Entrei no Chega a 6 de setembro de 2020, com a certeza do descalabro da sociedade portuguesa, e saí meia década depois, a 22 de setembro de 2025, de um partido cada vez mais disfuncional no sentido patológico do termo. Se a experiência agregou um movimento popular inédito capaz de transformar Portugal para muitíssimo melhor, as reformas necessárias não chegam ao sujeito coletivo por serem sugadas por um único sujeito individual. Isso tem nome: abuso de poder narcísico. A evidência transitou de latente a cristalina quando a causa nobre pela qual me bato há mais de vinte anos, a reforma do ensino, a que sobrava da minha missão de deputado, também foi atingida pela cultura de cancelamento com o anúncio do governo sombra. Foi a derradeira oportunidade que poderia conceder ao predador psicológico André Ventura de anular a minha existência. Renunciei de imediato ao mandato na Assembleia da República e desvinculei-me do Chega, pois não toleraria a mim mesmo arrastar-me numa das mais escandalosas práticas de parasitismo social e subsidiodependência, a condição de deputado-joguete nas mãos de um líder narcísico incompatível com qualquer forma de sujeito coletivo, que tratou de destruir os fundamentos de uma instituição sólida que lhe servisse de filtro existencial.
1 Desprezo [pelo ideal reformista]
Entre os programas dos partidos políticos e as suas consequências na vida das pessoas comuns cavou-se um fosso destrutivo do contrato social estabelecido, através do voto, entre eleitores e eleitos. Nas sociedades democráticas, aí reside a fonte das relações de confiança, que deve ser revitalizada pela redução significativa dos programas eleitorais, hoje com 30, 50, 100, 200, 500 páginas. Cada eleitor deve poder lê-los com facilidade de início ao fim, pois a verdade é uma essência e não uma lista. Foi a primeira missão do Gabinete de Estudos do Chega, que dirigi entre 2021 e 2022. Razão para o programa do partido ter sido planificado para articular duas componentes: um único programa político (estável no tempo) e sucessivos programas eleitorais (renováveis a cada eleição). O programa político foi concebido para se limitar a definir quem somos (o partido) e cada programa eleitoral serviria para explicar o que vamos fazer. O programa político começa por valores civilizacionais (para todos os seres humanos; todos os portugueses; todo o campo político da direita), e termina numa segunda parte sobre a Sociedade, o Estado e a Economia. Por seu lado, os programas eleitorais sucessivos nunca poderiam ser desligados do estável e original programa político. Logo, o Chega nunca teve um programa com 9 páginas como circula na opinião pública. Cada programa eleitoral estaria dividido em áreas governativas (saúde, justiça, ensino, defesa…), cada qual reduzida a um valor ou princípio geral (derivado do programa político), seguido de um conjunto de princípios associados e medidas concretas fundamentais para essa área, tudo sucinto para cada eleitor cobrar com simplicidade o voto que investiu (poderiam ser em 9 páginas ou menos). Dispensável quando se compreendesse a racionalidade da reforma, ainda assim na versão eletrónica dos programas eleitorais seria possível clicar por cima do título de cada área governativa (saúde, justiça, ensino…) para aceder a uma versão desenvolvida em quantas páginas fossem necessárias, complemento destinado a especialistas. O Chega, então partido novo, avançaria na arena eleitoral para restaurar as relações de confiança dos cidadãos entre si e na democracia. A missão dava os primeiros passos num Gabinete de Estudos sem recursos quando se precipitaram as eleições legislativas de 2022. Confrontado com as primeiras críticas públicas, André Ventura decidiu arruinar o projeto. Nunca o defendeu ou deixou defender publicamente. Em cima das eleições de janeiro de 2022, impôs ao Gabinete de Estudos a sua lista de supermercado: 100 Medidas de Governo. Dois anos depois, insistia em desautorizar-me: Não correu nada bem... Foi a primeira prova da destruição do Chega enquanto partido reformista, hoje tão falhado quanto PS e PSD na matéria. Os anos seguintes confirmaram a pulsão autocrática destrutiva de reformas de André Ventura, traço de personalidade impossível de o tornar um governante responsável.
