Educação

‘O mal-estar na civilização’ e Marx: o fado dos professores

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O que parece contar é alunos e famílias, por atacado, valerem em número muitíssimos votos e popularidade. Agora e no futuro. Nada como seduzi-los atacando o seu suposto inimigo classe, os professores.

Sigmund Freud identificou sinais de civilização na associação entre a beleza, a limpeza, a ordem, a regulação das relações sociais ou a sublimação dos instintos. À época, o autor intuía a hecatombe civilizacional em curso na União Soviética, mas não imaginava o holocausto nacional-socialista alemão (nazi). Pouco menos de um século decorrido, passadas mortandades e revoluções, não sobraram razões para banir ou adulterar a ideia de civilização tal como Freud a considerou, mesmo que o tempo nos tenha tornado mais prudentes na relação com o fenómeno. É o que me leva a clarificar um outro atributo da civilização, o do respeito. Pela dignidade dos outros. Pelo silêncio. Pela introspeção. Pelo recato.

Bem sei que ‘civilização’ consta do índex dos novos inquisidores, a lista de palavras proibidas. Como é hábito, os inquisidores contam-se entre os que mais contribuem para ‘O mal-estar na civilização’ (título do livro de Freud datado de 1930). Por isso, retomar, reinventar e reforçar a saliência do conjunto de atributos referidos na orientação e regulação da vida quotidiana constitui um desafio. Fugir dele mais não tem sido do que um sintoma da recusa da dignidade a que indivíduos e sociedades têm direito. Sejam ocidentais, orientais, africanos, americanos.

Destaco as mais recentes gerações ocidentais pela fuga persistente às raízes milenares da sua civilização, cuja matriz é filosófica, primeiro, e cristã, depois, independentemente das crenças, pensamentos e práticas de cada um. Com isso, os europeus ocidentais transformaram-se nos principais agentes da fragilização das suas sociedades, contribuindo para que uma das mais brilhantes civilizações de sempre, a ocidental, sobreviva entre a vergonha, a ameaça e o medo. Paradoxalmente, o atual torpor civilizacional europeu tem sido prejudicial para as outras civilizações e povos, contanto que, agora e no futuro, os ocidentais não ambicionem exportar os seus valores civilizacionais, antes se limitem a (re)valorizá-los no seu espaço e para si mesmos.

Por inúmeras razões, a sociedade portuguesa constitui um caso sintomático. Suporto-me no exemplo da figura do professor, em particular do ensino básico e secundário, pelo facto do fenómeno civilizacional apenas fazer sentido se partilhado pelo senso comum. A figura do professor destaca-se não apenas pelo lugar que ocupa num sistema de ensino massificado, mas também porque invade, como poucas, a vida quotidiana.

Anoto, no entanto, que um passado não muito distante evidenciou que um ensino fortemente dependente do professor tende para a disfuncionalidade. Por seu lado, as décadas que se seguiram demonstram ser ainda pior um ensino centrado nos ‘interesses’ dos alunos, o que, por arrasto, gerou uma pressão disfuncional sobre as escolas por parte das famílias e do meio envolvente nunca antes sentida. O ponto a que se chegou recomenda, por isso, que o sistema de ensino tenha como referente orientador o conhecimento, isto é, no seu âmago deve estar um valor abstrato fundador da ideia de civilização. Tal reajuste permitiria que o funcionamento e a regulação da vida das escolas se afastassem das idiossincrasias dos indivíduos nas suas virtudes e sobretudo nos seus vícios. Sejam eles professores, alunos, familiares, sindicalistas, políticos, entre outros.

Na perspetiva do conhecimento enquanto valor civilizacional, tudo o que o prejudica deve ser minimizado ou, se possível, suprimido, desde que nos reportemos às salas de aula. Não vejo outro caminho que não seja o de identificar a construção social de conhecimentos qualificados com a tranquilidade, o silêncio, a introspeção. A alternativa revolucionária que há décadas se trilha tornou as salas de aula alimentadoras-mor d’‘O mal-estar na civilização’. Por isso, entre os sintomas das atuais frustrações coletivas destaco a indisciplina nas escolas, um dos adiados desafios do presente. Para além dela, tudo o que se escreva, diga ou faça sobre o ensino é acessório.

Em abstrato, é compreensível que se descarreguem frustrações em tempos de catarse coletiva. Preocupante é que incidam, como quase sempre, em segmentos vulneráveis aos quais se atribuem poderes extraordinários e, não menos, que na atualidade o alvo sejam os professores. A sua exposição a humilhações públicas quase permanentes não deixa de ser reveladora. E mesmo que uma parte dos professores contribua, vai sendo tempo de se transitar de catarses coletivas de tipo primário para estádios de decência ou de sublimação civilizacional.

