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Livros para aprender a ser um pai porreiro

20 Dezembro 2015403

Há várias obras à venda nas livrarias que ensinam um pai a ser melhor, mais competente e mais presente. Nuno Costa Santos leu-as e revela o que aprendeu com elas (fez uma lista e tudo).

Pai de um filho com um ano e quatro meses (e já com dois mais velhos no currículo, um de dez e outro de onze anos), resolvi recolher alguns ensinamentos de livros recentes sobre paternidade, expostos com algum destaque nas livrarias. O escritor Alface escreveu em tempos o livro Um Pai Porreiro Ganha Muito Dinheiro (Fenda). Mas como isso é uma impossibilidade no caso, o melhor é pesquisar conselhos que não implicam fortuna ou a amizade de Carlos Santos Silva.

O pai instintivo que procura ser mais competente necessita de relembrar os fundamentos escritos da sua arte, até para se defender dos seus inimigos clássicos: os avós da criança. Aqueles que o mediático psicólogo Eduardo Sá descreve assim, com o seu sorriso radiofónico, num livro adiante descrito: “Os avós fazem mal ao crescimento das crianças. Porque se vingam do tempo que não tiveram, enquanto pais, e parecem estar, agora, eternamente disponíveis. Porque permitem aos netos aquilo que nunca permitiram aos filhos. Porque perderam em austeridade tudo aquilo que ganharam em bondade”. Aguentem-se.

Sempre que há uma guerra caseira sobre a melhor forma de lidar com os pequenos, pode-se sempre ir à estante e justificar uma rabada com um livro do referido especialista (até se pode utilizar o calhamaço para o efeito). Em Queremos Melhores Pais! (5.ª edição lançada em Novembro), Sá defende que, no segundo aviso aos filhos para suspenderem a deseducação, os pais estão autorizados a fazer cumprir aquilo que entendem ser sensato. “Nem que, para tanto, tenham de abrir os olhos, levantar a voz, respirar para cima de uma criança, mostrar pulso firme quando a colocam no lugar de onde ela não deve sair ou, no limite, quando lhe dão uma palmada no rabo”. Respirar para cima de uma criança é claramente a actividade mais arriscada. Até porque se pode ter bebido Casal Garcia ao almoço.

Esta digressão pela literatura paterna vem comprovar que a maior parte dos livros sobre estas temáticas replica em muitas das suas páginas os lugares comuns do bom senso. Mas de facto a vida é um lugar comum, distante de adiantamentos mentais e estudos espúrios. 

O psicólogo faz questão de observar que não está a defender que se “eduque a estalo”. Alega apenas que, por vezes, “há circunstâncias excecionais em que uma dor física sinaliza um interdito. E protege!”. A psicóloga clínica infantil e juvenil Rita Castanheira Alves, autora do livro A Psicóloga dos Miúdos – Dicas, exercícios e estratégias para educar os miúdos sem stress, sem birras e sem dramas, editado este ano pela Vogais, tira-nos o peso do remorso quando exageramos no nosso vigor educativo. “Se se sentir culpado, lembre-se do que dizia Confúcio: ‘Eduque os seus filhos com um pouco de fome e um pouco de frio’. Acrescento: não sempre, claro, mas de vez em quando vai ajudá-lo. Afinal, ‘a necessidade aguça o engenho’”. Um empreendedorismo infantil.

confucius

O conselho de Rita Castanheira Alves: “Se se sentir culpado, lembre-se do que dizia Confúcio: ‘Eduque os seus filhos com um pouco de fome e um pouco de frio’”

Atenção que Rita – e Eduardo – são em geral pela paz doméstica. Rita até escreve uma mensagem que qualquer pai porreiro deve transmitir ao filho nos primeiros meses de vida: “Foste tão corajoso em vir ao mundo. És um bebé tão simpático. Estou tão feliz que faças parte da nossa vida!”. Convém referir que o bebé é capaz de não entender a poética. Ao mesmo tempo, até para cortar os excessos de doçura, estabelece uma tropa caseira pelos melhores motivos. “Quando [a criança] procura alcançar um brinquedo, não lho dar de imediato, vedando o seu esforço”. Aquilo que Cavaco fez com António Costa.

