Maria Filomena Mónica: “O cancro provoca muita chatice”

06 Outubro 20171.718

Numa entrevista na redação do Observador, Maria Filomena Mónica fala sobre a sua adolescência num "casulo social", sobre o que mudou em Portugal, sobre a sua doença e sobre o livro que está a escrever

Maria Filomena Mónica acaba de reeditar o seu livro de memórias, Bilhete de Identidade, com um novo prefácio da autora e um novo capítulo – “Diários de uma Adolescente” – com textos de dois diários escritos entre os 14 e 16 anos. Sentada no meio da redação do Observador, onde respondeu a perguntas de José Manuel Fernandes, dos jornalistas e de leitores, aceitou falar sobre tudo. No final, confessou: “Continuo a gostar mais de me dar com pessoas inteligentes do que com burros, isso é verdade, portanto sou um bocadinho snob intelectual. Mas, como eu não me dou com ninguém… Já não sei o que sou”.

Bilhete de Identidade foi publicado em 2006. Em setembro deste ano foi lançada uma nova edição

Quando foi editado originalmente, o seu livro de memórias teve algumas reações mais negativas.
Eu sabia que estava a pisar o risco. As pessoas que me escreveram e insultaram ou mandaram emails — também não foram dois milhões de pessoas, antes fosse — algumas espantaram-me outras não. Houve uma que me fez sofrer bastante, o Vasco Pulido Valente. O Vasco é muito de se zangar com pessoas e cortar relações. Eu não. O Vasco cresceu comigo. Conheci-o quando tinha 17 ou 18 anos e ele também. É uma espécie de irmão mais velho. Mas não quero falar sobre o Vasco e ele também não quer falar sobre mim. Acho muito bem que ambos mantenhamos um silêncio sobre o que se passou. Eu não compreendo, por isso é que também não lhe telefono. Se ele achar que é assim tão horrível, ele que me telefone

Essas polémicas têm que ver com algum atavismo português ou com o facto de ter pisado o risco, nomeadamente nas questões mais pessoais?
Porque é que os países católicos são tão avessos a autobiografias quando os nórdicos as escrevem? Reli no outro dia a autobiografia do Ingmar Bergman. Em Inglaterra, as autobiografias são comuns. Na América também. Mesmo entre casais. O Philip Roth era casado com a Claire Bloom, escreveu uma autobiografia e ela não concordou nada com aquilo e disse: “Aqui vai outra. Esta é a minha versão dos acontecimentos”. Aquilo lá é muito comum. Eu sabia que cá não era. Mas apeteceu-me. É uma questão de apetite.

Para começar, quando escrevi isso estava em Oxford, não estava em Portugal. Portugal era um país onde nascera, mas já mudara muito. E, depois, quero lá saber. Pode parecer arrogante mas não é. Mas quero lá saber o que as outras pessoas pensam. Não me interessa. Apeteceu-me. Isto é uma sociedade livre, sinto-me uma europeia do estilo anglo-saxónico — e escrevi.

"Os homens no fundo pensam: 'A gaja é boa ou não é boa'. Depois atribuem-lhe outros qualificativos, como 'Não é totalmente estúpida', o que raramente me foi dito cara-a-cara. Também nunca me foi dito: 'És uma inteligente'".

Mas não, não estava à espera de uma reação tão forte e tão distinta entre mulheres e homens. Isso não me tinha ocorrido: o facto de ser mulher e ter escrito isto teve um efeito diverso do que se fosse um homem e tivesse escrito tal e qual a mesma coisa. Ainda assim, o machismo português está a diminuir. Sinto que as minhas netas são diferentes de mim, não admitem aos homens coisas que eu admitiria, até com naturalidade, quando me casei.

Os homens no fundo pensam: “A gaja é boa ou não é boa”. Depois atribuem-lhe outros qualificativos, como “Não é totalmente estúpida”, o que raramente me foi dito cara-a-cara, “És uma estúpida”. Também nunca me foi dito “És uma inteligente”. Há presunção — ainda por cima sou loira, isso agrava a coisa — de que as mulheres e as loiras são um bocadinho menos inteligentes do que os homens. Eu fui para a frente.

[Reveja os melhores momentos da entrevista a Maria Filomena Mónica neste vídeo]

Há dois aspetos do livro que contrastam. Por um lado, há um retrato de época: conhece-se um Portugal que temos dificuldades em conhecer, um Portugal em diferentes facetas; por outro, há um certo striptease do que é a sua vida. Essa conjugação é necessária? Fale também como historiadora: o historiador consegue olhar para uma sociedade sem que tenha testemunhos deste género?
Consegue. Acho que é possível conjugar. Olhe como é que eu evoluí, de onde vim, por onde atravessei e como acabei há alguns anos. Ainda não acabei totalmente. Principalmente, queria que isto fosse — por esta ordem — um livro bem escrito e que descrevesse uma época, como era ser rapariga nos anos 40 e, finalmente, as peripécias da minha vida amorosa, que fazem parte de mim. Explicar o que me tinha acontecido. Episódios muito dolorosos, como foi a minha primeira separação — não me separei para ir para Oxford, foi dois anos antes –, uma separação numa sociedade muito conservadora, em 1969.

