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Olá, bem-vindos à Vicia e Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado aquilo que mais próximo temos de Santo António de Lisboa, o nosso querido e estimado Miguel Viterbo Dias e as já beatificadas jornalistas de política Rita Tavares e Mariana Lima Cunha. É esta verdadeira marcha popular que me vai ajudar a explicar uma semana em que o caos nas urgências atingiu o governo em cheio. António Costa desdobrou-se em promessas, Marta Temido desfez-se em planos e comissões, Fernando Medina descartou toda e qualquer responsabilidade e Marcelo foi Marcelo. Primeiro disse que não havia caso para tanto, depois disse que o caso era bicudo e por fim, fez do caso mais um puxão de orelhas a António Costa.

Fora de Portugal não falo dos problemas nacionais, mesmo quando são problemas graves.

E para lhe ser sincero, nem estes profissionais sabem o que é que podem fazer para que estes serviços não fechem. Portanto, eu acho que estamos numa situação de pré-caos. Temos que ser verdadeiros quando nós fazemos política, quando nós comunicamos com as pessoas.

O problema que está colocado não é um problema financeiro. Fosse essa a dimensão e a natureza desse problema, seria certamente a parte mais fácil de ser resolvida.

Está tudo bem, vamos continuar a trabalhar. Estamos atrasados para as reuniões da tarde, vamos continuar. Bom trabalho para vós. Não há... Desculpa lá. Naturalmente que sim. Obrigada, até já. Tenham paciência.

Paciência e fé. Como isto só vai lá com a ajuda dos santinhos, aqui vai o meu contributo. Ó meu rico Santo António, ó meu santo popular, ajuda lá a ministra a ter uma saúde exemplar. Da minha parte, prometo não fazer mais quadras, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Rita Tavares, e começo por ti, tenho uma canja de galinha para te servir. A canja de galinha, como nós sabemos, é o que se dá às pessoas quando estão doentes e o nosso Serviço Nacional de Saúde está a passar um mau bocado. O que é que achas que este tipo de gestão que Marta Temido está a fazer, as notícias que vão saindo todos os dias, de que forma é que isto pode ou não afetar António Costa? E a segunda pergunta, se António Costa pode ter que dispensar uma ministra quando assim não o previa.

Essa parte se vai dispensar ou não a ministra, não faço ideia. Acho que é uma coisa que se começa a cozinhar com bastante tempo, portanto, acho que de imediato não acontecerá, mas logo se vê, ninguém pode dar a coisa por certa. Eu começo por dizer que acho no mínimo divertido, se é que isto tem alguma graça, porque de facto não tem muita graça, mas deste ponto de vista que eu estou a dizer, se calhar até tem, que isto acontece tudo quando finalmente o governo arranjou alguém dedicado em exclusivo a dirigir a comunicação do governo. É sempre engraçado quando descamba precisamente na altura em que já há alguém supostamente capaz para fazer esta gestão condignamente. É que quem aterra agora em Portugal e liga o noticiário, nem sequer vai perceber ou acreditar que ainda aqui há uns meses, em campanha eleitoral, o líder do partido vencedor das eleições pedia uma maioria para ter estabilidade. Já ninguém, se calhar, se lembra disso, quando a maioria absoluta era um garante de estabilidade para o líder socialista e afinal vê-se. No espaço de uma semana parece que tudo rebentou. E eu junto aqui ao tema das urgências, o tema do SEF e ainda uma posição sobre a Ucrânia da União Europeia em que António Costa está cada vez mais a perder o pé, porque chama os partidos no momento em que a comissão está a decidir fazer uma coisa que ele próprio não é claro sobre se quer que seja feito, mas pronto, já lá vamos. Mas está aqui uma grande confusão e depois hoje a ministra da Saúde, ouvimo-la de manhã, colocar as responsabilidades do estado do SNS neste momento na questão da pandemia. E se calhar este país só funciona mesmo quando está tudo metido em casa. É a conclusão a que nós chegamos, porque justificar isto com as necessidades da pandemia é dizer que antes da pandemia não havia nada. E eu por acaso estive aqui a fazer o trabalho de casa e fui aqui ver uma notícia. A pandemia começou em março de 2020, acho que toda a gente se recorda bastante disto, e eu encontrei aqui um texto da nossa colega do Público, Rita Ferreira, de 20 de junho de 2019, que começa assim: "A partir da última semana de julho e até ao final de setembro, as urgências de obstetrícia de quatro dos maiores hospitais da Grande Lisboa vão estar fechadas no esquema de rotatividade." Esta foi a solução arranjada pelos dirigentes para fazer face a uma situação já de falta de médicos. Isto é uma questão da pandemia? Claro que não é. Em 2019, quem anda aqui mais ou menos atento a isto, tem visto que todos os verões, precisamente por esta altura, existe este mesmo problema nestes mesmos serviços. Portanto Bem pode o governo andar perdido entre o conjuntural e o estrutural, mas a questão é estrutural e não foi resolvida. Já vemos aqui o Ministro das Finanças, como tu mostravas no início, a sacudir também a água do capote, Fernando Medina, mas nós ainda nos lembramos da de Alberto Campos Fernandes e da sua saga com o ministro Mário Centeno, de somos todos Centeno ou não somos todos Centeno, e depois Alberto Campos Fernandes mostrou que não queria ser Centeno e foi-se embora do governo. Portanto, há aqui um problema estrutural que nenhum governo tem dado provas de conseguir resolver. Depois há sempre a guerra da Ordem dos Médicos, há sempre a reguerra dos médicos em si. Enfim, há sempre uma série de guerras e, neste caso, eu acho que António Costa, que está há seis anos a governar, nem sequer se pode escudar na questão da esquerda ter sido um empecilho a que se fizessem grandes reformas, porque se há coisa em que havia acordo era precisamente na área da saúde. E o investimento na saúde foi sempre uma bandeira dos partidos que apoiavam o Partido Socialista na Assembleia da República. Portanto, se o Partido Socialista não fez mais, foi porque não quis. A questão, aliás, o Ministro das Finanças vem dizer que não é financeira, portanto, se calhar desse ponto de vista estamos resolvidos ou não, não sei, mas se o Ministro das Finanças diz, vamos acreditar que é verdade. Depois avançamos aqui para esta questão do problema continuar sem solução. Então, afinal, o que é que falta? Vontade de reformar? É isso? Enfim, ficamos assim.

