Christos Ikonomou: "Os escritores de ficção curta não têm segundas oportunidades, têm de fazer tudo bem à primeira tentativa" /premium

Christos Ikonomou foi um dos homenageados na Noite da Literatura Europeia. Em entrevista ao Observador, falou sobre a Grécia e o papel do escritor, que é afastar o medo da morte. E citou Miguel Torga.

Quando se fala na literatura grega atual é impossível não referir o nome de Christos Ikonomou. Nascido em 1970, em Atenas, Ikonomou é autor de quatro coletâneas de contos (a primeira, The Woman on the Rails, é de 2003) sobre “a vida e a morte”, traduzidos para várias línguas (mas não para português) e elogiadas por vários jornais, como o Los Angeles Review of Books e o The New York Times. O italiano La Reppublica chamou-lhe “o Faulkner grego”, uma comparação que prefere evitar.

Tal como muitos outros autores gregos da nova geração, Ikonomou virou-se para o seu próprio país em busca de inspiração literária, ainda que admita que os temas de que trata não são apenas gregos, mas universais. O seu segundo livro, Something Will Happen, You’ll See, ficou famoso por, antes da crise, ter previsto a tragédia que assolaria o país. Publicado em 2010, já em plena crise económica, foi escrito anos antes (entre 2003 ou 2004), o que levou a que Ikonomou fosse promovido a profeta da desgraça grega e galardoado, no ano seguinte, com um importante prémio estatal, na categoria de conto.

A verdade é que Something Will Happen, You’ll See parece de facto antecipar o que estava para vir. O livro descreve as dificuldades dos trabalhadores que vivem nos bairros pobres junto a porto de Piraeus, na zona sudoeste de Atenas. Nas histórias do segundo livro de Ikonomou, pais e mães, irmãos e irmãs, amigos e colegas de trabalho são obrigados a superar perdas súbitas e a encontrar a luz no meio da escuridão. Este desespero pode também ser encontrado, ainda que de maneira diferente, em Good Will Come From the Sea, o terceiro livro de contos do escritor grego, publicado na Grécia em 2014 mas apenas recentemente em inglês pela editora norte-americana Archipelago Books (que também editou Something Will Happen, You’ll See).

Nesta coletânea de quatro contos (ou cinco, se contarmos com a história que é transversal a todos), Ikonomou fala de uma realidade já profundamente marcada pela crise económica. Um grupo de atenienses vê-se obrigado a migrar para uma ilha à procura de trabalho e melhores condições de vida. Contudo, e ao contrário do que esperavam, acaba por encontrar na ilha em forma de algemas os mesmos problemas que existiam no continente. Perdidos deles próprios, e uns dos outros, os atenienses mostram-se incapaz de se unir na procura de um bem comum. No meio da escuridão, há apenas uma coisa que permanece — a esperança sem a qual é impossível continuar a viver.

Christos Ikonomou foi um dos autores homenageados na sétima Noite da Literatura Europeia, que decorreu no passado dia 8 de junho, em Lisboa. Na Escola Básica N.º 1, foram lidos excertos, traduzidos especialmente para a ocasião por José António Costa Ideias, de As Filhas do Vulcão, o último livro de contos do escritor, publicado em outubro 2017 na Grécia e ainda sem edição em inglês. O Observador aproveitou a oportunidade para conversar, por email, com Ikonomou, escritor de “histórias desesperadas”.

Good Will Come From the Sea, o terceiro livro de contos de Christos Ikonomou, foi publicado recentemente em inglês pela editora norte-americana Archipelago Books

O seu último livro publicado em inglês, Good Will Come From the Sea, fala de um grupo de pessoas que se muda para uma ilha para fugir aos problemas do continente. Contudo — e apesar das esperanças que alimentam — acabam por ter de se confrontar com as mesmas dificuldades. A ilha é, portanto, simbólica, certo? Não se pode fugir de uma ilha.
Tenho muito interesse no conceito dual de ilha. Uma ilha pode ser uma prisão mas, ao mesmo tempo, está rodeada pelo mar aberto, que dá àqueles que a habitam uma sensação de grande liberdade. Existe alguma coisa ambivalente em relação às ilhas que, penso, está relacionada com aquilo que a maioria das personagens experienciam. Estão numa espécie de limbo, entre a prisão e a liberdade, entre o desespero e a esperança. É uma situação muito dramática, que tentei explorar ao escrever estas histórias. A relação entre as pessoas e o mar sempre me fascinou, porque cresci perto do mar.