Não foi um divórcio conflituoso. As nossas vidas tinham divergido para sentidos opostos. A certa altura, a grande pressão não foi sequer do Carlos, o meu primeiro marido — foi da minha família. A minha família, especialmente a minha mãe, queria que anulasse o casamento no Vaticano e recusei-me. Disse-lhe: “Não tem pés nem cabeça”. Eu não troquei o Carlos por outro homem. Isso facilitou o divórcio. Mas eu tinha-me casado em 1963 pela Igreja. E disse à minha mãe: “Pode fazer o que quiser. Não assino um papel a pedir a anulação do casamento. Não vou casar com ninguém. Não estou interessada num homem. Estou interessada em saber mais e não ser uma estúpida loura”. A minha ideia era sair daquele casulo social e estudar.

Foi colocada naquele casulo social? Parece dizer que a sua mãe a colocou ali…
E colocou. Foi uma coisa deliberada.

Baile de debute em casa da Guida Lopo de Carvalho, Lisboa, 27 de Janeiro de 1961

Para quê? É indiscutível que a Filomena, em Lisboa, era uma pessoa que dava nas vistas.
Não era por isso. Ela achava até que eu não dava suficientemente nas vistas, que não me vestia todos os dias com dois laçarotes de tafetá na cabeça. Depois, mais tarde, quando veio a minissaia, elas já achavam que as minissaias eram escandalosas, e era uma das coisas de que gostava imenso, além da pílula — de que poucas vezes se fala. Tomava duas por dia. Cheguei a Inglaterra e disse ao obstetra que tomava duas pastilhas porque não queria ter mais filhos. Ele disse: “Mas a senhora está maluca. Isto é fortíssimo. Anda a duplicar isto há quanto tempo?” E eu: “Há quatro anos”. Ele ficou boquiaberto. Eu disse: “Tenho dois filhos, gosto muito deles, mas não foram programados, não os desejei”. Não havia a pílula em 1963. Só em 1964 é que chegou cá.

No livro, diz que achava que era muito fértil.
Eu devia ser uma coisa fertilíssima. Bastava uma vez e ficava logo grávida. O que seria a minha vida? O que a minha mãe queria, basicamente, apesar de achar que ela gostava de mim e tinha algum orgulho em eu ser tão rebelde (é uma grande misturada a atitude da minha mãe), era que na Parada encontrasse um menino que fosse da nobreza. Mas não da nobreza do século XIX. Tinha que ser da nobreza do século XVI em diante — o que havia em baixa quantidade na Parada porque muitos não tinham dinheiro nenhum. Eram descendentes de antigas famílias miguelistas.

A Parada é onde?
A Parada é o clube mais restrito em Portugal, muito mais do que o Tauromáquico.

Ainda mais do que o Club Portuense?
Muito mais. No Club Portuense entra toda a gente. Ali não. Chama-se Parada porque fica em frente de onde era a parada dos cavalos. Era onde ia a família real. É um clube pequeno, que pouca gente conhece. A Parada era sobretudo frequentada no verão. Tinha uma grande amiga que passava as férias em minha casa e eu na casa dela. Ela era sócia e eu ia com ela. No papel de sócia, deixavam-me entrar. Era de facto muito fechado mas não se notava. Eles tratavam-me bem. Não me tratavam como se fosse uma outsider.

Uma festa na Parada, em Cascais, em 1959. Maria Filomena Mónica é a quarta a contar da direita na primeira fila

Há uma altura em que descobre que há aquele mundo e há outro mundo em Portugal. Para muitas pessoas, das gerações intermédias, essa descoberta foi feita nas cheias de 1966. Como é que foi consigo?
A descoberta da pobreza foi ali em frente ao Liceu Francês, numa zona que fui visitar outra vez para escrever o livro sobre os pobres. Ainda está lá a rua. Já não estão barracas. Já são de pedra e cal. Mas está lá a rua com o mesmo aspeto e com droga. Andei por lá a passear e se fosse a partir das sete da noite não tinha ido sozinha.

