Uma desilusão. Que jogo feio e difícil de digerir. Houve tanta, mas tanta coisa a correr mal em Salvador da Bahia, que chamar hercúlea à tarefa de resumir a estreia portuguesa no Mundial até parece ser pouco. Tão pouco quanto o sumo que se consegue extrair do que a seleção nacional fez no relvado do Arena Fonte Nova. Durante a hora e meia em que a bola esteve a rolar, os portugueses serviram para apanhar a fruta que os alemães foram deixando. E pronto.

Por onde começar? Até esta escolha é difícil, mas peguemos no que Portugal já sabia antes da partida – que pela frente teria um bicho papão, uns alemães malditos, uns germânicos que, em 17 encontros, só por três vezes se distraíram o suficiente para a seleção se agarrar a uma vitória. Mais: sabia que, hoje e sempre, a Alemanha é candidata. A ganhar, a ser competitiva e a levantar as taças que lhe surjam pela frente. E o que fez Portugal? Errou, errou e só parou de errar quando o árbitro não deixou que se jogasse mais à bola em Salvador.

À esquerda, Cristiano Ronaldo nunca defendeu. Ok, nada de novo. O problema não foi este, mas outro – o facto de qualquer um dos outros dez portugueses estar viciado em fazer chegar-lhe a bola, sempre que ela spassava o meio campo. Aconteceu com Hugo Almeida, Nani, Fábio Coentrão e João Moutinho. Quanto mais negra ficava a partida, mais os jogadores mostram uma ânsia em fazer a bola chegar ao capitão da seleção. Os alemães disseram danke. Assim era fácil prever onde iam parar os ataques de Portugal.

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Ataque foi o que não faltou aos germânicos e até começaram por nem precisar dele. Aos 8 minutos, Pepe jogou pelo (in(seguro e passou a bola para trás, para Rui Patrício, guardião que, ao chutar na bola, a envia direitinha para os pés de Khedira, que tão supreso ficou que não acertou na baliza deserta que estava a 30 metros de distância.

Aos 11 minutos, uma troca de passes deixa Mario Götze na área portuguesa, com a bola, e todos os quatro defesas portugueses atrás de si, pasmados. João Pereira foi o primeiro a alcançá-lo e, pelas costas, decidiu agarrar o alemão. Assim que Götze o sentiu, deixou-se cair no relvado. Beeep, apitou o árbitro. Era penálti e o 1-0 para a Alemanha, graças à frieza de Thomas Müller, que enganou Rui Patrício. E, de repente, os três primeiro classificados do ranking da FIFA ficavam com um penálti a favor neste Mundial (antes, já o Brasil e a Espanha tiveram o seu).

Pronto, era só um golo. Recuperável. Aos 25’, mais recuperável pareceu quando Nani, à entrada da área alemã, rematou a bola que passou a centímetros da barra da baliza de Neuer. A seleção reagia. Três minutos depois, Hugo Almeida caía no relvado. “Tem uma lesão na coxa esquerda”, confirmou Henrique Jones, médido da seleção, após a partida. Éder ia a jogo. Ainda nem quente deveria estar quando, aos 32’, um canto de Toni Kroos fez escala no alto da cabeça de Hummels antes de acabar dentro da baliza de Patrício. 2-0.

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A coisa piorava, a seleção abanava e Pepe perdia o tino. Aos 37 minutos, uma bola chega aos pés do defesa e consigo traz a companhia de Müller. O alemão pressiona Pepe e o luso-brasileiro toca-lhe com o braço na cara. O avançado cai no relvado e o defesa não gosta. Desiste da bola, agacha-se e toca com a sua cabeça na de Müller. O alemão irrita-se, levanta-se e começa a discutir com Pepe. O árbitro vê tudo, mete a mão no bolso e de lá saca um cartão vermelho. Pepe, rua. Era a sexta expulsão de um português em Mundiais e a segunda mais rápida de sempre, após a de João Pinto, em 2002 (aos 27 minutos, contra a Coreia do Sul). O jogo acabava aqui para Portugal.

