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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Estamos em plena campanha presidencial, onde 11 candidatos lutam por uma passagem à segunda volta. Mas esta quinta-feira, aqui nesta Vixi Suave, tenho comigo os quatro homens mais pressionados do país, os principais responsáveis pelas sondagens eleitorais. Temos conosco Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica e responsável pela Tracking Poll da TVI CNN, António Gomes, diretor-geral da GfK Metrix, António Salvador, fundador e responsável pela Intercampus, e João António, diretor do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica. Bem-vindos a todos. Começo por si. Utilizei uma regra que não melindra ninguém: ordem alfabética. Começo por si, Alexandre Picoto, com uma pergunta clássica, que tem tanto de clássica como de provocadora: afinal, podemos confiar nas sondagens?
Olá, boa tarde. Agradeço a oportunidade. Eu creio que se pode confiar nas sondagens, aliás, de forma muito tangível e ao contrário do que é a maioria da opinião publicada e muitas vezes comentada, as sondagens, majoritariamente, têm apresentado resultados extraordinários e que dizem respeito àquilo que é a fotografia. Em todo o caso, as sondagens têm que ser separadas em dois grandes grupos: as sondagens pré-eleitorais e as sondagens do dia, mais conhecidas, se calhar, por sondagens de boca de urna. Na boca de urna temos resultados históricos, sempre atingidos de eleição para eleição. Estão aqui colegas mais antigos que podem falar desses resultados, porque eles são os responsáveis por elevar esse nível. E nas pré-eleitorais temos tido também resultados extraordinários. Alguns outliers pontuais que têm justificações, porventura, que os podem suportar, mas majoritariamente as sondagens comportam-se bem e são confiáveis.
António Gomes, admitindo que concorda com Alexandre Picoto, numas eleições tão imprevisíveis como esta, como é que se justifica a oscilação a que temos assistido? Ora um candidato surge em primeiro, ora surge em quinto, um candidato surge com pouca percentagem ou com poucas intenções de voto e de repente está aparentemente na iminência de entrar no pódio. Bem sei que são fotografias do momento, bem sei que devem ser lidas com prudência, mas como é que se justifica esta oscilação?
Boa tarde a todos, obrigado pelo convite para estar presente. Só nos parece oscilação porque estamos a usar uma lupa. Vou dar um exemplo. Aliás, creio que a Universidade Católica tem essa boa prática, ainda que ela seja editorialmente questionável por vontades, por essas dos meios. As sondagens são sempre um instrumento de uma previsão, mas com base numa observação amostral e não censitária. E, portanto, todos os manuais de estatística recomendam que na divulgação destes resultados se faça arredondamentos. Ora bem, nós nem sequer temos esse hábito de fazer os arredondamentos, ou nem sempre acontece que esses arredondamentos ocorrem, mas se nós fizéssemos arredondamentos, a fotografia que tínhamos não era de oscilação nenhuma. Ou seja, na verdade e objetivamente, como se tem dito e tem havido cuidado por parte, nomeadamente nossa, quando comentamos as sondagens, é dizer que as pessoas estão todas empatadas. E é precisamente por estarem todas empatadas que, ao contrário daquilo que se vê noutras eleições, digamos assim, ficamos com uma estranha perceção de oscilações com significado. Eu acho que se se fizesse uma análise das oscilações de agora versus outras eleições, as oscilações eram factualmente as mesmas, ou seja, o valor médio da oscilação por partido ao longo dos últimos 15 dias ou dos últimos três meses versus o atual. O que é que acontece no atual e que é diferenciador? É a inequívoca fragmentação da intenção de voto, donde nós temos a lupa porque queremos ir à procura de algum tipo de oscilação. No fundo, nós temos essa vontade. Então hoje subiu para terceiro, baixou para segundo. Se as diferenças entre os candidatos, como acontece por vezes em legislativas e inclusive noutras presidenciais, fossem muito mais significativas, as oscilações continuavam lá, mas nós não nos apercebemos disso porque diríamos: "A já vai ganhar de certeza, B vai perder de certeza e não saímos daqui". É mais que tudo uma questão de enfoque. Está a me entender? Perspectiva.
António Salvador, percebi pelas intervenções anteriores que aqui há uma crítica justa e legítima à forma como estas sondagens são tratadas editorialmente por nós jornalistas. É assim? São os jornais e os órgãos de comunicação social que interpretam mal as sondagens?
