Nota-se o nervosismo. Nos últimos anos, a oligarquia angolana já teve alguns problemas em Portugal, pequenos incómodos que a obrigaram a pressionar, a ameaçar e a afastar — mas agora, com vários processos a chegarem ao final, seja no Ministério Público ou nos tribunais, tudo se complica. As investigações iniciais arquivam-se e as notícias apagam-se, mas as acusações e os julgamentos expõem.

Colocado entre a fúria diplomática, que vem de fora, e o avanço judicial, que vem de dentro, o poder político português, com escassíssimas excepções, refugiou-se na velha ladainha em relação a Angola: somos dois Estados soberanos e somos dois “países-irmãos”. O objectivo, como percebe qualquer criança saída da primária, é disfarçar um negócio que estava a funcionar muito bem até há pouco tempo e que se resume assim: Angola dava o dinheiro e Portugal fornecia a impunidade.

Ao contrário do que insinuam os oligarcas que se sentem ameaçados, o dinheiro angolano não é colocado em Portugal como uma simpatia ou um favor. Em muitos outros países, essas fortunas seriam apreendidas para, com implacável eficácia, servirem de prova em tribunal. Aqui, merecem dos políticos medalhas, elogios e agradecimentos; no estrangeiro, merecem distância, escrutínio e investigação.

Há uma razão para que isso aconteça lá fora. Quando um país normaliza a circulação de dinheiro como este, sabe que fica dependente das práticas que o criaram e, portanto, passa a ser uma questão de tempo até as suas instituições democráticas (o que inclui políticos, jornais e justiça) correrem o risco de contaminação.

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A nossa classe política sabe que é assim. Por isso, nos momentos em que se torna difícil defender o dinheiro de Luanda, usa como escudos morais os portugueses que vivem em Angola. Segundo nos querem convencer, a relação próxima entre Lisboa e Luanda não se estreita porque os milhões fazem falta — estreita-se como virtuosa forma de proteção dos mais de 100 mil emigrantes que trabalham no país.

É interessante, porque esse santo argumento não ocorre a mais nenhum Estado responsável e respeitável. Espanha, por exemplo, tem cerca de 200 mil emigrantes na Venezuela, mas não lhe passa pela cabeça desculpar ou proteger a oligarquia criada por Hugo Chávez e alimentada por Nicolás Maduro. Desde o “Por qué no te callas?” de Juan Carlos, até às missões do ex-primeiro-ministro Felipe González e às denúncias que levaram à expulsão recente do embaixador espanhol em Caracas, as diferenças em relação ao comportamento de Portugal com Angola deixam-nos sem fôlego e com vergonha.

Madrid acha que a melhor forma de proteger os espanhóis na Venezuela é defendendo a democracia e o Estado de Direito, porque só assim haverá condições para os seus emigrantes viverem de forma próspera e segura; Portugal diz acreditar que a melhor forma de proteger os portugueses em Angola é defendendo um regime em que a economia depende de generais e de familiares de poderosos.

Se o exemplo espanhol for curto, vejam como o Reino Unido lidou com o Zimbabwe de Mugabe. Ou como a justiça francesa está a investigar os próximos de Denis Sassou Nguesso, do Congo, de Omar Bongo, do Gabão, e de François Bozizé, da República Centro Africana, e a condenar Teodorin Obiang, que acumula o cargo institucional de vice-Presidente com o cargo familiar de filho do Presidente da Guiné Equatorial, a antiga colónia espanhola que é nossa “irmã” na CPLP.

Em Portugal, onde muitos governantes têm a desagradável tendência de se transformarem em homens de negócios, tudo tem sido diferente. Lisboa faz o que pode e Luanda faz o que quer. Até ao dia em que, pelos tribunais, tudo muda.