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Bem-vindos à segunda parte da "Vici Suave". Connosco temos Rui Moreira, que foi presidente da Câmara Municipal do Porto durante 12 anos. Também foi mandatário nacional da candidatura de Luís Marques Mendes nas eleições presidenciais, na primeira volta. Bem-vindo, Rui Moreira. A atualidade impõe-se nos últimos tempos, principalmente devido às tempestades, em particular a tempestade Cristina, mas também outras que vão deixando o país num estado difícil. Foi autarca durante 12 anos, enfrentou também cheias no Porto, embora com dimensões diferentes, mas lembro-me de algumas. Também conhece bem o modo de funcionamento da Proteção Civil, dessas funções, em particular essa ligação. Também é informado sobre a realidade que o rodeia. Tendo em conta tudo isso, consegue perceber se o governo falhou na resposta que foi dada à tempestade Cristina ou era impossível ter dado uma resposta suficientemente adequada?

É um prazer estar na "Vici Suave". Aliás, é uma sopa que eu gosto particularmente e gosto do vosso programa. Enfim, numa situação desta natureza, é praticamente impossível responder ao desafio que se coloca. De facto, nós não estamos habituados a este tipo de alterações climáticas desta natureza. A população não está preparada, a Proteção Civil não tem os recursos e é muito difícil. É a mesma coisa que se nós tivermos um tremor de terra, ou seja, é difícil. O que acontece depois é que a forma como o país se organiza em termos da Proteção Civil é muito assimétrica. No caso do município do Porto, por exemplo, é um município com uma área pequena, com muita densidade populacional e que tem um conjunto de estruturas preparadas para corresponder a este tipo de circunstâncias. Mas aquilo que nós sabemos é que há um país profundo, muito diferente, em que os municípios têm poucos recursos, têm pouca capacidade instalada e o país visto de Lisboa demora muito tempo a ver. A sensação com que eu fiquei é que o país demorou, e também os nossos governantes demoraram algum tempo a perceber qual era a dimensão da catástrofe. Até porque de repente todas as comunicações foram arrancadas. Nós temos um país que vive fundamentalmente da eletricidade, e a eletricidade também parou. Portanto, fico com a sensação de que não havia sequer recursos pra poder fazer outra coisa. Tenho muita dificuldade em criticar aquilo que sucedeu. É muito difícil fazer uma avaliação crítica numa situação de caos. Eu passei pela A1 na sexta-feira passada e depois fiz a A8 no domingo. Quando nós olhamos pra aquilo que aconteceu, nomeadamente à floresta ali na zona do Pinhal de Leiria, vemos árvores que foram partidas a meio ou arrancadas. Há outras zonas que parece aquele desastre da Sibéria no princípio do século XX, em que as árvores são todas deitadas, vê-se estruturas até de betão partidas, não há comunicações e portanto, é muito difícil fazer uma crítica severa relativamente a esta matéria.

Deixe-me só interrompê-lo pra perguntar. Se calhar, olhando pra frente, é preciso que o governo tenha agora coragem pra fazer algumas mudanças de fundo, não é? Por exemplo, nos aspetos que estava a referir na organização da Proteção Civil, na maneira como a eletricidade funciona e as ligações funcionam em Portugal?

Acho que sim. Desde logo, nós já percebemos há muito tempo que esta história do SIRESP não existe, quer dizer, não vale a pena, porque na primeira circunstância há falta de energia, há falta de comunicações, as torres desaparecem, portanto, não vale a pena. Mas eu não consigo compreender porque nós não usamos o Starlink. As redes de televisão usaram o Starlink e funciona. Por que não distribuem Starlinks pelas freguesias, por exemplo? É uma coisa que qualquer de nós consegue perceber, que não vale a pena nós andarmos a insistir em tecnologias estranhas, quando existem tecnologias globais que funcionam bem. É apenas um exemplo do que se pode fazer. Portanto, acho que ao mesmo tempo, há uns anos atrás, acabaram com os governos civis. O governo civil era a representação descentralizada do Estado central. Hoje, as CIM e as áreas metropolitanas não assumiram essas funções. Nós hoje em dia estamos muito dependentes da capacidade de cada município e também da vontade e da aposta que cada município fez na prevenção de catástrofes naturais e deste tipo de circunstâncias. E muitos desses municípios, pura e simplesmente, não têm massa crítica, não têm engenheiros, não têm trabalhadores, não têm quem possa intervir no terreno. Nestas situações, nós ficamos sempre com a sensação que há uma grande generosidade das pessoas, mas às tantas vemos alguns responsáveis que funcionam quase como o povo chama de baratas tontas, andam pra ali a correr de um lado para o outro. Eu falei com algumas pessoas que conheço que vivem naquela zona e diziam: "Nós estávamos ali desesperados Passavam os carros da GNR para frente e para trás, mas ninguém parou a perguntar se nós precisávamos de alguma coisa. Portanto, esta sensação que eu já senti e vocês provavelmente também, em situações de incêndio, em que de repente há uma correria enorme, uma generosidade enorme, mas muito pouca capacidade de liderança. E essa liderança tem que ser descentralizada, mas tem que ter massa crítica. Portanto, talvez tenhamos que encontrar aqui uma forma de organizar o país de outra maneira.

