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Modelo de Avaliação

Instituições de ensino superior dizem que a PACC não revela nada sobre a qualidade da formação dos docentes

Mais de um terço dos professores que realizaram a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades, em dezembro, chumbaram. Instituições de ensino recusam que o problema esteja na formação superior.

Pouco mais de um terço dos professores chumbaram na prova de avaliação, realizada em dezembro passado

NUNO ANDRE FERREIRA/LUSA

Mais de um terço (34,3%) dos 2.490 docentes que realizaram a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), em dezembro, chumbaram e um quinto deu cinco ou mais erros gramaticais. Mas como é possível um professor não saber quando deve usar “c” cedilhado ou “a” com h? A culpa está na formação, apontam alguns. Por sua vez, as instituições de ensino superior recusam assumir responsabilidades pelos resultados e dizem que a PACC não revela nada a propósito da qualidade de ensino ministrado.

“Esta prova é essencialmente uma prova de língua portuguesa e as instituições de ensino superior não têm como função principal fazer formação de língua portuguesa”, começou por responder ao Observador João Pedro da Ponte, diretor do Instituto de Educação, da Universidade de Lisboa, que considera que esta prova “não está concebida para avaliar o trabalho das instituições”. Quanto muito, continuou João Pedro da Ponte, estes erros e a percentagem de chumbos revelam que “o nível de formação no ensino básico e secundário não é o adequado”.

Até porque na formação superior, são trabalhadas com os futuros professores questões relacionadas com a organização da escola, a aprendizagem dos alunos, a maneira de ensinar, o tipo de trabalho em sala de aula, organização da sala e tipo de materiais a usar, bem como são reforçados ou aprofundados conhecimentos das diferentes áreas de docência, explicou o diretor do Instituto de Educação de Lisboa.

Ana Paula Canavarro, diretora do Departamento de Pedagogia e Educação, da Universidade de Évora, partilha a opinião que “esta prova não pretende avaliar conhecimentos que a profissão de professor tem como necessários”.

O conhecimento da profissão de professor é próprio e específico da profissão, não pode ser avaliado por uma prova deste tipo que não espelha a especificidade da profissão”, reiterou Ana Paula Canavarro, da Universidade de Évora.

“É arriscado fazer uma ligação direta entre a avaliação e a formação dos docentes”, afirmou Rui Mendes, diretor da Escola Superior de Educação, do Politécnico de Coimbra. E porquê? “Porque, por exemplo, é possível um professor de uma determinada disciplina, como filosofia, fazer todo o seu percurso no ensino superior sem ter matemática. E se o indivíduo for passado no secundário, estamos indevidamente a atribuir culpa ao ensino superior”, explicou, acrescentando que os alunos “saem bem preparados” das instituições de ensino superior para dar aulas.

Basicamente, todos os docentes das áreas de humanidades e línguas do terceiro ciclo e secundário estão nessa situação. Já os do pré-escolar, 1.º e 2.º ciclos têm de fazer uma licenciatura em Educação Básica, antes do mestrado, e nela existem diversas unidades curriculares de matemática

Também Carolina Leite, professora catedrática da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade do Porto, atesta que “não faz qualquer sentido fazer uma ligação entre os resultados da PACC e a qualidade da formação dos professores”.

Quem entra numa escola e quem acompanha o trabalho de um professor sabe como o quotidiano se tem dispersado por uma quantidade de funções e tarefas que não se esgotam no domínio correto de uma frase de português”, defendeu Carolina Leite, professora catedrática da Universidade do Porto.

Ainda assim, Carolina Leite, que é também membro da equipa de avaliação da formação de professores da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), não partilha a opinião de que não cabe às instituições de ensino superior trabalharem as competências linguísticas e de raciocínio lógico, como as que foram testadas nesta segunda edição da PACC.

“Cada vez mais se justifica que as instituições de ensino superior trabalhem os alunos reais que recebem e não aqueles que gostariam de receber”, até porque “faz parte das funções das instituições trabalhar estas matérias e ajudarem os alunos com maiores fragilidades a superá-las” e “há exemplos de instituições que o fazem”, acrescentou.

