com o António José Seguro e participará na campanha. Portanto, assim como outros dirigentes do PS. Vamos lá ver. Ainda bem que o Partido Socialista é assim. O Partido Socialista é muito o pai desta democracia que nós estamos a ver. Ainda agora que tivemos o 25 de Novembro, o 25 de Novembro foi uma vitória política do Partido Socialista e de Mário Soares e da sua liderança. Eu tive, aliás, o privilégio, estive na Alameda e estive no primeiro de maio de 75, em que Mário Soares e o PS foi expulso, não pôde participar no primeiro de maio de 75, foi o primeiro sinal. Eu estava lá pela JSD nesse dia. E estive na Alameda também. O Partido Socialista foi quem liderou esse processo de evitar que nós fôssemos uma Cuba e, portanto, fôssemos uma democracia liberal pluralista. Agora, o Partido Socialista é de esquerda? É, mas é de uma esquerda moderada, é da social-democracia, da verdadeira social-democracia.

Deixe-me precisamente aproveitar esta sua afirmação, é que numa entrevista ao Público, há volta de um mês, Seguro evitou colocar-se na gaveta da esquerda. Entretanto, já veio afirmar-se como alguém da esquerda democrática e moderada. Foi um erro estratégico esse distanciamento inicial da esquerda?

Foi um erro estratégico. Todos nós cometemos erros e frases menos conseguidas. Eu já cometi muitos e ele também já cometeu e há de cometer.

Este foi um erro?

Foi uma frase menos feliz. Ele próprio já disse isso. Agora, a questão das gavetas, eu concordo. Vamos lá ver, nós não podemos estar em gavetas. Uma coisa é ser militante. Ele não entregou o cartão do militante do PS.

E deve continuar assim.

Claro, é militante do PS. Já agora, uma coisa muito importante. Ele é o que foi até agora nos últimos 40 anos. O que conta para mim num candidato a presidente da República, mais até do que noutras candidaturas, é o que ele foi nas últimas décadas. Por isso é que eu acho, por exemplo, o almirante, que não vai mal, que eu até tenho estima pessoal por ele e gratidão, como acho que os portugueses têm. Mas isto não é um concurso só de popularidade e de simpatia e de gratidão, porque senão o candidato com mais hipóteses era o Cristiano Ronaldo, é o português mais famoso. Não quer dizer que um dia não possa candidatar-se a presidente da República, mas cada um é bom naquilo que sabe fazer melhor e, portanto, isto é preciso ter currículo. Como eu disse, o almirante tem muito currículo na área militar, na área da defesa, da geopolítica, é um assunto que ele domina bem, que muita gente percebe. Agora, eu espero que Portugal não vá entrar em guerra, que a Europa não vá entrar em guerra, e sinceramente, acho que mesmo por causa dessa situação difícil a nível global das guerras, precisamos de um político com provas dadas, com uma experiência à vista de todos. Não é de um super-homem. Isto não vai lá com super-homem. Já com um homem normal, que nós conhecemos, com as qualidades e os defeitos. Eu não estou a dizer que o Seguro é perfeito. Não é. Erra como todos nós. Mas é um homem modesto, é simples, sabe reconhecer os erros se os cometer, ouve antes de decidir, é prudente. Nós precisamos de alguém em Belém que não se precipite, que seja prudente, que saiba ouvir, que saiba ser próximo, que seja empático, mas que ao mesmo tempo saiba gerir o silêncio.

Mas para chegar lá-

Que sabe gerir como ninguém.

Para chegar lá a Belém, ele vai ser capaz de convergir a esquerda. Tem capacidade para isso?

Se não achasse, não estava.

Estou a falar disso, porque há bocado falou no histórico de António José Seguro e de olhar para as últimas décadas. E nas últimas décadas, nomeadamente na fase da liderança dele do Partido Socialista, houve aquela questão da abstenção violenta no orçamento da troika.

Eu estive lá com ele, ganhamos as eleições.