É uma pergunta difícil, de facto, porque elas são tratadas com diferentes níveis de cuidado. E com frequência também tem que ser muito rápido e o jornalista faz peças com base em pouca informação. Já tem que publicar a ficha técnica. Uma televisão, por exemplo, que me ocupa imenso tempo. Eu acho que a ficha técnica podia ser muito mais reduzida, mas há uma série de questões que não permitem olhar para as sondagens com o mesmo cuidado que eu gostaria que fossem feitas e que eu próprio faria. Por outro lado, eu concordo plenamente com aquilo que o António Gomes acabou de dizer. Eu só tenho duas certezas: é que vai haver segunda volta e que se o António e se o André Ventura forem dos presentes nessa segunda volta, o outro será o presidente da República. De facto, os números têm nos dito, com a margem de erro, com os indecisos e com outro problema que é também frequente, que é a quantidade de declarados abstencionistas é sempre muito inferior àquele que de facto Se vai verificar e isso tem a ver com motivação. Portanto, os resultados que têm sido apresentados não há garantias de nada, está tudo em aberto, para além daqueles dois aspetos que eu acabei de referir. Depois há questões que podiam ser mais detalhadas. Eu dou um exemplo: a fidelização das estruturas partidárias. Essa fidelização é muito mais significativa com André Ventura e Cotrim de Figueiredo do que é com Marcos Mendes ou com António José Seguro. Na nossa última sondagem, o Marcos Mendes tinha o suporte de apenas 47,1% dos apoiantes PSD e o António José Seguro, curiosamente, 41,7.
E isso torna mais imprevisível medi-los nesses estudos de opinião?
Torna mais difícil antever. São retratos do momento, as sondagens, não são previsões, as previsões são apenas a boca de urna. Na boca de urna é que nós entrevistamos o universo adequado, que é o dos votantes. Aqui, nas sondagens falamos com os potenciais eleitores. E portanto, no fim, só alguns deles vão ser votantes. As previsões, em bom rigor, são apenas a boca de urna e as sondagens são meros retratos do momento. É mais difícil perceber, e agora que começou a campanha eleitoral formal, manter-se-ão estes níveis de fidelização ou as estruturas partidárias aumentarão os seus apoios? E que efeitos terão as acusações mútuas, por exemplo, entre Rui Rio e Marques Mendes? E o Pedro Passos Coelho continuará calado ou irá manifestar-se? Tudo isso pode influenciar a decisão do eleitor e do votante. E creio que os portugueses vão votar nesta primeira volta muito a pensar na segunda, algo que não aconteceu há 40 anos, quando ganhou Mário Soares. Normalmente uma primeira volta mostra-nos as preferências, e era isso que neste momento devia estar a acontecer, e na segunda volta juntam-se as rejeições. Eu penso que agora vai haver, e isso pode significar maior volatilidade, vai se juntar ao entusiasmo natural que cada candidatura pode transmitir, a racionalidade do que aconteceu, por exemplo, quando António Costa teve a maioria absoluta.
Precisamente, e era aí que eu queria chegar, António, estendendo agora a conversa para o João António. Nos últimos atos eleitorais, antes e depois, as sondagens tiveram algumas dificuldades em antecipar alguns fenômenos. Dir-me-á que não foram as sondagens, foram os jornalistas, mas enfim. E esses fenômenos foram, como dizia o António Salvador, a maioria absoluta de António Costa ou mesmo os 50 deputados do Chega. Nós podemos estar na iminência de acordar a 19 de janeiro com um resultado muito diferente da tendência que tem sido verificada nos estudos de opinião mais recentes?
Diria que muito diferente, não. Agora, também acho que até ao dia das eleições, o que vai acontecer é uma concentração, é possível que aconteça aqui uma concentração de voto em alguns candidatos. Isso, por exemplo, no caso que referiu de 2022, isso foi evidente. Houve ali uma concentração de voto no Partido Socialista de última hora, que aliás temos estudos que depois demonstram essa mesma concentração, que era algo que não estava previsto. O que pode acontecer num cenário como este em que está tudo empatado? Ou seja, como já disseram os meus colegas, é muito difícil saber quem é que realmente estará à frente ou não nestas eleições, neste momento. Isto acontece por vários motivos. Nós não tínhamos aqui à partida um candidato ganhador, como já tivemos noutras eleições, como foi Marcelo Rebelo de Sousa ou outros. Não tínhamos ninguém que se aproximasse dos 45 ou dos 50% de intenções de voto. Não temos ninguém. E isso mesmo em 1986, que foi a única eleição onde houve uma segunda volta, tínhamos Freitas do Amaral já perto desse valor à primeira. Estas eleições nisso são completamente diferentes. Por exemplo, alguns candidatos como o António José Seguro ou Cotrim de Figueiredo, que têm vindo a subir nas sondagens, são candidatos que se calhar ao início tinham uma desconfiança que agora têm tentado conquistar ao longo da campanha, têm tentado conquistar as pessoas que desconfiavam deles, de alguma forma. Mesmo dentro do Partido Socialista, o que se vê hoje é que há muito mais pessoas a apoiá-lo do que havia no início da campanha. E isso não tem nada a ver com as sondagens, tem mesmo a ver com o próprio desenvolvimento da campanha e da pré-campanha e dos debates que têm acontecido entre os vários candidatos.
