1246,4kWh poupados 1246,4 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Na casa de banho pública a literatura é de todos

O que se lê no privado sempre trouxe riso diante da nossa miseranda situação e as inscrições latrinárias conseguem atingir alto requinte. Carlos Maria Bobone escreve sobre as letras à porta fechada.

Segundo a misantrópica sabedoria, as pessoas inibem-se de fazer em público aquilo que fazem em privado. Ora, já todos vimos aquilo que a Humanidade é capaz de provocar nas casas-de-banho públicas; devia, portanto, ser imperativo para uma vida saudável não entrar em “privadas” particulares.

A realidade, porém, é muito diferente. As casas-de-banho nunca mereceram o atencioso cuidado do estado-social; a higiene pública, ocupada com banhos e propagação de doenças, nunca dotou os sólios sanitários do conforto que merecem as alcatras humanas; as casas-de-banho, mesmo quando mascaradas com uma pátina moderna, não satisfazem os seus frequentadores.

Este é um problema sério, que devia ocupar a agenda de todos os governos. Nunca ninguém se sentiu bem numa casa-de-banho pública. Fora estes, todos os locais abertos têm problemas com a nossa propensão para pousar o rabiosque em qualquer base minimamente sólida: os museus têm de assinalar que é proibido descansar numa periclitante cadeira de palhinha estilo D. José, as velhinhas do Bairro Alto têm de muralhar com grades os seus parapeitos para que os notívagos não façam deles poltronas, e até um uísque serve para assentar um almoço bem nutrido. Tudo na nossa linguagem remete para o encosto – dos atletas que levados ao colo para a vitória final num campeonato, até aos mais austeros ursos universitários que não escondem o gosto pelas cadeiras –, a lei da gravidade é a única que respeitamos ciosamente, levando os quadris na direcção que ela manda e recostamos o corpanzil no que quer se apresente ao nosso lado. No entanto, somos incapazes de nos sentarmos de boa vontade numa retrete pública.

O problema é comum a todas as classes sociais: mesmo os vagabundos, capazes de fazer da íngreme rua do Alecrim uma cama, preferem a parede a uma casa-de-banho pública. Convenhamos: quando um avaliador é condescendente a ponto de fazer pedra passar por colchão, e mesmo assim não julga a retrete pública digna de depositar os seus excessos, algo vai muito mal com a higiene social.

Escrevem denodadamente, por portas e paredes, para que quem tem uma dor de barriga saia de lá com uma barrigada de sabedoria. É nas casas-de-banho de liceu que se dão os primeiros contactos com Nietzsche ou Oscar Wilde, citados pelas portas dos cubículos, ou com os slogans rasurados nas paredes que se toma consciência política.

A formação latrinária devia começar desde tenra idade, porque é precisamente nos verdes anos que começa o problema. Quem não se lembra dos horrores das casas-de-banho da primária? Quem vê os querubins que brincam ao pião no recreio não imagina as monstruosidades que são capazes de produzir no microcosmos do cubículo sanitário. Os pequenos que atravessam a porta de bochechas coradas e sorriso inocente são capazes de despejar o que Nero não expeliria depois do maior banquete.

Claro está: a regra de ouro da escola é morrer antes de usar a casa-de-banho, pelo que só a usam os que não aguentam a tortura infligida por um Ucal pidesco que ataca o estômago com mais força. Aquilo que se vê nas casas-de-banho da escola é o terrível quadro da resistência vencida; os escombros da luta contra as dores de barriga; o cheiro a sangue suor e lágrimas da agonia intestinal – e, para dizer a verdade, tomara nós que fosse só este o cheiro.

Nietzche e Oscar Wilde nas paredes

Talvez este sofrimento caleje os pequenos para as agruras da vida e faça parte de um plano educacional mais rebuscado; no entanto, pormenores como o de nunca haver papel higiénico nas casas-de-banho escolares, ou de o piassaba estar reduzido a um pau quase careca, que nem a mais roída maçaroca de milho, já roçam o sadismo.

O problema começa cedo e tarda em ser resolvido. Única tentativa de resolução, como parece ser norma desde 68, veio dos adolescentes. Estes, no seu idealismo cativante, sempre procuraram instruir o incauto latrinário. Escrevem denodadamente, por portas e paredes, para que quem tem uma dor de barriga saia de lá com uma barrigada de sabedoria. É nas casas-de-banho de liceu que se dão os primeiros contactos com Nietzsche ou Oscar Wilde, citados pelas portas dos cubículos, ou com os slogans rasurados nas paredes que se toma consciência política. Saí da minha primeira soltura liceal determinado a tomar parte na greve geral de 84 apesar de ter nascido em 92, e tive a minha primeira desilusão eleitoral quando não encontrei no meu primeiro boletim de voto a UDP do inspirado slogan gravado na parede do terceiro cubículo da casa-de-banho do Liceu Rainha D. Amélia.

