Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, bem-vindos à "Vici Suave". Na última semana, o mau tempo continuou e condicionou, em primeiro lugar, a vida das populações, mas afetou, como é natural, também todo o debate político, incluindo uma rara segunda volta das presidenciais. O governo foi para o terreno, o presidente da República também e os próprios candidatos não evitaram ir às zonas afetadas.
O nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida.
E há uma norma que permite garantir a todas as pessoas o mínimo de sobrevivência, 537 € por pessoa ou 1075 € por agregado familiar. Que ela já tem na mão? Que elas vão ter na mão, repare, é suposto agora no final deste mês poderem ter esse dinheiro na mão, esperamos nós. Então, mas elas estão a precisar agora. Agora é suposto terem tido o ordenado do mês passado.
Não sei o que é que falhou, não lhe posso dizer exatamente o que é que falhou.
Eu sou o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador e tenho comigo a Mariana Lima Cunha, que é jornalista da secção de política e também fomos à estrada ter com outras duas jornalistas da secção, a Rita Tavares e a Inês André Figueiredo. E nós, para aqueles que não conseguirem evitar a trágica consequência de nos ouvir, vamos começar com a "Vici Suave". Mariana, queria começar precisamente com uma sopa tempestiva, porque infelizmente isso tem condicionado todo o debate político e queria perceber um bocadinho também, tu acompanhas o governo, como é que foi todos estes dias do ponto de vista daquilo que foi o trabalho do executivo.
Olha, eu acho que o executivo tentou, e nalguns aspetos com maior sucesso do que noutros, tentar evitar alguns erros que sabe que cometeu no passado. Ou seja, esta é a terceira vez que nós temos este governo a lidar com catástrofes naturais, coisas deste gênero. O apagão não é exatamente uma catástrofe, mas é uma consequência de um fenómeno natural para as infraestruturas, etc. Portanto, fenómenos inesperados deste género. E o governo já tinha sido muito criticado tanto nos incêndios como no apagão. Eu diria que muitas vezes por parecer que acordou tarde para os problemas ou que percebeu tarde a sua dimensão, que demorou a pôr vozes com muita autoridade no governo a falar com a população e a acalmar a população. E, portanto, neste caso, houve algumas tentativas de corrigir a rota. São exemplos: primeiro, o seguir o procedimento e o manual de procedimentos que se definiu precisamente depois do apagão para crises. Portanto, comunicar primeiro, dar um comunicado com mais informação à população, pôr Luís Montenegro a falar logo no primeiro dia após a tempestade e a seguir pôr os ministros todos a correr o terreno todo. Houve algumas correções de rota, fazer essa justiça, mas depois também houve muita coisa que não correu bem. E eu acho que no que não correu bem, há uma parte que tem a ver com este governo, com os anteriores, ou seja, coisas mais estruturais. Isto eu obviamente não sou eu que faço esta avaliação, é do que temos ouvido de quem sabe e de quem conhece as infraestruturas portuguesas e que admite que, de facto, há um problema de infraestruturas e indo ao básico, na maneira, por exemplo, como a nossa rede elétrica está montada. Ou seja, há uma série de coisas que teriam de ser repensadas e reformas, de facto, quando estamos sempre a falar de reformas, se calhar as alterações climáticas deviam motivar algumas reformas estruturais. E depois há a parte da comunicação em si do governo, que por ter comunicado mais, não quer dizer que tenha comunicado sempre melhor. E nós tivemos aqui várias trapalhadas e várias gafes, umas mais pro cómico do que outras. Nós tivemos, por exemplo, o ministro da Defesa no terreno, quando é confrontado com a aparente falta de militares no terreno, a dar ajudas mais concretas e a ver-se mais o resultado do seu trabalho, responde que até tem lá um sargento que faz anos nesse dia, que até pode ir dar os parabéns. O sargento Lopes. Professor Agnaldo, graças a Deus. Tivemos a Ministra da Administração Interna a dizer que não sabe exatamente o que é que falhou. E o que nós temos, eu acho que dentro do governo, é uma reação, por um lado, eu acho que sempre muito à defesa, ou seja, sempre a lembrar que isto foi um fenómeno que não costuma acontecer, que é difícil de prever. Há uma explicação técnica que diz que é suposto, normalmente, com os modelos conhecidos, o vento quando chega a território continental amainar e neste caso não aconteceu nada disso e portanto previa-se que os estragos fossem menores. Existe esta parte, e portanto existe sempre esta justificação do governo de que ninguém conseguia prever uma coisa destas, até há comparações internacionais do estilo: "Vejam o que aconteceu na Dana, em Valência ou noutros tufões, noutros países". Portanto, é um bocado para dizer que ninguém está preparado para isto, no fundo. E para dizer que com uma coisa destas dimensões ia sempre haver alguma coisa que corria mal. Mas depois eu acho que há uma noção de que há erros que vão ter de ser reconhecidos e avaliados no interior do governo, o que se diz é que este não é o momento pra isso. E isto por quê? Porque o governo está a ver se não acontece nenhuma tragédia ainda maior. Ou seja, estamos neste momento em plena gestão de crise, ela ainda não passou. O apagão foi uma coisa rápida, de grandes dimensões, mas que durou 12 horas e, portanto, podia-se fazer um balanço imediatamente a seguir. Neste caso, nós estamos em plena crise, temos o risco de