Não queria acreditar que havia mães que não tinham dinheiro para comprar sapatos para os filhos. Aquilo foi como se me metessem num claustro, abrissem uma luz e eu estivesse na Mongólia ou nas zonas mais pobres da Índia. Era uma sociedade muitíssimo estratificada, não digo como na Índia, com castas, mas quase. Ainda por cima fui lá, não por vontade própria, nem porque tivesse andado a passear. Fui lá pela mão das freiras, que nos queriam incutir ideias de como fazer caridade. E como é que se fazia caridade? Normalmente, era à volta do Natal e fazia-se um casaquinho de tricô — uma coisa que me recusei imediatamente a aprender, só o fiz mais tarde, quando trabalhei no Ministério da Saúde e aprendi crochet de tão chateada que estava naquele emprego. De repente, olhei para aquilo e disse à freira: “Porque é que isto existe?”.

Na altura tinha um namorado, gostava dele, ele era rico, bastante rico, e não estava tão escandalizado quanto eu. Eu dizia: “Como é que é possível? Porque é que não se organiza a sociedade de outra maneira?”. Ele não sentia o mesmo. Estava mesmo enclausurado desde muito pequeno e sabia que o destino dele ia ser entre as classes altas. Era um bom rapaz, tinha bons sentimentos e adorava-me para além do que era possível. Simplesmente, achava natural que houvesse pobres. “Porque é que estás tão escandalizada?”, dizia-me.

A reedição de “Bilhete de Identidade” tem mais um capítulo, “Diários de uma adolescente”. Por que decidiu incluir este capítulo agora e não quando o livro foi publicado pela primeira vez?
Por duas razões. A primeira é esta: sou a pessoa mais desarrumada do mundo, deito tudo fora, os livros andam todos pelo chão. Quando escrevi as memórias, fui buscar as cartas que encontrei e julgava que era tudo. De repente, há seis meses, uma sobrinha minha estava com problemas de adolescente e a mãe dela — que vive no século XVIII, ainda não concebe muito bem que houve uma Revolução Francesa — disse-me: “Ela está rebelde. O melhor era falar com ela”. “Mas não sou pediatra mental”, respondi-lhe. Mostrei-lhe o diário. É muito giro. É encarnado — digo encarnado porque é uma palavra com uma conotação muito forte em Portugal.

Mas na gaveta estavam muito mais cartas. Não sei se é genético. Pertenço a uma família que gosta de escrever cartas ou diários. A minha avó não tinha diário, mas tinha muitas cartas. Tenho cento e tal cartas dela. Fui acumulando correspondência sem ter a mínima noção de que aquilo me poderia ser útil ou que ia escrever sobre aquilo. O diário só o encontrei este ano. Tive muita hesitação em publicar porque achava que era palerma.

Houve quem lhe desse alguma força para o editar?
Foi a minha filha.

"Aos 16 anos não podia estar de mão dada no cinema, com uma mademoiselle que a minha mãe tinha arranjado para me vigiar. Achava que estar de mão dada era pecado. E os pais diziam: 'Pois é, pois é'".

Temos uma pergunta de uma colunista do Observador, Maria de Fátima Bonifácio: acha que é possível uma grande amizade entre um homem e uma mulher sem que nessa relação se insinue implícita ou explicitamente nenhuma espécie de ambiguidade?
Não, não acho. Existe sempre ambiguidade. É possível curar, mas acho que é difícil.

Porque é que tem que haver ambiguidade?
Porque há o sexo pelo meio. É uma chatice, mas há. O olhar do homem é um olhar sexual. Há enormes diferenças, mas também é verdade que o olhar da mulher sobre o homem está carregado de sexualidade, nós é que não admitimos. “Não apetece aquele homem ou apetece” — não temos estas conversas. Eu pelo menos não tenho.

Descubro estas coisas na casa de banho. Na universidade, nas casas de banho, as coisas que eles conversavam e que um me contou era tudo à base de sexo. As mulheres não tanto. As mulheres estão um bocado fartas que os homens sejam miúdos.

Quando se tornam adultos isso continua a existir? Ou o homem e a mulher olham para o sexo de forma diferente?
Têm olhado ao longo dos séculos para o sexo de forma diferente. Não na Esparta antiga. Na Esparta antiga, o desejável era o homem. Pela construção do mundo ideológico da Igreja de Constantino, o sexo passou a ser olhado como pecado.

Aos 16 anos não podia estar de mão dada no cinema, com uma mademoiselle que a minha mãe tinha arranjado para me vigiar. Achava que estar de mão dada era pecado. E os pais diziam: “Pois é, pois é”. “E mete a língua?”. “A língua na minha boca? Que nojo, nunca!”. O mundo está muito diferente. As gerações mais novas olham para o sexo normalmente.