Alexandre Picoto, a Pitagórica tem uma ferramenta, a Tracking Poll, uma sondagem diária que os jornalistas apreciam particularmente, e aqui me incluo, que os políticos, os candidatos, pelo menos aqueles que estão a descer, não gostam particularmente. Mas a pergunta que tenho para si é sobre como é que esta ferramenta, a Tracking Poll, impacta e influencia a campanha, porque sabemos que impacta e influencia.
Eu gostava só de voltar ligeiramente atrás. Dizer-vos o seguinte: há um fenômeno que era importante termos presente, que tem a ver com fidelização partidária. Estão aqui vários colegas meus que trabalham em estudos de mercado também
Há uns anos atrás, se falássemos em questionários sobre detergentes para roupa, a maioria das pessoas utilizaria sempre Skip, por exemplo. E ao longo do tempo, os lineares de detergentes para roupa foram crescendo e com isso foi se fragmentando este mesmo comportamento. Se nós falarmos com eleitores mais velhos, eles vão dizer que votam sempre no mesmo partido de uma determinada forma. Se falarmos com eleitores jovens, não lhes faz o mínimo sentido que o voto não mude, porque a fidelização partidária é muito inferior e eles estão convencidos que é preciso encontrar em cada momento da eleição, o melhor candidato, o melhor partido ou a melhor circunstância. Quando no passado tínhamos mais eleitores com alto nível de fidelização, e esse nível de fidelização ainda existe a partir dos 50 anos para cima, o nível de fidelização partidário é muito grande, nós tínhamos muito menos oscilação. Hoje, aquilo que nós vemos e as oscilações que muitas vezes encontramos têm a ver quantas pessoas vocês conhecem na sua vida pessoal que dizem: "Epá, não sei esta eleição em quem é que eu vou votar. Eu olho pra esse, olho pra aquele e estou com várias dúvidas". E, portanto, o que significa é, quando há menos convicções, quando as pessoas já não são do partido A ou do partido B, do nascimento à morte, e quando admitem poder votar em espectros até muito diferentes do ponto de vista ideológico, isso faz com que as pessoas estejam mais atentas, mas também pequenos inputs possam fazer alterar os seus comportamentos. Voltando ao seu tema, as subidas e as descidas, os candidatos gostam ou não gostam. Muitas vezes não há subidas nem descidas. Eu pego nas palavras do António Gomes. Reparem, ontem os cinco principais candidatos estão separados naquilo que nós, que quase todos os portugueses até já conseguem reproduzir, o chamado empate técnico. Significa que o intervalo superior do último dos cinco candidatos toca no intervalo superior, pelo menos, senão do primeiro, do segundo, e portanto, em tese, todos os cinco podem passar à segunda volta. Mas entre o primeiro e o segundo, a diferença é tão pequena que dizer que é um que está em primeiro ou é outro que está em segundo, do ponto de vista da matemática, não faz qualquer sentido. Em todo o caso, como há uma hierarquização, e é isso que as pessoas querem, é isso que o jornalismo quer e é isso que as pessoas em casa querem ter uma percepção, justifica muitas vezes estas dinâmicas. Na sequência da sua pergunta, diz: "Mas isto influencia?" Claro que influencia. "E altera comportamentos?" Claro que altera comportamentos. Da mesma forma que se você estiver a pensar fazer um piquenique no fim de semana e souber que vai chover, provavelmente muda pra ir a um shopping ou pra ir a um cinema ou pra ir fazer outra atividade qualquer outra, nem que seja ficar em casa. Mais informação permite às pessoas alterarem as suas mesmas conclusões. É por isso que você, quando compra ações, tem um conjunto de ferramentas disponíveis pra você poder perceber o que está a acontecer com o mercado. Se você vir que de repente há um movimento de queda, você pondera se vende ou se não vende ou se compra. É a mesma situação, quanto mais informação nós dermos às pessoas, essa informação em algumas não gera nenhum impacto, por aquilo que eu vos disse há instantes. As pessoas têm um alto padrão de fidelização. O meu pai, um dia eu pedi-lhe que não votasse num determinado candidato e ele respondeu-me que não era vira-casacas. Isto para situar que alguns eleitores têm para com o voto, um comportamento que não é igual ao de outros. Há candidatos que estão à procura de uma pista do que ele disse certo ou com quem eu mais me identifico, e outros têm a ver com a fidelização, seja ela ideológica ou de afinidade, até emocional. E portanto, todos estes elementos contribuem para oscilações. Quanto menor a fidelização eleitoral, maior as oscilações nós vamos assistir.
