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Coroado. “Fui ameaçado de morte com uma pistola e depois com uma faca, à porta do meu emprego”

10 Fevereiro 2017458

Aviso

Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Entre pastéis, o árbitro fala do dérbi de Caniggia, das 9 expulsões no Castelo-Algés, da conferência de imprensa com adeptos do Benfica na Luz e da protecção policial na ressaca de um Sigma-Fenerbahçe

Pastéis de Belém. Um para cada, só em jeito de início de conversa. Que isto vai demorar. Ai vai, vai. Jorge Coroado é um árbitro como poucos. Começa pelo currículo respeitável de mais de 200 jogos na 1.ª divisão portuguesa. É o primeiro de sempre a ultrapassar essa barreira. De 1986 a 2000, é um fartote. Como os pastéis. E é homem para grandes cometimentos, como expulsar três benfiquistas na Luz ou dois portistas no Bessa. Venha de lá o parlapiê.

Ò Rui, e esta conversa é para onde?

Observador, o site.
Conheço, sim. E papel, nada?

Era bom, não era?
Então não? Sabe, aprendi imenso nos jornais.

Eu também. A geografia, por exemplo. Quando havia o sorteio da 1.ª eliminatória das competições europeias, era uma maravilha. O Sporting em Timisoara, o Boavista em Marx-Stadt, o Belenenses em Mostar, o Vitória em Istambul, o Porto em Helsínquia, o Benfica em Budapeste. Ainda hoje, esse conhecimento de estabelecer relação entre as cidades e os países é dos desportivos.
Isso mesmo. Outros tempos. Aprendíamos imenso com os jornais. Muito mesmo. Olhe, aprendi a ler pelos jornais. Lia a Guidinha.

A Guidinha?
Era uma crónica do Luís de Sttau Monteiro no “Diário de Lisboa”. Também foi ele o autor d’A Mosca, no mesmo jornal. Aquilo era a minha leitura. Na escola, a professora pedia-nos para pontuar o texto. Sabe como é, incluir vírgulas, pontos finais, parágrafos, exclamações, interrogações.

Ainda bem que está aí. De onde é? Onde mora? O que faz?
Vivia ali na zona do Belenenses.

E ia ao Restelo?
Muitas, muitas vezes. E composto, bem composto. Não é como agora [e abana a cabeça em desaprovação pela média de 4 mil adeptos/jogos nos 11 jogos para o campeonato 2016-17].

Já queria ser árbitro?
Não, nem pensar. Se bem que me lembro perfeitamente de ter 9 anos de idade e ver milhares de pessoas a manifestarem-se contra um homem só, o árbitro. Para mim, aquilo tudo não tinha cabimento. Mas ainda não pensava nisso da arbitragem, até porque fui praticante de atletismo do Belenenses até aos 18 anos.

Eu li o anúncio Associação de Futebol de Lisboa n’A Bola, lembro-me como se fosse agora. Estava lá um quadradinho e, claro, aquilo espicaçou-me. Provocou em mim uma curiosidade infinita. Fui lá inscrever-me no curso e saber as regras.

E o futebol?
Exceção feita aos jogos propriamente ditos, sobretudo os dos grandes no Restelo, onde a festa era imensa, a minha memória mais forte é o dia seguinte.

As segundas-feiras?
Na barbearia debaixo da minha casa, discutia-se bola, bola e mais bola. Com o jornal A Bola ali ao lado, claro está.

Xiiiii, é o tempo dos tri-semanários desportivos.
Isso mesmo, A Bola à 2.ª, 5.ª e sábado, Record à 3.ª, 6.ª e domingo e ainda o Mundo Desportivo.

E quando nasce essa mania da arbitragem?
Vi o anúncio da Associação de Futebol de Lisboa n’A Bola.

Estavam à procura de árbitros?
Antes, era assim. Agora, o anúncio está na internet. Eu li o anúncio n’A Bola, lembro-me como se fosse agora. Estava lá um quadradinho e, claro, aquilo espicaçou-me. Provocou em mim uma curiosidade infinita. Fui lá inscrever-me no curso e saber as regras.

Lembra-se da sua estreia absoluta?
Fiscal-de-linha de António Ferreira, num Loures-Sacavenense em juniores.

Uau, boa memória. E o segundo jogo, já agora?
Em Algés, um jogo entre equipas do Casal Ventoso, novamente como fiscal-de-linha.