Com o primeiro marido, Luís Pinto Coelho, num jantar no Hotel Eduardo VII, Dezembro de 1961

Há dois meses e meio, o seu marido, António Barreto, reeditou o livro “Anatomia de Uma Revolução”. Agora, a Maria Filomena Mónica reedita o “Bilhete de Identidade”. Acabaram por fazer o mesmo. Enquanto casal, aconselham-se muito um ao outro?
Sim. Conheci o António quando tinha 40 anos, o que ajudou muito. Já tinha dois casamentos para trás. Um clássico, com uma senhora da mais alta nobreza portuguesa. Depois tinha um segundo, que foi uma união de facto. Quando conheci o António achei que ele era um homem maduro. O que muitas vezes eu sentia era que eles eram inseguros. Estavam sempre a pensar que eu lhes ia pôr os palitos, se eu vinha um bocadinho mais tarde, era um drama, “Estás tão bem vestida, vais a algum sítio?”. Com o António, não. Isso foi muito bom, ele ter estado na Suíça e ter sido ministro. Tinha já um currículo preenchido, até com mulheres, porque ele tinha sido casado uma vez e outra em união de facto. Estava satisfeito com a vida, naquela altura. Percebi que não era um homem em crise. Namorámos 17 anos, até nos casarmos, e casámos ali numa conservatória qualquer.

Quase em segredo.
Só fomos nós e os padrinhos, porque era preciso dois. E eu queria levar a minha neta Rita, que tinha acabado de nascer, em 1995, e pô-la ao colo. Isto faz parte dos disparates que o António acha que eu faço quando ele não está presente. Por isso é que ele está com vertigens em casa — deve ser de eu estar aqui sozinha. E agora acho que estou bem casada, não sei, vamos ver o que o futuro traz. O António tem sido — ele detesta que eu diga isto — absolutamente espantoso no que tem feito nos últimos anos por mim. A frase que o António não quer que eu diga é esta: “Sem o António, eu já tinha morrido”.

Como é viver com uma doença que é para a vida?
É chato. Estava a pensar que fossem piores as dores. Há quatro anos que estou a fazer quimioterapia, duas vezes por semana. Pensei: “Deve doer imenso”. Há esta noção de que o cancro provoca muita dor. Não provoca, provoca muita chatice.

Depende dos cancros.
É verdade. Estou a falar de um cancro que é muito raro. Tinha que escolher uma coisa especial, ia agora escolher um cancro que todas as mulheres têm? Não, muito obrigada. Escolhi um cancro que se chama mieloma múltiplo, que é no sangue. Como é no sangue está em todo o corpo, não se pode arrancar. Vim a perceber que é um cancro muito difícil de se tratar. O meu médico de clínica geral detetou numa análise de sangue, de rotina. Perguntou-me: “Você não está a morrer de cansaço?”. Eu disse que não. Se calhar nasci cansada, porque estava igual ao que sempre estive. Recomendou-me um oncologista. Ao princípio, o meu médico de clínica geral desdramatizou, ele já me conhecia. Pensou: “Isto vai haver aqui um delírio. Uma obsessiva, ainda por cima hipocondríaca”. Obsessiva, mantenho. O hipocondríaca, de repente, como estou muito perto da morte, desapareceu. Ao ponto de o médico dizer: “Tem que olhar de vez em quando para o corpo. Tem que ver se tem as pernas inchadas. Você não está com atenção”. E é verdade que não estou com atenção porque não quero ouvir o que o corpo tem para me dizer, muitas vezes.

"Do ponto de vista psicológico, o cancro é tramado. Não se tem independência nenhuma. Não posso sair à rua sem uma pessoa, não guio, não posso ir a uma livraria por causa das bactérias".

A média de vida quem tem este meu cancro, li no New York Times, é de três anos. Já passei um ano. Não foi, do ponto de vista físico, tão horrível como isso. Do ponto de vista psicológico sim, é tramado. Não se tem independência nenhuma. Não posso sair à rua sem uma pessoa, não guio, não posso ir a uma livraria por causa das bactérias. Estar fechada em casa não me custa tanto como para uma pessoa que tenha uma vida social muito grande. Ao princípio até achei que aquilo era tolerável. O que é muito doloroso é ter que gastar dois dias por semana no hospital deitada numa cama, a receber transfusões de sangue, ferro e mais uma data de quimioterapias.

Não penso muito na morte. Claro que gostava de viver mais cinco anos. Mas não gostava de viver até aos 100 anos porque observei coisas horríveis. A minha mãe morreu com Alzheimer. Não gostava de morrer como ela morreu. Não quero prolongar a vida.

Mas acho que ainda estou com capacidade de trabalhar. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o facto de estar perto da morte — ou estar tão perto quanto a ciência sabe, que sabe pouco — deu-me imensa vontade de trabalhar. Deu-me mais prazer trabalhar agora.

