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Olá, bem-vindos à segunda parte da "Vichi e Soase". Temos conosco Diogo Feio, antigo eurodeputado e ainda militante do CDS. Bem-vindo a esta "Vichi e Soase". Esta semana, e sem que nada o fizesse prever, o país político ou mediático desatou a falar de um novo partido à direita. Portanto, é inevitável perguntar se já se fez militante deste novo Partido Popular Conservador.

Muito obrigado pelo convite. Tendo em atenção que já não é a primeira vez, acredito que a sopa já estará mais quente do que da primeira. Eu sobre isso tenho uma ideia muito clara: eu quero unir, não quero dividir o espaço do centro-direita. E tenho uma noção: o partido perfeito não existe, aquele partido que é completamente das nossas ideias, porque se for das minhas, já não é o da pessoa ao lado ou da outra, que também faz parte do mesmo espaço. E é por isso que acho um desperdício esta conversa sobre novos partidos no centro-direita.

Portanto, acha que não faz sentido falar deste novo partido. Não há espaço para uma força à direita, ao contrário do que pensa, por exemplo, Francisco Mendes da Silva.

Sim, eu tenho amigos que estão nessa onda e eu acho que por motivos diferentes, se calhar numa lógica de testar algumas ideias. Agora, eu acho que nós temos à nossa frente a solução e, portanto, é escusado inventar muito. É preferível ser daqueles jogadores que vão diretos à baliza do que aqueles que fazem três fintas e depois chegam à baliza muito cansados. E portanto, aquilo que me parece mais razoável é uma federação de todo o espaço do centro-direita, que nesta vertente em que temos três grandes blocos, pode ser maioritária. A única solução maioritária que Portugal tem pela frente é a possibilidade de PSD e CDS caminharem no sentido da sua fusão e serem capazes de chamar a Iniciativa Liberal, reformistas. E para isso eu acho que há a receita muito simples. Tem o partido central para esse efeito, que é o PSD, que é o partido charneira. O âmbito é apenas o de fazer aquilo que aconteceu em 1979. Já foi há uns anos, mas é fazer isso. E tem um líder, o líder natural do espaço da direita, que se chama Luís Montenegro. Não há outro, é precisamente esse. E a partir daí aproveitar-

Pedro Passos Coelho não é o líder natural da direita?

Já foi, já não é. Portanto, é a diferença entre o passado e o presente. E aí as coisas são o que são. Mas eu, por exemplo, olhando até para o método Don't, o que eu vejo de curioso? Fui fazer uma pesquisa. Os resultados de PSD e CDS na altura, em 1976, que foi quando foram separados, foram de 40%. Em 1979, juntos, passaram para 45% e nas eleições a seguir para 47%. Ora, aquilo que nós assistimos nas últimas eleições legislativas é que se somarmos AD mais Iniciativa Liberal, temos 36,5% dos votos, com um modelo de crescimento, com modelo de afirmação, com modelo de entusiasmo que naturalmente pode trazer. É a única solução maioritária que neste momento o nosso sistema partidário tem. Não há outra. O que é preciso? Um projeto, um projeto com foco, com desígnio, como aconteceu em 1980, como também já agora aconteceu na nossa vizinha Espanha, na formação do Partido Popular. E se no final dos anos 70, início dos 80, era a vertente de afirmação de um sistema político partidário que fosse civil e que fosse plenamente democrático. Agora os tempos são outros. Também tivemos maiorias como as de Cavaco Silva, que foram a pensar no país que precisava de infraestruturas. O que o país precisa agora? Precisa de deixar aquele discurso de sempre que nunca estamos a liderar as fases de crescimento na Europa, estamos sempre ali do meio para baixo, que vemos países do leste a ultrapassarem-nos, a ideia de ter uma relação diferente entre Estados e particulares. E para isso eu não vejo que seja muito difícil juntar Luís Montenegro, Mariana Leitão e Nuno Melo.

Mas dizia que Luís Montenegro é o atual líder da direita.

Diz-se que é o líder da direita.

Sim. E aparentemente o maior adversário dele parece ser Pedro Passos Coelho, neste momento. Surpreendeu a linguagem utilizada pelo ex-primeiro-ministro esta semana, quando falou de prostitutos políticos.