Deixa-me passar a bola para a Mariana e com a mesma pergunta. Tendo em conta o histórico de António Costa e na forma como gere sempre dossiês relativamente difíceis, e este é um deles, na forma como dispensa ou não dispensa ministros. Marta Temido, uma ministra até aqui bastante popular, talvez a mais popular do governo, será difícil para António Costa abrir mão de Marta Temido se os problemas, e portanto, sempre a partir do princípio que os problemas não se vão resolver, mas se os problemas não se resolverem, será difícil para António Costa abrir mão de Marta Temido?

Eu acho que é engraçado estarmos aqui a falar na perspectiva das remodelações de António Costa, que resiste bastante a fazê-las, porque há várias frases de Marta Temido que eu ouvi esta semana, e o governo penso eu que foi um bocadinho lento a reagir a esta crise, mas houve várias frases dela que eu ouvi que começaram a fazer-me lembrar um bocadinho Eduardo Cabrita, o ministro que saiu do governo, quando acho que já nem contava, na verdade, como demissão. Já foi tão in extremis que foi só sair um bocadinho mais cedo do governo que já ia cair. Quando eu ouvi Marta Temido a dizer, por exemplo, aos partidos no Parlamento, muito irritada, que "caso possam ter-se esquecido, nós aprovámos a Lei de Bases de Saúde ou caso possam ter-se esquecido, houve uma pandemia", quando disse "eu decido continuar a lutar."

E que hoje, esta sexta-feira, responsabilizou os partidos que provocaram a queda do governo.

Exatamente, o que foi aparentemente outra explicação que já não é só a pandemia que tem costas largas. E depois quando ouvi a ministra a dizer que a situação não é nova, que os portugueses se perguntam por que é que se repete sistematicamente, palavras de Marta Temido, e que devemos todos perguntar-nos, acrescentava ela, depois de ter dito que os problemas não são de hoje, como aliás António Costa também disse, a primeira parte do raciocínio, quando diz que não desiste de lutar, lembra-me um bocadinho a famigerada conferência de imprensa de Eduardo Cabrita, quando nos deu a todas as boas-vindas à luta pela defesa dos direitos humanos, depois de ter morrido uma pessoa nas instalações do SEF. E a seguir, quando diz que nos devemos perguntar e que as pessoas se devem perguntar, dá um bocadinho de vontade de perguntar se Marta Temido está a comentar o caso de fora ou que está a aconselhar uma ministra da Saúde sobre o que é que deve fazer. Portanto, acho que era difícil não haver um desgaste, mas o que é certo é que Marta Temido não chegou hoje à pasta e precisamente por isso também tem mais responsabilidade e mais dificuldade em dizer que não é nada com ela.

Mas Mariana, deixa-me só interromper-te.

Diz-me.

Para dizer uma coisa que tem graça. Achávamos nós que a pandemia é que desgastava a ministra da Saúde.

Sim.