E como árbitro?
Fui o primeiro de sempre a passar os 200 jogos na 1.ª divisão.

E a estreia?
Vidal Pinheiro, outubro 1986, um Salgueiros-Farense. Acaba 2-0. Nesse jogo, marca o Mike Walsh, aquele que jogou no Porto. Era pai de quadrigémeos, que figura.

Repito-me, que memória.
Essa da estreia na 1.ª divisão é fácil: 1986 foi um grande ano para mim.

Então?
É o ano do meu casamento e da minha entrada no BCP [Banco Comercial Português].

Como foi essa viagem para o Salgueiros-Farense?
Viajei de véspera. Aliás, viajava sempre de véspera. Como os jogos eram sempre ao domingo, às 15 ou 16, dependia do horário de inverno ou verão, saía daqui com os meus fiscais-de-linha ao sábado. Dormia na cidade em questão e apitava tranquilamente no domingo.

E vinha quando?
Sempre a seguir ao jogo. E sem parar. Havia quem parasse em Águeda, onde havia um restaurante conhecido por receber este e aquele. Eu não. Sempre fui direto, sem parar.

Dava para chegar a casa e ver o Domingo Desportivo?
Dava para chegar a casa e jantar com a minha mulher.

Em 1986, a A1 dá até…
Só até ao Carregado. Daqui a Braga, eram sete horas. Daqui a Vila Pouca de Aguiar, para apitar em Chaves, eram umas 10 horas. Se saísse daqui às 13 horas, chegava às 23.

Quanto recebeu por essa primeira viagem ao Porto?
20 escudos.

Como?
Ainda dei 20 escudos da minha algibeira.

Como assim?
Entre despesas de deslocação, alimentação, hospedagem e pagamento da diária aos meus fiscais-de-linha, fiquei a dever 20 escudos a mim mesmo.

Outros tempos?
Meeesmo. Para começar, só recebíamos subsídio se viajássemos 150 km para fora de Lisboa, ida e volta. De 150 km a 250 km, recebíamos tanto. De 250 km a 500 km, outro tanto. Para cima de 500 km, mais um tanto.

E os hotéis?
Isso era à sorte. Havia bons, assim-assim e maus, muito maus. Melhorou muito a partir de uma certa altura em que o profissionalismo tomou, e bem, conta do futebol no seu todo.

Como era um hotel muito mau?
Bem, uma vez apanhei um hotel que nunca mais. Tanto assim é que fiz queixa ao Turismo Cruzeiro, era assim que se chamava a companhia que nos marcava os hotéis. Foi lá em cima, em Trás-os-Montes: a cama não tinha uma perna, a banheira tinha mais surro que Deus me livre e se atirasse a carcaça do pequeno-almoço à cabeça de um dos meus fiscais-de-linha, pobre coitado, ficava inutilizado.

Benfica-Torreense. O que lhe diz este jogo?
Na Luz. O Torreense, que faz aí a sua última época na 1.ª divisão, era treinado pelo Manuel Cajuda. E onde errei foi não ter assinalado um penálti contra o Benfica, por falta do Neno. O próprio confirmou-me anos depois. Fez falta sobre um brasileiro chamado Bigu.

Uma vez apanhei um hotel que nunca mais. Tanto assim é que fiz queixa ao Turismo Cruzeiro, era assim que se chamava a companhia que nos marcava os hotéis. Foi lá em cima, em Trás-os-Montes: a cama não tinha uma perna, a banheira tinha mais sarno que Deus me livre e se atirasse a carcaça do pequeno-almoço à cabeça de um dos meus fiscais-de-linha, pobre coitado, ficava inutilizado.

E mais, e mais?
Zero-zero e expulsei Paulo Sousa, na primeira parte, por falta. Depois, já no fim, o César Brito, por palavras, e o Pacheco, também por palavras. Aliás, a história do Pacheco tem piada.

Então?
O Mozer é que me contou, depois confrontei o Pacheco e ele confirmou-me. Ao minuto 90, há um lance na área do Torreense, gera-se uma confusão e é daí que sai o vermelho para o César Brito, por palavras. O Pacheco, que até nem estava ali, veio a correr na minha direção e disse-me na cara, neste português, ‘meu filho da puta, não tens colhões para me mostrar o vermelho’. Ainda ele não tinha terminado a frase e já lhe estava a exibir o vermelho, não por palavras, porque como lhe digo nem ouvi o que ele me disse, a forma de se dirigir a mim é que foi insultuosa e merecedora de expulsão. Conta o Mozer, e depois o Pacheco, que quando mostrei o vermelho, o Pacheco desabafou ‘tens mesmo colhões!’ Há mais, atenção.