Sim, a linguagem surpreendeu, mas eu também não dou assim um valor excessivo a isso, até porque eu guardo de Pedro Passos Coelho a imagem do primeiro-ministro da troika, que foi importante para o nosso país. Depois, se me perguntam pela interpretação das palavras, eu devo dizer, eu não sou passólogo. Não sou nem quero ser. Há muita gente a querer ser e muitos a porem-se em bicos de pés para o efeito. Portanto, o que eu fiz? Ouvi várias interpretações. Até uns diziam que se fechassem os olhos e sabendo a audiência, achavam que era André Ventura que estava a falar, coisa que eu acho exagerada.E o que é que eu fiz? Aproveitei a interpretação que mais me agrada, que era uma crítica a André Ventura e que era uma crítica aos partidos que por Europa fora têm assumido esta postura mais populista.

Mas acha que é uma crítica a André Ventura quando o próprio Pedro Passos Coelho aparece ao lado de André Ventura e critica o governo ao lado de André Ventura?

Não, eu estou a dizer que eu aproveitei. Não liguei ao cenário, não liguei às conversas. Por que eu fiz isto? Porque eu não gosto de populismos, sejam eles de esquerda ou de direita, sejam eles originais ou não. Eu nunca gosto deles. Eu não quero acordos com populistas, eu quero combatê-los politicamente, o que é um outro lado em relação a alguma forma de...

Mas é isso que o Passos de hoje, não o Passos da troika, diz e que o guarda.

Claro. E por isso mesmo é que guardo. E o que eu faço? Faço uma crítica a André Ventura, faço uma crítica aos populismos na Europa e tenho uma coisa por certa: quem é que tem linhas vermelhas em relação ao Chega? É Luís Montenegro. Quem é que não quer acordos de governo com o Chega? É Luís Montenegro. Quem não faz conversas de apreço com André Ventura é Luís Montenegro. E, portanto, qualquer crítica de populismo ou daqueles que tentam fazer populismo, garantidamente não enquadra na figura do primeiro-ministro. E já que falamos de gosto, eu gosto de ouvir críticas ao Chega, acho que aí até se deve ser muito vocal. Aí é que se deve ser verdadeiramente afirmativo, porque não se vai buscar votos ao Chega com apreço pelo seu discurso, dizendo que, por exemplo, são importantes pra formar a grande direita. No dia em que ela formasse, desfazia-se.

Acha que Passos falhou o alvo aí?

Não sei, eu não vi isso. Eu não vi propriamente que houvesse essa vertente. Eu acho que é só com diferença que as coisas se fazem e é percebendo que há uma atitude reformista neste momento do nosso país. Esse é que é o ponto que eu acho que é importante, que é a questão do ritmo.

E nós vamos falar sobre isso também.

Muito bem.

Não podemos desligar esta última intervenção de Pedro Passos Coelho com tudo que tem dito nos últimos tempos, e foram várias intervenções, e todas elas no mesmo sentido, criticando Luís Montenegro, criticando o governo. Pedro Passos Coelho sabe muito bem o que está a fazer e sabe muito bem quem está a criticar. Consegue perceber o racional desta estratégia de Pedro Passos Coelho? Sei que há alguma.

Mas isso era pressupor que há uma estratégia e que ela é conhecida. Portanto, vamos esperando. É de mês a mês, não é? Pronto, então vamos esperar mais um mês, depois se calhar esperamos outro. Mas isso é uma coisa que já aconteceu muitas vezes na política portuguesa. Nós tínhamos discursos de presidentes da República que eram imperceptíveis e depois tínhamos que esperar pelo que vinha a seguir. São vários capítulos. Agora já percebemos que a fase do silêncio terminou, não é, Pedro Passos Coelho? Portanto, vai falar a seguir e vamos conseguir se calhar perceber melhor o pensamento. Mas reparem, repito, não é neste momento a minha principal preocupação, com sinceridade.

Acha que há o risco de se banalizar a palavra de Pedro Passos Coelho?