2 Inconsciência [moral]
Porque lida com pessoas, a Igreja mantém sempre o pressuposto da moral espiritual. Pela mesma razão, os poderes públicos e instituições que lidam com pessoas devem ter a sua legitimidade sempre fundada numa moral cívica compreensível com simplicidade pelos cidadãos desde a infância. Razão para o programa político do Chega (2021) começar pela autorresponsabilidade, tornar cada sujeito individual ou coletivo consciente de ser o primeiro e principal responsável pelo seu destino. Sem essa reforma, todas as outras são inúteis. O Chega teria de remeter para o coração da vida social a herança milenar legada pelas tradições ancestrais, tradição greco-romana e tradição judaico-cristã, âncoras de qualquer partido político da direita conservadora. Num Ocidente subjugado ao inverso, à externalização da responsabilidade ou vitimização de tradição marxista (se sou pobre a culpa é do rico; negro do branco; minoria da maioria; imigrante do acolhedor; do terceiro-mundo do Ocidente; por aí adiante), este último tem sido o caminho da morte da consciência humana, do ódio social e do falhanço coletivo, dado instigar os seres humanos a jogarem as responsabilidades para fora da sua consciência, para fora de si mesmos. Daí o dever moral supremo de resgate da autorresponsabilidade. André Ventura nunca compreendeu ser essa a essência ideológica do seu próprio partido político, e deixou-me solitário na missão. Cumprir o primeiro dever imposto pelo programa político sufragado no Conselho Nacional de Sagres (2021) revelou-se impossível para um líder narcísico, pois obrigava-o a descentrar o Chega da sua pessoa (indivíduo) e recentrá-lo num valor civilizacional universal e abstrato (coletivo). Acontece ser essa a condição da maturidade humana, para mais inerente a qualquer cristão. Cristo cumpriu a sua missão na terra nunca apontando para si mesmo, antes e sempre para que se cumprisse a vontade do seu Pai do Céu. A autorresponsabilidade existe para funcionar no Chega como a fé para a Igreja, o conhecimento para o Ensino, a saúde para os Serviços Hospitalares, a defesa para as Forças Armadas, por aí adiante. As instituições centradas num indivíduo falham sempre e, pelo contrário, nas bem-sucedidas os indivíduos filiam-se a um valor abstrato universal. Em escritos e sessões no Chega fui alertando: cada um de nós diz a minha família (não a família da sua mãe ou pai), a minha igreja (não a igreja do seu padre ou pastor), o meu clube, a minha escola, comunidade, nação, país, etc. Logo, o Chega não sairia da infância enquanto militantes e simpatizantes pensassem e atuassem na lógica do partido do André e não do meu partido, e até hoje esse ponteiro da maturidade coletiva nunca se moveu. André Ventura é demasiado inteligente para, ao fim de quatro anos, não compreender ser o primeiro e principal traidor da essência política formalmente instituída pelo seu próprio partido, mas a sua impossibilidade de olhar o meio envolvente sem o filtro narcísico move-o numa cruzada insana contra o sujeito coletivo. Tal pulsão existencial alimenta no núcleo duro do seu poder interdependências pessoais deprimentes, moralmente dissolventes e socialmente danosas no caso de ser governo. O país provou do mesmo veneno com o Partido Socialista de José Sócrates. De resto, os portugueses não podem tolerar que os partidos políticos, da esquerda à direita, sejam máquinas encobridoras do terror narcísico entreportas a troco das benesses do poder, como ser deputado.