Afinal, o que não desgastava a ministra da Saúde era a pandemia, porque ela estava supostamente a ser quase uma espécie de heroína, porque dava a cara naquele momento, mais ou menos como a diretora geral de saúde, e isso seguia tudo passando por entre os dedos da chuva, mas as questões estavam em Marta Temido.

Eu penso que a par de Mário Centeno era sempre das ministras mais populares nas sondagens. Houve a cena toda que foi montada no Congresso do PS para lhe darem o cartão de militante. António Costa chegou a dizer aqui, até que me lembrei.

O Congresso apódri, certo?

Sim, uma entrevista em que tu também estavas, Rita, a dizer que é quase a sugerir a lançar o nome de Marta Temido como possível líder. Enfim, acho que a conjuntura terá mudado um bocadinho, mas atendendo aos casos anteriores de ministros em posições complicadas, também não juro que António Costa vá a correr fazer uma remodelação, porque é bastante resistente a isso, normalmente.

Até porque esta questão não põe só a Marta Temido na linha de fogo. Não é a única ministra, não é o único elemento que fica na linha de fogo. Acho que também tem que ser chamado António Costa, que é primeiro-ministro há seis anos. À liça. Não é só o ministro. Portanto, para uma questão dessas, tem o gabinete central.

Para servir outra sopa de que a Rita já foi falando. É sopa instantânea, porque num movimento quase instantâneo, Fernando Medina descartou qualquer culpa e atirou Marta Temido para a linha de comboio. Mariana, achas que este sinal dado por Fernando Medina é uma primeira brecha na coesão do governo ou mostra antes alguém muito preocupado em deixar uma boa imagem e que, portanto, está a fugir como pode de uma questão que queima?

Acho que podem ser ambas. A mim pareceu-me claramente quando eu vi o Fernando Medina que estava a tirar o tapete à colega. E há uma parte em que ele poderá ter razão na questão da gestão dos recursos do SNS, que é uma questão que é falada há anos. E ele poderá ter razão por aí. Agora, como a Rita estava a dizer, a parte dos embates que o anterior ministro da Saúde tinha contra o ministro das Finanças, com Mário Centeno, era uma questão muito recorrente no anterior governo. E Fernando Medina, só aqui com um bocadinho de atenção à declaração específica dele, ele começa por dizer que o que está colocado é um problema nesta área específica de escassez de médicos, num momento especial de conjuntura de fins de semana. E a seguir diz: "É uma questão estrutural de carência de efetivos." Eu não percebo exatamente o que é que o Fernando Medina me quer dizer. Aqui parece um bocadinho que está a fugir à questão. Agora, se há uma parte que é uma questão estrutural, que é de fato, também temos que pensar por que há carência de efetivos. E aí é difícil não dar aqui uma volta e voltar ao início da questão, que é o dinheiro. Quando temos os tarefeiros ao lado dos médicos a ganhar, se for preciso, o triplo, quando as soluções que são encontradas por três meses é pagar mais, mas só pela hora 150. Quando temos esse tipo de problemas, penso que é dinheiro também que está envolvido. Não sei se é só gestão de recursos ou não, mas parece claramente que Medina tentou virar ali o assunto e acho difícil que uma coisa desta, numa dimensão destas, só envolva uma ministra.

E por falar em fugir ao assunto, tenho uma sopa com tudo para terminarmos esta nossa primeira parte. Sopa com tudo porque Marcelo Rebelo de Sousa, mais uma vez, foi capaz de dizer tudo e o seu contrário. Quando estava em Londres para celebrar o 10 de junho, disse que estava preocupado, mas desdramatizou porque o problema era específico. Nas últimas horas já veio dizer que isto é muito grave e, portanto, vai estar muito atento. A minha pergunta para ti, Miguel Vítor Dias, é se os problemas na saúde podem ser a frente de batalha decisiva entre Marcelo e António Costa.

Podem ser mais uma dessas frentes de batalha. Sobre o Fernando Medina, lembra-me sempre da frase: "O problema não é dinheiro, é falta dele", que é aquele ditado que se diz quando não há dinheiro para justificar as coisas. E o Fernando Medina foi mais ou menos isso que disse: "Se o problema é dinheiro, também não há de ser esse o problema." Mas Marcelo tem vindo a agravar esse discurso ao longo da semana. Eu estava aqui até a fazer um bocadinho de pesquisa pelos arquivos desde o 10 de junho em Londres, em que ele apelou aos médicos e aos enfermeiros do Reino Unido para voltarem. Está visto que devia ter trazido logo dois ou três com ele, porque teriam dado jeito para esses feriados e para compensar essa falha nas escalas. E agora conclui com isso que tu referes. Aliás, ele coloca o ônus no primeiro-ministro, diz: "O primeiro-ministro já admitiu que é grave", como quem diz: "Portanto, é bom que agora comece a pensar em resolver, já que assume a gravidade da situação." E essa de António Costa ter já admitido que a situação é grave e que é estrutural, é um bom início de partida para essa contenda entre os dois, entre Belém e São Bento, no que toca aos problemas da saúde. E isto para entroncar com aquilo que foi dito também no início sobre Marta Temido, porque a Ministra da Saúde esteve aqui no Parlamento, eu ainda aqui estou, e saiu da sala das sessões debaixo de um aplauso dos deputados do PS, que não é uma situação muito habitual. Ou seja, o governo quando se despede, sai e pronto. E aqui Marta Temido saiu debaixo de um aplauso, porque acho que a própria bancada sentiu Marta Temido agastada com a situação e uma Marta Temido sem a força de outros dias em que foi ao Parlamento e colocava a oposição no sítio, por assim dizer, em que tinha a resposta na ponta da língua. Aqui assumiu essa posição.

