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Olá, bem-vindos à Vichi Suaze. Voltamos das férias, há muito mais bronze, bronze em setembro, toda mundo conhece esta expressão. Depois de um período, infelizmente, trágico ou cômico. Trágico porque morreram quatro pessoas nos incêndios e 16 no Voador da Glória, e cômico porque André Ventura decidiu virar humorista. O rei do humor, a que podemos chamar Burger King, que também confundiu Ibiza com Menorca, talvez até também 1550 com 155. Como diriam os professores nas escolas, isto quando o ano letivo está prestes a começar, se calhar era só pra ver se vocês estavam atentos.

Vocês nem vão acreditar. Eu acho que ninguém vai acreditar. Eu próprio tenho dificuldade em ainda acreditar que isto que eu tenho aqui é verdade.

Oh, waiter, I'd like a hamburger. Can you make it for me? I'd like a hamburger with a slice of cheese.

O Parlamento Português aprovou hoje uma deslocação do Presidente da República, eu tenho que olhar pra isto bem, eu tenho que ter a certeza disso, do Presidente da República pra ir com os nossos impostos e com o nosso dinheiro à Alemanha a um Burger Fest, a um festival de hambúrgueres.

Gotta swing by the dentist for a cavity. Then I'm getting married at 3:15. Life is a dream. I now pronounce you cutie pie and ugly. I'd like a hamburger. Can you peel me-

O Chega votou contra, como é evidente, isto é uma bandalheira.

Hamburger 'cause I only got a quarter for a ham, hamburger.

Então eu vou vos dizer isto: o Parlamento aprovou hoje a ida do nosso presidente da República, a nossas expensas, a vossas expensas, à Alemanha, a um festival de hambúrgueres. Quão ridículo isto é, o quão estúpido isto é.

Muito bem, gostei muito dos "pá", parecia Carotelo. O meu nome é Rui Pedro Antunes e dou política do Observador e tenho comigo o Miguel Viterbo Dias, que é da Rádio Observador e coordenador de política da rádio, e jornalistas da seção de política, Inês André Figueiredo e Rita Tavares. Vai começar a Vichi Suaze. Vocês não vão acreditar, mas existe sopa de hambúrguer. Não é uma sopa cidadã.

Olha, agradeço ao Miguel Viterbo Dias que eu tenho uma lágrima desta introdução.

Eu estou farto de silenciar a Inês.

Já não vou dizer nada.

Quem que era a personagem do Contra Informação, que é a "A Mim Ninguém Me Cala"?

Não era o Manuel Alegre? Não, era o Valentim Loureiro? Não sei.

Vou pensar nisso. Vamos pensar nisso.

Pesquisa aí, Google aí.

Isto é inteligência artificial.

Agora é mais ChatGPT.

Rita, queres começar?

Com a sopa de hambúrguer?

Sim.

Então não há volta a dar. Vamos aqui pro André Ventura. Eu vou citá-lo nesta questão. Ainda antes de ser apanhado a confundir hambúrgueres com cidadania.

Se calhar é pra isso que servem as algas.

Dizia André Ventura nesta sua intervenção acalorada: "O Chega votou contra, como é evidente. Isto é uma bandalheira, mas sabem por que isso passa? Sabem por que as coisas destas passam? Porque não sabem disto. Vocês não se revoltam com isto porque não sabem". E pelos vistos, André Ventura também não sabe, como os eleitores. Pelos vistos, o Chega vota iniciativas na Assembleia da República sem saber o que lá está. E essa é a parte que resulta mais em bandalheira. Porque uma das grandes acusações de André Ventura aos partidos do sistema é muitas vezes estarem lá carradas de deputados. Eu estou a utilizar estas expressões mais coloquiais.

Mais populares.

Sim.

Pá.

Exato.

Eu nem acredito nisto, pá.

Porque os partidos do sistema, como diz André Ventura, normalmente estão lá e não sabem sequer o que estão a votar, só estão lá pra manter o tacho. Mas pelos vistos não são os únicos. André Ventura já está a entrar bem nesse esquema. E agora, no Twitter, foi engraçado, porque até pôs um vídeo do gato que adotou, o Santiago, a conhecer o gato que já estava lá na sede do Chega, que é o gato António. E isto é André Ventura a recorrer à mais velha estratégia de alinhamento das redes sociais, que é vídeos de gatinho. Salvar o algoritmo. Como salvar o algoritmo.