3 Negligência [cívica]
Das comunidades locais à nacional, a sociedade portuguesa afundou-se numa espiral de rotura do civismo de proximidade. Projetada nas relações entre as populações de cada concelho e o respetivo corpo de bombeiros, tal erosão cívica é tão chocante quanto sintomática. Compreendi quando fui candidato do Chega à Câmara Municipal de Alcochete (Setúbal), em 2021. Todavia, cito dados semelhantes de 2025 referentes ao município de Pombal (Leiria). Em números gerais, dos 52.000 habitantes do concelho apenas 2.000 são sócios dos bombeiros voluntários com quotas pagas, cerca de 4% dos habitantes. Por uma média de 200 munícipes que deixam de ser sócios, entram apenas 10 novos sócios, ao mesmo tempo desaparecem os velhos beneméritos. Não é dado menor a quota mínima anual: 12 euros. Sem juízos de valor sobre muitas famílias gastarem num mês em Netflix ou Sport-TV, por exemplo, o que gastariam em alguns anos de sócias dos bombeiros do seu concelho, o que está em causa é tão-só o abandono do civismo de proximidade por responsabilidades exclusivas da classe política. O bombeiro é apenas o sintoma do abandono cívico, no quotidiano, da dignidade de outras figuras sociais de referência: mãe, pai, padre, professor, polícia, médico, enfermeiro, entre outras. Para lançar a semente de tão relevante reforma cívica, quando se reuniu pela primeira vez o primeiro grupo parlamentar do Chega, em 2022, propus que os 12 deputados do Chega, todos, se fizessem sócios de uma corporação de bombeiros e isso fosse anunciado à imprensa. Não haveria segunda oportunidade para uma primeira impressão. Falei antes com o Presidente André Ventura, que concordou com a ideia, mas sugeriu que fosse eu a apresentá-la ao grupo parlamentar, o que acabou por acontecer sem a sua cobertura. A postura dos deputados que intervieram foi de rejeição, num ambiente institucional que só permite atribuir valor à palavra do Chefe, aura que envolve mesas de reunião fácil de detetar em experiências com lideranças de perfis psicológicos distintos, entre narcísicos e empáticos. Meses depois, os fogos florestais regressaram à sua violência devastadora, e a nova classe política antissistema negligencia, até hoje, o poder protetor do envolvimento cívico.
4 Frieza [desumana de líder de ignorantes]
Saio do partido de André Ventura com o sabor amargo da prostituição da raça. O dito racismo é dos fenómenos de alienação mental coletiva mais perversos de sempre. Fiz-me deputado do Chega para corrigir tão grave patologia civilizacional, pois partia de uma pesquisa pós-doutoral e, não menos, da condição assumida de negro num partido de brancos, assim como nunca abrirei mão da minha identidade originária: nasci moçambicano, vivi moçambicano, vivo moçambicano e morrerei moçambicano. Mas sempre com o cuidado de acrescentar que nunca agradecerei o suficiente aos portugueses nativos terem-me acolhido com irrepreensível espírito fraterno na sua pátria ancestral, pelo que ver os portugueses acusados de racismo é, para mim, insuportável, tal como me é insuportável ver a esquerda julgar-se dona dos pretos. Nos meses iniciais da legislatura de 2022, fui um dos candidatos do grupo parlamentar do Chega à vice-presidência da Assembleia da República. Apurados os votos que ditaram o meu chumbo, em conjunto com André Ventura, demos uma conferência de imprensa, cujo conteúdo foi distorcido pelo veneno jornalístico. Não parecia problemático por estar decidido que, dias depois, eu iria fazer, no Plenário, uma declaração política sobre a questão racial/racismo. Para minha surpresa, na véspera André Ventura impediu-me de falar sobre o assunto no Parlamento e, até hoje, o tema foi banido do radar político e cívico do Chega na mais cobarde irresponsabilidade social, cívica, civilizacional. Por esses dias, numa sessão interna do partido em que falei do tema informaram-me que um dos militantes presentes se indignou por eu falar do racismo à revelia da vontade do André e, noutra sessão, um outro militante recomendou-me não falar do assunto por causa do risco de você [eu] ser uma nova Joacine. Acabei cancelado num aspeto íntimo da minha identidade pessoal, para mais no contexto de um partido político violenta e injustamente tratado na matéria. Assumi a condição de deputado com o dever de consciência de limpar da legislação e da vida institucional (universidades, escolas, Estado) um dos fenómenos mais tóxicos de sempre da sanidade mental coletiva, cuja fonte continua intacta no Parlamento. André Ventura sabe tudo isto, mas é incapaz de conter a sua frieza narcísica, fica preso na mais absurda falta de empatia face à dignidade de um ser humano como ele, eu, mal que estende aos portugueses comuns martirizados pela loucura do racismo. Além do dever humano de libertar os negros racialmente reprimidos pela esquerda, sem enfrentar a questão racial nunca será sustentável o combate à imigração desregulada ou à crise da identidade nacional. Do Chega trago a prova de vida de ser impossível um líder narcísico evitar impor a sua cultura de cancelamento, pois prefere prejudicar uma sociedade inteira a correr o risco de expor o seu ego ao desconhecimento de determinada matéria. Entregar o poder a um político com tal perfil psicológico é construir um muro de betão contra o uso social da razão, e rumar ao paraíso de ignorantes. Desfazem-se mistérios do Chega nunca sair da bolha restrita de temas do Chefe, e da impossibilidade de atrair cidadãos competentes, que abundam no campo político da direita, mas apenas funcionam em contextos de respeito e valorização pela sua autonomia existencial e conhecimentos.
