A Grécia está novamente no centro de um confronto entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os países credores, com o Governo de Alexis Tsipras (em queda nas sondagens) no meio. Num ano marcado pela incerteza, com eleições pelo menos em França, Alemanha e Holanda, Atenas está a correr contra o tempo para obter nota positiva na avaliação ao programa de resgate iniciado em 2015, mas o FMI continua a recusar participar financeiramente no resgate e veio esta semana dizer, num relatório polémico, que a Grécia não tem qualquer hipótese de crescer e ultrapassar o problema “explosivo” da dívida, mesmo que cumpra à risca as reformas que são pedidas.

Em julho, Atenas tem de fazer reembolsos de dívida para os quais não tem fundos suficientes, já que está totalmente fora dos mercados. A dívida a reembolsar está nas mãos de alguns investidores privados mas, sobretudo, são obrigações que estavam no mercado mas que o Banco Central Europeu (BCE) comprou, há vários anos, ao abrigo do programa de emergência de compra de dívida, o extinto SMP. Como o BCE não participou na “troca voluntária” de títulos feita em 2012 — a reestruturação da dívida grega que estava nos privados — esses títulos ainda existem e precisam de ser reembolsados quando atingem a maturidade.

Se a Grécia não receber os próximos desembolsos financeiros, entrará em incumprimento e, como se viu no verão de 2015, esse é um caminho que pode levar à saída da Grécia da zona euro. A situação é especialmente delicada porque a Alemanha tem eleições em setembro e as questões em torno da Grécia podem influenciar o debate pré-eleitoral e o resultado das eleições que vão colocar frente a frente Angela Merkel e Martin Schulz mas, também, poderá ter uma votação significativa o partido eurocético AfD. Para os eleitores alemães, a participação (financeiramente) do FMI é um fator importante porque ajuda a legitimar politicamente a participação alemã no resgate grego.

Mas o FMI veio uma vez mais recusar qualquer participação financeira enquanto não for oferecido a Atenas mais medidas de alívio de dívida, via adiamento dos prazos (já longos) e a redução dos juros (já ínfimos). Sem essas iniciativas, para as quais existe pouco apetite na Alemanha mas em vários outros países, mesmo “com uma aplicação plena das reformas associadas ao programa de ajustamento, a dívida vai chegar aos 160% até 2030, mas tornar-se explosiva depois disso”. Esta é a principal mensagem do relatório do FMI.

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O holandês Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, considerou as declarações “desnecessariamente pessimistas” mas Christine Lagarde, diretora de FMI, diz que o organismo nunca deixará de “dizer a verdade, com honestidade total e sem misericórdia”.

Numa entrevista à televisão alemã ARD, Wolfgang Schäuble afirmou que “a pressão sobre a Grécia tem de ser mantida”, caso contrário o Governo de Tsipras deixará de fazer reformas que aumentem a competitividade da economia. Repetindo a mensagem que tem transmitido em várias ocasiões, Schäuble afirmou que a única forma de a Grécia obter um perdão de dívida é saindo da zona euro — “isso é uma questão que compete à Grécia decidir”.

Em Atenas, o ministro das Finanças Euclid Tsakalotos também não gostou do que leu no relatório do FMI, dizendo que este “não faz justiça” aos esforços feitos pelos cidadãos, ao longo destes anos de sacrifício. Tsakalotos defende que “dizer que a Grécia não consegue ter saldos primários acima de 1,5% do PIB é uma contradição com os últimos acontecimentos”, diz o ministro das Finanças, argumentando que Atenas consegue ter um equilíbrio positivo (na medida de 1,5% do PIB ou superior) entre as receitas e despesas, excluindo juros da dívida.

“Os dados do FMI não se baseiam nas indicações mais atualizadas sobre desempenho orçamental nem nos dados mais recentes sobre a capacidade da economia grega de obter excedentes orçamentais”, criticou Euclid Tsakalotos.

Com todos os lados a pressionarem-se reciprocamente, o processo de avaliação do programa está a atrasar-se. O FMI continua, portanto, indisponível para participar financeiramente no programa, já que quer que os credores europeus façam mais por aliviar a dívida grega de forma a torná-la mais sustentável.

Ao mesmo tempo, o FMI quer que o governo de Atenas faça reformas mais ambiciosas no mercado de trabalho. Mas o governo de Alexis Tsipras recusa-se a fazer mais reformas, que poderiam tornar ainda mais precária a sua posição nas sondagens — o líder do Syriza já foi suplantado nas sondagens pelo candidato do partido conservador Nova Democracia.