Uyyyyy…
No final do jogo, o Gaspar Ramos convidou-me para ir à sala de imprensa e aceitei. Cheguei lá e não havia nem um jornalista, só sócios do Benfica. Saí logo, claro. Ainda nesse dia, fui convidado para ir à RTP. Foi uma experiência inesquecível e divertida.

Então?
Dividi estúdio com o Toni, então adjunto do Eriksson no Benfica, e ele saiu-se com uma boa: que a minha atuação foi uma vingança com 30 anos de atraso. [Jorge Coroado abana a cabeça a rir-se]

Trinta anos?
Como eu sou do Belenenses, o Toni lembrou-se daquele Benfica-Belenenses de 1970 em que o árbitro João Nogueira expulsou Torres e Malta da Silva antes do intervalo. A multidão da Luz invadiu o campo e interrompeu o jogo. O árbitro safou-se de boa, devidamente protegido pelo Toni, então capitão do Benfica. Cabe realçar o facto de estar um dia de chuva e a maior parte das pessoas estar munida de um guarda-chuva, uma apreciável arma para quem quer acertar contas.

Como saiu da Luz nesse dia?
Pelo outro lado.

Eram frequentes essas saídas pelas traseiras?
Não, raro, raro, muito raro.

E era de expulsar muitos?
Uma vez, em 1977, um jogo das distritais de Lisboa acabou mais cedo porque expulsei sete jogadores do Castelo e dois do Atlético de Algés. Estava no início da minha carreira e também ainda estávamos no PREC. Se hoje o respeito pela autoridade é diminuto, na altura era inexistente

Qual o seu pior momento?
Em 1991, um Gil-Farense em Barcelos, só me deixaram dois vidros intactos. Fiz queixa, claro, e pagaram-me os 300 contos de arranjo.

Qual era o carro?
Um portentoso Citröen BX.

Sobreviveu a Barcelos?
E ainda apanhou mais, coitado. Em Paços, ficou sem pára-brisas nem as tampas das jantes. E também levou um pontapé.

De quem?
Um fulano.

Ahhhhh, vá lá. Qual fulano?
Olhe, lembra-se daqueles debates de bola à 2.ª feira, na barbearia debaixo do meu prédio? Pois bem, era uma dessas pessoas. Sportinguista doente.

Olho para cima e um sujeito atira-me um cachecol do Chelsea. Nunca tinha visto aquele sujeito. O cachecol foi comigo para o balneário. Tomei banho e saí do estádio, com o cachecol na mão. Antes de entrar no carro, em direção ao restaurante para o jantar, meti o cachecol à volta do pescoço. Os adeptos do Chelsea que ainda andavam por ali entraram em delírio e perseguiram-nos até ao restaurante.

Qual era o jogo?
Sporting-Benfica em juvenis.

Também apitava as camadas jovens?
Até ao fim da minha carreira, mesmo já internacional, apitava ao sábado e depois ao domingo. No meu último ano, apitei ainda 17 jogos de juniores da AF Lisboa.

Então apanhou grandes craques.
Siiiim. Lembro-me bem de Figo, Simão, Paulo Sousa e Rui Costa. Vi-os crescer.

Como internacional, qual foi o primeiro jogo?
Itália-URSS em La Caserta, perto de Nápoles. Um jogo do campeonato militar.

E o primeiro jogo de seleções senior?
Futebol feminino, um Espanha-Suécia. Em Barcelona. Lembro-me bem do quarto de hotel no Princesa Sofia, ao lado do Camp Nou. Um quarto de luxo, com uma diária a rondar os 80 contos. Desnecessário. Apanhei alguns quartos assim, luxuosos demais. Alguns deles, o quarto era gigante.

E chegou até onde, a nível internacional?
Em 11 anos, uma meia-final da Liga dos Campeões e outra da Taça das Taças.