Já há muitas piadas sobre isto, não me ocorre mais nenhuma.

Já usaste uma das melhores, a do Burger King.

Essa eu não conhecia, não ouvi.

Achaste que eras único.

Há vários políticos a fazer piadas com o Chega poder evitar idas aos Camarões pra pensar que o presidente vai a uma escara.

Ou ao Peru.

Ou ao Peru. Se é pra entrar nisso, há a Macedónia, ou é melhor chamar de salada russa, se calhar. Inês, queres dizer alguma coisa sobre isto?

Quero. Acho que a Rita já disse grande parte, mas acho que não é uma gralha qualquer. André Ventura vem dizer: "Foi um lapso, eu sou humano, toda gente erra e eu também erro."

E a culpa é do Marcelo, que viaja muito.

Exatamente. Se Marcelo não tivesse viajado tanto, eu não tinha cometido esta gralha. Eu acho que André Ventura acaba por se justificar com um erro de tradução, porque de fato o festival é na Alemanha e acreditemos ou não, estava escrito em alemão e não em inglês, neste caso. Mas no fundo, isto foi pensado pra ser um grande momento de estratégia política à Chega nas redes sociais, uma daquelas publicações em que André Ventura aparece a mostrar aos portugueses coisas a que eles não têm acesso e de que não fazem ideia, e acabou como muito mais do que uma gralha, porque não me parece que isto seja nenhum tipo de brincadeira. Estamos a falar de uma deslocação oficial do nosso presidente da República, onde vai estar num país onde vivem milhares de portugueses, tantos deles também defendidos tantas vezes pelo Chega, numa reunião com um chefe de Estado

Creio que o que se passou fica mal, soa mal, mas acima de tudo, completando o que a Rita estava a dizer, está na altura de o Chega se comportar como o partido responsável que diz ser, porque André Ventura já não é deputado único, já nem sequer são 12 deputados, têm uma bancada com 60 deputados e alguém, com certeza, analisou os temas que iam ser votados, porque alguém achou que havia razão para aprovar uma ida aos Estados Unidos e não uma ida à Alemanha, e a única justificação é um erro de tradução. Portanto, pedia-se um pouco mais do segundo maior partido com mais deputados na Assembleia da República.

Miguel.

Rapidamente, só acrescentar ao que disse a Rita e a Inês, realmente encanita-me como é que num partido com 60 deputados, que já tem uma estrutura de apoio grande, com uma direção nacional, como é que no meio disto tudo ninguém se lembra de googlar o nome da Burger Festival e perceber o que é antes de deitar este vídeo nas redes sociais.

Duas coisas sobre isto. A primeira é porque eu tenho a percepção, não tenho os dados concretos.

Mas o país também vive de percepções.

Posso facilmente confirmar que os anteriores presidentes, e bem, levavam uma estrutura necessária e mais composta. Marcelo tem feito nestas viagens uma estrutura mínima, leva uma comitiva mínima. Basta ele reduzir, eu acredito que andará nessa ordem, a um terço ou a um quarto a comitiva que os anteriores presidentes levavam, que ele pode fazer o dobro das viagens e mesmo assim gastar menos dinheiro, que é uma coisa que Marcelo sempre tentou fazer. Esse paralelismo não é fácil de fazer, porque as viagens são hoje mais caras do que eram na altura. Só uma atualização à inflação não é suficiente para fazer, é uma conta difícil de fazer. Mas eu quase que aposto que Marcelo Rebelo de Sousa acaba por gastar menos, mesmo que viaje mais. E não nos esquecemos também que Mário Soares, em virtude dessa representação, também viajava imenso e que isso já na altura era falado. Portanto, nem sequer é propriamente uma novidade. A segunda coisa, eu tentei de manhã, mas de manhã não tinha tempo para explicar, aliás, na quinta-feira de manhã, que é uma história dos erros de tradução. Houve uma grande discussão na Alemanha quando o Kennedy disse: "Ich bin ein Berliner” junto às portas de Brandemburgo, na altura da RFA, embora as portas de Brandemburgo estivessem do lado oposto, é um discurso que era ouvido do outro lado da Cortina de Ferro, e os linguistas alemães andaram a discutir se ele tinha dito: "Não, eu sou berlinense", mas "Eu sou uma bola de Berlim", porque o ein no meio poderia sugerir isso. Anos depois, parece que ao fim da discussão, chegaram à conclusão que ele afinal não errou e que também dá para dizer assim que é berlinense e não propriamente uma bola de Berlim.