Bocage

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)

A formação literária, porém, trouxe a alegria que a política não trouxe. A literatura de casa-de-banho sempre trouxe riso e consolo diante da nossa miseranda situação. Fora dos pendores românicos que assomam os jovens e os levam a lembrarem-se das paixões pelas suas musas em ambientes um tanto estranhos (talvez como prova de amor mesmo nas piores alturas), fora destes casos, as inscrições latrinárias conseguem atingir alto requinte literário. O Conde da Ribeira Grande, por exemplo, escreveu certa vez por cima de um urinol que vertia água: “isto não é um urinol/ é uma coisa indecente/ quando a gente mija nele/ ele é que mija na gente”. Este é talvez o pináculo de uma série de literatura cómica bem conhecida, sobretudo à volta de trocadilhos. Dos epigramas populares (“lá fora podes ser valente, mas aqui cagas-te todo”) às quadras cómicas (“sentado no trono/ com emoção profunda/ a bosta bate na água/ e a água bate na bunda” ou o mais rebelde “a cagar fiz um charro/ a cagar o acendi/ a cagar o fumei/ e a fumar caguei para ti”), a literatura de casa-de-banho respira saúde.

É de louvar que esta literatura seja acarinhada, como os vários sites dedicados à poesia de WC comprovam que é; estamos longe dos brumosos tempos em que à literatura de casa-de-banho acontecia o aviltante sucesso narrado no soneto, ora atribuído a Bocage, ora ao Abade de Jazente:

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Porém o ver cagar a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!

Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura;
Uma carta d’amores de alimpadura
Serviu àquela parte malcheirosa:

Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito d’amor que lisonjeiro
Afetos move, corações incita:

Para o ir ver servir de reposteiro
À porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!

Estamos num tempo de respeito pela instrução sanitária; infelizmente, na sua precipitação, os adolescentes não perceberam que, embora útil e interessante, não era este o tipo de instrução necessário. Necessários eram os ensinamentos que evitariam que um rolo inteiro de papel higiénico por abrir se encontrasse empapado na retrete; ou, pelo menos, o tipo de ensinamento que esclarecesse porque é que alguém acharia divertido inverter as necessidades e defecar num urinol. Seria o mesmo anarquista que pintava as portas da casa-de-banho em protesto contra o capitalismo e a ordem burguesa? Nunca o saberemos, porque a falta de formação é gritante.

Alguém sabe que ginástica tem de fazer para evitar que as calças se molhem na poça que invariavelmente cerca a pia, enquanto faz o que tem a fazer? Há dados estatísticos que provem se a melhor forma de contornar um tampo salpicado é com uma barreira de protecção de papel higiénico ou tentar acertar a bala no alvo desde as alturas? Algum engenheiro de estruturas sabe porque é que há sanitas que teimam em devolver em água aquilo de que nos tentamos livrar em sólido, lançando assim aquela desagradável pinga reflexiva contra as nossas nádegas expostas?

Sinto-me um analfabeto nesta matéria, e os tormentos aumentam quando me vejo na casa-de-banho executiva do meu escritório, entre os mais reputados bacharéis e doutores, sem saber como hei-de fazer para que as abas do casaco não mergulhem na fossa das marianas sanitárias, as calças não sorvam a água (termo impreciso, claro está) que alaga o chão e, ao mesmo tempo, cumpra o fim em nome do qual me tranquei na casa-de-banho.

É nestas alturas, também, que mais me solidarizo com a condição feminina. Como fazem as mulheres de vestido comprido? Arriscam engolfá-lo na retrete? Têm de o tirar completamente? A minha curiosidade levou-me a procurar cabides nos lavabos femininos em que as mulheres que optassem por esta solução pudessem largar as suas roupas. Não os encontrei e ainda levei com uma carteira nas costas, mas nem isso demoveu a minha vontade férrea.

Oh, incompreensão! Oh, mundo retrógrado! Nos países mais desenvolvidos já há muito que se despertou para esta lacuna. Benjamin Franklin, por exemplo, escreveu um ensaio chamado “Fart Proudly” com instruções alimentares e análises químicas para diminuir ou exponencial o barulho do flato.

Circa 1750, Benjamin Franklin (1706 - 1790) American statesman, writer and scientist. Original Artwork: Engraving by J Thomson from an original picture by JA Duplesois. (Photo by Hulton Archive/Getty Images) Getty Images

Benjamin Franklin (1730-1774)

Dirão os mais optimistas que, mesmo no nosso país, o progresso tem sido feito. Mesmo sem grandes obras sobre obrar, mesmo com pouco mais do que uma referência queirosiana à soltura e com Bocage a lutar sozinho contra moinhos de vento, estamos melhores. Já não temos propriamente aterros, valas, fossas ou apenas buracos, dirão; mas alguém que veja uma casa-de-banho pré-fabricada de um festival de rock’n’roll se atreve a dizer que não preferia deparar-se com um buraco bem fundo? E mais, comparemos as nossas aflições com a descontracção que recende do poema de Bocage:

Vai cagar o mestiço e não vai só;
Convida a algum, que esteja no Gará,
E com as longas calças na mão já
Pede ao cafre canudo e tambió:

Destapa o banco, atira o seu fuscó,
Depois que ao liso cu assento dá,
Diz ao outro: «Oh amigo, como está
A Rita? O que é feito da Nhonhó?