Quantos livros já escreveu desde que está doente?
Dois. Um por ano. Nunca tinha dado pelo prazer que as pequenas coisas nos dão, como quando às 10h da manhã me levanto e me ponho numa janela grande que tenho e ouço os pássaros. Dispor de mim completamente. Ouvir Schubert. Sou uma fanática de Verdi, mas há em Verdi uma alegria e uma pujança que agora não suporto. Schubert é muito mais melancólico.

Às vezes temos a ideia de que tudo em Portugal corre mal. Mas, no caso da sua doença, os tratamentos que está a receber são os mesmos que estão a ser dados nos EUA, apesar de isso custar ao Estado muitos milhares de euros por mês. Este país é já muito diferente daquele que retrata no livro?
Não tem nada a ver. No país em que nasci, 90% da população nunca tinha visto um médico. Os partos não eram assistidos. Em tudo o que diz respeito à medicina, o salto foi enorme. Há muita gente que se queixa que há listas de espera — e há, e não devia haver. Ou que há desperdício — provavelmente é verdade. Mas há coisas boas. Toda a gente que está doente vai ao médico. Pode estar mais tempo à espera e gostaria que isso não fosse assim, mas vai. A saúde evoluiu muito, e num melhor sentido do que a educação. Até ter o cancro não era era muito doente. Fui ao Centro de Saúde para aí duas vezes. Mas fui com a minha filha ao Hospital de São José quando ela teve um traumatismo craniano e o Hospital de São José é que tratou a minha mãe quando foi preciso — e foram impecáveis.

No meu caso, há três anos estava com uma quimio que se faz nos Estados Unidos ou na Europa e em abril já mudei para uma outra quimio nova que é espetacular. No meu cancro, os resultados são bons, posso medir. O meu médico está de férias, mas na segunda-feira vou saber quanto tempo de vida tenho. E eu não achava que durasse três anos. O meu oncologista é muito diferente do meu médico de clínica geral, que é muito paternal. Mas acho que é da profissão. Eles não podem dar atenção ou afeiçoar-se a doentes que sabem que podem morrer.

Com os filhos Sofia e Filipe, em Novembro de 1967

Mas na educação já é diferente? O que correu mal?
Tudo. Começa na nossa situação geográfica. Podíamos ter escolhido outro país, que isto está um bocado distante do resto da Europa. Além disso, somos pobres e termos que andar a esgravatar no chão para tirar batatas. Dizia-se que o país não progredia porque não havia cultura suficiente e tinha que se fazer a reforma das mentalidades. Isso é uma treta, um cliché completo.

Hoje não se fala em reforma das mentalidades, dão-lhe outro nome.
A ideia é a mesma. O problema é que os pais e os avós destas crianças não tiveram cultura letrada. Se for perguntar quem é o Bernardim Ribeiro a um miúdo hoje na escola ele não faz nenhuma ideia.

Na educação teria sido possível fazer melhor? É duro. Parte do problema do Ministério da Educação é ser tão grande, continua a ser o maior. E depois tem conteúdos e livros e perguntas corretas e incorretas. Todos os dias as professoras recebem emails em casa com ordens absolutamente estúpidas do género: “Gosta mais de janelas ou de portas?”. As pobres das professoras depois de saírem das aulas ainda têm que responder a palermices para mandar ao ministro. Como é que é possível que não haja uma revolta? O Ministério não pode ter o poder que tem. Não pode chatear os professores como chateia e centralizar tantas coisas. Por outro lado, também não penso que as autarquias devam ter o poder que possivelmente vão ter. Se dermos às autarquias o poder para fazer os currículos, então os pobres meninos do Alentejo ficam cingidos ao currículo comunista e os meninos de Trás-os-Montes têm aulas com um padre.

Na Saúde isso afeta menos, é mais uma coisa tecnológica. Se Deus amanhã me aparecesse — coisa que me espantaria — e dissesse “prefere ser ministra da Educação ou da Saúde?” , além de responder que preferia não ser ministra nenhuma nem primeira-ministra, escolheria ser da Saúde, porque é mais fácil sentir o progresso.

"Se dermos às autarquias o poder para fazer os currículos escolares, então os pobres meninos do Alentejo ficam cingidos ao currículo comunista e os meninos de Trás-os-Montes têm aulas com um padre".

Quando é que vamos ter o seu próximo livro nas bancas?
Agora estou a escrever um livro sobre os ricos, depois de ter escrito Os Pobres. Estou a ter muito mais trabalho com os ricos contemporâneos. São nove case studies. Começo pelo Duque de Palmela, nos finais do Antigo Regime, um grande potentado do liberalismo, e provavelmente termino com Américo Amorim, até porque morreu agora. Mas é mais difícil: as fontes são más, as biografias são más. No século XIX, os testamentos, quando havia órfãos — o chamado testamento orfanológico –, era todo publicado. Mas, como agora os miúdos deram em não morrer, não há testamentos para órfãos. As fortunas dos ricos são mais difíceis de encontrar e são manipuladas.