Não sei. Essa não é uma questão que me assista, como se costuma dizer, não é uma questão minha. Os riscos acontecem sempre. Depende também muito do que se diga. Por exemplo, Cavaco Silva é alguém que de fato aparece de tempos a tempos e quando fala, provoca muitas reações.

E que uma vez escreveu um artigo de opinião que derrubou ou ajudou a derrubar um primeiro-ministro do PSD, precisamente.

É verdade.

Acha que Pedro Passos Coelho pode fazer isso a Luís Montenegro?

Não acho que esteja na sua vontade, de todo. Mas reparem, eu não sou especialista. Mas não sendo especialista e estando fora, não me parece de todo que isso possa ser a sua vontade. Mais, isso seria mau para o espaço político de centro-direita, porque para aqueles que sonham que em futuras eleições, sejam elas quando forem, venha uma vitória do Partido Socialista pra depois virem reformar a direita. Quando isso acontecer, e se for antes dos tempos normais, isso, na minha opinião, é o fim do centro-direita moderado, tal qual o conhecemos hoje. E eu não quero estar aí.

Luís Montenegro recentemente voltou a falar da sua aspiração a chegar a uma maioria absoluta. É realista falar num PSD de maioria absoluta neste momento?

Por exemplo, neste cenário que eu aqui tracei, eu acho que é bem possível. Há tempo para o trabalhar. O que eu pretendo? Que à direita não existam delírios de grandeza, porque senão até quem fosse mal-

Não é delírio de grandeza falar de maioria absoluta com o Chega?

Não, espera aí. O delírio de grandeza é daqueles que podem ajudar o PSD nesse desígnio se perderem na tentativa de serem grandes eleitoralmente. E até mal-intencionados poderiam relembrar uma fábula La Fontaine, o Sapo e o Boi, que era o sapo que queria ser boi. Lá foi engordando, engordando, engordando, até que rebentou e portanto deixou de existir. Não me parece que seja o melhor caminho pra ninguém. Eu acho que é perfeitamente possível afirmar as ideias conservadoras, as ideias da social-democracia, da democracia cristã, de liberais, de reformistas, tudoNo mesmo conjunto partidário que tem um líder natural. Eu acho que não é preciso inventar a roda, é preciso não inventar muito.

Mas não acha, então, que há algum desligamento da realidade do país estar a falar de eleições antecipadas a três anos de legislatura e falando em maioria absoluta?

Não, mais uma coisa. O que eu acho é que todos os cenários têm que ser possíveis. E eu acho que o pior seria o de eleições antecipadas. É por isso que eu me rio muito quando vejo sondagens da atualidade. É porque no dia em que nós estivermos perante a possibilidade de ter eleições a uns meses, as sondagens vão mudar totalmente. Por quê? Porque vai acontecer, quem seja culpado por uma crise política, vai ser castigado. Já aconteceu uma vez ao Partido Socialista. Eu espero que exista algum bom senso. Eu tenho o José Luís Carneiro como uma pessoa de bom senso. Acho que está a cair um bocadinho o PS numa vertente antirreformista, curiosamente. Tudo que é apresentado, estão contra. Acho que a certa altura é um bocadinho difícil de dialogar. Quer dizer, nós temos uma circunstância parlamentar em que existem três blocos. Se um diz que não, o que se vai fazer? Vai-se contra a parede, tem que se falar com o outro, obrigatoriamente. Quer dizer, é o que é. E eu gostaria que a circunstância fosse outra, mas não podemos inventar aí. Mas eu diria, em relação à sua pergunta, que é conveniente que a direita não se perca nem em fogachos, nem em fantasmas, e avance porque tem muito caminho pela frente.

Ia lhe perguntar, falava dos fantasmas, mas talvez achasse excessiva uma nova pergunta sobre Pedro Passos Coelho. Se Pedro Passos Coelho é para deixar no passado.

Repare, o deixar no passado, eu posso ter boas recordações do passado.

Não quer dizer que repetiu.

Há coisas que são boas. Hoje não são os tempos da troika, nem os tempos do depois da troika. É a mesma coisa que se andar a dizer: "Ai, que o Partido Socialista tem muitas saudades de António Costa, que foi primeiro-ministro durante certo tempo." Agora é presidente do Conselho Europeu, bem podem ter essas saudades que quiserem. A vida não é imutável.