5 Soberba [de violador do exercício de função soberana]
Implementado em maio de 2021, a razão de ser do Gabinete de Estudos era ir preparando reformas estruturais para cada setor da governação, em simultâneo atrair académicos e especialistas dessas áreas. Consegui que fosse nascendo um espaço relativamente despolitizado e tranquilo no interior de um partido agitado, numa época da sua forte rejeição nos meios académicos e intelectuais. Atrair pessoas qualificadas obrigaria o Chega a alguma capacidade de encaixe de críticas internas, sem dramas ou histerismos, o que me pareceu fundamental. Programei reuniões à porta fechada, mas com o complemento do debate social aberto na minha página online de deputado, à qual tinha de impor um forte conteúdo de liberdade intelectual, chamariz de pessoas qualificadas e antídoto contra o histerismo jornalístico. A primeira tentativa foi publicar um texto crítico sobre a atuação do Chega na área da justiça da autoria do economista Pedro Arroja, então colaborador notável do Gabinete de Estudos e envolvido numa causa judicial contra o atual ministro do PSD Paulo Rangel, agora vencida de forma arrasadora com recurso ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Em agosto de 2022, minutos depois dessa primeira publicação até hoje discreta, recebi um telefonema intempestivo, agressivo e insultuoso de André Ventura a exigir que retirasse de imediato o texto da minha página de deputado. Respondi que não o faria sugerindo uma conversa menos acesa no dia seguinte, até porque ficaria melindrada a abertura do partido aos meios académicos e intelectuais. André Ventura desligou abruptamente a chamada. Antes de qualquer nova conversa, no dia seguinte fiquei a saber, pelas notícias, que tinha sido afastado da coordenação do Gabinete de Estudos, pelo que não fazia sentido continuar vice-presidente de quem me defenestrava, cargo na Direção Nacional do Chega que tinha assumido na Convenção de Évora (setembro de 2020). Além ver violada a condição soberana de deputado, foi o escalar da minha caçada psicológica pelo indomável predador narcísico, a pretexto de o ter contrariado. Na prática, tratava-se da relação hierárquica com o meu patrão, que manipulou a opinião pública para coagir e atentar contra a dignidade de um seu subordinado, pois mentiu à imprensa declarando que a situação nada tinha a ver com a publicação do texto referido. Hoje é para mim cristalino que uma personalidade com tal perfil é propícia a impor contextos de destruição psicológica no interior das instituições, pior sobre aqueles que lidera, sendo que as estratégias de comunicação dos partidos políticos podem ser instrumentalizadas com esse fim. Esse patrão narcísico continua a tutelar deputados, assessores e técnicos numa Assembleia da República que não se pode furtar a enfrentar o problema. Iniciada em agosto de 2022, a tensão arrastou-se alguns dias, tempo que permaneci em silêncio. Acabei por quebrá-lo numa conferência de imprensa em que coloquei a possibilidade de me manter como deputado não inscrito para forçar a negociação. Resultou. Almocei longamente a sós com André Ventura e vi nele, nesses momentos, uma pessoa cordial, até porque antes tinha-lhe enviado por escrito aquilo que me incomodava. Ainda assim, não me furtei a outra dose de chantagem e difamação a que nenhum narcísico resiste. Dias depois, em setembro, sujeitei-me a enfrentar um conselho nacional aberto a todos os militantes do Chega, na Batalha (Leiria), arena propícia a ser destratado por alguns a troco do inchaço