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Bilhetes esgotados há uma dúzia de dias, portões a abrirem mais cedo, fãs que esperam horas à entrada para conseguirem um lugar à frente do palco e uma enchente de 90 mil pessoas dispostas a abdicar de uma boa noite de sono, a uma quinta-feira à noite. É este o fenómeno Rolling Stones, o grande nome do dia e mesmo de todo o Rock in Rio Lisboa. Os portões abriram às 15h19 e o Observador faz aqui o resumo de tudo o que se passou no segundo dia do festival.

Frankie Chavez (17h58)

“Acho que este toca reggae”, ouvimos uma rapariga dizer aos amigos. Mas não, Frankie Chavez não toca reggae. Esse deve ser Richie Campbell, português que também adotou nome estrangeiro, tal como Francisco Chaves. Ao primeiro acorde da guitarra elétrica de Frankie o erro deve ter sido logo notado. É rock, é folk, é blues, é a atmosfera norte-americana a marcar o palco Vodafone, que abriu com o Projecto Kaya, cerca de uma hora antes. O público começa a chegar e já se notam diferenças em relação ao primeiro dia do Rock in Rio. Esta quinta-feira há muito mais ‘cabeludos’ e roupa preta, com os casacos de cabedal a marcarem a moda do dia. Dia de rock n’roll.

Com o segundo álbum acabado de sair, “Heart & Spine”, o alinhamento é uma mistura do passado e do presente, sendo que a música mais celebrada pelo público é “Fight”, o single do novo álbum. Os 45 minutos de concerto voam, mas houve tempo para Frankie, acompanhado pelos músicos João Correia e Nuno Lucas em palco, agradecer a oportunidade. “Isto para mim é o máximo. Poder tocar no mesmo dia que os Rolling Stones é muito especial”.

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Entretanto, numa das muitas (são mesmo muitas) diversões que o festival oferece, uma queda com estilo:

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Rui Veloso + Lenine + Angélique Kidjo (19h00)

Há poucos festivais tão pontuais quanto este. Às 19h00 em ponto, o português Rui Veloso, o brasileiro Lenine e a beninense Angélique inauguraram o palco Mundo para uma espécie de nações unidas da música. O concerto foi uma mistura bem conseguida de canções dos três músicos mas, a jogar em casa, Rui Veloso conseguiu que o público batesse muito mais o pé (“Chico Fininho, uuh uhhh“) e desse mais beijinhos (“Tu eras aquela, que eu mais queria…“). Houve ainda tempo para boas versões, como “Sodade”, de Cesária Évora, e “Redemption Song”, de Bob Marley.

Os três artistas disponibilizaram previamente o alinhamento do concerto. Embora a ordem tenha sido alegremente trocada várias vezes, fica a ideia:

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Xutos e Pontapés (20h30)

As línguas de fora são as t-shirts mais populares do recinto, e outra coisa não seria de esperar em dia de Rolling Stones. Mas os “Rolling Stones portugueses”, como são conhecidos os Xutos e Pontapés, também trazem fãs ao Rock in Rio. Milhares de pessoas amontoam-se em frente ao palco Mundo para saltar ao som de velhinhos sucessos, como “A Minha Casinha”, “Vida Malvada” e a eterna “Maria”, mas também para ouvir as canções de “Puro”, o novo trabalho dos Xutos, lançado no início deste ano. O concerto terminou em apoteose com “Circo de Feras”.

Ainda nas t-shirts, uma nota para a do baterista Kalú, que do palco se destaca com a homenagem aos Dickies, banda punk norte-americana formada nos anos 70.

xutos e pontapés, rock in rio,

Gary Clark Jr. estraga a pontualidade do Rock in Rio e atrasa-se 10 minutinhos. Entretanto, os Rolling Stones prometem “convidados especiais”…

Gary Clark Jr. (22h10)

Entrou de chapéu e trouxe os blues ao palco Mundo. Gary Clark Jr. estreou-se nos palcos portugueses no festival Super Bock Super Rock de 2013 e regressa menos de um ano depois a mais um festival. Se do norte-americano só conhece “Don’t Owe You A Thang” por ser “aquela música do anúncio publicitário”, não lhe vire já as costas. Gary Clark Jr. merece que se ouça de uma ponta à outra “Blak and Blu”, o seu álbum de estreia, lançado em 2012. Este ano, o músico de 30 anos ganhou o Grammy de Melhor Performance R&B com a música “Please Come Home”, que fez questão de tocar esta noite em Lisboa, para as milhares de pessoas que já não arredam pé do palco Mundo, ansiosas pelo momento de ver os Stones.

Os quatro músicos ocupam pouco espaço no gigante palco. Não há cenários trabalhados, não há vídeos bonitos a passar atrás. Só blues. E não é preciso mais nada que não sejam canções como “Numb”, “Ain’t Messing ‘Round”, “If Trouble was Money” e solos de guitarra que parecem falar. “Thank you, thank you, thank you, thank you! Peace”, despediu-se Gary Clark Jr. depois de uma hora e vinte de um ótimo concerto.