Vamos entrar no segundo segmento do nosso programa, o Bloco Carne ou Peixe. Venha daí a trilha. Imagine que estava numa das suas habituais partidas de tênis. Preferia acertar, inadvertidamente, claro, com uma bola em Paulo Núncio ou em Francisco Rodrigues dos Santos?

Eu não queria acertar em ninguém.

Eu disse inadvertidamente.

Mas falando de coisas desse gênero, eu diria que Paulo Núncio já está mais habituado a esses choques. Portanto, pronto, eu dava com a bola, mas devagarinho. Não fosse uma coisa com força. Já que tenho que optar por um, é sim.

É praticante de fitbox. Quem é que preferia que fosse o seu parceiro de treino, Ascenso Simões ou Mariana Mortágua?

Ascenso Simões. Isso já é um clássico, portanto, aí não há muita dúvida.

Imagine que está a completar a caderneta dos cromos do futuro da direita. Tem de escolher apenas um capitão. Preferia Sebastião Bugalho ou António Leitão Amaro?

Até por razões de amizade, claramente o Sebastião Bugalho. Não estou menosprezar o António Leitão Amaro, mas atenção, neste momento há uma rutura de stock em relação aos cromos e, portanto, é preciso ter algum cuidado, paciência. As horas chegam garantidamente a quem é persistente e se apresenta com boas ideias.

Para acabar, preferia ser mandatário de uma candidatura presidencial de Paulo Portas em 2031 ou integrar um governo da Aliança Democrática Liberal?

Vamos ver, eu estou de fora.

Mas neste caso não estaria.

Eu estou de fora da vida política.

É só imaginação.

O lugar de mandatário era mais adequado. Estamos a falar de 2030. Se calhar até avançarmos mais uns anitos para além de 2030, poderá haver altura em que não seja capaz de resistir ao apelo público. Neste momento estou a ser capaz disso, mas para daqui a uns anos muito grandes, é impossível de dizer.

Diogo Feio, como é hábito no nosso programa, o convidado serve a sobremesa, no caso, uma música. Que música que nos traz e por quê?

Bem, isto foi uma escolha em conselho familiar. Não foi fácil, porque eu tinha aqui várias hipóteses. Podia ter umas músicas mais dance do gênero "I Will Survive", em relação a alguns que ainda não acreditavam que isso acontecesse, ou em relação a muito daquilo que disse, o "Friends Will Be Friends", eu acho que era uma boa escolha, em relação às minhas origens e o Porto sentido, ou então uma coisa mais atual, o "Debby Tirar Mais Fotos" do Ben Vani também poderia ser uma hipótese. Agora eu acabei por fazer uma outra opção. Eu trago outra música para este momento, que é o "Homem de Lena", porque acho que ela se adequa àquilo que temos e mais do que uma onda, mais que uma maré. Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé, mas jogando à vontade, rompendo a saudade, vai quem já nada teme, vai o homem de Lena.

E presumo que esteja a falar de Luís Montenegro. Muito obrigado, Diogo Feio, por ter vindo a esta Vixiçuas. Os nossos ouvintes podemOuvir novamente esta entrevista nas plataformas habituais ou lê-la na íntegra no site do Observador. Até à próxima.

Um barco ruma para onde vai. Uma luz no escuro. Brilha direito ou ofuscas demais. E mais que uma onda, mais que uma maré. Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé. Mas fugindo à vontade, rompendo a saudade. Vai quem já nada teme, vai o homem do leme. E uma vontade de rir. Nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir. A vida é sempre a perder. Do fundo do mar. Já sem os outros, os que lá ficaram. Em dias cinzentos. Descanso eterno lá encontraram. E mais que uma onda, mais que uma maré. Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé. Mas fugindo à vontade, rompendo a saudade. Vai quem já nada teme, vai o homem do leme. E uma vontade de rir. Nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir. A vida é sempre a perder. Do fundo do horizonte. Sopra um murmúrio para onde vai. Do fundo do tempo. Hoje o futuro é tarde demais. E uma vontade de rir. Nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir. A vida é sempre a perder. E uma vontade de rir. Nasce do fundo do ser.