Existem algumas personagens, como Tasos, do conto “I’ll Swallow Your Dreams”, e Lazaros, de “Good Will Come From the Sea”, que tentam lutar contra a dura realidade, ainda que isso lhes traga mais prejuízos do que benefícios. O primeiro sonha com uma vida melhor, e é por isso que fala quando todos se calam; o segundo, que tem a mesma ambição,  ensinou o filho a gostar do dinheiro, porque “o dinheiro é parte de ti”, “como o teu coração, como os teus braços e as tuas pernas”. Já Chronis, de “Kill the German”, parece ser incapaz de agir. Porquê? Será que tem medo das consequências?
O medo é uma emoção esmagadora porque está diretamente relacionada com a tragédia da natureza humana — queremos sentirmo-nos seguros e, ao mesmo tempo, queremos ser livres. Mas não acho que o medo seja a principal razão pela qual Chronis hesita em agir. Acho que ele, tal como muitas outras pessoas sensíveis, pensa muito e, como sabe, as pessoas que pensam muito tendem a questionar quase tudo e, acima de tudo, tendem a questionar-se a elas próprias. Contudo, acho que no final da história é óbvio que ele decide agir para ultrapassar a restrição que ele experiencia, literal e metaforicamente.

Em vez de lutarem individualmente por uma vida melhor, podiam procurar fazê-lo em grupo. Não é isso que acontece. Tasos diz: “Precisamos de esquecer tudo e encontrar uma coisa nova que nos volte a unir”. Porquê?
Acho que eles não lutam conjuntamente porque, como diz o Tasos, eles perderam o sentido de unidade. O Tasos tenta dizer-lhes isso — em vez de lamentarem a sua perda, deviam seguir em frente e tentar criar um novo sentido de unidade. Mas eles não o ouvem porque, às vezes, desistir é menos difícil do que lutar.

"O medo é uma emoção esmagadora porque está diretamente relacionada com a tragédia da natureza humana — queremos sentirmo-nos seguros e, ao mesmo tempo, queremos ser livres."
Christos Ikonomou

Os problemas que este grupo tem de enfrentar — dinheiro, poder e violência — estão interligados e, no livro, surgem personificados por personagens como Haris Drakaris, de “Good Will Come From the Sea”, que usa e abusa da sua influência junto dos mais fracos. Este é um problema real na sociedade grega?
Bem, acho que as pessoas que usam dinheiro, poder e violência para abusar da sua influência são um problema real em qualquer lado, não apenas na Grécia. Os líderes — e os líderes políticos em particular — carregam uma responsabilidade fundamental por tudo o que acontece, uma vez que são eles que estão no poder. Sei que nem todos os leitores ou políticos são iguais, mas mantenho a suspeita justificável de que o poder é igual, sempre e em qualquer lado. E, claro, o eterno problema com o poder é que é muito mais fácil abusar dele do que usá-lo.

A grave situação económica na Grécia, que rebentou em 2007, levou à aplicação de duras medidas de austeridade. Os gregos mostram a sua indignação em inúmeras manifestações, sobretudo na capital Atenas

AFP/Getty Images

Mas há personagens que querem ser assim. Como Lazaros, por exemplo.
Acho que a posição do Lazaros é um bocadinho mais complexa do que isso. Acho que ele é um daqueles pais que projectam a sua própria insegurança e fraqueza nos filhos e tentam manipulá-los, assumindo que o sucesso deles vai compensar aquilo que não conseguiram alcançar na vida. É uma figura trágica porque, a determinada altura, apercebe-se de que, ao tentar fazer com que o filho se tornasse numa pessoa poderosa, exerceu tanto poder sobre ele que fez com que ele se tornasse absolutamente impotente. Por outras palavras, ele compreende que a sua verdade entra em conflito com a verdade do seu filho. Todas as tragédias reais são assim: não são um conflito entre a verdade e a mentira, mas um conflito entre duas verdades.