A ministra da Administração Interna disse que não sabe o que falhou, que foi uma aprendizagem coletiva. O ministro da Presidência publicou um vídeo que depois teve que retirar. O ministro da Economia também foi um bocadinho atabalhoado quando disse que as pessoas deviam utilizar o salário do mês de janeiro e depois viriam os apoios no final de fevereiro. Sobre os apoios já lhe vou fazer uma pergunta, porque também já vi que disse que não podem ser enviados por MBO, pois há uma responsabilidade de quem atribui os apoios. Mas, não obstante a boa vontade que o governo possa ter tido, a comunicação não correu bem, como disse o presidente da República.

A comunicação não correu bem, mas também já agora a comunicação do senhor presidente da República também não correu nada bem.

Também lhe ia perguntar isso a seguir, se houve alguma falta de senso.

Vamos ver. É evidente que a comunicação não correu bem. Eu defendo muitas vezes e tenho falado muito nisto, nós precisamos de governantes. Nos tempos de hoje, os governantes precisam de saber comunicar bem. Têm que ter muito cuidado com a palavra, qualquer palavra que é dita é muitas vezes até descontextualizada, mas essa é a natureza da nossa vida contemporânea. Não vale a pena nós tentarmos voltar atrás. No passado não era assim, no passado os políticos diziam as coisas que queriam e não havia este escrutínio. Hoje há um escrutínio grande. E portanto, o que me parece é que nós vimos que o primeiro-ministro foi capaz de falar no tempo certo. Houve quem dissesse que ele devia ter falado antes, era preciso naturalmente perceber a dimensão da coisa. Alguns dos ministros enterraram-se em erros de comunicação que depois são escrutinados por toda a gente, principalmente numa altura destas. Nós hoje em dia vivemos no politicamente correto, na palavra certa e portanto temos que ter um cuidado que se calhar não houve. Nós precisamos de governantes que sejam políticos, não precisamos de governantes que sejam especialistas nem técnicos. E acima de tudo, não podemos ter governantes que aumentam a nossa incerteza. Ou seja, quando nós já estamos numa situação em que não percebemos o que está a acontecer, quando aparece um governante a dizer que também não percebe o que está a acontecer, causa angústia e essa angústia depois paga-se caro. Paga-se caro até na inter-relação, na economia. Portanto, não me parece que tenha sido muito feliz no caso da senhora ministra da Administração Interna. O senhor ministro da Defesa também fez uma aparição que não pareceu a melhor. O ministro da Presidência fez um vídeo que depois teve que tirar porque percebeu que isto não vai. Nós gostamos muito de TikTok, mas não se pode governar por TikTok. Aquilo é uma coisa assim TikTokiana. Portanto, sim, acho que foi mais a comunicação do que a resposta que correu mal.

Que falhou.

Mas isso abrange também todos os atores políticos. Nós tivemos atores políticos, com todo respeito, a dizer que isto não é um jardim zoológico, mas depois aparece o líder do seu partido e vão passear e mostrar o jardim zoológico.

Neste caso, o presidente da Câmara de Leiria.

Exatamente, que é um amigo meu, tenho as maiores considerações por ele e percebo o desespero em que está, mas quer dizer, aquelas declarações são declarações que só podemos compreender por ele estar em algum desespero. Não é muito razoável que haja esse tipo de declarações, porque só criam ansiedade, não resolvem nada. São desabafos, bem sei, mas os desabafos hoje são escrutinados de outra maneira.

Deixe-me perguntar-lhe, porque também falou do presidente da República e da maneira como comunicou. Nós queremos perguntar-lhe porque o presidente da República anda a fazer um périplo pelas zonas afetadas. Já fez algumas críticas muito duras ao governo. Acha que é falta de solidariedade institucional?

