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Café Bertrand. Na livraria mais antiga do mundo há petiscos de Jamie Oliver, Ramsay e Avillez

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A última sala da Bertrand do Chiado acolhe agora uma cafetaria com um conceito original: as opções da ementa saem dos livros de receitas que ali se vendem. Com a bibliografia devidamente assinalada.

A última sala da Bertrand, no Chiado, está irreconhecível. No melhor sentido da palavra. Depois de ter servido de armazém e, desde a última renovação do espaço, escritório, acolhe agora o novíssimo Café Bertrand, uma incursão da livraria mais antiga do mundo continuamente em função — data de 1732 e é reconhecida pelo Guinness Book World of Records como tal — num terreno inédito, ligado aos comes e bebes. Uma ideia que já tinha “algum tempo”, revela Sónia Alves, gerente do espaço, e que foi integralmente desenvolvida dentro da empresa. “Foi um processo longo, quisemos criar um conceito que tivesse a ver com a própria história da livraria”, explica a responsável.

O que torna especial este Café Bertrand — que não deve ser confundido com a banda francesa homónima — não é apenas a óbvia ligação à livraria mas a forma engenhosa como foi criada a ementa: através dos próprios livros de receitas que ali vendem. Daí que o mote do espaço seja “prove os nossos livros”. Sendo que essas mesmas obras estão disponíveis para consulta nas prateleiras, podendo acompanhar, dessa forma, a refeição.

O Café Bertrand fica na última sala da livraria homónima, no Chiado. Mas também tem entrada independente pela Rua Anchieta. (foto: © Tiago Pais / Observador)

“Sempre que possível optámos por livros com receitas portuguesas, sejam mais recentes ou antigos”, refere Sónia Alves. Mas há exceções, casos de receitas de Gordon Ramsay, Nigella Lawson ou Jamie Oliver. Folheando a ementa é possível identificar não só alguns chefes portugueses famosos, casos de José Avillez, Kiko Martins ou Henrique Sá Pessoa, como um historiador, Alfredo Saramago, uma blogger, Teresa Rebelo, ou até ex-responsável pela pasta da Cultura com queda para os tachos, Francisco José Viegas, entre outros.

A ementa divide-se em dois horários — a qualquer hora e do 12h30 às 20h — e seis secções — Pão, Torricados, Brusquetas e Sanduíches, Petiscos, Saladas e Nem Carne Nem Peixe –, preenchidas com as tais receitas, acompanhadas de citações, do título da obra e respetivo autor, e até do número da página em que se encontram. Por vezes foram feitas pequenas adaptações, de modo a dar destaque aos produtos portugueses, outra das intenções dos responsáveis. Por exemplo, nos grissini rustici de Nigella Lawson o presunto italiano San Daniele foi substituído por paleta alentejana.

Cada sala da Bertrand tem o nome de um autor português. A do Café Bertrand é a Fernando Pessoa, daí a ilustração ao fundo, de autoria de Tamara Alves.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

“Também oferecemos opções sem glúten, como o nosso bolo de chocolate. E temos leite sem lactose, várias receitas para vegetarianos e não usamos batata em nenhuma das sopas”, garante Sónia Alves para explicar que este é um espaço pensado para todo o tipo de clientes. E especialmente para aqueles que gostam de vinho, já que além da oferta a copo, escrita na parede à la wine bar, há uma carta muito pedagógica e informativa, com mais de 60 referências nacionais, de todas as regiões (só faltam os vinhos insulares, que chegarão em breve). Nela, é possível ler sobre cada região e a sua especificidade, saber quais as notas de prova de cada vinho e até os prémios e classificações obtidos por cada um deles em diversas publicações especializadas.

A montra combina alguns produtos feitos no espaço com outros escolhidos a fornecedores especializados. (foto: © Tiago Pais / Observador)

Neste Café Bertrand destacam-se ainda duas paredes. Uma delas está preenchida por capas antigas do mítico Almanaque Bertrand, publicado ininterruptamente entre 1899 e 1969 e retomado há seis anos. Para a outra, no fundo da sala, a artista Tamara Alves criou um mural com uma ilustração de Fernando Pessoa e frases de todos os seus heterónimos, assinadas com a caligrafia que o escritor criou para cada um deles. A razão? Cada sala da Bertrand tem o nome de um autor, e esta é a de Fernando Pessoa. Caso para escrever: “Livros de receitas no caminho? Guardo todos, um dia vou abrir um café”.

Nome: Café Bertrand
Morada: Rua Garrett, 73-75 (também tem entrada pela Rua Anchieta), Lisboa
Telefone: 21 347 6122
Horário: Todos os dias das 09h às 22h

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