The Rolling Stones (23h53)

“Ladies and gentlemen, will you please welcome the Rolling Stones!”. E eis que entra em palco um bisavô. Mick Jagger teve o seu primeiro bisneto este mês, mas mostrou ao público que ainda se move como ninguém, logo à primeira música do concerto, “Jumping Jack Flash”.  “Olá Lisboa! Olá Portugal! É bom estar de volta”, disse Mick Jagger em português, após a segunda canção tocada, “It’s Only Rock and Roll (But I Like It). Só não continua na língua de Camões porque, confessa: “Não sei mais português”. Mentira, como se iria comprovar noite dentro.

“Em noite de emoções fortes, na quarta música Mick Jagger anuncia que vai ter companhia. E não era Bill Clinton, que, de acordo com a Agência Lusa, se encontrava na assistência. Era nada mais, nada menos que Bruce Springsteen, o “boss” que em 2012 deu um dos melhores e mais longos concertos da história do Rock in Rio Lisboa. Ter no mesmo palco Rolling Stones e Springsteen é um jackpot musical, um daqueles momentos para contar aos (bis)netos um dia. De guitarra na mão, Bruce Springsteen acompanha os Stones em “Tumbling Dice“, cuja letra tem passagens sugestivas como “You can be my partner in crime”.

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Antes de se atirar à quinta música, Mick Jagger anuncia que o ritmo vai abrandar porque a banda vai tocar “algo romântico”. E ainda bem que o fez. As cerca de 90 mil pessoas presentes na Bela Vista puderam ouvir “Wild Horses”, uma das melhores canções do álbum “Sticky Fingers”, de 1971. Terminada a canção, Mick Jagger continua a exibir um português de alto nível. “Portugal vai ganhar a copa do mundo? Portugal vs. Inglaterra na final?”. Antes que alguém lhe perguntasse por que seleção ele vai torcer, ouve-se “Doom and Gloom”, single retirado da coletânea “GRRR!”, lançada em 2013 para comemorar o 50º aniversário da banda. À sétima música, Mick anuncia um novo convidado. Após o primeiro, as expetativas  estavam em alta. Calhou a Gary Clark Jr. a honra de tocar guitarra com os Stones na música “Respectable”.

“Que público maravilhoso”, diz Jagger, com um sotaque português  invejável. “You Got the Silver” e “Can’t Be Seen” dão folga ao frontman, já que é Keith Richards quem se aproxima dos palcos para cantar as canções de uma ponta à outra. Com a habitual fita na cabeça, Keith fala em inglês para dizer simplesmente isto, a sorrir: “It’s nice to be here. It’s nice to be anywhere”. Apesar do estatuto de estrelas, os Rolling Stones  mostraram-se bem dispostos e interagiram bastante com o público. Não só pela preocupação em falar em português, mas de todos os “Yeahs”, “Uuuhs” e palmas pedidas ao longo do espetáculo. Os sucessos de sempre estavam guardados mais para o fim. Lá vieram “Miss You”, “Start Me Up”, “Sympathy For The Devil”, “You Can’t Always Get What You Want” e, a terminar com chave de ouro, “(I Can’t Get No) Satisfaction”

Comentava-se muito entre os presentes no festival se o concerto desta noite dos Stones não seria a última oportunidade para ver em Portugal estas lendas vivas da música ainda no ativo. Se foi, os fãs vão guardar excelentes memórias.

Alinhamento do concerto dos Rolling Stones:

Jumping Jack Flash
It’s Only Rock and Roll (But I Like It)
Live With Me
Tumbling Dice
Wild Horses
Doom and Gloom
Respectable
Out Of Control
Honky Tonk Women
You Got the Silver
Can’t Be Seen
Midnight Rambler
Miss You
Gimme Shelter
Start Me Up
Sympathy For The Devil
Brown Sugar
You Can’t Always Get What You Want
(I Can’t Get No) Satisfaction

Eletrónica

Esta noite o palco da eletrónica foi inteiramente preenchido por nomes portugueses. Sete DjSet que só pecaram por serem curtos, mal serviram de aperitivo (os primeiros cinco, pelo menos), e que resultaram numa demonstração acanhada mas lúcida das capacidades lusitanas, ao nível que já estão de alguns dos “grandes”.

Quando chegámos à “aranha”, o radialista Miguel Quintão já terminava o seu set de 30 minutos, passando a pasta em contínuo para a dupla Magazino + Ari. Sempre non stop.

Noite adiante até que às 02h30 chega a vez da dupla Dj Vibe e Rui Vargas. Tó Pereira é talvez o Dj/produtor português mais conhecido internacionalmente, e Rui Vargas é o homem que faz as escolhas na casa rainha da música de dança lisboeta: o Lux Frágil. No domingo, Dj Vibe regressa com Rui da Silva para a estreia em palco dos Underground Sound of Lisbon (e prometem apresentar a versão ao vivo do tema “So Get Up”, faixa de 1993).

O vento e os 15ºC que se fazem sentir na Bela Vista pouco se notam. Haja música, que a gente dança. Pena ser quinta-feira, porque para muitos a noite teve de acabar com os Stones.