Rui Mendes, do Politécnico de Coimbra, até admite que possa haver instituições de ensino superior com menos qualidade mas “se o Ministério da Educação tem dúvidas da qualidade da formação dos docentes só tem uma coisa a fazer: emitir orientações às instituições”.

E assim como não pode ser estabelecida uma relação direta causal entre os resultados desta prova e a qualidade da formação ministrada nas instituições de ensino superior, também não se pode concluir que os professores que erram ou chumbaram são maus professores. “Era desejável que um professor não cometesse erros, mas isso não revela a qualidade de ensino do professor”, reiterou Ana Paula Canavarro.

“Mais importante do que fazer um exame seria criar um apoio para estes professores nos primeiros anos de carreira”, sugeriu Carolina Leite.

De lembrar que já no início de janeiro o Conselho Científico do Instituto de Avaliação Educativa teceu duras críticas à PACC, dizendo que a prova “ignora aquilo que é essencial na ação docente”.

O próprio ministro da Educação, Nuno Crato, admitiu na terça-feira, no Parlamento, que a PACC, “não avalia tudo”, mas manteve a sua opinião, sublinhando que “há um conjunto de pré-requisitos básicos que não se pode ensinar, por maior que seja a dedicação pedagógica”.

Quando os nervos atraiçoam os professores

Sem certezas sobre aquilo que explica os erros e chumbos na componente comum da PACC, os responsáveis das instituições ouvidos pelo Observador alertam para algo que pode ajudar a compreender o desempenho dos docentes.

“Admito que estes docentes até tenham capacidades mas que na altura da prova tenham perdido o auto controlo”, arriscou João Pedro da Ponte. “Esta prova significa um momento extremamente angustiante. Acredito que alguns aparentem uma incompetência superior à que teriam noutro tipo de circunstância. Daria, portanto, um desconto para o lado emocional”.

Já Ana Paula Canavarro aponta para a literatura existente que “revela que as pessoas quando estão em situação de exame e sob pressão não estão nas melhores condições para revelar conhecimentos e muitas vezes são traídos pelo sistema nervoso”.

Os bons alunos não querem ser professores

Outra das questões levantadas pelos responsáveis ouvidos pelo Observador prende-se com a qualidade dos alunos que chegam aos cursos de formação de professores. É que em Portugal, frisa João Pedro da Ponte, há uma “seleção imperfeita dos alunos”, ao contrário daquilo que acontece, por exemplo, na Finlândia onde as instituições selecionam os melhores alunos. Por cá, “os alunos são mais fracos”, afirmou o diretor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

O ensino tem sido visto nos últimos anos como uma solução a evitar e só as pessoas que têm um leque de opções mais reduzido é que acabam por vir para aqui. Nós pagamos esse preço”, rematou João Pedro da Ponte, diretor do Instituto de Educação, da Universidade de Lisboa.

Também Ana Paula Canavarro confirmou a grande diversidade de alunos que chegam ao curso de formação de docentes, em Évora. “Temos alunos com ótimas qualificações e temos outros com notas de 10,11 e 12. Não são todos bons alunos”, garantiu.

O problema, resumiu Carolina Leite, é que estes cursos “nem sequer garantem que os alunos venham a dar aulas”. “Admito que de facto os bons alunos com várias possibilidades de escolha optem em função do futuro e eliminem esta hipótese”, concluiu.

E se nos últimos anos estes alunos até têm sido obrigados a fazer um teste de avaliação das competências a língua portuguesa na admissão aos cursos superiores – com taxas de chumbo que chegam aos 15% no Instituto da Educação de Lisboa, por exemplo – antes nem isso era feito. Assim como não era exigido um mestrado aos educadores de infância antes de 2007. E a maioria dos professores que fez a PACC – com menos de cinco anos de serviço completo – terá concluído a sua formação antes desse ano, “quando havia algum défice na formação”, sublinhou Ana Canavarro, que considera existirem atualmente escolas “excelentes”, ainda que a “qualidade da formação não seja uniforme a nível nacional”.

Certo é que 854 professores ficaram já impossibilitados de se candidatarem aos concursos do próximo ano letivo, por terem chumbado na componente comum da PACC. Os restantes terão agora de fazer a componente específica, das suas áreas de docência, que ainda não tem data marcada.

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