Nunca foi a um Mundial ou a um Europeu?
Gostava de ter ido, claro que sim, mas a minha maior alegria é ter apitado a final da Taça, no Jamor. E repeti a dose. Um Porto-Braga em 1998 e um Porto-Marítimo em 2001. Aliás, essa foi a minha despedida. Não podia escolher melhor desfecho de carreira do que subir aquelas escadas e ser saudado pelo presidente da República. Mágico.

É falta sô árbitro: curiosa imagem a meio de um Sporting-Salgueiros em 2001

Dessas meias-finais da UEFA, qual a melhor história?
Sem dúvida alguma, o Chelsea-Saragoça. Estava em causa um lugar na final e o Saragoça entrou a todo o vapor. Aquele argentino, o Esnaider, fez uma entrada arrepiante. Virei-me para ele e disse-lhe ‘põe-te à tabela, ainda me lembro o que fizeste à seleção portuguesa no Mundial sub-20 em 1991.” Acalmou de imediato.

Quem ganhou?
O Chelsea ganhou o jogo, 3-1. O Saragoça passou à final, 4-3 no conjunto das duas mãos. Há um recuerdo engraçado. No final do jogo, encaminhei-me para o balneário e, à entrada do túnel, há alguém que diz insistentemente referee. Olho para cima e um sujeito atira-me um cachecol do Chelsea. Nunca tinha visto aquele sujeito. O cachecol foi comigo para o balneário. Tomei banho e saí do estádio, com o cachecol na mão. Antes de entrar no carro, em direção ao restaurante para o jantar, meti o cachecol à volta do pescoço. Os adeptos do Chelsea que ainda andavam por ali entraram em delírio e perseguiram-nos até ao restaurante.

E depois?
Entraram no restaurante, sempre a cantar. O dono do restaurante estava para expulsá-los, só que percebeu a cena e deixou-os ficar a beber uma cerveja connosco. Foi um exemplo de desportivismo exemplar. Aquilo é diferente, lá em Inglaterra.

Também deve ter apanhado uns sustos valentes, não?
Nem me diga nada: Sigma Olomouc-Fenerbahçe. Acabou 7-1 [Novembro 1992].

Para o Fenerbahçe?
Para o Sigma. Expulsei três jogadores do Fenerbahçe.

Três?
Inclusive o capitão. Esse atirou-me a bola com um pontapé. Vermelho sem hesitação.

E depois?
O Fenerbahçe descontrolou-se em absoluto. A equipa tinha cinco ou seis jogadores agenciados pelo Valter Ferreira [responsável pela vinda de zairenses em massa nos anos 80: N’Dinga, N’Kama mais Basaúla] e foi uma cegada total. Perderam e foram eliminados. À porta do balneário, um fotógrafo turco estava como intruso e dei um pontapé na máquina. Aquilo descarrilou por completo. Só para ver, disseram-me em francês que ia chegar a Portugal com um sobretudo de quatro tábuas. Durante umas semanas, largas, tanto a GNR como a PSP vigiaram os meus filhos, da escola para casa e de casa para a escola. Todos os meus movimentos e os da minha mulher também eram observados a rigor pelas forças de segurança. Enfim, o futebol tem disto.

Qual é o outro lado?
Um Kaiserslautern-Ajax só com oito faltas, por exemplo [Dezembro 1992]. Saí do jogo fresquinho que nem uma alface. Desengane-se quem pensa que esses jogos são danados para os árbitros. Os do pára-arranca é que são uma chatice pegada. Quando as equipas não jogavam um terço do tempo, saía todo roto do campo.

Apanhou algum português lá fora?
Uma vez, sim. O Rui Costa [Setembro 2000]. Entrou em campo a dizer-me ‘Jorge, somos portugueses, não somos?’

Como acabou?
A Fiorentina perdeu 3-1 na Áustria, com o Tirol.

Disseram-me em francês que ia chegar a Portugal com um sobretudo de quatro tábuas. Durante umas semanas, largas, tanto a GNR como a PSP vigiaram os meus filhos, da escola para casa e de casa para a escola. Todos os meus movimentos e os da minha mulher também eram observados a rigor pelas forças de segurança.