Não para a Alemanha. Nem para Thomas Müller, o melhor marcador do Mundial 2010 que, antes do intervalo, ainda marcou outra vez. E de quem foi a culpa? De tudo, até do azar. Kroos recebeu uma bola à entrada da área, ninguém o pressionou de frente e o alemão teve espaço para tentar um cruzamento. Conseguiu-o. A bola foi na direção de Müller mas Bruno Alves antecipa-se e toque-lhe antes do alemão. O problema: a bola foi contra o corpo de Thomas e ficou ali à mercê de um remate. Agora era Müller a dizer danke e a fazer o 3-0.

Chegava o intervalo. Que alívio. Eram 15 minutos para acalmar e corrigir o tudo que correra mal durante 45 minutos. Para a segunda parte, Paulo Bento tirou Miguel Veloso para meter Ricardo Costa ao lado de Bruno Alves. Deixava o meio campo entregue aos depósitos de Moutinho e Meireles que, por muito cheios que estivessem, teriam que andar a perseguir os três médios alemães. Ou os seis, já que, em campo, o alemão mais parecido com um avançado era o tal Müller, no meio de Özil, Khedira, Kroos, Götze e Lahm. E nem se notou que os portugueses ainda tinham gasolina para andarem.

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A segunda parte foi isto: passes, passes e mais passes feitos pela bola segundo ordens alemãs. O ritmo abrandava, é certo, mas porque “a Alemanha passou a gerir o jogo em posse”, como até admitiria Paulo Bento, no final da desgraça. Da seleção não se via nada de bom. A cada bola que tinha, Nani só olhava para a relva e tentava ludibriar tudo e todos. Ronaldo era engolido pelas marcações alemãs. Moutinho e Meireles eram dois postes no meio do carrossel germânico. E Fábio Coentrão saía lesionado, aos 65’. Só Éder, com esporádicas correrias, conseguia chatear os defesas alemãs.

É ele quem provoca a lesão que obriga Hummels a ser substituído, aos 73’. É ele quem, aos 77’, persegue a bola que Neuer defende para a frente, após remate de Nani, e acaba derrubado dentro da área por Höwedes. O que faz Milorad Mazic? Nada, a par do esbracejar e da gritaria que se viu na reação do Ronaldo, quando se plantou à frente do árbitro, a protestar. O jogo segue e, no minuto seguinte, surge o 4-0. Após uma jogada em que quase marcam, os alemães decidem insistir. Schürrle está na área, à direita, levanta o braço, pede a bola e alguém a manda para lá. O avançado do Chelsea tira um cruzamento rasteiro que Patrício consegue bloquear, mas para a frente.

E quem estava ali por perto? Thomas Müller, que foi pronto a rematar e a confirmar o seu hattrick. O primeiro que alguém conseguia marcar a Portugal, num Mundial – e, já agora, o 50.º na história da competição. E vão nove golos em oito jogos para o avançado germânico. Nos 12 minutos que restam por jogar, a bola (e o jogo) continua a não querer nada com a seleção nacional. Ronaldo ainda teve dois livres diretos seguidos. Um saiu rasteiro, atabalhoado e sem sentido, reflexo da amostra de futebol de Portugal. O outro obrigou Neuer a defender para o lado. Depois, o fim.

O pesadelo terminava. A humilhação ainda não. Essa vai durar, pelo menos, até domingo, quando a seleção voltar a um relvado para defrontar os EUA – a outra seleção, além da Coreia do Norte (1966) e da Alemanha que, num Mundial (foi em 2002), conseguiu meter três bolas na baliza portuguesa antes do intervalo. E o Arena Fonte Nova, estádio de Salvador, parece mesmo ser maldito para quem venha da Península Ibérica. Após a derrota por 5-1 da Espanha frente à Holanda, agora foi Portugal a sofrer um 4-0 da Alemanha.

Só coisas e números maus para a seleção nacional. Como se pode reverter isto? “Competindo com os jogadores que temos”, indicou Paulo Bento, após a partida. Na fase de grupos, ao que tudo indica, Portugal não voltará a contar com Fábio Coentrão e Hugo Almeida. Com ou sem eles, há que fazer melhor, muito melhor. Ou o Gana e os EUA serão tão temíveis quanto a Alemanha o foi em Salvador da Bahia.

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