Deixe-me só acabar, só para perceber onde é que eu quero chegar. A questão da abstenção violenta do orçamento da troika e depois também a abstenção na revisão do código laboral, revisão essa que incluía já a questão das compensações por despedimento, a questão das compensações e com a eliminação de quatro feriados também. A minha questão é se este currículo não é um problema para conseguir convencer a esquerda de que ele é um bom candidato presidencial.

Há uma esquerda que está incomodada com isso, mas ele pensou primeiro no país. Eu estava com ele e apoiei-o nessas decisões todas, porque se não fossem as intervenções do António José Seguro e do PS na altura e da direção do PS, com visitas que ele fez à Alemanha, com conversas regulares que tínhamos com a delegação da troika, a coisa tinha sido pior. Isto é, o que era melhor? Entrar em rutura ou tentar, apesar de tudo, limitar alguns danos e atenuar alguns desses problemas? Porque vamos lá ver, qualquer que fosse o governo, em bancarrota, teria que apertar o cinto. O PS, quando fez o bloco central liderado por Mário Soares, teve que apertar imenso o cinto. Aliás, por isso é que se achava que Mário Soares não tinha nenhuma chance como candidato a presidente, porque tinha sido um governo impopular, tinha que ter tomado medidas muito difíceis. Ninguém toma medidas difíceis assim à primeira. Nesta questão da troika, também, nós fomos obrigados a tomar medidas muito difíceis.

Mas a questão é que não era o governo. O governo depois até acabou por ser, de alguma forma, beneficiado, porque eleitoralmente ganhou as eleições seguintes, mas o Partido Socialista não.

O PS sempre tentou amenizar essas medidas e pensou mais no país. Eu acho que o António José Seguro pensou nele, até com o prejuízo de poder lhe acontecer o que aconteceu, porque ele tinha a noção que muita gente no partido e fora do partido não estava a gostar daquilo. Mas sabe que há uma coisa que eu costumo com ele, que somos amigos há 40 anos. Dormimos muito bem. Ele não toma comprimidos para dormir, tem uma consciência muito tranquila. Isso é muito bom.

A questão aqui era só sobre a capacidade de congregar a esquerda, que é um elemento importante.

Ele é candidato a Presidente da República, mas isto não é uma questão de vida ou de morte. Não foi fácil ele candidatar-se, porque ele ponderou muito isso, porque é uma decisão difícil, é preciso ter coragem. Uma pessoa hoje em dia para se expor, para estar numa campanha eleitoral, tendo família, tendo a vida já boa que ele tem, uma vida apesar de tudo muito boa, tem uma empresa, é professor, gosta imenso de dar aulas e os alunos adoram, que já me disseram em vários sítios, e isso é bom, porque é bom sinal, é sinal de que ele é bom professor. Mas tomar esta atitude... A atitude é: "Eu estou aqui disponível, com as minhas qualidades e os meus defeitos. Já me conhecem, conhecem-me bem, aliás, conhecem-me bastante bem. Eu sou assim. O que eu prometo é ser como eu sou, não vou mudar agora para ganhar votos." Ele é o que é. Eu não tenho dúvidas que ele será aquilo que a gente precisa. Alguém da esquerda, mas que é moderado e que vai ao centro e que sabe fazer pontes com setores à direita, porque o presidente tem que estar no meio. Alguém que é um social-democrata, um socialista democrata, que vai defender a saúde. E eu sei, eu conheço bem. Ele defende o SNS, defende a Segurança Social Pública, o trabalho com dignidade. Sabe que quem vem de Penamacor, de uma cidade do interior, com as dificuldades que era Portugal nos anos 70, não é agora. É uma pessoa que sabe perceber quais são as dificuldades, quem é mais pobre, quem tem mais dificuldades, tem essa sensibilidade, está-lhe dentro, está-lhe impregnado.

Certo, mas tendo em conta esse currículo que ele traz, ainda acha possível que ele vai conseguir, por exemplo, que outros candidatos à esquerda abdiquem, António Filipe, Catarina Martins ou principalmente até Jorge Pinto?