Mas não pode ser, Miguel, aquilo que no futebol costuma acontecer quando os presidentes manifestam total confiança no treinador e 24 horas depois fazem a chicotada psicológica.

É sinal que se demite. Pois, poderá acontecer isso. Aqui a Mariana e a Rita já referiram situações que mediaticamente foram mais difíceis para já do que a de Marta Temido e António Costa foi sempre assegurando. Marta Temido, aliás, ainda transporta um bocadinho essa popularidade da campanha eleitoral das legislativas que João Cotrim Figueiredo fez questão de vincar, foi o que deu assim um teor mais político à questão. Diz que Marta Temido se deslumbrou com a entrega do cartão militante, até apontou Marta Temido à liderança do partido e diz que se deslumbrou com tudo isso. Certo é que hoje tivemos uma ministra menos política e mais a tentar só aparar os golpes e a fugir a essa polêmica, porque ela vem também nesse balanço de uma semana em que foi cilindrada de todo lado, ainda por mais com António Costa estando no estrangeiro, a Marta Temido é que acabou por levar com a rajada de tiros.

Muito bem. Sim, Mariana. Mesmo a terminar, sim.

Tendo em conta, apesar da evolução estranha de posições de Marcelo Rebelo de Sousa, essas declarações conseguiram ser a aparição mais sensata dele esta semana, tendo em conta que também apareceu inopinadamente a dar um beijo a uma barriga de uma grávida, não sei se viu a fotografia, e portanto, de repente começou a parecer muito sensata esta última aparição do Presidente da República.

Também é uma tomada de posição sobre obstetrícia.

Exatamente. Já não temos tempo para a União Europeia. Para a Ucrânia e a União Europeia.

Não, temos de avançar para o intervalo, que depois teremos a nossa segunda parte. Despedimo-nos com esta imagem muito bizarra de Marcelo a beijar uma barriga de grávida. Estou ainda a tentar recompor-me. Temos conosco Ricardo Baptista Leite, deputado do PSD, cuja Pelos percursos políticos que tem evidenciado na área da saúde. Bem-vindo.

Muito obrigado pelo convite, Miguel.

Tem sido crítico da forma como a Ministra da Saúde tem gerido a crise nas urgências. A minha pergunta é muito direta: Marta Temido tem condições para continuar no cargo?

Miguel, o senhor primeiro-ministro acabou de reconduzir a Ministra da Saúde há dois, três meses. Uma ministra que está há quatro anos em funções e, portanto, há aqui uma posição do governo como um todo, que entendem que o modelo de gestão, a forma de governar da ministra Marta Temido, é aquele que é o modelo e a visão do governo. E, portanto, o problema é muito mais profundo, a meu ver, do que a própria ministra ou a mudança da ministra não vai resolver o problema de base. E aquilo que eu tenho sido crítico não é necessariamente apenas e só na questão da gestão desta crise, do caos das urgências, que se tem vivido em várias áreas de especialidade, com particular enfoque na obstetrícia. Tem a ver com o caminho errado que se está a seguir do ponto de vista da gestão e do modelo de financiamento do próprio Serviço Nacional de Saúde. Um Serviço Nacional de Saúde que tem mais dinheiro, tem mais profissionais e produz piores resultados e piores serviços, é porque está a ser mal gerido e tem um modelo de gestão de base que está errado. E é este reconhecimento que seria necessário que o próprio governo, e começando pela Ministra da Saúde, pudessem fazer, para podermos iniciar então a conversa que importa, que é como é que vamos reformar a saúde de modo a garantir uma política de saúde que esteja orientada para o verdadeiro bem-estar da população, começando pelos doentes.

Antes de irmos às soluções. Esta sexta-feira, Marta Temido justificou o estado do SNS com a pandemia, em primeiro lugar, e depois com a queda do governo. Fica convencido com estes argumentos da ministra?