E cá, alguém o tirou do sério?
Olhe, um Paços-Varzim da 2.ª divisão. Eu dizia sempre aos meus fiscais-de-linha para não agitarem a bandeirola na marcação de um golo e que andassem sempre de um lado para o outro, na linha lateral. Assim, os adeptos não fixavam o alvo. Nessa tarde, o Varzim marca na sequência de um canto. É um golo em que a bola entra e um defesa corta para lá da linha. Eu valido o golo e o meu fiscal agita a bandeira. Está a ver, não está? Um golo polémico e os adeptos atiram-se ao árbitro. Como o árbitro está longe, o alvo é o fiscal-de-linha. Em vez de se mexer, ele ficou quieto junto à linha que liga o meio-campo e a lateral. De repente, levou com uma garrafa partida junto ao olho. Se aquilo lhe acertasse mais abaixo, ficava cego. O jogo foi interrompido e ele foi socorrido na cabina, pelo médico do Paços. Um senhor cinco estrelas, a quem me curvo mais uma vez.

Quem atirou a garrafa?
Vi-o pelo canto do olho e sabia quem era, só que fugiu. Ainda trepei a vedação naquele primeiro instinto de o apanhar, mas era urgente acompanhar o fiscal-de-linha para o balneário e suturá-lo. Ainda bem. Naquela tarde, era capaz de me atirar ao homem e sei lá o que lhe fazia.

E o jogo foi reatado?
Aquilo era sangue e mais sangue no balneário. O médico coseu o sobrolho do fiscal-de-linha e ele estava aparentemente bem, só que não havia condições para prosseguir. O público estava completamente irado e nós não sentíamos bem em voltar a jogar. Para tal, era preciso esperar por 30 minutos para acabar com o jogo. Agora, imagine a cena: o fiscal-de-linha deitado, virado para mim, e o médico do Paços, de costas para mim.

E agora?
Pergunto-lhe: ‘Sentes-te em condições?’ E ele a dizer que sim. Eu estava a ir aos arames. Pela segunda vez nessa tarde. Às tantas, pisei-lhe a mão para ele perceber que não podia querer ir a jogo, não havia condições. O médico do Paços só se ria. Tinha percebido a ideia. E também me disse que o fiscal-de-linha não estava em condições de reassumir as funções. A meia-hora passou, o perigo também.

Há histórias dessas na 1.ª divisão?
Nãããããão.

Vejo aqui que expulsou o João Pinto aos 20 minutos de um Porto-Vitória SC.
[Jorge Coroado esboça um sorriso engraçado] Bem lembrado, foi duplo amarelo. E esse lance foi o penálti do 1-1, se não me engano. O Porto perdeu 3-2 nas Antas [Abril 1996]. No fim, o Pinto da Costa veio ter comigo e perguntou-me ‘como é que tinha visto penálti?’.

Então, porquê?
Foi um lance no outro lado da área e o sol, por trás da tribuna, encadeava-me. Só que, mesmo assim, vi o gesto manhoso do João Pinto. Ele esperava que me enganava, só que isso não era assim tão fácil.

Não?
Há certos movimentos físicos possíveis e outros impossíveis. Esse do João Pinto era impossível. Só se fosse falta, digo. O Pinto da Costa também me disse que tinha sido corajoso com o penálti mais a expulsão, ainda por cima do capitão. E deu-me os parabéns pela arbitragem.

Outra desse género?
Outra? [pensa alto] Ahhhh, um Braga-Porto para a Supertaça. Está 1-1, expulso Zahovic com vermelho direto, antes do intervalo, e apito penálti para o Braga aos 80-e-muitos minutos. Na marcação, o Kralj defende o remate do Silva. Acaba 1-1 e o Pinto da Costa pergunta-me: ‘Que sangue lhe corre nas veias para marcar um penálti contra o Porto no fim?’.

E há sempre aquele Benfica-Sporting de 1995.
Que processo, esse. Bem kafkiano.

O vermelho ao Caniggia, porquê?
A ideia é dar um amarelo ao Caniggia e outro ao Sá Pinto, por troca de empurrões na sequência de uma falta perto da área do Benfica. Só que o Caniggia insulta-me. Chama-me ‘filho da puta’ e manda-me para a ‘puta que te pariu’. Dei-lhe o amarelo. Depois ouvi isso e dei-lhe vermelho direto. O que as pessoas pensaram foi que eu me tinha enganado. Que eu julgava que ele já tinha amarelo e que portanto foi segundo amarelo. Nada disso. Foi amarelo, o primeiro dele naquele jogo, e depois o vermelho direto, porque não aceito insultos de ninguém. Seja em português ou em castelhano.