António Gomes, este ponto é particularmente interessante porque durante muitos anos se discutiu a forma como os próprios inquiridos destes estudos de opinião se comportavam. Na altura era o chamado voto envergonhado no CDS, que era sempre sub-representado nas sondagens. A forma como os inquiridos se adaptam às sondagens e procuram reproduzir individualmente nelas determinados resultados, isso é difícil de medir, isso tem influência real nos resultados que nós vemos nas televisões e nos jornais?
Vamos ver se eu percebi bem a pergunta. O voto envergonhado pode ser consequência objetivamente e simplificando duas coisas. Primeiro, o voto envergonhado resulta da força política com a qual o eleitor se identifica ter um peso relativo inferior, isto é, diminuto, e em consequência, ele não se sente confortável de dizer a terceiros que vota numa coisa que tem uma expressão percentual residual ou potencialmente residual. Isto é o que acontece quando os partidos são novos, emergem e as pessoas têm alguma dificuldade em dizer que votam nestes partidos com menos votos. É preciso não esquecer, se a pessoa disser: "Olha, eu vou votar no candidato X", e o candidato X nas sondagens tem 1%, ele tem medo de ser julgado por quem lhe faz a pergunta. Depois há um outro tipo de envergonhar que não tem a ver com isso, tem a ver com uma coisa que todos nós já falamos muitas vezes em muitas intervenções públicas e que tem a ver com a tal espiral do silêncio ou os shy voters, que na verdade são eleitores que a vergonha deles não tem a ver com o tamanho do partido, mas com o fato de o partido ou, no fundo, a força política com a qual se identifica, estarem sobre uma barragem de crítica do ponto de vista social. Aliás, a teoria na origem tem a ver com partidos no exercício do poder, isto é, que formaram um governo e que estão a governar e que normalmente no ciclo de vida da governação estão mais sujeitos a uma barragem de crítica pública e o seu eleitorado permanece fiel, mas não o manifesta de forma pública. Esta é, no fundo, a explicação O tempo mais recente ou nos tempos mais recentes, nós apercebemos-nos relativamente a forças políticas de que elas próprias têm passado por esses mesmos ciclos. A verdade é que o CHEGA ou os apoiantes do CHEGA há alguns anos atrás tinham mais uma propensão para serem shy voters do que são hoje. E portanto, hoje não têm nenhuma dificuldade, vergonha, embaraço, seja lá o que for, para dizer: "Sou apoiante do CHEGA e vou votar no CHEGA". É como é.