Eu na primeira volta acho difícil que os candidatos desistam.

Na segunda que já não adianta muito.

Acho é que vai haver voto útil na primeira volta.

Acha que nenhum destes candidatos da esquerda abdica a favor do candidato António José Seguro? Já é uma coisa que tem afastado?

Não vou dizer, porque acho que não fica bem estar a dizer isso. Acho que as pessoas fazem o que acharem melhor, o que devem fazer. E estas são candidaturas mais partidárias do bloco e do PCP para ver se salvam os respectivos partidos que têm estado em declínio, principalmente esses dois. O LIVRE até teve bons resultados eleitorais.

Mas isso poderia ser um sinal importante para a candidatura de António José Seguro?

O que eu acho é que os eleitores que têm votado nesses partidos à esquerda têm que pensar muito bem no seu voto, porque se não votarem no António José Seguro, corremos o risco de não ter ninguém da esquerda na segunda volta. É muito simples, qualquer pessoa percebe isto. Não quer dizer que eles desistam. Portanto, eu acredito que os portugueses são sensatos e inteligentes e que na hora do voto, o voto é secreto e é sozinho perante um retângulo. Vão tomar essa atitude. Acho que eles não vão ter resultados muito simpáticos para eles, eles farão o que entenderem, mas acho que não lhes ficava mal, a bem do país. E não é bem da esquerda, ou do bloco, ou do PCP. A bem dos trabalhadores, dos mais fracos, a bem dos valores da esquerda, da solidariedade, da igualdade de todos, de um país mais fraterno, mais igual, um país muito desequilibrado. Se querem isso, eu acho que vão votar útil a 18 de janeiro. É só isso. Acho que é uma decisão racional, já que normalmente a esquerda é mais do coração e a direita é mais da razão, porque a esquerda é natural, é mais ideológica. Dos valores da compaixão. Ser de esquerda, como eu às vezes brinco até em conferências, é entre o forte e o fraco, nós estamos do lado do fraco. Entre uma manifestação e a polícia, a minha tendência é ir pra manifestação, não é pro lado da polícia. Portanto, é assim, a esquerda é um bocadinho esta, quer dizer, é estar sempre a defender o lado mais fraco, aquele que apanha pancada. E bem. E portanto é de paixão, é de emoção, é do coração e às vezes é pouco racional. Mas eu espero que dado o desequilíbrio vertente, porque isto não é uma coisa de somenos. O país ficará muito desequilibrado se tiver um presidente do governo, da área do governo e também, sinceramente, eu que presido uma associação da sociedade civil, acho que nós ainda não precisamos de um militar pra pôr isto na ordem. Nós precisamos é que os portugueses regenerem a República e precisamos de um político decente, eticamente à prova de bala, que regenere a confiança que as pessoas perderam bastante nos políticos. E isso faz-se pelo exemplo das pessoas. Não estou a dizer que o António José Seguro é o único nesse aspecto, os outros também são, mas ele depois tem outras características. É um homem do centro-esquerda, com experiência política, foi tudo na política que se pode ser, exceto primeiro-ministro e presidente da República, neste caso. Mas acho que ele até tem mais características para presidente da República, mais perfil pra presidente ou até pra presidente de uma assembleia da República do que propriamente executivo. É menos executivo. O almirante Gouveia e Melo é um homem claramente executivo, de características diferentes. E portanto eu sinto, e acho que era bom pra democracia, que passassem à segunda volta os candidatos que no fundo são apoiados pelos grandes partidos da esquerda.

Luís Marques Mendes e António José Seguro.

Do PSD e do PS.

Uma última pergunta antes de passarmos ao segundo segmento do nosso programa. O Partido Socialista foi terceiro em número de deputados nas últimas legislativas, perdeu de forma expressiva as últimas autárquicas. O candidato apoiado pelo PS nestas eleições presidenciais arrisca-se a não passar à segunda volta, pelo menos de acordo com algumas sondagens. O eventual sucesso de António José Seguro é essencial para o Partido Socialista?