E depois?
Na cabina do árbitro, o Gaspar Ramos [dirigente do Benfica] estava muito nervoso e incontrolável. Pedi-lhe então que se retirasse. É verdade que aquela casa [Estádio da Luz] era dele, e ele até era delegado ao jogo, pelo que podia estar ali mas não naquele estado, mas aquele espaço era meu.

A verdade é que a FPF instaurou-lhe um processo?
Já lhe disse que foi kafkiano, não já?

Então?
Mal entrei na sala para depor, o relator do processo [Sampaio Nora, do Conselho de Justiça da FPF, pertencente à lista de Vale e Azevedo para as presidenciais do Benfica uns anos depois] disse-me para estar tranquilo porque não gostava de mim.

Entrada a pés juntos?
É como lhe digo: já se passaram tantos anos que ainda nem sei se hei-de rir ou de chorar. Foi um processo kafkiano.

E os jogadores, colaboraram?
Os do Benfica defenderam a sua dama. Do Sporting, só houve um que me defendeu e disse o que tinha ouvido. Foi o Sá Pinto. Os outros encolheram-se. Como o Marco Aurélio, aquele central. [Jorge Coroado começa a falar com sotaque brasileiro]. ‘Eu até ajudava você, Coroado, mas não sei o dia de amanhã, né?’ Em resumo: eles tinham medo de dizer o quer que fosse porque isso hipotecava o futuro deles. Conclusão: a FPF anulou esse jogo e promoveu um outro, de repetição, no Restelo, que a FIFA desvalorizou. Nas contas finais desse campeonato 1994-95, o jogo que conta é o meu.

Mal entrei na sala para depor, o relator do processo [Sampaio Nora, do Conselho de Justiça da FPF, pertencente à lista de Vale e Azevedo para as presidenciais do Benfica uns anos depois] disse-me para estar tranquilo porque não gostava de mim.

Olhe, e o Caniggia?
Vi-o só mais uma vez, na minha despedida internacional. Para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, num jogo entre Rangers e Maribor, em Glasgow [Agosto 2001]. Ele viu-me e deu-me a sensação de estar assustado. Falámos um pouco, ele disse-me que nunca quis criar problemas e eu disse-lhe para estar tranquilo. Nessa noite, ele marcou dois golos [3-1] e não o expulsei. Assunto arrumado.

Arrumado? Sei de uns episódios estranhos por conta do vermelho ao Caniggia.
Nada de especial. Fui ameaçado de morte com uma pistola e depois com uma faca, à porta do meu emprego, ali na José Malhoa.

O quê?
De manhãzinha, ainda antes da 8h30. Foram pequenos-almoços diferentes. Eram adeptos de cabeça perdida que queriam fazer justiça com as próprias mãos. O da pistola só me queria assustar, o da faca do mato tentou atingir-me só que falhou o alvo e estragou-me o casaco. A sorte dele é que conseguiu fugir. O azar é que lhe fiquei com faca.

Ainda a tem?
Para a posteridade.

Qual o jogador por quem sente mais admiração nos anos de arbitragem?
A essa pergunta tenho de responder Paco Fortes. Sem pestanejar, o Paco.

O Paco, grande homem.
Pode crer. Lamento imenso a situação que ele viveu recentemente, em Barcelona, quando andou para aí aos tombos. Ainda bem que a comissão dos antigos jogadores do Barcelona agarrou nele e deu-lhe trabalho e comida. Houve um tempo em que o Paco significava Farense, São Luís, Algarve. Grande, grande homem.

E porquê essa adoração toda?
Estávamos em 1993 e fui apitar o Salgueiros-Farense, uma semana depois da morte da minha mãe. Às tantas, assinalo uma falta e o Stefan, um defesa luso-brasileiro do Farense, passa-se. Acto contínuo, insulta a memória da minha mãe. Bem, aí fui eu quem se passou. Expulsei-o.


No fim do jogo, a caminho do balneário, o Paco Fortes está acompanhado pelo Stefan no cimo das escadas e pergunta-me o porquê de o ter expulsado. Digo-lhe de minha justiça e sabe o que faz o Paco?

Nem ideia.
Dá um murro ao Stefan. No primeiro treino do Farense depois desse episódio, o Paco está à espera do Stefan à entrada do estádio e voltam-se a embrulhar-se.

Por falar nisso, embrulhe lá mais seis pastéis se faz favor.

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