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Portugal colocou hoje no mercado 975 milhões de euros em dívida a 10 anos, com os juros a descerem mais de três décimas face ao último leilão realizado para este prazo, de acordo com dados da agência que gere a dívida pública portuguesa, o IGCP.

O Estado propunha-se colocar entre 500 e 750 milhões de euros, mas aproveitou os baixos juros exigidos pelos investidores para colocar mais 225 milhões de euros. A taxa de juro média fixada neste leilão foi de 3,2524%, quando no último leilão para um prazo a 10 anos, realizado a 23 de abril, havia sido de 3,5752%, e para uma quantidade menor de dívida.

A procura foi mais baixa do que na última emissão para um prazo semelhante passando de 3,47 vezes a oferta para apenas 2,43 vezes, mas em abril Portugal colocou apenas 750 milhões de euros.

Numa altura em que são muitas as incertezas em torno do rumo da política orçamental deste ano, após o chumbo do Tribunal Constitucional às leis que cortavam os salários dos trabalhadores das administrações públicas e das empresas públicas, que impunham taxas sobre o subsídio de doença e desemprego e ainda a impunham a condição de recursos nas pensões de sobrevivência, os investidores parecem ter ignorado a incerteza e reduzido a perceção de risco face à dívida portuguesa.

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As medidas que o Banco Central Europeu anunciou na semana passada para combater a ameaça de um longo período de baixa inflação, poderão estar a contribuir para o otimismo dos investidores.

“Atendendo às incertezas que a economia portuguesa ainda carrega, foi uma taxa mesmo muito interessante”, afirmou João Queiroz, diretor de negociação na GoBulling.

João Queiroz, diretor de negociação da GoBulling, considera que esta operação foi um sucesso e que com as atuais incertezas seria impossível conseguir uma melhor taxa.

“Foi uma operação com sucesso, não há dúvida. A descida da taxa dos 3,57% do último leilão para os 3,25% de hoje não é despicienda. E atendendo às incertezas que a economia portuguesa ainda carrega, foi uma taxa mesmo muito interessante. Os investidores têm vontade de investir em dívida portuguesa mesmo com todas as dúvidas sobre a capacidade do emitente Estado gerar saldos primários para a pagar. No atual ambiente seria difícil conseguir melhor taxa”, diz o responsável numa nota.

O montante colocado, diz, “foi razoável”, ainda mais atendendo que o limite máximo a que Portugal se propunha a colocar era mais baixo, e Portugal acaba por se conseguir financiar a taxas de juro que só encontram paralelo em 2005 (altura em que conseguia juros de 3,13%).

“No fim das contas, diria que não deixa de ser surpreendente que o país aumente o seu endividamento e a taxa da dívida desça”, acrescenta.

“Com as decisões do BCE, acabamos por assistir à criação de uma forte dinâmica de apetite pelo risco, com os índices a subirem, o euro a cair com o aumento de liquidez e os spreads da dívida a 10 anos alemã a reduzirem-se face às periferias”, disse Tiago da Costa Cardoso, gestor da XTB.

Tiago da Costa Cardoso, gestor da XTB Portugal, também considera que o leilão “foi um verdadeiro sucesso”. A taxa de juro mais baixa, diz, já era previsível depois das emissões de dívida de outros países periféricos e das decisões tomadas pelo BCE na semana passada.

“Com as decisões do BCE, acabamos por assistir à criação de uma forte dinâmica de apetite pelo risco, com os índices a subirem, o euro a cair com o aumento de liquidez e os spreads da dívida a 10 anos alemã a reduzirem-se face às periferias. Tudo isto acabou por aumentar bastante a procura por dívida de Portugal, Espanha e Itália, que na última semana desceram para níveis apenas vistos na década anterior. Mesmo com os problemas internos que Portugal vive, com o chumbo do Tribunal Constitucional, os investidores estrangeiros reiteraram através desta procura a confiança na economia portuguesa”, diz numa nota.