Eu não consigo entender esses argumentos com toda a franqueza, até porque nós temos visto várias oscilações nas posições do governo. Se refirem as declarações da Ministra da Saúde na segunda-feira, quando começou a ser pressionada sobre o tema da obstetrícia, na sequência também do falecimento trágico de uma criança no Hospital das Caldas da Rainha e depois o encerramento sucessivo de serviços de urgência, a senhora ministra começa por dizer que iria ter uma reunião de trabalho para tentar responder a um problema circunstancial do momento. Depois, passado dois dias, o primeiro-ministro veio dizer que, afinal, há um problema estrutural no SNS e disse que a ministra iria fazer uma conferência de imprensa para anunciar um plano para responder não apenas à situação do momento, como também aos problemas estruturais. Isto é curioso, vindo-se de um governo que está há sete anos no poder, que nos últimos vinte e cinco anos tem estado mais de vinte anos no poder. Mas era em meia hora que iriam resolver os problemas estruturais do SNS. Mas ficamos todos expectantes, porque finalmente o governo reconhecia que havia estes problemas e que se iria apresentar uma resposta. Aquilo que nós vimos foi a Ministra da Saúde a tratar os médicos como se fossem mercenários, em que o único problema que era preciso resolver era o valor hora pago pela hora extraordinária de trabalho. Ora, é uma visão redutora, que desrespeita até os profissionais de saúde e que não compreende o problema de base que está a afastar os melhores quadros do SNS para o setor privado, para o estrangeiro, pela ausência de visão absoluta que o governo tem neste momento em relação à saúde.

Por estas suas palavras, já faço de depreender que nenhum destes planos que o governo está a apresentar lhe parecem suficientes. Ou estou enganada? O a curto prazo e o a médio prazo, porque há dois planos.

Olhando para o curto prazo, depende do acordo com os sindicatos. Ontem, os sindicatos acabaram por dizer que as propostas do governo são apenas para os próximos três meses e que não têm qualquer tipo de visão de futuro e, portanto, não há acordo nenhum e nem de imediato conseguiram resolver o problema. É fundamental que haja um entendimento com os sindicatos. Eu recordo que estamos perante uma ministra que durante dois anos de pandemia se recusou sempre a reunir com os sindicatos, com as ordens profissionais e com as associações do setor. E, portanto, há aqui relações que têm que ser reconstruídas, porque no final do dia são os profissionais de saúde que são a base do sistema. Para além desta resposta de imediato, que se tem que encontrar uma solução, já se percebeu que a senhora ministra-

A de médio prazo.

Isso. A senhora ministra já disse que vai recorrer aos privados para tentar dar resposta ao curto prazo. O problema a médio prazo é que não há resposta nenhuma. Há uma visão de melhorar a rede de referenciação das urgências de obstetrícia. Enfim, é uma visão de médio prazo, eventualmente para a rede de referenciação de urgências de obstetrícia. Não é um reconhecimento de que o caminho que tem sido seguido está errado e que é preciso, de facto, uma reforma mais profunda. E quando eu digo uma reforma mais profunda, estamos a falar desde os cuidados primários, onde só sob o mandato de Marta Temido houve um duplicar do número de portugueses sem acesso a médico de família. Quando as pessoas não têm acesso a médico de família, acabam sempre no hospital, porque não têm quem possa ver da sua saúde, mesmo em situações que teoricamente seriam menos graves. Mas sendo teoricamente menos graves, não deixam de ser problemas de saúde que precisam de ser respondidos.

Na questão das contratações de mais médicos, o PSD aumentaria as remunerações e fazia mais contratos? Tem ideia de quanto é que isso custaria ao Estado?

O PSD começaria por fazer algo diferente. A primeira coisa seria acabar com as administrações regionais de saúde, que se transformaram em colossos burocráticos que apenas consomem recursos públicos, dinheiro dos nossos impostos, sem conseguir fazer o devido planeamento regional para o qual estão desenhados. Serviram há 40 anos, não servem hoje. Passaríamos a ter um modelo assente em unidades locais de saúde. Por outro lado, a contratação de profissionais de saúde teria uma componente de remuneração e de valorização da carreira que vai em linha com aquilo que é o nosso histórico e que tem permitido profissionais de grande qualidade no SNS. Mas é fundamental darmos o passo seguinte, que é passarmos a medir os resultados em saúde e começar a ter uma valorização remuneratória em função desses mesmos resultados. Não podemos apenas achar que é deitando dinheiro sobre os problemas que eles se vão resolver. E se nós queremos que o SNS comece a produzir melhores resultados em saúde, é preciso medir os resultados e premiar quem consiga alcançar esses mesmos resultados. Portanto, como lhe digo, isto envolve um acordo muito geral com os sindicatos, com as ordens profissionais.