do ego patológico do líder com a minha submissão. Este olhar retroativo que hoje reproduzo, à época foi bastante relativizado. Todos partilhávamos o dever de proteger um movimento agregador raríssimo por se assumir de direita sem mas, que então germinava em circunstâncias dificílimas. Em tal contexto, uma crise relacional entre duas pessoas parecia resumir-se a uma etapa rumo à maturidade coletiva. Foi de facto o que aconteceu, mas apenas da sociedade portuguesa, o que muito me orgulha: a direita sociológica venceu! No interior do Chega, a realidade mergulhou ainda mais no cinzento. Como qualquer ser humano normal, segui a vida com a empatia habitual. Do outro lado, não demoraram novas provas de um predador psicológico narcísico nunca mudar. Apesar das minhas tentativas sucessivas, André Ventura jamais permitiu o meu regresso ao Gabinete de Estudos e tratou de me ir afastando de contactos externos (apagou-me da comunicação social) e internos como afastar-me do encontro com próximos de Jair Bolsonaro, quando eu tinha sido pioneiro e orador por esses dias numa conferência que organizaram em Lisboa (além da minha aproximação a Olavo de Carvalho), ou, outro exemplo, da primeira visita de Venâncio Mondlane ao Parlamento em 2024, sendo ele como eu moçambicano. Também se escudou em compromissos para não comparecer na apresentação do meu livro «12 Regras para um Portugal mais justo» (2024), a mais importante marca ideológica produzida no interior do Chega, obra cuja soberba narcísica do Presidente boicotou até hoje, pelo que ficou sem impacto dentro e fora do partido, como se a dignidade de um sujeito coletivo da arena política se pudesse afirmar sem uma bússola existencial de valores civilizacionais ou princípios humanos bem definidos. André Ventura não consegue conter o seu demónio vingativo contra quem o critique entreportas, e jamais perceberá que o único que se portou mal no meu caso foi ele. Sucessão de evidências de perturbação narcísica da personalidade traduzida no abuso de poder institucional. O meu isolamento interno foi explorado com grande proveito por um dos piores caciques que conheci, o presidente da distrital de Leiria do Chega, Luís Paulo Fernandes. Desde o início, este pressionou constantemente André Ventura para que eu não fosse deputado por Leiria, e acabou premiado vezes sem conta, como chegar a deputado e hoje juntar mais dois deputados da sua lista pessoal. Porque o ego insaciável do narcísico não vive sem o oxigénio do atropelo das fronteiras da dignidade alheia até à submissão pessoal, a cultura institucional da bajulação floresce. Com o tempo, tornou-se impossível o crescimento saudável do partido dentro e fora do Parlamento, reduzido a uma névoa mental depressiva. Em Leiria, distrito extraordinário pelo dinamismo social e económico, tem sido uma desgraça a incapacidade do Chega atrair pessoas bem formadas e qualificadas, até as afasta, por causa do escudo protetor do presidente da distrital, o Chefe, e anoto que, dos 230 deputados, fui dos que mais cumpriu o dever de visitar o distrito pelo qual foi eleito. Por ser resistente à eliminação, acabei secretário da Mesa da Assembleia da República em 2024, exilado do grupo parlamentar sem danos eleitorais. Acontece que a ira e a soberba são pecados mortais, e como ser-me-ia impossível conter críticas ao desastrado governo sombra, isso iria reativar os piores instintos do predador narcísico. Restou afastar-me de imediato e para sempre do seu território de caça. Lamento o destino das presas que o circundam.