haver mais vítimas e problemas maiores ainda com a precipitação e com as cheias. Luís Montenegro já avisou que esta quinta-feira em que estamos a falar e domingo vão ser dias muito complicados e portanto, é difícil para o governo comprometer-se já com uma avaliação, quando na verdade ainda pode ter mais problemas com que lidar. Acho que o governo sabe que caminha sobre gelo fino e que não está fora de perigo. Não só tem coisas por que responder até agora, como ainda pode vir a ter mais. E portanto, está com um pouco de medo de fazer conclusões finais. Mas eu diria que é significativo termos, por exemplo, António Leitão Amaro, que é um ministro muito central na coordenação política do governo, sido questionado sobre a Ministra da Administração Interna e sobre o papel dela, e tentou evitar responder diretamente. Ou seja, respondeu umas coisas sobre a comunicação ser importante, mas sempre sem fazer avaliações da ministra. Nós hoje temos Joaquim Miranda Sarmento numa entrevista à Pública a dizer que a ministra é uma grande académica, o que ninguém está a contestar, mas isso não quer dizer, obviamente, que seja necessariamente uma boa ministra. Uma boa operacional, exatamente. E portanto, eu acho que se notam aqui algumas brechas e algum reconhecimento de que não correu tudo bem, mas o governo neste momento está a tentar mostrar uma frente unida, porque sabe que isto ainda não acabou e que neste momento está em modo de gestão de crise.
Obrigado, Mariana. Vamos agora seguir pra estrada ao encontro da Rita Tavares. Rita, queria pedir-te um caldo verde, que é uma sopa de balanço, que normalmente quando já quase tudo aconteceu, aparece o caldo verde, e queria te perguntar que sopa de balanço é que tens pra nos dar.
É uma sopa assim um pouco estranha. É daquelas que, ao contrário de outros produtos, não se entranha, porque esta campanha acabou por sair de tudo aquilo que era esperado. Por si só, uma segunda volta entre estas duas figuras, provavelmente já não é tão mobilizadora ou a despertar tanta atenção como a primeira volta. No caso desta, teve a agravante de ter uma situação trágica na região Centro, que marcou o ritmo de todas estas duas semanas. O temporal foi na quarta-feira da primeira semana, precisamente no dia em que arrancou a campanha oficial. E a partir daí, tomou o candidato António José Seguro. Não falou de outra coisa, ou raramente falou de outra coisa, e foi também adaptando muito a agenda da campanha àquilo que eram os cuidados que achava que tinha de ter com a imagem que passava pra fora. Ou seja, nada de música, nada de bandeiras, nada de grandes comícios festivos, que é uma característica dos comícios por si. E portanto, foi assim tudo muito estranho.
Chamava a sessão aos comícios e batiam-lhe só palmas quando entrava em vez da música, segundo os teus textos.
A questão de chamar a sessão aos comícios foi uma coisa que foi desde o início da campanha. Na primeira volta também já era assim, os comícios foram sempre chamados de sessão na tentativa de se diferenciar das atividades mais partidárias, porque é preciso não esquecer que António José Seguro assumiu sempre esta candidatura como suprapartidária, portanto, quase que renegou essa ideia de haver aqui comícios ou o que quer que fosse, mas eram comícios. Na primeira volta foram comícios como nós os entendemos, com bandeiras, com música, com um speaker a chamar pelo candidato e na primeira volta, como contámos várias vezes, com muitos socialistas na sala, dirigentes do PS. Desta vez houve menos comícios, portanto também houve menos essa presença socialista no terreno e essa mobilização que a máquina partidária normalmente assume nas campanhas eleitorais. E essa também foi uma diferença desta segunda semana face à primeira, mas o que aconteceu foi isso. Foram comícios contidos, com poucas palmas, com essa necessidade de António José Seguro passar pelo menos essa ideia de que estava a respeitar o luto que se vive no país. Mas notou-se também que no fim de semana, nomeadamente no domingo em que houve o voto antecipado, que o candidato teve necessidade de falar de política e de voltar à mensagem política, inclusivamente voltar a uma coisa que nunca mais tinha falado desde o início desta segunda volta, que era aquela necessidade que ele sente de ter uma votação reforçada. Ele chama-lhe uma legitimidade reforçada. É nada mais, nada menos do que a diferença maior possível relativamente ao seu adversário, André Ventura. Nunca colocou uma faixia, não querendo dizer se serão 60% como Marcelo já teve, ou 70% como Mário Soares teve em 91. São eleições incomparáveis, mas ainda assim, questionamos se eram metas que o candidato trazia na cabeça pra noite eleitoral. António José Seguro nunca quis fixar essa faixia. E é curioso que esse pedido foi desaparecendo. Apareceu naquele domingo da tentativa de mobilizar o voto no dia da votação antecipada, mas nesta última semana de campanha voltou a desaparecer. É um apagão total relativamente a esse pedido. Julgo eu que com António José Seguro a temer uma abstenção elevada no domingo, essa falta de mobilização motivada por diversos fatores, desde ele ser o candidato de uma área política concreta e da outra área política que o poderia apoiar não estar tão motivada como poderia estar, aliado ao mau tempo, aliado às consequências de a campanha eleitoral ter saído muito do foco mediático na última semana, que António José Seguro começou a temer que a abstenção pudesse pôr em perigo
esse objetivo de sair do próximo domingo.