Na escrita do livro, tive agora um mês muito mau e fiquei furiosa comigo própria. Na doença, há altos e baixos e um dia ia-me a levantar, e ia ver e ouvir os passarinhos e não sei que mais e fiquei sem forças nas pernas. O livro atrasou-se um mês. Quero ter um rascunho e, com o otimismo da doença, pensei: “Porque não escrevo um livro em 15 dias?”. Coisas patetas. Está a ser mais difícil, porque há menos fontes e não posso ir para a Biblioteca Nacional.

Se estiver viva daqui a um ano — vou ser pessimista — o livro estará pronto. Já tenho 400 páginas, mas está feito daquela forma que digo aos meus alunos para não fazer e sou a primeira a fazer: meto tudo num caldeirão e, depois, mexo com a varinha mágica e sai uma coisa mais estruturada. Tenho 300 ou 400 páginas já escritas, mas é preciso tirar de lá coisas, misturar. Daqui a seis meses, penso.

Passemos agora à política. Pedro Passos Coelho decidiu esta semana não se recandidatar à liderança do PSD. Qual é a sua opinião sobre ele?
Não conheço pessoalmente Pedro Passos Coelho. Mas fiquei com uma boa opinião por ele não ter dado a Ricardo Salgado o que ele queria: alguns milhões. Só que a Passos faltava uma energia, ou… Eu não posso usar essa outra palavra, quem é que a usou? Ah, foi o Lobo Antunes, que perguntou ao Lourenço se ele ainda tinha tesão. A Passos Coelho, faltava-lhe carisma. O Passos Coelho não é sexy. Não é que o António Costa seja muito, olhando bem — ainda o que é mais é aquele do Turismo, o Adolfo Mesquita Nunes (estou influenciada por uma amiga minha, porque nunca vi o Mesquita na vida). Mas acho que, depois desse gesto em relação ao Salgado, que achei positivo, a passagem de Passos para a oposição foi desastrosa. Ele não se impõe, não sei, apetece dar uma injeção, como eu hoje tomei, de cortisona.

Nunca votaria nele porque não voto PSD. Sempre votei PS ou então abstive-me. Não gosto da direita social em Portugal. O que é que ele vai fazer agora? Não sei. Mas, tendo eu um cancro e tendo a mulher dele um cancro, não posso deixar de dizer, para ser honesta, que sinto compaixão. Faz-me pena que ele tenha perdido num momento tão crucial para a vida conjugal dele.

"No 25 de Abril não conquistámos nada. Algum de vocês saiu daqui com uma arma na mão para dar um tiro em Marcelo Caetano? Eu não saí! Estava a dormir em casa sozinha com os meus dois filhos".

Votaria alguma vez num candidato autárquico que tivesse estado preso pelo que fez no exercício de funções? E como justifica que tanta gente tenha votado e eleito novamente Isaltino Morais em Oeiras?
Nunca votaria num candidato desses. Quando votamos numa pessoa, não estamos só a votar nas ideias políticas, votamos numa pessoa, com o seu caráter, as suas ideias. O presidente da [junta de freguesia da] Estrela — Luís Newton — foi à China aí com uma empresa qualquer chamada Huawei, juntamente com um amigalhaço que era deputado do PSD e diz que não havia problema porque também “eram pessoas”. Não faz sentido. Uma das coisas que mais me irrita — não sei se é uma irritação nova, mas acho que se agravou — é a retórica totalmente vácua e estúpida do discurso político.

Faço parte de uma geração que não podia votar. Portanto, para mim, de facto foi uma dádiva. É pena que tenha sido uma dádiva, queria que fosse uma conquista. No 25 de abril não conquistámos nada. Algum de vocês saiu daqui com uma arma na mão para dar um tiro em Marcelo Caetano? Eu não saí! Estava a dormir em casa, sozinha com os meus dois filhos. A liberdade nunca foi uma coisa que nós desejássemos, que nós conquistássemos, portanto também não ligamos muito.

Mas porque é que acha que as pessoas votam em candidatos como Isaltino?
Nunca votaria nele. Mas acho que é ativo e faz coisas. Na parte política, acredito que, se não tivesse o resto, até votava nele.

Quando estava a escrever a biografia do Cesário Verde, ele tinha uma quinta muito bonita em Oeiras e pedi à Câmara se a podia visitar. Vi que aquela Câmara tinha vitalidade e estava tudo limpinho, o que normalmente não acontece. A minha rua, em Lisboa, não estava. Uma das razões pelas quais tenho medo de morrer é por causa dos pedregulhos da calçada portuguesa, como os da minha rua.