Mas esse modelo não permite qualquer previsão em termos de custos financeiros, não é? É uma coisa que fica um bocadinho à mercê.

Aquilo que eu lhe posso garantir é que com o dinheiro que temos hoje, teremos muito melhores resultados do que temos hoje. Portanto, mesmo que o ministro das Finanças, aliás, Fernando Medina isto não tem nada a ver com isto, mas mesmo que o ministro das Finanças tivesse aqui uma linha em que não permitisse nem mais um euro para o SNS, o que eu lhe garanto é que uma mudança, com uma reforma do modelo atual, teríamos muito melhores resultados com o dinheiro que se tem injetado.

Com o investimento que eles fazem.

Porque nos últimos sete anos, houve um aumento de cerca de quatro mil milhões de euros, mas a verdade é que este aumento de verba não se tem traduzido em melhores resultados, pelo contrário, em piores resultados. E, portanto, quem gasta mais, quem tem mais recursos, tem piores resultados, tem que fazer uma reflexão sobre o porquê e parece-nos que o modelo de gestão de base está errado.

Já falamos um bocadinho de saúde, queríamos passar a olhar para o PSD. O PSD prepara-se agora para mudar de página, mas voltando um bocadinho atrás. Nesta altura do campeonato, já percebeu o que é que aconteceu nas legislativas?

Eu creio que houve aqui vários fenômenos que concorreram, digamos assim, para que o Partido Socialista acabasse com a maioria absoluta e é preciso respeitar a opinião soberana dos portugueses. Houve, naturalmente, um esmagar da extrema-esquerda, o Bloco de Esquerda e o PCP, ao desaparecerem quase do mapa parlamentar, naturalmente favoreceram a criação da maioria absoluta do Partido Socialista.

Mas isso também terá a ver com o facto de que a esquerda se mobilizou para evitar um governo do PSD, certo?

Era isso que eu ia dizer. O PSD não conseguiu, de facto, passar de forma clara as suas mensagens e gerou-se uma ideia que o PSD não conseguiu contrariar, sobretudo na última semana, de que o Chega poderia chegar a um governo do país se o PSD ganhasse as eleições. E, nesse sentido, eu acho que essa conjugação de fatores prejudicaram fortemente a posição do PSD e que, por isso mesmo, a meu ver, deve merecer uma reflexão. Uma reflexão que, aliás, foi muito discutida no âmbito das eleições internas do PSD e que levaram agora à eleição de Luís Montenegro, que tem aqui uma oportunidade para começar um novo ciclo.

Deve ser mais claro na questão do Chega, por exemplo. Do que o era.

Eu creio que nas eleições internas, tivemos os candidatos Jorge Moreira da Silva e Luís Montenegro, onde parece-me que as posições ficaram muito claras sobre essa matéria. E qual é a posição clara que eu quero dizer aqui? É que o PSD, de uma vez por todas, tem que assumir que é o maior partido de oposição, tem que apresentar uma visão de alternativa para o país e tem que demonstrar claramente uma posição de liderança no contexto parlamentar e político, naquele que é o seu trabalho de oposição e de construção de um futuro comum, sobretudo agora perante um Partido Socialista com uma maioria absoluta. Eu entendo mesmo que perante uma maioria absoluta, o papel do Parlamento, de escrutínio parlamentar, o papel do Partido Social-Democrata enquanto maior partido da oposição é mais importante do que nunca para garantir que o país não perde o seu rumo e que possamos, de facto, iniciar um novo ciclo. Nesse sentido. Sim.

E lhe só perguntar, já que falou das últimas diretas, manteve-se aqui distante em relação aos dois candidatos. Por que é que decidiu não apoiar ninguém publicamente? Não se revia inteiramente em nenhum deles?

Não seria por isso. Eu sou amigo pessoal dos dois candidatos e a verdade é esta: eu aceitei um convite de Paulo Mota Pinto para ser vice-presidente do grupo parlamentar e quando aceitei, foi também na condição de garantir uma equidistância do ponto de vista daquilo que era a posição da direção. E eu entendi seguir essa linha de pensamento, porque é fundamental que agora nós aqui no Parlamento, deputados em funções, tenhamos todas as condições para trabalhar com quem fosse eleito presidente do partido, reconhecendo que é um novo momento, é um novo ciclo e é fundamental, e todos reconhecem, que sem unanimismos, porque nunca os há, muito menos no PSD, mas que haja unidade na ação.

Diga.

E foi precisamente com esse espírito que tomei as opções que tomei ao nível das eleições diretas.

Ia lhe perguntar precisamente, fez uma intervenção no Parlamento muito elogiosa em relação a Luís Montenegro, que foi entendida por jornalistas, por rioístas e por montezaangristas, como a candidatura velada à liderança da bancada. Admite vir a suceder a Paulo Mota Pinto?