"A esperança é resistência contra a opressão do espírito humano, da existência humana, através do medo da morte. No que me diz respeito, acho que é precisamente isto o que um escritor é chamado a fazer: a dar voz, através do seu trabalho, à esperança e não ao medo da morte."
Christos Ikonomou

Lazaro perde o filho, mas é incapaz de perder a esperança. Será que não é possível viver sem ela? Precisamos sempre de acreditar que “alguma coisa boa virá do mar”? A capacidade de sonhar também importante neste conjunto de contos, principalmente para personagens como Tasos e Artemis.
Talvez possamos sobreviver sem esperança, mas não acho que consigamos viver sem ela. A esperança não é uma coisa que existe de forma independente, não é uma definição abstrata ou alguma coisa que vive fora de nós, distante de nós. A esperança não é um slogan de uma eleição, um jingle de uma publicidade ou um lema de um manual de auto-ajuda. A esperança é uma criação. A nossa criação. A esperança é talvez a arma mais poderosa que temos para combater o medo da morte. A esperança é resistência contra a opressão do espírito humano, da existência humana, através do medo da morte. No que me diz respeito, acho que é precisamente isto o que um escritor é chamado a fazer: a dar voz, através do seu trabalho, à esperança e não ao medo da morte. A dar voz à vida, não à morte.

Fala muitas vezes dos turistas. Acha que têm uma ideia errada da Grécia?
Acho que quem vem de fora tende a ter uma ideia errada em relação a quase tudo, não apenas em relação à Grécia. Por outras palavras, acho que existem demasiados “turistas” neste mundo. O mais triste, acho eu, é que há pessoas que se comportam como “turistas” ou “estrangeiros” no seu próprio ambiente. Existem muitas pessoas que parecem viver numa espécie de bolha, não se dando ao trabalho de pensar ou de questionar o que está errado à sua volta. A literatura, e a arte em geral, tem o poder de tornar o desconhecido em familiar e vice-versa. Isso obriga-nos a sair da bolha.

As quatro histórias de Good Will Come From the Sea terminam com uma outra história, em itálico — a de uma rapariga e do seu pai senil. Porque é que decidiu organizar o livro desta forma? Foi uma forma de ligar os diferentes contos?
Quis que todas as histórias estivessem conectadas, porque isso maximiza o impacto que têm no leitor. É assim que trabalho — tento encontrar alguma coisa que una todas as histórias. Cada uma das minhas histórias faz parte de um universo maior que estou a tentar criar.

Something Will Happen, You’ll See, o segundo livro de Christos Ikonomou, saiu em 2010. A edição em inglês é também da Archipelago Books

Admitiu que não estava a pensar na crise grega quando escreveu Something Will Happen, You’ll See, o seu livro anterior, publicado em 2010. Por outro lado, em Good Will Come From the Sea, parece tê-la tido sempre presente. Porque é que achou que era importante abordar esta questão?
Quando estou a escrever uma história, não tenho um “tema” específico em mente. Não é assim que a escrita funciona comigo. O que tento fazer é escrever histórias com uma linguagem interessante e sentimentos verdadeiros. Tento escrever coisas que façam o leitor sentir alguma coisa poderosa e com significado, que o façam experienciar algum tipo de exaltação. Tento fazer justiça às minhas personagens escrevendo a história delas, não a minha. Tento escrever contos sobre amor e perda, sobre desencontros e encontros, sobre cair e levantar-se de novo, mas preciso de o fazer da forma mais concreta, sólida e tangível possível. Dinheiro, poder, trabalho — ou a falta deles — são o chão que mantém estas histórias ligadas à realidade. Ao contrário do que muita gente pensa, a ficção não surge do nada.