Com todo o respeito pelo senhor presidente da República, e acho que nós vamos ter saudades de Marcelo Rebelo de Sousa em muitas coisas, eu acho que há aqui uma sensação de vingança relativamente ao governo. Nós percebemos que ele e o primeiro-ministro nunca tiveram as melhores das relações, mas parecem um ajuste de contas algumas das declarações dele. Mas nem me preocupa tanto relativamente ao governo. Nós vimos a reação ontem das operadoras. Com toda a razão, quer dizer, há uma insensibilidade da parte do senhor presidente da República, que no meio disso tudo resolveu ir para o Vaticano. Quando o país estava virado ao contrário, o senhor presidente da República resolveu ir para o Vaticano. Eu percebo que ele é católico, gosta muito de ir ao Vaticano, que está de saída, que esteve doente, que teve que adiar a viagem. Mas depois chega cá e de repente começa a fazer um conjunto de declarações avulsas que soam a ajuste de contas.

Acha que Marcelo Rebelo de Sousa também estava a correr um bocadinho contra o próprio prejuízo por não ter estado imediatamente?

Eu acho que ele estava a reagir às críticas que lhe foram feitas pelo fato de numa altura destas ter resolvido ir viajar. Com todo o respeito pelo Vaticano e pelas relações de Portugal com o Vaticano, não são tão cruciais, não estamos a falar numa coisa tão crucial que leva que o senhor presidente da República se ausente e principalmente tendo explicado que lhe tinham dito que nestas situações os responsáveis políticos não deviam estar nos locais. O que não faz sentido nenhum, porque ele sempre o fez, independentemente dos pareceres que tinha. E quando estamos em campanha eleitoral, ainda por cima. E sabemos também que a campanha eleitoral está a ser claramente atingida por isto, parece-me que o senhor presidente da República, neste caso, não esteve nada bem.

Já agora, na campanha tem visto algum aproveitamento político aqui da tempestade?

Claro. Eu acho que o doutor André Ventura tem feito aquelas rábulas do costume. Tem tentado apostar naquilo que sucedeu e nas consequências do desastre pra tentar mostrar que o Estado que ele quer alterar não funciona. Isso obrigou o doutor António José Seguro também a vir a terreno, mas com uma prudência bem diferente quer de André Ventura, quer até do atual incumbente.

Antes de irmos à matéria das presidenciais e da segunda volta, como tem esse conhecimento da estrutura da Proteção Civil, uma das críticas que André Ventura fez e que às vezes é feita à estrutura, é que muitas vezes as pessoas que são nomeadas como responsáveis da Proteção Civil nas autarquias são um bocadinho boys ou alguém da confiança partidária do que propriamente especialistas. Não sei se pelo conhecimento que tem do terreno, se é assim, se essa crítica é justa.

No nosso caso, a nível municipal, seguramente não é assim. Nós montamos uma estrutura ao longo dos anos diferente, montamos um centro de gestão integrada. O que nós pensamos? Que é preciso ter uma sala de pânico, que funciona todos os dias. Nós temos lá desde a Proteção Civil Municipal, aos sapadores bombeiros, à PSP, à Polícia Municipal, também às pessoas ligadas aos transportes públicos e também à limpeza urbana. E com um conjunto de interações através de câmeras de filmar que nos permitem fazer o diagnóstico e intervir rapidamente. E temo-lo feito, quer em circunstâncias, como fala de inundações, quer em circunstâncias, por exemplo, quando temos grandes eventos, os eventos do fim do ano, o São João. Ou seja, nós temos essa estrutura montada. É verdade que quando nós depois olhamos pra estruturas mais a nível já distrital e tudo mais, percebemos que as escolhas são muitas vezes feitas por nomeação política. Não tenho dúvida que assim é. Portanto, acho que haverá casos e casos. No nosso caso, nunca foi assim, eram pessoas que faziam parte de uma estrutura municipal escolhidas por concurso público e, como sabe, eu não tenho partido e portanto os concursos públicos na Câmara do Porto são feitos como devem ser, com júri externo, em que temos inclusivamente professores da Faculdade de Psicologia a fazer a avaliação dos candidatos. Temos de ter objetividade.