6 Irresponsabilidade [de brincar ao governo sombra]
O Gabinete de Estudos do Chega trabalhava para ir preparando reformas estruturais para cada setor da governação com o contributo ativo de académicos e especialistas em cada área, sem necessidade da sua exposição pública, e deles ou pelo seu aconselhamento sairia uma equipa governativa. Extinto de forma intempestiva em 2022, três anos depois, em setembro de 2025, desceu a epifania do governo sombra. Como a esperança é a última a morrer, aguardava alguns pesos pesados como ministros sombra, ilusão que queria alimentar de o Chega ainda poder rumar à maturidade. Seria o milagre-Ventura. Não foi. Mais parece o resultado de um jantar ocasional de amigos. Foi a gota de água que tornou cristalino o terror narcísico em que me afundava e, bem pior, em que o país se afundará com tal personagem, muito por causa da elevadíssima importância que atribuo à reforma do ensino. Moldei a política do Chega para o setor desde 2020 e não fui sequer consultado sobre o perfil de ministro, e pessoalmente nada tenho contra o Professor Alexandre Franco de Sá. Como qualquer narcísico viciado em atropelar as fronteiras da dignidade alheia, André Ventura arriscou de novo julgando-se eternamente imune a consequências. Eu não admitiria a repetição do mesmo perfil de ministros dos últimos cinquenta anos, todos sem evidências empíricas vividas de salas de aula do ensino básico e secundário, vício que anula à partida a força reformista. Na fase atual do Chega, a questão não seria ser ministro sombra do ensino ou deixar de ser, apenas transmitir à opinião pública, desde o início, o que nunca se fez: uma mensagem reformista de rotura sem tréguas com o monstro em que se transformaram as escolas. Um anúncio leviano fez evaporar o meu trabalho cuidadoso de meia década. André Ventura deixa a descoberto ser barbaramente insensível ao facto de 50.000 ou mais professores estarem em sofrimento físico e psicológico por todo o país, uma hecatombe social tratada como se nada fosse; a um Ministério da Educação que se recusa libertar do seu descalabro financeiro há décadas, o que tudo arrasa; à destruição metódica da ideia de escola, que tudo envenena. Porque a indisciplina fez das salas de aula indústrias produtoras de narcísicos socialmente nefastos, o ensino é hoje a fonte da mais grave crise de saúde mental de sempre entre crianças e adolescentes, mal que invade o ensino superior qual mancha de óleo. De resto, num governo sombra que integra ministros independentes e ministros do partido, excluir-me foi a última tentativa do meu assassinato cívico que poderia tolerar.
7 Imaturidade [de políticos destruidores de povos]
Uma das evidências da minha passagem pelo Chega foi a das mais nobres visões reformistas nada valerem sem poder político e este nada valer sem suporte eleitoral, matéria em que a esquerda tem sido exímia e a direita estupidamente incompetente. A inteligência intuitiva raríssima de André Ventura quebrou essa barreira. Todavia, a mais brilhante inteligência intuitiva converte-se em imaturidade destrutiva do seu povo quando teima em rejeitar compromissos com manifestações da outra metade da inteligência, a estratégica, estrutural ou de longa duração. Preso num caos narcísico sem norte, o líder do Chega nunca sairá da meia-inteligência, ainda que esteja longe de ser caso único entre políticos de topo em Portugal. A oeste nada de novo. O arrastar endémico do descontrolo de atitudes e comportamentos no seu grupo parlamentar não engana.
Uma velha frase regressa à história: revolução que não devora os seus revolucionários não é uma verdadeira revolução. André Ventura mudou para sempre Portugal ao escancarar as portas da liberdade à direita, mas a sua personalidade tóxica envenena o que ele mesmo semeou numa direita que não mais se pode permitir a si mesma ser infantil, primária, imoral, irracional, irresponsável, submissa a um dono. Talvez Freud fizesse de mim Édipo, o que tudo fez para evitar o parricídio, mas o destino foi implacável. Jordan Peterson explica como o complexo de Édipo – interpretação minha – se está a converter na rejeição do abuso de poder narcísico, pandemia que se espraiou no Ocidente, psicólogo clínico canadiano que regressará a Portugal em janeiro próximo.
Cf. Vídeos [Alertas sobre uma pandemia mental]
Jordan Peterson
Never Be Nice to a Narcissist Again Here’s Why
Why Empaths Who See the Truth Are Unstoppable
Ramani Durvasula
Unmasking the Narcissist Without Saying a Word
Carl Gustav Jung
When a Narcissist Sees You as Too Powerful, They’ll Try This One Last Dirty Trick
What Happens When the Empath Uses the Narcissist’s Tactics Against Them