Disse que não pensa num tema específico quando escreve. E nos leitores? Pensa neles?
Não penso numa audiência em particular quando escrevo. Tento chegar ao maior número de leitores possível.

Mas as suas histórias descrevem uma realidade específica — o que está a acontecer na Grécia. Não tem medo que os leitores de outras partes do mundo tenham dificuldade em identificar-se com elas?
Tanto quanto consigo perceber, não há nada demasiado grego nas minhas histórias, e essa é uma das razões pelas quais, penso eu, elas são traduzidas e lidas em diferentes partes do mundo. Não estou a tentar escrever sobre o que acontece na Grécia apenas para falar sobre isso; estou a tentar escrever sobre o que está a acontecer na Grécia porque muitas das coisas que estão a acontecer aqui, ou vão acontecer aqui, acontecem noutros sítios também. No que diz respeito ao meu trabalho, tento sempre manter uma abordagem virada para o exterior.

Porque os problemas que estas personagens têm de enfrentar são universais, certo? Em última análise, não está a escrever apenas sobre os gregos, mas sobre todos os seres humanos.
O poeta português Miguel Torga disse que “o universal é o local sem paredes”. Uma das minhas preocupações é ultrapassar essas paredes — a minha experiência, a minha cultura, a minha língua — e escrever sobre coisas que podem significar alguma coisa para as pessoas que estão do lado de lá.

“O poeta português Miguel Torga disse que ‘o universal é o local sem paredes’. Uma das minhas preocupações é ultrapassar essas paredes — a minha experiência, a minha cultura, a minha língua."
Christos Ikonomou

Enquanto autor, qual é a sua relação com os antigos pensadores e escritores gregos? E que relação têm os seus compatriotas com eles?
Os gregos têm, de uma maneira geral, uma relação muito perplexa e conturbada com o seu passado. Muitos deles sentem um grande orgulho relativamente à Grécia Antiga, mas, no meu entender, isso não significa grande coisa. O orgulho pode ser uma emoção vazia e superficial se não surgir acompanhada por um esforço genuíno para se aprender o máximo que se conseguir sobre o passado e por um amor e carinho genuínos em relação a esse mesmo passado. Para mim, a arte, a mitologia e o pensamento da Grécia Antiga não são uma coisa do passado e certamente que não são um peso sobre os meus ombros. São alguma coisa intemporal, universal e absolutamente vívida, e que muito me ajudaram a moldar a forma como olho o mundo.

É nos bairros pobres do Piraeus que se passa o segundo livro de Christos Ikonomou. O porto, um dos maiores da Europa, serve também de casa a milhares de refugiados, que vivem em contentores

AFP/Getty Images

Até agora, publicou apenas coletâneas de contos, o que não deixa de ser curioso, uma vez que tem sempre a preocupação de ligar todas as histórias nos seus livros. Nunca pensou em escrever um romance? Ou isso é simplesmente algo que não lhe interessa?
Nunca tentei escrever um romance porque acho que não tenho paciência para o fazer. Talvez mais tarde. Mas gosto da celeridade do conto e dos desafios que apresenta. Um escritor de ficção curta é alguém que entra num quarto, conta alguma coisa importante sobre a vida e a morte e depois sai, sem querer abusar da hospitalidade de quem o recebe. A maioria das pessoas não se apercebe do compromisso, do foco e do trabalho árduo necessários para escrever um bom conto. Os escritores de ficção curta não têm segundas oportunidades — têm de fazer tudo bem à primeira tentativa.

Disse uma vez numa entrevista que “contar uma história desesperada é uma coisa que dá muita esperança”. O que é que quis dizer com isso?
É preciso muita coragem, muita empatia e força para escrever sobre uma situação desesperada sem melodrama, sensacionalismo ou trivialidade. Ao contar uma história desesperada, tenta-se levar alguma luz para a escuridão e, para mim, isso é dar esperança. Se queremos destruir o monstro, temos de saber como é que ele é.

Em Good Will Come From the Sea, cada personagem tem a sua própria interpretação da frase “alguma coisa boa virá do mar”. Qual é a sua?
Todas e cada uma delas.

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