Eu sei que não parece, mas estamos em plena segunda volta das presidenciais. Faltam dois dias pra acabar a campanha oficial. O Rui Moreira, na primeira volta, foi mandatário de Luís Marques Mendes. Já percebeu o que é que correu mal? Se há coisa que não lhe podem imputar é que de fato envolveu-se e disponibilizou-se e esteve sempre muito presente, talvez mais até do que muitas pessoas esperavam que assim fosse. Mas até por essa visão privilegiada, percebeu o que é que correu mal nessa candidatura?

Olha, há coisas que eu infelizmente não queria mesmo revelar, não quero ofender ninguém, mas houve falta de envolvimento de pessoas que se deviam ter envolvido, porque pra todos os efeitos, a candidatura tinha um apoio partidário. Vou dar apenas um exemplo pra não criar grande polêmica, que não me interessa criar nenhuma polêmica. No dia em que Luís Marques Mendes veio ao Porto, na quinta-feira antes das eleições, portanto na véspera do fim da campanha, Luís Marques Mendes veio ao Porto. Mandou passear pela Rua de Santa Catarina e eles entenderam, e bem, não fazer uma arruada porque estava muito mau tempo. Depois fomos ao Bolhão, onde eu notei que havia muito poucas pessoas das estruturas partidárias, e depois acabamos numa sessão no edifício municipal, que foi cedido pela Câmara, como aliás é sua obrigação. Mas veja bem, nessa mesma noite, mais ou menos à mesma hora, decorria aqui no terminal de cruzeiros em Matosinhos, portanto a 5 km de distância, um grande evento organizado pela candidatura do Cotrim de Figueiredo. Esse evento era promovido por duas ou três pessoas que aparecem no cartaz, uma delas era a presidenta da Assembleia Municipal do Porto, Marta Mascarenhas.

Marta Mascarenhas.

Exatamente. Quando se chega a este ponto, a Marta Mascarenhas que foi escolhida pelo PSD, não foi escolhida por outro. Que era mais ou menos uma pessoa inexistente politicamente. Portanto, quando há este tipo de funcionamento, é difícil esperar mais. Ainda assim, eu não atribuo a isso o que aconteceu à candidatura do Luís Marques Mendes. Eu acho que a candidatura do Luís Marques Mendes estava a correr relativamente bem até um determinado momento, e há um momento que eu diria que é um momento crítico, que é o momento em que ele entra num debate e nesse debate o almirante Gouveia e Melo entra no elevador com uma granada e resolve tirar a cavilha e atirá-la pro chão. Eu acho que isso matou as duas candidaturas, quer se lhe diga, acho que não houve golpe de rins suficiente no momento imediato para reagir.

Foi um ato kamikaze do almirante que acabou por dar cabo das duas candidaturas.

Sim.

Foi dos primeiros apoiantes de Marques Mendes a declarar que ia votar em António José Seguro nesta segunda volta. O presidente do PSD também devia tê-lo feito, não? Por ser primeiro-ministro.

Não, eu acho que o primeiro-ministro não podia ter feito. Explico rapidamente por quê. Nós vivemos num sistema, neste momento, tripartidário, se assim quiser. Temos três forças políticas muito próximas umas das outras em termos de peso eleitoral e peso parlamentar O primeiro-ministro não tem, neste momento, nenhuma garantia de ter apoio, seja de um partido, seja de outro, para poder aprovar os orçamentos e cumprir a legislatura. Por isso, não o devia fazer. Também não o devia fazer por outra razão: porque se ele o fizesse, isso iria dar vantagem, objetivamente, a André Ventura, que iria dizer: "Nós e eles, estão a ver? Sou eu contra todos." A partir daí, sim, se poderia dizer que os votos de André Ventura eram todos os votos de Chega. Ora, os votos que o André Ventura vai ter nesta segunda volta não são os votos de Chega, são votos do Chega e são votos de outras pessoas que pura e simplesmente não querem votar num candidato da área socialista. Portanto, eu acho que ele não tinha outra coisa a fazer que não fosse fazer aquela declaração. Achei perfeitamente razoável do ponto de vista político, ainda que, cá para nós, eu estou mesmo convencido que sei em quem é que Luís Marques Mendes vai votar.

Montenegro, neste caso.

Claro. Desculpe, eu perguntei em quem o João Mendes vai votar. Tenho a certeza que Montenegro vai fazer a mesma coisa que o Luís Marques Mendes, que eu e que todas as pessoas moderadas vão fazer neste momento, que é dizer: "Bom, vamos votar em António de Seguro."

Uma abstenção grande provocada pelas condições climatéricas e pelo voto ser mais de rejeição do que por convicção pode colocar em causa a vitória de António de Seguro?