Uns consideram essencial avaliar os professores. Outros que não devem ‘chumbar’ os alunos. Outros que devem ensinar ‘coisas’ práticas. Outros que os professores devem fazer mais umas quantas greves e protestos. Outros que devem passar a ensinar mais disto e daquilo. Outros que os professores não compreendem nem amam alunos e alunas. Outros que é decisivo o papel de sindicatos, associações de pais, de estudantes e similares. Outros confundem os professores de sala de aula com profissionais da manipulação em seu nome. Outros que os currículos e programas devem ser mais e mais ‘alternativos’ e ‘criativos’. Outros acusam-nos de não saberem ensinar. Outros de falhas na formação. Outros que são contra os exames sem que nunca se tenha consultado cada cabeça, muito menos por iniciativa sindical. Outros impõem-lhes o suprassumo pedagógico das intermináveis aulas de noventa minutos. Outros responsabilizam-nos por não apoiarem alunos que não estudam, que se comportam mal e que se acumulam a três dezenas em salas de sala. Outros defendem ser crucial alterar os concursos de professores. Outros que o problema maior é o da falta de psicólogos e assistentes sociais nas escolas. Outros que se têm de diferenciar salários a bem dos competentes. Outros que é necessário reescrever os manuais escolares. Outros que o mal está nos equipamentos escolares. Outros que é necessário mais diálogo. Outros que a irreverência é própria das crianças e jovens e a sala de aula o seu habitat natural. Outros que se devia fazer como na Finlândia ou em Singapura, apagado o farol soviético. Sobra ainda outro rol de inúmeras certezas e convicções.

Nesta cacofonia de loucos, raros são os que se lembram que o sistema de ensino apenas consegue massificar a qualidade, ser mais eficaz, em sociedades onde os professores são respeitados, em sociedades que não instrumentalizam o ensino para coisíssima nenhuma, descontados os domínios dos conhecimentos científicos e académicos propriamente ditos, em particular os que se inserem nas tradições civilizacionais dos povos. São também raros os que percebem que o ensino, enquanto atividade social sensível, apenas funciona com qualidade em sociedades conscientes de que o tratamento da dignidade dos indivíduos exige ponderação e recato, associados ao que Freud considerou sinais de civilização.

Felizmente que no espaço público não se ousam atitudes equivalentes dirigidas a minorias raciais, religiosas ou sexuais, delinquentes, pobres e por aí adiante. ‘O mal-estar na civilização’ talvez resulte de as sociedades (ainda) não conseguirem viver sem gente ‘abaixo de cão’, os ‘sacos de pancada’. Os professores do básico e secundário integram a cota.

Nada de equivalente é tolerável – e bem – em relação a alunos irresponsáveis e respetivas famílias, num tempo em que se tornou legítimo estigmatizar o bom aluno. Neste particular, gente com responsabilidades sociais, cívicas e políticas deixa a descoberto o que de mais desprezível existe no tratamento da dignidade do trabalho dos professores, alunos e do ensino em geral, bem como uma ignorância grosseira sobre o modo como as sociedades modelam atitudes e comportamentos de senso comum. O que parece apenas contar é que alunos e famílias, por atacado, valem em número muitíssimos votos e popularidades. Agora e no futuro. Nada como seduzi-los atacando o seu suposto inimigo classe, os professores, em tempos em que fragmentos do marxismo-leninismo quase funcionam como o ar que se respira.

A orgia que vamos alimentando torna necessário destacar o óbvio. Na condição de professor, como noutras, não é possível traçar uma fronteira entre a dignidade profissional, a dignidade social e a dignidade do indivíduo. Sendo os professores pessoas, como tal também são pais, mães, doentes, católicos, agnósticos, grávidas, apolíticos, comunistas, mulheres, alentejanos, clientes de hipermercados, invisuais, escritores, homossexuais, viúvas, desempregados, vítimas de bullying familiar, obesos, etc., etc. Mas nada disto tem impedido que a sua dignidade seja demasiadas vezes cilindrada no espaço público e, como consequência, nas salas de aula.

Retomo o início. Freud impõe-nos um olhar sobre as sociedades e o seu sentido a partir de exigências que cada indivíduo tem de fazer a si mesmo. É por isso que o seu pensamento é muitíssimo valioso, mas paradoxalmente pouco apelativo num tempo em que ainda nos alimentamos de massificadas alucinações utópicas herdadas do século XX. O autor tem ainda a particularidade de não escrever apenas sobre indivíduos (ou ‘mentes singulares’), mas também sobre povos, sociedades, civilizações. Preservar o pensamento de Freud em consultórios de psicanálise e pouco mais, por cima práticas em muito circunscritas aos países ocidentais, e deixar as ruas desses países e do mundo entregues a Marx, outro colonizador-mor de mentes ocidentais cujo valor do pensamento é bastante mais limitado, constitui uma causa maior d’‘O mal-estar na civilização’ que hoje deixou de ter fronteiras. Esta patologia terá cura?

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