Ainda bem que André Ventura não estava lá, porque senão tinha pedido bolas de Berlim.

Deixa-me só deixar aqui uma homenagem: com Rui Rio como líder do PSD, este erro nunca aconteceria.

Sem dúvida. Aliás, até te posso dizer, Miguel, que na primeira vez que ele falou alemão eu estava presente. Creio que foi na Finlândia.

Já cantaste em alemão aqui, não já?

Sim, na Vixi Suave. Que foi uma resposta sobre, creio que José Silvano, que na altura era secretário-geral.

Agora toda a gente podia ajudar o André Ventura. Toda a gente sabe falar alemão.

Mas na hora da verdade, todos falharam.

Ontem onde é que vocês estavam?

Não é o mais fácil, de facto, falar alemão. Agora, e avançar para uma sopa de luto, já muito se falou sobre isto. Nós tivemos mais de um mês de férias, não nós em particular, mas nós Vixi Suave como um todo e como um coletivo de sopas. Já não há muito a dizer, mas queria fazer uma breve conclusão que gostava de vos ouvir sobre uma sopa de luto. Claro que naturalmente todos lamentamos o número tão elevado de vítimas, que é duro, mas do ponto de vista político, se isto de facto acaba por ser uma pedra no sapato que Carlos Moedas não estava a contar na sua caminhada pra reeleição.

É, e vai contaminar totalmente esta campanha autárquica que está prestes a começar. As eleições são daqui a um mês. De amanhã a um mês.

Precisamente.

Deste sábado a um mês, dia 12 de outubro. Mas aqui o que fica mesmo de luto, numa análise desta primeira semana, é a gestão de crises de Carlos Moedas, o estilo de gestão de crises de Carlos Moedas, que é no mínimo duvidosa, desde o momento em que o primeiro ato político foi colocar-se debaixo da asa do primeiro-ministro num Conselho de Ministros. Depois a estratégia encontrada para responder, que foi elencar tudo aquilo que a sua câmara fez, os investimentos que fez e que só responde por essa responsabilidade política. Depois colocar-se também como um cidadão comum que quer respostas, como se não houvesse a Câmara Municipal de Lisboa a dá-las. Parece um bocado aqueles treinadores que quando a equipa começa a jogar mal, começam a falar como se não tivessem bem a ver com o assunto. Além de dizer agora que também não se preocupa com eleições, quando neste quadro todo parece que foi a única preocupação que teve foi a questão da sobrevivência política. Lá está, desde o primeiro momento do Conselho de Ministros até à última intervenção na Assembleia Municipal a descrever ali o rol de investimentos que fez na Carris, que foi ele que avançou com o plano de drenagem de Lisboa, no investimento nos Bombeiros Sapadores. Carlos Moedas

A tirar alguns dados para cima da mesa, há muitas coisas que ainda não disse, nomeadamente como é que vai conseguir restabelecer a confiança das pessoas, todas que utilizam aqueles elevadores, nos próximos tempos. Como é que vai fazer, qual é o seu plano? E ele vai ser recandidato à Câmara de Lisboa, portanto, todos os candidatos vão ter que ter essa resposta agora para dar nos próximos dias.

Inês, sopa de luto? Ou se queres ir para aí ou pode ter outro lado.

