Euro 2016

Éder. A vida foi-lhe dura, mas deu-lhe ouro

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Nasceu longe, em Bissau, mas cresceu num lar em Coimbra. E foi aí que começou a fazer os primeiros golos. O melhor de todos marcou-o na final do Euro 2016. Esta é a sua história. De luta.

Dan Mullan/Getty Images

Éderzito. Éderzito Lopes. Ele é matulão. Mas, convenhamos: não é propriamente o mais intimidador dos nomes para um ponta-de-lança. Não é um Karl-Heinz, como o era Rummenigge. Ou tão pouco um Ruud, como van Nistelrooy o foi. Então, talvez por saber que o nome próprio era, em si mesmo, um diminutivo ou quase, Éderzito “rebatizou-se” nos relvados: Éder. Só Éder.

Não, o nome não “intimidava”. Mas a vida de Éder, desde criança, intimidaria qualquer um. Nasceu na Guiné-Bissau, há 28 anos, mas não tem memória da Bissau natal. Deixou-a quando tinha somente três anos e veio viver com os pais para Lisboa. E nunca lá voltou. O problema é que os pais de Éder não tinham condições financeiras para o criar. Foi curta a estadia em Lisboa, tendo sido colocado num colégio em Braga, a Obra do Frei Gil, seguindo pouco depois para Coimbra e para o Lar Girassol. Aí fez-se homem.

Desses dias no lar recordaria em entrevista: “Nós jogávamos muito futebol lá no pátio e eu partia muitos vidros. Tive alguns castigos por causa disso. Uns puxões de orelhas, uns raspanetes, tive de ir para a cama mais cedo, sem ver televisão. Por outro lado, chegaram a tirar-me do futebol por causa das notas e o treinador do Adémia foi ao colégio pedir para eu jogar. Mesmo que eu não treinasse durante a semana, ele ia pedir que eu fosse só aos jogos.”

O Adémia foi o seu primeiro clube, dos 15 aos 19 anos. Quando chegou a sénior, transferiu-se primeiro para o Oliveira do Hospital e depois para o Tourizense, onde ganhou o seu primeiro “grande” ordenado: 400 euros. “Dei parte à minha mãe e, como o dinheiro era necessário no dia-a-dia, gastei-o nas coisas essenciais”, diria.

Chegou à Académica em 2008, com apenas 20 anos. E foi aí que deu nas vista entre os melhores, na Liga. Os “estudantes” até o queriam antes, quando ainda jogava na formação do Adémia, mas por ser guineense e estrangeiro, não o podiam inscrever para jogar e a contratação caiu. Éder pensou mesmo em desistir do futebol, desalentado. Parou durante um ano. “Durante esse ano joguei futebol somente com os amigos. Voltar exigiu de mim muita vontade e algum espírito de sacrifício.” Mas Éder assume: “Sempre acreditei nas minha capacidades. Sabia que era difícil, mas acreditava nas minhas capacidades e, com a ajuda dos amigos, consegui chegar onde cheguei”.

Não eram os mesmos amigos que tem hoje na Seleção. Nem aqueles que encontrou por todos os clubes por onde passou, sobretudo o Sp. Braga, onde se fez goleador, não tanto no Swansea, onde a passagem foi breve, ou mais recentemente no Lille, onde se reencontrou com os golos. E com eles mereceu um “bilhete” para o Euro 2016.

Não eram os mesmos amigos. Mas na Seleção teve muitos. E tem. Sobretudo Fernando Santos. Também João Vieira Pinto. Também Ronaldo. E precisou deles, todos, quando as críticas chegaram. Não, Éder não é Pauleta, nem Nuno Gomes, nem Eusébio, nem Nené, tão pouco Cristiano Ronaldo. Não é tão goleador quanto eles. E por não marcar golos na seleção, tornou-se num “patinho feio” — como Fernando Santos recusou que o apelidassem um dia.

Éder e a Seleção. Uma história de “ódio” que resultou em ouro

O primeiro golo de Éder na Seleção até foi auspicioso. Veio “tarde”, ao fim de 18 internacionalizações e poucos minutos, mas foi esse seu golo solitário contra a Itália, em junho de 2015, que permitiu que Portugal acabasse com uma “seca” que durou quase 40 anos: em 11 jogos até aí, não havia maneira de vencer a Itália.

Depois, veio a “seca” de Éder. Esteve praticamente um ano sem marcar qualquer golo pela Seleção. E com ela vieram também os apupos. Contra a Bélgica, por exemplo, ainda este ano e pouco antes do Euro, em março, foi apupado. Muito. O vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, João Vieira Pinto, não gostou: “Incomodou-me particularmente a reação do público ao Éder. Acho que devíamos respeitar mais os jogadores da seleção, independentemente de gostarmos deles ou não. O Éder estava a representar o nosso país e acho que merecia muito mais respeito. Está na seleção porque o selecionador viu nele qualidades”. E Éder, em entrevista à France Football, semanas depois, agradecer-lhe-ia o reconforto: “Quero agradecer ao João Pinto por me ter defendido. Haverá sempre pessoas que não são fãs do meu futebol. Tenho de continuar a treinar”.

Não sabemos se pelo apoio que aí teve — se por tudo o que viveu na infância e o fez resiliente –, mas a verdade é que Éder voltou, no Lille, a dar com a direção certa da baliza e dos golos. Fez seis em 14 jogos em França, depois de uma primeira metade da época em “branco” no País de Gales e no Swansea.

A confiança voltara. Mas, voltado à Seleção, voltaram de novo os apupos. Aí, Fernando Santos bateu o pé aos adeptos de assobio fácil. Como? A 29 de maio, para surpresa de muitos, Ricardo Carvalho foi substituído no particular contra a Noruega e, sendo ele o capitão, teve que entregar a braçadeira a alguém, e esse alguém foi Éder. “Não foi prova de confiança. A confiança é colocar a jogá-lo. É um rapaz inteligente, sabe estar e confio nele, até para essa função”, explicaria Fernando Santos.

Éder acabaria por ser convocado para o Euro. E disse, chegado à sala de imprensa, antes da estreia de Portugal contra a Islândia: “Seja um minuto, cinco ou dez, quero é ajudar a Seleção no momento em que for chamado e estarei preparado a qualquer momento para ser solução”. E até foi mais longe. O melhor marcador do Euro? “Não sei… Hmmm… Posso ser eu”, gracejou, para depois atirar: “Este Europeu tem grandes jogadores, grandes pontas-de-lança, como o Cristiano [Ronaldo] e o Lewandowski. Mas não quero apostar nisso”.

Não foi ele o melhor marcador Euro. Nem Ronaldo, nem “Lewa”. Esse foi Griezmann, da França. Mas Éder acertou, certeiro, em parte no que disse nesse dia: jogou pouco tempo. Apenas 54 minutos, em três jogos que começou sempre como suplente. Mas Éder marcaria um golo. O golo da sua vida. Das nossas vidas. E, aconteça o que acontecer, hoje Éderzito é nome de avançado intimidador. Tão ou mais intimidador do que Ruud. Tão ou mais do que Karl-Heinz. Pelo menos para Lloris, o guarda-redes da França.

“Trabalho da melhor forma para conseguir ultrapassar adversidades. Desde criança é isso que faço. Ser considerado ‘patinho feio’? Não é fácil. Mas não procuro calar ninguém. O meu objetivo passa por ajudar a seleção da melhor forma.” E ajudou.

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