A minha intervenção foi a primeira declaração política a seguir à eleição direta do novo presidente do PSD. Se vir historicamente no Parlamento e sobretudo na história do grupo parlamentar do PSD, sempre que temos eleições diretas ou sempre que tivemos um congresso nacional, a primeira declaração política versa sobre esse fato interno do partido e como se reflete do ponto de vista da nossa intervenção no país.

Mesmo sem ter ficado focado nessa intervenção em específico, posso insistir na pergunta se admite vir a suceder a Paulo Mota Pinto?

Eu devo dizer que o Paulo Mota Pinto, neste momento, é o presidente em funções. Sei que houve uma conversa entre o Paulo Mota Pinto e Luís Montenegro. O resultado dessas conversas não são públicas e, portanto, desconheço o teor e para me colocar essa pergunta, teria que haver uma questão prévia, que era saber que o lugar estaria em aberto. Neste momento, o lugar está fechado. Agora, não querendo fugir à sua questão, posso lhe dizer de uma forma muito clara aquilo que é o meu sentimento. Há vários quadros com experiência parlamentar dentro do grupo parlamentar do PSD e sei que todos estão disponíveis neste momento para tentar fazer o possível para garantir, por um lado, que Luís Montenegro tenha na direção da bancada e no grupo parlamentar, um conjunto de deputados ao serviço daquilo que é a orientação da Comissão Política Nacional e com vontade de contribuir para que o PSD seja verdadeiramente visto pelos portugueses como uma alternativa à organização socialista.

Só não sei onde é que se situa nesses quadros.

Neste momento, eu sou vice-presidente do grupo parlamentar. Eu estarei nas funções que estou ou noutras quaisquer, na medida daquilo que o Luís Montenegro entender, sendo que, neste momento, se Luís Montenegro entender I

Ou seja, se for vontade do pessoal, pode estar disponível, se for convidado.

Aquilo que eu acho é que primeiro precisamos perceber se Paulo Mota Pinto tem a confiança de Luís Montenegro. Se for o caso, os dois têm legitimidade para seguir esse caminho e Paulo Mota Pinto terá todo o meu apoio nesse sentido também. O que eu entendo é que não pode haver, e para ser ainda mais claro, o que não pode acontecer é haver uma liderança da direção da bancada do Parlamento, do PSD, que esteja em linha contrária àquela que é a linha de pensamento e de atuação política da Comissão Política Nacional. E, portanto, todos nós, sobretudo os deputados, todos nós, nomeadamente os deputados com a maior experiência parlamentar, um grupo no qual naturalmente me insiro, temos a responsabilidade acrescida de não contribuir aqui para ver se é o deputado A, B ou C que estaria em melhores condições para tal, mas haver aqui um alinhamento de posições entre a direção, entre os deputados e o presidente eleito. O Luís Montenegro assumirá formalmente o lugar de presidente dia 3 de julho. A partir daí, certamente irá reunir com os deputados e um caminho será traçado para iniciar um novo ciclo no PSD. Aquilo que eu estou disponível é como sempre estive, em todos os combates que assumi, como todos os outros meus colegas, é nos momentos difíceis estarmos presentes para fazer o que seja preciso.

Ricardo Costa Lei, peço desculpa também interrompê-lo, porque estamos já aqui a aproximar-nos do fim. Queria só insistir um pouco mais nesta questão, que é com aquilo que está a dizer nessa resposta de todos os deputados estarem à disposição e de entender que o grupo parlamentar tem que estar em linha com a direção. Quer isto dizer que Luís Montenegro tem essa legitimidade se quiser alterar a liderança da bancada parlamentar?

Aí a minha resposta é taxativa. Luís Montenegro tem não só a legitimidade como a necessidade de garantir que se sente perfeitamente alinhado com quem estiver à frente da direção e com a direção como um todo, direção do grupo parlamentar, porque é fundamental este alinhamento. Sempre o defendi no passado e defendo no presente. Apesar de haver uma autonomia daquilo que é a direção do grupo, por ser eleito pelos deputados, não passa pela cabeça no PSD, nunca me passou no passado, não passará no futuro, que quem está à frente da direção da bancada não esteja alinhado com o presidente do partido, até porque o presidente do grupo parlamentar tem um assento no órgão mais restrito interno do PSD, que é a Comissão Política Permanente Nacional.

Mas Mota Pinto também poderia garantir esse alinhamento? Vê capacidade para essa unidade?