É essencial para a esquerda portuguesa, mas sobretudo é essencial-

Mas é importante para o Partido Socialista, nesta fase do que o partido atravessa?

É importante ter um militante seu na presidência da República. Mas sobretudo, se não houver alguém do Partido Socialista, neste caso, do Partido Socialista de esquerda, que é a única hipótese que a esquerda tem ter um presidente, nós vamos passar três décadas com a direita em blanco. Mas por quê? A esquerda tem lei pra... Não, eu acho que a esquerda às vezes pensa pouco, tem que pensar mais.

E preparou-se pouco pra este ciclo.

Não há candidaturas perfeitas. Eu já apoiei candidatos que eu não preferia, mas às vezes nós temos que fazer opções racionais e inteligentes.

Vamos então avançar para o segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. Sabe as regras, só pode escolher uma de duas opções.

Esta é a parte difícil.

Venha daí a trilha. Vamos imaginar o seguinte cenário: na véspera da eleição, António José Seguro percebe que não tem hipóteses e abdica. É um cenário hipotético, não quer dizer que se vá colocar, mas é este o desafio. André Ventura tem tudo para passar à segunda volta. Em quem é que votaria para passar essa mesma segunda volta e enfrentar André Ventura, Luís Marques Mendes ou Henrique Gouveia e Melo?

Eu acho que esse cenário é absolutamente impossível de acontecer e, portanto, nem me passa pela cabeça.

António José Seguro passa sempre à segunda volta. Na sua cabeça.

António José Seguro vai ser presidente da República. Acho que os portugueses vão ser sábios e eu gosto muito de história. Os portugueses ao longo da história foram sempre sábios nas decisões e sabem bem que não podem pôr os ovos todos no mesmo cesto.

Vamos aqui ao segundo desafio. A quem é que dava boleia numa longa viagem pra conhecer melhor o país? José Luís Carneiro ou Francisco Assis?

O Assis é meu amigo, já atravessei o país com ele várias vezes. Portanto, acho que dava ao Zé Luís, porque nunca atravessei o país e acho que ele ia ficar cheio de medo, porque eu ando sempre a 200 km/h.

Quem é que precisa mais de uma tour pelos corredores do Hospital Santa Maria? Ana Paula Martins ou o juiz Carlos Alexandre?

A Ana Paula foi diretora do hospital, conhece bem o hospital, ela não precisa. O juiz Carlos Alexandre talvez sim, ele conhece menos.

Quem preferia ter numa conferência organizada pela SEDES a falar sobre o futuro do socialismo, Duarte Cordeiro ou Fernando Medina?

Duarte Cordeiro, porque acho que tem todas as condições para ser um dia líder do Partido Socialista.

Fernando Medina, não. Já passou o tempo do Fernando Medina, é isso?

Não. O Fernando Medina é um grande quadro. Eu gosto dele, acho que ele é um homem sensato, moderado, mas não podemos ser todos líderes. Portanto, cada um faz o seu papel e poderá ser outras coisas na vida. Um dia presidente da Assembleia da República. É daquelas pessoas que ainda é muito novo e tem muita coisa ainda pra fazer na política.

Alvaro Beleza, como é hábito no nosso programa, o convidado serve uma sobremesa, no caso, uma música, que música que nos traz e por quê?

Uma música que me acompanhou na minha adolescência, que eu ainda gosto de ouvir nas minhas viagens, que é do Stevie Wonder, "Isn't She Lovely", e que me faz lembrar tempos de paixões antigas da adolescência.

Muito bem, e é uma grande música. Alvaro Beleza, muito obrigado por ter vindo mais uma vez à Vixi Suave. Os nossos ouvintes já sabem, podem ouvir esta entrevista na íntegra nas plataformas habituais, na Rádio Observador, e lê-la no site do nosso jornal. Até à próxima.