E acha que esse comportamento pode acontecer nestas presidenciais e não apenas com o André Ventura, mas com outros candidatos? Acha que pode haver algum candidato-
Qual deles? Alguém que sofra de um fenómeno de-
De sub-representação nas sondagens. Potencial, aliás, claro
A sub-representação não tem forçosamente a ver com o fenómeno de os eleitores ou os apoiantes ou os potenciais votantes estarem envergonhados. Atenção, nós sabemos também que o shy voter tem algum perfil do ponto de vista de características sociodemográficas, nomeadamente os mais velhos têm mais dificuldade em determinadas situações em dizerem em quem é que vão votar. E portanto, é uma consequência de: "Tenho 70 anos e não vou dizer a um estranho que bateu à porta que me perguntou para casa, como é que vou votar". Isso tenta-se mitigar, não se consegue forçosamente ultrapassar. Sabemos que esse fenómeno pode acontecer. Tentamos que as pessoas entendam, por ação dos entrevistadores, que é apenas uma informação e que não tem qualquer consequência. Objetivamente, nestas eleições não me parece, porque o que acontece tendencialmente com estes fenómenos é que os candidatos estão sobre uma barragem de crítica e, em consequência, o seu eleitorado sente: "Bom, vou ficar calado, não vou dizer a ninguém que vou votar em A ou vou votar em B". Não me parece, porque a própria natureza fragmentada da intenção de voto atual coloca outros tipos de desafios para as pessoas, e o Alexandre enunciou uma parte deles, que é o risco de haver muita gente neste momento que se sente, não diria indecisa, não é tanto indecisão, mas são muitos candidatos, são muitas propostas. Talvez isso justifique a tal lógica de alguma variação dia a dia, porque na verdade são muitos candidatos e muitos com possibilidade de vencerem, então o eleitorado também fica potencialmente mais atento a algum tipo de contributo que possa acontecer em termos de mudança da opinião. É por aqui que eu vou. Já agora, uma provocação, Miguel. Depois eu pergunto ao João António e ao José Tiago, mas não posso deixar, eu no lugar dele teria respondido invertido. Miguel diz: "Bom, acha que pode haver surpresas". Os resultados que existem hoje não podem ser suscetíveis a achar que há surpresas, exceto se nós próprios partimos de um princípio que é: não obstante estarem todos empatados, vão passar à segunda volta, provavelmente, aqueles que nós achamos que são. Os resultados hoje, Miguel, dizem-nos que pode passar qualquer dupla. É bom que as pessoas percebam isto.
Sim, não haverá surpresas.
Claro, pode ser o André Ventura com todos, pode ser o Gouveia e Melo com todos, pode ser o António José Seguro com todos, pode ser o Marques Mendes com todos e pode ser o Coutinho com todos. A ideia de improvável tem a ver com aquilo que nós achamos que é razoável poder acontecer. Mas quando os resultados estão assim, a prudência diz que é melhor não pensarmos na razoabilidade. A não ser que alguma coisa aconteça até meados da próxima semana e algumas tendências se afirmem, ou então vai mesmo ser, como diria o Forrest Gump, uma caixinha de bombons, só pode abrir é que sabe.
António Salvador tem muita experiência, aliás, já aqui foi referido pelo Alexandre Picoto, já acompanhou muitas eleições, seguramente. O que acha que pode acontecer do ponto de vista da campanha eleitoral, que determine ou mude drasticamente o desenrolar da corrida? Que tipo de acontecimentos é que mobilizam mais o eleitorado?
De alguma forma, já referi. E voltando àquilo que aconteceu com o António Costa, no inquérito eleitoral que fizemos, 24% dos votantes só decidiram na última semana e desses, 50%, ou seja, 12% do total, só decidiu nos últimos dois dias após terminar a campanha eleitoral. Portanto, a indecisão era, de facto, muito grande.
E acha que pode acontecer aqui também na primeira volta?
E isso pode acontecer porque as pessoas vão votar na primeira volta a pensar na segunda, e isso pode significar maior volatilidade. Até porque, e de alguma forma o Alexandre já o referiu, as pessoas não se preocupam tanto hoje com a ideologia subjacente, de forma algo análoga com o que acontece com os produtos de grande consumo e com as opções de conveniência. Hoje, até a confiança, quando nós perguntamos que características deve ter um presidente da República, verificamos que a confiança também não tem o mesmo significado. Tem alguma, mas já não tem o mesmo significado que teve e a competência percebida tem muito maior importância. Aliás, acho que foi por isso que o Gouveia e Melo partiu muito à frente de todos os restantes candidatos. Agora, também, e quando estamos a falar de diferenças tão pequenas, queria chamar a atenção para um aspeto: qual será o nível de participação? Porque até hoje estamos a fazer estudos em Portugal continental ou em Portugal continental e regiões autónomas, mas não junto da imigração. E a imigração, no último ato eleitoral, foi mais de 350 mil indivíduos a participar. E com números e com diferenças tão pequenas, nós arriscamo-nos a que no próprio dia, no domingo, ao contrário do que é habitual, tenhamos que dizer: "Bom, temos que esperar pelos votos da imigração para concluir quem vai à segunda volta". Eu não me lembro, e tenho muita experiência, de ter vivido uma situação de incerteza tão grande E todos os aspectos, há bocado falei nas acusações mútuas entre Marcos Mendes e Guilherme Melo, e acredito que algumas delas têm algum efeito. A campanha eleitoral faz por isso mesmo, faz para captar os indecisos, mas também para ajudar a definir sem dúvidas qual vai ser a intenção de voto. Acho que é muito cedo com os números que temos, estão todos empatados. São presunções, como dizia o António há pouco, nossas, de nós próprios, que nos levam a falar de surpresas. Eu não vejo que haja um motivo para falar de surpresa, seja qual for o resultado. E não estou a jogar à defesa quando digo isto, é genuinamente aquilo que penso.