Esta digressão pela literatura paterna vem comprovar que a maior parte dos livros sobre estas temáticas replica em muitas das suas páginas os lugares comuns do bom senso. Mas de facto a vida é um lugar comum, distante de adiantamentos mentais e estudos espúrios. A sensatez precisa de ser lembrada numa altura de milhares de teorias sobre a melhor forma de lidar com os pequenos seres que habitam as casas para além dos ocasionais murganhos. Os autores dos livros visitados começam em geral por rememorar em tom intimista o seu tempo de criança e depois elencam um conjunto de regras que passam por estabelecer horários (para comer, ir para a cama, preparar-se para a escola), disciplina, cuidado com a tendência para proteger demasiado os petizes, etc.

Rita Castanheira Alves dá uma solução para o momento no qual uma criança chama constantemente nomes à irmã. O que faz o pai? Ignora? Conversa? Chama nomes também? “Quando estão sozinhos, a brincar no quarto, deve ser dado um espaço sem que o adulto se intrometa constantemente. Desta forma, estarão a desenvolver estratégias para lidar melhor um com o outro e construírem a sua relação”. Já se o gesto rebelde for cometido perante os adultos, deve haver sanção adequada. Presume-se que não vale pô-los a ver os desenhos animados (os gráficos) do Medina Carreira.

Eduardo Sá sublinha que a primeira função dos filhos é dar problemas aos pais. “Arrepio-me quando os pais desabafam, com orgulho, que os filhos não lhes dão problemas”. 

Mas há algumas originalidades pelo meio. A “psicóloga dos miúdos” defende que as crianças e os adolescentes mais raivosos podem ser sujeitos a “exercícios focalizados nessas emoções mais intensas”. Quais? “Escolher uma revista que se possa estragar e rasgar folhas sem parar, com muita força e rapidez.” A questão que se pergunta é: que revista? A TV Guia, a Paris Match, a Monocle? Um tema a aprofundar em futuras edições do livro. O que é que se faz depois do rasganço? “No final, sentar ou deitar e respirar fundo”. Calmamente. Propõe-se que o mesmo se possa fazer, pelos leitores, com o lixo literário distribuído pelas livrarias.

Existem mais ideias, estas propícias a fazer crescer o negócio do Ikea: a “almofada do stress”, por exemplo. O objectivo é o de arranjar uma almofada grande e colocá-la em local acessível a toda a comunidade familiar. “Nela, cada elemento da família pode descarregar o stress, a zanga, a raiva e a ansiedade, podendo dar murros e gritar lá para dentro”, escreve esta psicóloga de sorriso cintilante. Também podia servir, digo eu, para debates políticos mais excitados.

Eduardo Sá sublinha que a primeira função dos filhos é dar problemas aos pais. “Arrepio-me quando os pais desabafam, com orgulho, que os filhos não lhes dão problemas”. Também quebra o consenso quando afirma que os trabalhos de casa devem ficar para o fim. “A fórmula ‘primeiro fazer os trabalhos de casa e depois brincar’, tão do agrado dos pais, é proibida! Só depois de brincar vem o trabalho!”. A metáfora usada não é a mais feliz mas foi aquela que encontrou no intervalo entre as conversas com Isabel Stilwell na Antena 1: “Brincar é o ‘aparelho digestivo’ do pensamento”. Fundamental é unir a brincadeira e a aprendizagem. Escreve o doutor em tom épico-lírico: “Todas as crianças têm direito a ser crianças. E têm direito a crescer livres, mas com regras, num país amigo das crianças”. Um Manuel Alegre da psicologia infantil.

O infantilmente incorrecto prossegue quando se defende, ao contrário das teses comuns, que é muito positivo fazer-se o exercício da comparação dentro da família. “Os irmãos comparam-se constantemente. E isso é bom!”. Mas não só. “Os filhos comparam os pais. E isso é bom!”. É tudo bom, em nome de uma saudável competitividade do ranking lá de casa.

Um pai porreiro deve assustar os filhos. Sá aprecia os pais de quem as crianças têm um certo medo: “Pais que ‘rosnam’ como deve ser logo que eles fazem de ‘homem invisível’”. O argumento é este: os pais de coração têm sempre a cabeça quente. “E isso é bom”, remata, satisfeito com o bordão que criou.