Paulo Mota Pinto é um quadro de extraordinário valor, senão eu nunca teria aceito ser vice-presidente de Paulo Mota Pinto na direção. Por isso é que eu digo, depende muito é da relação entre os dois e na visão que ambos têm, entenda-se Paulo Mota Pinto e Luís Montenegro, sobre esse futuro. O que eu vejo é que da parte de todos aqueles que estão envolvidos neste processo, há uma vontade de encontrar soluções com as quais todos se sintam confortáveis e haver esse alinhamento. Portanto, qualquer outro cenário é meramente hipotético enquanto não soubermos qual é a linha de pensamento do próprio Luís Montenegro sobre esta matéria.

Muito bem, vamos avançar para o segundo segmento do nosso programa, Carne ou Peixe. Sei que já está familiarizado com este conceito. Só pode escolher uma de duas opções. Venha daí a trilha. Preferia ser Ministro da Saúde de um governo que integrasse André Ventura ou deputado do PSD na oposição?

Deputado do PSD na oposição.

Preferia jogar basquete com Luís Montenegro ou uma corridinha com Rui Rio? Quer dizer, corridinha ao lado de Rui Rio, não é preciso correr com Rui Rio.

Eu preferia o basquete, mas não é pelo concorrente, é porque eu sou melhor no basquete do que a correr.

Preferia fazer um passeio pela Serra de Sintra com Basílio Horta ou almoçar com Marta Temido na Baía de Cascais?

Eu acho que iríamos bem os três na Serra de Sintra.

E para terminar, preferia fazer a campanha presidencial, a próxima, ao lado de Luís Marques Mendes ou de Paulo Portas?

Qualquer candidato presidencial que garantisse uma representatividade direta aí, eu tenho que aceitar os dois.

Muito bem. Ricardo Batista Leite, como é hábito no nosso programa, o convidado tem a hipótese de escolher a sobremesa que nos quer servir, no caso, uma música. Que música é que nos traz e por quê?

Trago uma música que se chama "Tempo", de um rapper, um cantor de hip-hop que se chama Bispo e que conheci há cerca de dois anos. É um cantor de hip-hop que nasceu e foi criado em Algueirão-Mem Martins, no Conselho de Sintra. É alguém que vem do underground de hip-hop, mas conseguiu evidenciar-se e tornou-se uma figura por via das redes sociais e hoje é um cantor reconhecido. Portanto, não só valorizar aqui um artista do Conselho de Sintra, mas também traz uma letra que eu acho interessante, quando ele diz: "Vamos correr na corrida contra o tempo, tamanho do sonho é do céu e sim, eu espero caber no vento." No fundo, ele traz aqui um sentido de urgência nas palavras, na crítica social que ele traz sempre nas letras, mas também o tamanho do sonho e a esperança de caber no vento. No fundo, uma mensagem de esperança, apesar das dificuldades todas que vivemos na saúde e não só, há sempre esperança de podermos caber todos no vento.

Ricardo Batista Leite, muito obrigado por ter vindo a esta Vixi Suave. Os nossos ouvintes já sabem, voltamos na sexta-feira à mesma hora.

Com a força que cada lágrima tem. My new ride, na corrida contra o tempo. Tamanho do sonho é do céu e sim, eu espero caber no vento. Eu disse my new ride, na corrida contra o tempo. Esse peso já não serve em mim, eu espero voar com o vento. Só espero voar com o vento. É que aqui é parar ou morrer. Sempre amarrado à corrente. A corrida não tem fim. Eu estou a lutar contra o tempo. Com demónios em mim. O futuro não é evidente, vou só seguir o que eu sinto. Sei que não passa de um teste. Oh, mãe, eu sinto que estou a escalar o Everest. Preciso de um empurrão dos ventos vindos do leste. Senão eu sei que vou acabar por ir para a festa. O vento diz: "Para onde vais?" Eu digo: "Para onde tu quiseres, quiseres, quiseres, quiseres". Eu disse my new ride, na corrida contra o tempo. Tamanho do sonho é do céu e sim, eu espero caber no vento. Eu disse my new ride, na corrida contra o tempo. Esse peso não serve em mim, eu só espero caber no vento. Dois dias sem dormir, estou a acusar fadiga. Depois de bulir, ainda fui pai minha vida. Nem estou a sentir o tamanho da ferida. Também não confio, nem sei bem se eu queria a vida que eu tenho. Nem sei bem se eu queria, foi sorte ou empenho. Se perdi o norte, encontrei. Tenho tatuado no brain. Vou vencer mesmo com dor. Não chamo sorte ou empenho. Não tem nada a ver. Isto sou só eu a ser aquilo que quero e se quer dizer. Se não der para correr, eu prefiro morrer. Deixa-me viver. Eu sei, há barreiras, mas não quero saber. Muitas ratoeiras, rasteiras da vida, mas há sempre fome sede de vencer. Na corrida contra o tempo.