Pode.

Acha que é um risco real?

Quer dizer, apesar de tudo, é um risco distante, mas é um risco que existe, porque o voto de André Ventura é muito voto contra, é muito voto de rejeição. Nós notamos isso muitas vezes nas eleições europeias. Nós quando votamos nas eleições europeias e depois vamos fazer a avaliação do resultado eleitoral, percebemos que muitas das pessoas que foram votar, não foram votar a favor de coisa nenhuma, até porque não percebem muito bem para que serve o Parlamento Europeu, e vão mostrar a sua indignação, o fato de estarem zangados, o fato de estarem desiludidos. Esta é uma altura em que muitas pessoas estão extremamente zangadas, estão desiludidas e estão aflitas. E o risco maior é a abstenção. Muitas outras, nestas circunstâncias, não vão votar. Umas porque acham que dão como adquirida a vitória de António José Seguro, o que é perigoso, nós sabemos o perigo que isso representa, e outras porque nestas condições atmosféricas adversas não estão para ter o incômodo de ir votar. E vai estar mau tempo, certeza.

Deixe-me entrar também nisso que não avançou para o Belém, porque o João Cotrim Figueiredo já tinha avançado. O que acha deste novo movimento criado pelo antigo líder da IL? Ainda alguma hipótese de vermos Rui Moreira em integral?

Não, de forma alguma. Eu acho que este movimento é um movimento que vai extinguir a IL. Acho que é o fim da IL. Portanto, acho que, para já, é o administrador da massa falida da IL, porque a partir deste momento a IL pura e simplesmente não tem condições de subsistir. Não vejo como é que a IL vai subsistir. Evidente, podem dizer: "Bom, mas ele está a preparar uma candidatura para as eleições."

Chamou-lhe 2031, não é? Ao movimento.

Já viu a distância? Quer dizer, também poderíamos dizer que é 2036. Agora, objetivamente, isto é utilizar aquilo que foi o voto que ele teve para extinguir a IL. Não vejo como é que a IL vai sobreviver a este impacto.

Daqui a cinco anos, João Cotrim Figueiredo é da idade que Rui Moreira tem agora, portanto, é novo. Não é isso que são os movimentos.

Sim, não tenho dúvida que ele vai poder concorrer. Agora, é um bocadinho cedo pra atirar a pedra para o charco. Parece-me a mim. Agora, acho que a ideia é diferente. Eu acho que é, de facto, tentar recentrar aquilo que é o movimento liberal dentro do espectro político em que a IL, desde que ele saiu, e reconheça-se isso, não foi capaz, nem com Rui Rocha, nem com o atual líder. De facto, não se percebe muito bem o que a IL anda a fazer no espectro político. Parece-me que isto pra IL é absolutamente mortífero.

Claro. Agora que já não é presidente da Câmara, já pode confessar que votou em Pedro Duarte?

Se eu posso confessar que votei em Pedro Duarte? Não vou dizer isso.

Saiu uma notícia há pouco mais de uma semana.

Não custa tentar.

Saiu uma notícia há pouco mais de uma semana que dizia o seguinte: Pedro Duarte trava a construção de casas e duplica câmaras de videovigilância no Porto. Rui Rio, que é sempre muito ativo no Twitter, partilhou a notícia e escreveu o seguinte: "Uma opção inteligente pela qualidade de vida. Só é pena já não se conseguir emendar alguns exageros que em má hora se fizeram nos últimos anos." Isto era autocrítica ou estava a criticá-lo a si, o Rui Rio?

Não faço ideia. O Rui Rio é absolutamente incapaz de autocrítica.

Então era mesmo para os seus 12 anos.

Se formos a perguntas e respostas, aquelas bolsas opcionais, seguramente que o Rui Rio me estava a criticar, porque o Rui Rio range os dentes sempre que ouve falar em alguma coisa que eu tenha feito. Mas isso é um problema dele, é um problema psicológico que eu não quero avaliar. Eu não sou psicólogo.

Foi falado para cabeça de lista da AD às europeias. Também admitiu no verão essa tal candidatura a Belém, que depois não avançou. O que o futuro lhe reserva? Aceitaria, por exemplo, ser ministro de um governo de Luís Montenegro?

Não. Olhe, para já estou a fazer um período sabático que está me a dar imenso gozo. Estou a organizar a minha biblioteca, consigo estar mais com os meus filhos e com os meus netos e fazer coisas que eu queria fazer, viajar um pouco, enfim, tenho feito isso. Não, agora um cargo ministerial, de forma alguma. Nunca se colocou.