Mas não votava nele. Isaltino é corrupto e é corrupto provado em tribunal. E eu não voto em corruptos. Não me venham com “é corrupto mas faz”.

Uma pessoa pode deixar de ser corrupta?
Se fizer muito esforço e levar muitas vacinas. É difícil porque não há crítica da população em relação aos corruptos. Sou amiga de um dinamarquês — os estrangeiros andam a comprar o meu prédio — e ele diz que lá não passa pela cabeça da população alguém ser corrupto. Haverá corrupção, todos os países têm. Mas em Portugal, a sensação que tenho quando falo com amigas é: “És maluca, em que países é que tu julgas que vives?”.

Está tão enraizada, a corrupção, na sociedade. O meu neto, por exemplo, podia perfeitamente ir para o Liceu Pedro Nunes. Foi uma profissional de educação que disse à minha filha, quando ela foi inscrevê-lo: “Não há problema, conheço a sua mãe, daqui do bairro. Põe-a como encarregada de educação”. A minha empregada achar que posso telefonar ao Presidente da Câmara a pedir um transplante porque o marido dela está doente. Não posso. A não ser que seja mais importante do que aquilo que julgo ser.

O que pensa de António Costa e do PS e também do futuro deste governo a que chamam “geringonça”?
Espantou-me. Não é que o conheça pessoalmente, mas acho que tem o que Passos Coelho não tem. Nem falamos de sex appeal nem dessas coisas. É um ativo, é o que os ingleses chamam um “doer“. Mesmo que faça mal, ele está ali e vai e tal. Depois deste período negro da troika, apareceu um homem que está sempre a rir, está a conseguir baixar o défice, a economia vai bem. Como se tivesse dado um presente aos portugueses. Agora não vai correr nada tão mal, nada de cortes nos salários. Mas de economia percebo zero.

Acha que a “geringonça” se vai manter apesar dos maus resultados do PCP nas autárquicas?
Não sei. A mim, a política interessa-me porque quero que os governos sejam os melhores. Não me interessa muito o dia-a-dia, embora leia três ou quatro jornais por dia e seis semanários estrangeiros. É para aí que vai a minha reforma. Às vezes, dou por mim a pensar mais na Coreia do Norte — será que o mundo vai acabar?, do que passo a pensar no sorriso do António Costa. Tem corrido muito melhor do que estava à espera.

Diz que ninguém liga à liberdade…
Eu ligo à liberdade. Precisamos de alguma afluência económica para ligar à liberdade. Se se é muito pobre, entre liberdade e um pão, escolhe-se um pão. Tenho muito orgulho em que a primeira palavra que aprendi a dizer foi “não”. A minha mãe disse: “Esta miúda não é boa da cabeça”. Nós temos a possibilidade de dizer não. Tenho o privilégio de ser professora universitária e de poder dizer não a muitas coisas.

Maria Filomena Mónica em Oxford, em 1982. A fotografia foi tirada pelo marido António Barreto e publicada no livro "A Minha Europa"

Na universidade há mais liberdade?
Não posso responder porque não ensino há cinco ou seis anos. Trabalhava no Instituto de Ciências Sociais (ICS). Agora, mandam-me coisas de seminários que estão a organizar ou coisas de grupos de trabalho. Tudo influenciado pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), que é uma erva daninha na distribuição dos dinheiros, porque se conhecem todos uns aos outros. É suposto ser anónimo quando vem uma proposta de investigação, mas, como todos se conhecem, olham para a biografia e veem logo quem é. Há focos de lobbies muito grandes para terem dinheiro da FCT.

Enquanto ensinei, e enquanto existiu o professor que mais respeito ao longo de toda a minha vida, Adérito Sedas Nunes, nunca senti nenhuma pressão para tomar este partido ou esta ideologia ou escrever este artigo.

Mas Adérito Sedas Nunes era uma pessoa que não seguia as regras.
Não. Acho que era um homem excecional para ter sobrevivido àquilo a que sobreviveu. Contratou-me um mês antes de 1974 e perguntou: “Queres ser minha assistente, ou não?”. E pensei: “Está bem, sempre ganho algum dinheiro”. Naquela altura, o ICS era dominado pelo MRPP e muito poucos PC. Era tudo decidido em Assembleia Geral. As Assembleias Gerais tinham uma espécie de Conselho Diretivo. Devo ter entrado por ser bonita. Os alunos disseram: “Queremos aquela”. E o professor Sedas Nunes e mais dois decidiram. Um desses alunos, de quem nunca mais me esqueci, achava que o currículo era ele que elaborava e no dele estavam os títulos de todos os livros do Álvaro Cunhal e alguns do Trotsky, que ele não terá lido. E eu pensei: “Esta escola está maluca, vou-me embora”.