«Vieste do Palmar? Foste a Pangin?
Não me darás noticias da Russu,
Que desde o outro dia inda a não vi?»

Assim prosegue, e farto já de gu,
O branco, e respeitavel canarim
Deita fóra o cachimbo, e lava o cu.

(Note-se que, segundo o Inocêncio, “tambió” significa tabaco, “fuscó” significa bufa e “gu” significa trampa). Alguém, diante desta plácida narrativa, pode dizer que estamos melhor do que no tempo das simples fossas?

Tempos modernos às escuras

Houve verdadeiro progresso quando inventaram os guarda-chuvas para nos protegermos do “água vai”, não quando as empresas decidiram aumentar a qualidade de vida dos seus quadros pondo música no WC. Ninguém quer a “Cavalgada das Valquírias” a marcar o ritmo do seu trânsito intestinal, ninguém quer ouvir um tranquilo jazz da Costa Oeste enquanto luta com todas as suas forças contra uma azia desgraçada. Os aterros eram sujos, sim, mas pelo menos não podiam ser besuntados por um urinador que sofresse de parkinson. As valas eram sujas, sim; mas pelo menos não eram brancas como as casas-de-banho, prontas a infligir sentimentos de culpa no homem que se esqueceu de tomar o ultra levure e se vê agora como aquele que vai macular a inocência alva da retrete.

As latrinas eram rudes, porcas, feias e nojentas; mas sempre condiziam com a actividade que por lá se exercia; as casas-de-banho de agora tentam de todas as formas ser salões e, como não podia deixar de ser, sai borrada. São aqueles secadores de mãos que, em vez de transformarem a água em vapor, a transformam na humidade pegajosa dos trópicos; é o MacDonald’s que decidiu que os seus urinóis são tão delicados como um fato italiano e por isso agora só limpeza a seco – nada de água nos autocolismos.

Escrevem denodadamente, por portas e paredes, para que quem tem uma dor de barriga saia de lá com uma barrigada de sabedoria. É nas casas-de-banho de liceu que se dão os primeiros contactos com Nietzsche ou Oscar Wilde, citados pelas portas dos cubículos, ou com os slogans rasurados nas paredes que se toma consciência política.

Temos casas-de-banho tão sofisticadas e, ao mesmo tempo, tão problemáticas, que a própria cultura já começa a ressentir-se disso mesmo. O escândalo não está no facto de os Strokes fazerem uma música chamada “Meet me in the bathroom”; está na esquipática vontade de se encontrarem com alguém na casa-de-banho. A cultura cinematográfica já transsubstanciou os lavabos numa espécie de albergue de pernoita rápida, dado a toda a espécie de relações amorosas, que, não fosse o hábito, mereceria a estranheza de todos.

Claro que a casa-de-banho, por mais pública que seja, é sempre privada; daí que, quando o seu aspecto não é menos desejável do que as penas do Inferno, se transforme numa espécie de arca dos segredos para todo o serviço. Substitui-se a amarela pela branca, troca-se o sonoro trombetear da retaguarda pelo cochicho de amigas em confidência, de tal forma que quem quer apenas cumprir o baixo destino do seu ventre acaba por se ver perdido entre a imensidão de possibilidades.

As casas de banho antigas eram uma bosta porque era à bosta que se destinavam; as modernas não são, mas o resultado é uma bosta na mesma. Os problemas continuam: continuam a conviver beatas e pastilhas-elásticas lado a lado com bolas de naftalina nos urinóis; continua a ser um enigma esfíngico saber como se abre a torneira do lavatório, e um dilema ético saber se devemos limpar as mãos que continuam molhadas depois da passagem pelo secador aos bolsos ou à camisola. A estes, acrescentam-se novos problemas: as luzes automáticas que se apagam no meio da mudança de águas, pretendem testar a nossa confiança enquanto acabamos às escuras, ou testar o nosso equilíbrio enquanto saltamos para que o sensor acenda de novo a luz e acertamos no alvo ao mesmo tempo?

As casas-de-banho públicas são um tormento geral: as torneiras com demasiada pressão salpicam invariavelmente a zona da braguilha para dar azo a interpretações maldosas, e o café mais próximo na altura do aperto tem sempre o tampo da sanita sarapintado por marcas amarelecidas de beatas para nos tentar desencorajar. Há na casa-de-banho uma certa miséria que o riso tantas vezes explora e um certo segredo que açula a curiosidade. A curiosidade é tanta que, a julgar pela sempiterna bicha para a casa-de-banho das mulheres, chega a superar a que motivam os maiores monumentos do mundo.

O segredo é sempre atractivo, daí que se escreva e efabule tanto sobre o que se faz na intimidade. Pena é que este segredo seja difícil de se manter quando se sai do gabinete em direcção à casa-de-banho com uma revista na mão. No mínimo, provoca-se um imenso riso interior a todos os subordinados. Neste caso, e só neste, a modernidade ajuda: podemos ser discretos e ler no telemóvel. Nesse caso, é uma boa altura para ler este artigo.

[a imagem que ilustra este artigo é um pormenor da capa do álbum de 1968 dos Rolling Stones, Beggars Banquet]

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.