Num movimento de marcha atrás algo súbito, responsabiliza-se os pais em relação a tudo o que os filhos têm de negativo. O “universo das nódoas difíceis” que temos cá dentro é determinado por “omissões, graves erros de leitura e maus-tratos protagonizados, regra geral, pelos nossos pais”. Mas, calma, nada de pânicos. “Engane-se quem pense que um pai não tem um enormíssimo coração”. Ufa.

Esse pai, esse excluído que deseja ser porreiro, esse sem-abrigo dentro da sua própria casa, merece uma atenção particular. A formulação, mais do que apontar dicas, apresenta um tom amavelmente autoritário e sentencioso. Diz-se que um bom pai “tem colo e cavalitas”, “não se engasga com as palavras quando trata de dizer ‘gosto de ti’”, “deve mostrar orgulho por tudo aquilo que o filho lhe dê”, “não pode falhar nenhum jantar” e “tem de” dar 30 minutos por dia a cada filho e ainda oferecer-lhe um “cantinho próprio” (ao lanche de quarta-feira, por exemplo).

Clichés e ensinamentos

Em A Arte de Dizer Não!, de Joaquim Quintino Aires (Lua de Mel, Outubro de 2015), desfaz-se a opinião generalizada de que uma criança birrenta é aquela que tem uma personalidade forte. Note-se a exclamação: “Nada mais errado! Um bebé, ou uma criança pequena, que faz muitas birras revela ainda ‘acentuada incapacidade de interação’”. Segundo Quintino Aires, nada vale dizer não uma criança antes dos três anos (confesso-me incumpridor da regra, sobretudo quando o meu filho quer atirar ao chão o televisor, esteja a transmitir o canal Arte ou o “Portugal em Festa”). É sempre preferível retirar a criança do espaço onde ela está a fazer alguma coisa errada ou perigosa. Noutra obra da sua autoria, Aires descansa as almas ditando que bastam quinze minutos por semana para estabelecer uma boa relação com a filharada. Claro que sem telemóvel, sem net, sem Facebook, sem likes em fotos da sandes que um amigo desaparecido desde a primária ingeriu numa viagem ao Cartaxo.

Outro livro em destaque nas livrarias, o sério e fundamentado O Filho Preferido, de Fátima Almeida e Laura Alho (Pactor, Agosto de 2015), aborda uma questão que interessa a esta procura de como ser um pai porreiro. Qual é o papel do pai no desenvolvimento dos seus filhos? Ser cruel, arrisco. Ou seja: “Separar a criança da mãe e vice-versa”. E mais: “Ajudar a confirmar a identidade do seu filho” e “transmitir a capacidade de dar e receber afetos”. Ah, e controlar o ciúme pela circunstância de o bebé gostar menos de barba do que dos carinhos maternos (que impossibilidade). Como é que isso se faz? Dando os pais o passo para cuidar dos filhos nas suas pequenas rotinas. Não dizer não a um chichi.

Há também que combater o cliché do pai autoritário e opressor, do pai ausente e condescendente, do pai de ferro, do pai controlador, do pai que é uma espécie de tio cúmplice e divertido que permite tudo (finalmente alguém fala de mim). São também descritas as diferenças na forma como pais e mães lidam com os bebés. As mães escolhem um caminho de calma e suavidade. Os pais estimulam-nos “verbal e fisicamente”, recorrendo a “sons mais fortes”, preparando-os para as batalhas dos balneários do liceu ou para espreitarem os bélicos resumos de A Quinta.

O brasileiro Francisco Bosco explica-nos que os nossos filhos não são tão bonitos como pensamos que são. Enganamo-nos por narcisismo. 

Agora um livro muito útil na era do wireless até em confessionários. Intitula-se 3-6-9-12 – computadores, telemóveis e tablets – como crescer e progredir com eles (Gradiva, edição de Setembro deste ano), do médico Serge Tisseron, com prefácio do precocemente internético José Magalhães. O que defende de relevante para um pai de um rapaz de um ano e poucos meses? Que o bebé precisa antes de mais de “construir as suas referências corporais e sensório-motoras”. Ou seja: “cheirar, tocar e levar à boca os seus objectos preferidos” (que, desculpe informá-lo, caro Serge, são normalmente os smartphones). Um pai porreiro evita a televisão e o DVD nos primeiros três anos (e lá se vai a pausa de meia hora para espreitar as jogadas do Renato Sanches).