Mas, antes de me ir embora, o Adérito estava muito aflito porque eles meteram como critério que todos os antigos ministros do regime seriam saneados, todos os da Assembleia Nacional e os procuradores da Câmara Corporativa. E o Adérito tinha sido procurador da Câmara Corporativa. Dei-lhe um olhar como quem diz: “Cala-te que eles não devem ter feito o trabalho de casa. E não o tinham feito”. Sabiam lá quem é que estava na Câmara Corporativa. E o Adérito ficou e atravessou aquilo calmamente.

O ICS, nessa altura, era de facto muito dominado por ele. Era um déspota iluminado. Depois, o ICS transformou-se, pelo que vejo nos e-mails, numa espécie de lagoa de politicamente corretos e possivelmente corruptos. Mas considero ainda que é o melhor centro de estudos sociais em Portugal e que se estão a fazer coisas bens feitas ao lado de coisas sem pés nem cabeça. Até porque ele deixou crescer muito o ICS. Já não há aquele espírito comum que tínhamos. Estávamo-nos nas tintas para o dinheiro. Se fôssemos a Alcobaça entrevistar alguém não vínhamos com um “custou cinco contos”. Não, nós gostávamos do que estávamos a fazer. Trabalhávamos muito em grupo. Eu e a Fátima Patriarca trabalhámos imenso em grupo, para aí cinco anos, e éramos muito diferentes.

Acho que deixei de ser snob intelectual porque achei que a cada dia isso me impedia de dar com certas pessoas. Não quer dizer que agora sinta a obrigação de me dar com burros e estúpidos. Eles não sabem argumentar e canso-me.

Há muitas coisas que eu gostava de ver adaptadas à nossa Universidade. Em Oxford, por exemplo, há tutores. Um professor vê o seu aluno uma vez por semana e manda-o fazer um trabalho. O primeiro trabalho que tive que fazer foi porque chateei tanto o professor que ele disse: “Se quer trabalhar muito, estão aqui três livros. Leia-os e faça um ensaio sobre um deles até ao fim da semana”. Fui para casa em estado de choque. Nem três livros me davam a fazer ao longo de um ano numa universidade portuguesa.

Nessa altura tinha muitos amigos, porque tinha que comer no colégio. Viam com bons olhos que os alunos fossem jantar ao refeitório. Foi nessas conversas que aprendi muitíssimo e fiz amigos até hoje. Todas as semanas escrevo a um israelita meu amigo que está no mais prestigiado colégio de Oxford, o All Souls. Se escrevo tanto ao Gabriel Gorodetsky é porque sinto que fui amiga dele e isto foi há quarenta anos. Aqui não se cria uma comunidade.

Um outro amigo, que é espanhol, independentista e pró-independência da Catalunha, dizia-me “‘Mena, tens todas as qualidades para ser deputada, mas tens que ser da oposição. Davas uma grande deputada da oposição”.

Já se sentiu tentada pelo poder, já recebeu algum convite para cargos políticos?
Já. Não sei se era bem político. Fui convidada pelo Pedro Roseta para ser diretora da Biblioteca Nacional. Disse logo: “Nem pense nisso”. Gosto muito de ir para a Biblioteca Nacional — fui lá todos os dias durante anos — mas gosto de ir como utente. E ele disse: “A Filomena tem toda a razão. Ser diretora da Biblioteca Nacional deve ser quase tão mau como ser ministro da Cultura”. Eu disse: “Não, é pior, porque ao menos o ministro tem carro e chauffeur”. Não sei se as pessoas me veem como uma outsider, mas também não me preocupo.

Já falámos do seu lado aberto e descarado. As pessoas que acham que é snob têm razão?
Snob social, não. De todo. Quando ia para a Parada, pertencia a uma classe muito especial — a classe aristocrática — mas não era nada snob, nem eu nem eles. Quer dizer, eles seriam porque sabiam que o Conde de Lavradio era um título ótimo ao passo que o Duque de Ávila era um título péssimo. As pessoas não fazem distinção, mas a Fátima Bonifácio sabe, que foi ela que me explicou.

Acho que fui durante muitos anos snob intelectual. O que tem uma face boa e uma má. A face má é que é estúpido julgarmo-nos superiores aos outros sem razão. Acho que deixei de ser snob intelectual porque achei que a cada dia isso me impedia de me dar com certas pessoas. Não quer dizer que agora sinta a obrigação de me dar com burros e estúpidos. Eles não sabem argumentar e canso-me, basicamente é só isso. Continuo a gostar mais de me dar com pessoas inteligentes do que com burros, isso é verdade, portanto sou um bocadinho snob intelectual. Mas, como eu não me dou com ninguém… Já não sei o que sou.

[Veja aqui a entrevista a Maria Filomena Mónica na íntegra]

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