Não faz nenhum sentido. Lembro-me numa certa altura, também numa entrevista que fizemos nas autárquicas, dizia: "Mas também não me sinto com grande vontade de ir lá para fora." Embaixador da OCDE já admitia agora, porque parece estar em forma. Nessa altura dizia que tinha alguns problemas de saúde, mas agora já está em forma, já admitiria um cargo desse género.

Não tenho nenhuns problemas de saúde. Já me falaram tantas coisas. Repara, ao longo dos últimos anos deram-me como certo na EDP, depois disseram que eu ia para a Federação Portuguesa de Futebol, depois disseram que eu ia para não sei quantas coisas e eu não faço essas avaliações. Há uma coisa que é certa: não vou, seguramente, para o setor privado, para qualquer empresa que tenha tido transações, negócios na cidade do Porto ou tenha aqui feito investimentos. Isso pode ter a certeza que não. Essa certeza posso ter.

Já podemos excluir esta, agora temos de ir fazendo uma a uma.

Só se for mesmo um dia.

Uma a uma digo assim: eu, neste momento, considero que depois de ter sido presidente de Câmara do Porto e ter tido as decisões que o doutor Rui Rio não gosta e o doutor Pedro Duarte pode tomar as mesmas ou diferentes, há uma coisa que lhe posso garantir: não vou fazer aquilo que tantos fazem, que é dizer: "Agora vou trabalhar para uma dessas empresas que teve negócios na cidade do Porto." Isso eu não faço. Portanto, eu prefiro ir pela negativa, ou seja, quais são as portas que estão fechadas? Essa porta está absolutamente fechada.

A presidência do Futebol Clube do Porto também, ou não?

Não. Temos um excelente presidente. Acho que o André Villas-Boas está a fazer um ótimo trabalho. É uma pessoa nova, tem essa capacidade. E eu nunca disse que queria ser presidente do Futebol Clube do Porto. É uma coisa também um bocado curiosa. Também várias vezes me deram como candidato ao Futebol Clube do Porto. Eu nunca quis ser candidato ao Futebol Clube do Porto.

Muito bem, Rui Moreira. Vamos agora à fase do carne ou peixe.

Carne ou peixe. Já tivemos um carne ou peixe pelo caminho.

Já. Sei que foi campeão de vela. Quem é que levaria num barco à vela pelo Douro: Rui Rio ou Filipe Araújo?

O Filipe Araújo, seguramente.

Se for o Rui Rio podia acabar o passeio no rio.

Eu não gosto de marinheiros de água doce. Não levaria Rui Rio, até pelo nome não o levaria, preferia o Filipe Araújo.

Certo. Quem é que levava num tour fotográfico: Luís Montenegro ou António Costa?

Num tour fotográfico? Provavelmente António Costa.

Para terminar, quem é que apoiava numa candidatura à presidência do Futebol Clube do Porto: Pedro Duarte ou Manuel Pizarro?

André Villas-Boas. Se eu não recebesse desculpem.

Aqui nem carne, nem peixe.

Aí desculpem lá, aí vamos para o marisco.

Diz que o Manuel Pizarro tinha mais jeito para um clube de futebol que o Pedro Duarte. Parece-me que liga mais à bola.

Eu tenho visto o Pedro Duarte assistir a todos os jogos.

Agora é presidente da Câmara, tem que ser.

Aliás, vejo os dois no camarote presidencial, o que é muito saudável. Tanto Manuel Pizarro como Pedro Duarte, vejo por lá. Acho que eles estão irmanados nessa causa. Ainda que Manuel Pizarro tenha apoiado nas eleições Pinto da Costa. Pedro Duarte, não faço ideia quem é que apoia. Nunca falei com ele sobre isso.

Rui Moreira, estamos mesmo a chegar ao fim, à nossa sobremesa. Queria que nos dissesse porque escolheu essa música, qual é essa música que nos trouxe.

"Suzanne", do Leonard Cohen, porque tem a ver com talvez um dos grandes músicos que eu ouvi. E é uma música que, para já, é um poema magnífico e fala de um amor não concretizado e é uma música que eu gosto particularmente do Leonard Cohen, achei que calhava bem neste programa.

Muito obrigado, Rui Moreira.

Foi um prazer.

Obrigado.

Obrigada.

O "Vestígio Suave" regressa, como sempre, na próxima semana. Muito obrigado.