O pai mais letrado tem à sua disposição Orfeu de Bicicleta – Um Pai no Século XXI, do brasileiro Francisco Bosco (Tinta da China, 2015), doutor em Teoria da Literatura e mestrado em mudança de fraldas. Sim, ele é pai de dois filhos pequenos, Iolanda e Lourenço. Não é obra de especialista, é um volume com o qual se aprende por um processo fácil de identificação. Por, mais do que dourar a pílula, assumir as dificuldades (e as alegrias) da paternidade. Entre referências a Lacan, Freud e Proust e enquadramentos históricos sobre a forma como o papel do pai foi evoluindo ao longo dos tempos, Bosco vai prosaicamente ao osso da questão, sem floreados. Ora vejamos: “A categoria dos chatos provisórios é formada por três tipos: o bêbado, o apaixonado e os pais do recém-nascido. Só os suporta quem está no mesmo estado”. Há mais: “Quando eu era mais ingénuo e não tinha filhos, achava que a pior forma de sociabilidade voluntária já inventada era o sarau de poesia – hoje sei que é a festa infantil”. E “quanto mais permissivo, mais punitivo”.

Para Bosco, que assume que não tinha jeito para crianças antes de ser pai, é “a abertura instaurada pela intimidade que faz com que um pai seja divertido para seus filhos”. O texto, fragmentado e escrito com a arte concisa de um escritor talentoso, é uma partilha da sua experiência no campo, do peso que o segundo filho trouxe ao seu casamento, da vontade de ser de novo menino de vez em quando (“um pai que tem pais pode às vezes voltar a ser filho”), da necessidade de perdoar esses pais, bodes expiatórios de todos os males que um filho suporta ao longo da existência (nesse sentido Francisco não podia ir a uma consulta de Eduardo Sá), da consciência de que os nossos filhos não são tão bonitos como pensamos que são. Enganamo-nos por narcisismo. Já agora, é de aproveitar para deixar cair mais uma frase implacável do autor: “O amor dos filhos pelos pais não tem narcisismo; o amor dos pais pelos filhos é puro narcisismo”.

Na categoria de livros de partilha da experiência parental está igualmente em destaque nas livrarias Socorro, eles Crescem Tão Rápido! – Dicas para Dias Felizes em Família… Com Birras à Mistura, de Rita Ferro Alvim (Manuscrito, 2015), uma mãe licenciada em Marketing e Publicidade e uma blogger com inclinação para a fotografia. Assume lucidamente o caos feliz que é ter filhos e dá uma ideia divertida para acalmar uma birra infantil: tirar uma fotografia ao birrento no momento da fita. Para mais tarde recordar. E até, quem sabe, emoldurar.

À maneira da maior parte dos livros visitados, faço um sumário final em tópicos de alguns ensinamentos recebidos. Um pai porreiro deve:

  1. Fazer cara de pai nada porreiro quando a criança tem um comportamento de super dragão quando Lopetegui chega ao aeroporto.
  2. Fundamentar com máximas cruéis de Confúcio a necessidade de promover o sofrimento da criança.
  3. Deixar os trabalhos de casa para depois da tortura que é assistir ao Disney Channel.
  4. Comparar irmãos e pais até alguém ter uma depressão.
  5. Trocar a árvore de Natal por uma almofada que toda a família deverá esmurrar no final da noite da consoada.
  6. Rosnar como um rottweiler até amendrontar os caniches domésticos.
  7. Oferecer aos filhos trinta minutos por dia. Ou então quinze minutos por semana. Ou, lendo outro autor, dois minutos em cada oito anos.
  8. Encarcerar um moço ou uma moça que se portaram mal na Alcatraz da sala ao lado.
  9. Obrigar o pai a mudar fraldas com a velocidade com que Marcelo lê livros.
  10. Evitar a televisão e o DVD nos primeiros anos. E quem sabe até a janela.
  11. Ter consciência de que elogiamos os nossos filhos porque temos um ego maior do que o de Donald Trump.
  12. Tirar-lhes fotos quando estão a ser ainda mais birrentos do que os pais.

Nuno Costa Santos é autor de programas televisivos como “Melancómico”, “Zapping” e “Serviço Público”. Entre outros livros, escreveu a biografia “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco”.

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