Sim, posso só acrescentar que, principalmente depois dos dias em que Carlos Moedas não falou ou falou menos, porque também fez essa declaração ao país junto a Luís Montenegro, mas na primeira entrevista e depois na segunda também, a primeira na SIC e depois na CMTV, acaba por apostar muito na vitimização, mas a certa altura da entrevista percebe-se que decide inverter essa postura e começar a atirar aos mais críticos, mesmo aqueles que nem sequer pediram a sua demissão. O uso da expressão sicários levou-nos aqui para outro patamar e provavelmente para esse patamar eleitoral, porque Carlos Moedas parece que entrou mesmo em modo de campanha, já a apostar nessa fase seguinte. E a verdade é que se Carlos Moedas não se demite e se mantém como recandidato à Câmara Municipal de Lisboa, tem mesmo de começar a construir uma narrativa política, porque o caso do Elevador da Glória dificilmente não será o tema principal de toda esta campanha. Portanto, essa será obviamente a sua principal prioridade nos próximos tempos.

Miguel.

Essa entrevista da SIC Notícias marcou aquele ponto de inversão entre as pessoas que ainda davam o benefício da dúvida a Carlos Moedas e os que passaram a dizer que ele estava completamente errado na gestão de crise, sobretudo com a referência a Jorge Coelho, que fugiu-lhe completamente o tapete com a forma como fez essa referência.

Era desnecessário.

Sim, podia ter dito só que o caso era diferente.

Agora o presidente da Câmara de Castelo de Paiva vem dizer que afinal havia informações do ministério sobre isso. É uma discussão já muito antiga, passaram muitos anos.

Na JAI e não no ministério. Pelo menos a JAI tinha, a Junta de Alta de Manchester.

E a referência também aos sicários foram dois momentos dessa entrevista que teve manifestamente mal. Embora eu acho que este acontecimento nesta altura vai obrigar Carlos Moedas a mudar para uma campanha autárquica um bocadinho mais presidencial e menos popularucha. Isso pode ser bom para ele, porque ficará mais confortável nesse fato. Agora precisa de dar essa resposta mais presidencial, ou seja, demonstrar realmente que há um caminho e tentar apagar esta reação inicial que fica marcada pela negativa. Mas neste momento é inevitável que o tema será o assunto principal de campanha, a não ser que surja uma polêmica ainda maior.

Difícil. Esperemos.

Face ao que foi, é difícil. Depois, só na questão da responsabilidade política, que é um debate também acho interessante de se fazer, que é como é que se assume responsabilidade política sem se demitir e se há a possibilidade de assumir responsabilidades políticas sem haver uma demissão, não deixa de ser estranho, e não pondo em causa que tanto o presidente da Carris como o presidente da Câmara de Lisboa não tenham nenhuma culpa nessa matéria, não deixa de parecer estranho ou soar estranho que morrendo 16 pessoas não haja uma demissão no meio disto. Tem que haver, por menor culpa que tenham na matéria.

Eu acho que Carlos Moedas tem passado um bocadinho a imagem de que ele é a principal vítima. E de facto não é. Obviamente não o desqualifica ou não o desqualifica como pessoa que está a sofrer, ter ido lá no dia a seguir, etc, mas ele não é familiar daquelas pessoas, ou sente essa responsabilidade ou não sente, e podia sofrer mais se sentisse a responsabilidade.

E depois há aquela questão dele ter dito o que disse em 2021 sobre Fernando Medina. Portanto, parece que está ali refém de umas declarações que fez e que criou uma regra sobre o que fazer em casos de crise. Pronto, é isto.

E o facto de ele ser autarca e ter lá ido, apesar de não o desqualificar para o sofrimento, também não o qualifica para ser uma vítima, nem uma vítima principal. Pode vir a ser uma vítima política, mas isso é o que ele está a tentar evitar e portanto, se eu fosse ele não tentava provar que era vítima. Ainda podemos falar presidenciais, mas é um tema que vai estar tão ao longo do ano que eu diria, Miguel, não sei se não tens mais nada.

Que é o tema do costume, não é? Dá para voltarmos noutra altura.

Exatamente. Era a sopa do costume para falarmos dos homens do costume que Catarina Martins quer combater, mas certamente nas próximas semanas não faltará tempo para falarmos de presidenciais. Já a seguir vamos ouvir e vamos entrevistar a eurodeputada e antiga candidata às europeias pelo Partido Socialista, Marta Temido.