Mas medo que a vitória escape não existe?
Eu julgo que esse medo não existe. Em conversas que vamos tendo com pessoas da candidatura, percebe-se que não existe, que a questão aqui é mais da dimensão da vitória, ou melhor ainda, da diferença relativamente a André Ventura. António José Seguro tem pedido uma legitimidade eleitoral reforçada. Deixou de pedir nestes últimos dias. Vai garantindo que não é por ter receio de que isso não possa acontecer. Enfim, se deu aqui um passo maior do que a perna. O que é certo é que ainda que não exista esse risco ou a noção de que há um risco de poder perder a eleição, é feito esse pedido e esse apelo ao voto de forma mais afincada nestes últimos dias para mobilizar os tais eleitores que possam não estar tão motivados com o risco de André Ventura poder vencer as eleições. Não sendo uma preocupação real para a candidatura ter muitos mais votos do que André Ventura, não é coisa pouca, é importante para a legitimidade que António José Seguro quer levar para o Palácio de Belém.
Mesmo depois como presidente. Obrigado, Rita. Vamos agora à estrada ao encontro da Inês André Figueiredo, que anda a acompanhar a campanha de António José Seguro. Inês, tenho que te propor a mesma sopa que estive a pedir à Rita, que é uma sopa de balanço. Sugeriu um caldo verde. Como é que tem corrido a campanha?
Para já houve muito pouco caldo verde porque deixou de haver jantares, mas a campanha de André Ventura foi um navegar à vista constante. A agenda era conhecida de dia para dia, às vezes mudada à última hora, sem que nada pudesse ser dado como garantido. Houve um momento em que André Ventura mandou travar tudo aquilo a que chamou a campanha tradicional e a partir daí foram canceladas arruadas, comícios. Começou por fazer recolhas de alimentos e passou a fechar-se dentro de salas, tanto para sessões de esclarecimento num formato mais descontraído, como para visitar zonas e empresas afetadas, mas também autoridades como a GNR ou os bombeiros. No fundo, a tempestade tomou totalmente conta da campanha e a própria comitiva percebeu que todo o espaço mediático estava preenchido com a tempestade e que este devia ser um tema único. O que André Ventura fez foi vestir o fato de líder da oposição e estar na estrada constantemente ao pé de pessoas, ouvir problemas e na parte mais política da campanha, a fazer críticas ao governo, aos ministros, ao Presidente da República, até à Proteção Civil. E depois dessas muitas críticas, em que se destacam principalmente a questão dos apoios anunciados pelo governo, foi possível ver um André Ventura pouco modesto nestes últimos dias. Não disse diretamente que o governo voltou atrás por sua causa, mas disse que voltou atrás e que só por isso a campanha que estava a fazer já estava a valer a pena. Quem foi mesmo muito criticado ao longo destes dias, não pelo que disse, mas pela viagem ao Vaticano, foi Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura voltou agora à carga nesse tema por causa da viagem a Madrid, como sabemos ainda não está totalmente decidida. Nem pelo sim, nem pelo não, mas na verdade o candidato presidencial não vê nenhuma justificação válida para que um Presidente da República esteja fora do país nesta fase e tem sido essa a principal crítica.
O André Ventura também disse que se lixem as eleições. Como é que tem sido a mobilização nessa campanha?
Ao longo de toda a campanha, houve uma narrativa construída contra António José Seguro, que assenta muito na ideia de que o adversário não tem uma ideia e normalmente aplicou-a também à tempestade. Mas a verdade é que André Ventura comparou-se muitas vezes a António José Seguro, a explicar que já se posicionou sobre vários assuntos e que o oponente nunca o fez. Mas o grande fosso que André Ventura tem tentado construir para António José Seguro é mesmo essa questão da mobilização. No fundo, o socialista, principalmente agora na fase final da campanha, tem dado importância a esta parte. E André Ventura, sempre que é questionado sobre o tema, desvaloriza totalmente os votos nesta fase em que o país atravessa. Ainda na quarta-feira, Ventura dizia que não lhe parece fazer sentido que a mensagem seja de apelo ao voto quando o país está a cair aos cacos. E na verdade, ao longo da campanha, tem usado muito essa expressão, que se lixem as eleições à la Passos Coelho, e está mesmo a acabar a campanha e nada faz prever que essa estratégia vá mudar.
Obrigado, Inês. Está mesmo quase a chegar ao fim, tal como esta primeira parte da Vixi Suave. Regressamos já a seguir na segunda parte com o convidado Rui Moreira.