João António, deixo para si a pergunta mais difícil, sem prejuízo de poder responder a outros pontos que tenham sido levantados ao longo da nossa conversa. Temos assistido no debate político, crescentemente, a algumas críticas às empresas de sondagem e, mais do que críticas, a defesa da necessidade de se rever as regras, quer de realização de sondagens, quer de publicação das mesmas sondagens. Acha que é um debate que faz sentido? Acha que estas críticas podem provocar uma alteração na forma como se regulam estudos de opinião?
Ainda antes de responder a essa pergunta, apenas dizer que quando há pouco dizia que penso que não haverá surpresas, uma surpresa perante o que as sondagens estão a dizer hoje, seria, por exemplo, uma maioria absoluta à primeira volta, isso seria surpreendente. Ou uma passagem à segunda volta de um dos outros seis candidatos, portanto, que não daqueles cinco que têm estado sempre nos primeiros lugares das sondagens. Sobre o que se pode fazer quanto às sondagens, se deveriam ser proibidas em alturas de campanhas eleitorais, se deveria ser alargado o período no qual elas não podem ser publicadas, já houve tempos em que foi um mês, já houve tempos em que foi uma semana antes das eleições. É algo que eu acho que vale sempre a pena discutir, mas há aqui um pequeno problema: é que elas não deixarão de ser feitas. O que estamos aqui a falar é de sondagens que são públicas, que são conhecidas de todas as pessoas. Mas os partidos, mesmo se houvesse uma lei, por exemplo, que impedisse a publicação de sondagens nos últimos dois meses antes de uma eleição, os principais partidos, aqueles que têm mais dinheiro, continuariam a contratar sondagens e portanto elas continuariam a ser feitas, não eram publicadas, não eram do conhecimento público de todos.
Publicadas nas redes sociais. Exatamente. Eu diria que quem é que vai dar tal tal ao órgão de comunicação social espanhol que as divulgar?
Aliás, é isso que acontece em Espanha, não é? Usam até frutas em cima.
Já houve em países onde é proibido, e mesmo em Portugal, isso já aconteceu, já houve momentos onde era publicado noutro lado. Agora pode-se publicar nas redes sociais, pode-se publicar onde se quiser. Mas mesmo que não se publicasse em lado nenhum, seria sempre do conhecimento de alguns. E o ser do conhecimento de alguns faria com que o seu próprio comportamento, o seu próprio comentário, seja o que fosse, um comportamento político dos atores políticos ou dos comentadores ou dos jornalistas, tudo isso seria diferente. Porque as pessoas acabam por ser influenciadas claramente pelos resultados das sondagens, dos estudos de mercado e dos estudos de opinião que vão fazendo. Isso é claro. Da mesma forma que as estratégias políticas também mudam em função deste tipo de estudos. Isso viu-se, por exemplo, também nas eleições de 2022. A última semana há uma mudança clara na estratégia do Partido Socialista na altura.
Mas há uma coisa que eu não consigo, peço desculpa, João António, não consigo deixar de referir. Eu próprio tentei em determinado momento que a ERC tomasse alguma posição, fizesse uma jornada de reflexão, como se fez há muitos anos no anexo da Assembleia da República, e a resposta que tive foi que eles não estavam muito preocupados e muito virados para essa situação. Acho que essa discussão tinha sempre que ser feita também com a presença da ERC. E eu não acho também que hoje se fale pior do que se tem vindo a falar das sondagens, sinceramente, não é uma coisa que eu esteja hoje mais preocupado do que ontem. De qualquer forma, há um parceiro que devia estar sempre presente e que pelos vistos tem uma posição de indiferença relativamente ao que acontece neste mundo, que para nós é muito importante, mas para outrem parece que não é tão importante assim.
Meus senhores, muito obrigado por terem vindo a esta Vici e Suave. Foi um gosto tê-los cá. Poderíamos ficar muito mais tempo a debater esta questão. Infelizmente, o tempo é finito. Muito obrigado mais uma vez. Os nossos ouvintes já sabem, a Vici e Suave, durante o período de campanha eleitoral, é servida em dose diária e à quinta-feira, na próxima quinta-feira, teremos a versão estendida da refeição mais deliciosa da política portuguesa. Muito obrigado e até à próxima.
Muito obrigado.
Boa tarde. Obrigado. Boa tarde.