Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Há um socialista que vê divergências ideológicas entre António Costa e António José Seguro. Um dia depois de António Vitorino ter comentado, na SIC Notícias, que não existiam diferenças ideológicas entre os dois candidatos à liderança socialista, Ascenso Simões, antigo secretário de Estado durante o primeiro mandato de José Sócrates e apoiante de António Costa, escreveu no seu blogue um texto onde pretende mostrar as diferenças entre Costa e Seguro.

Para contextualizar o seu texto, Ascenso Simões recorreu ao Contrato de Confiança apresentado por Seguro no encerramento da Convenção Novo Rumo, “o texto programador dos próximos anos de ação governativa”, e às “posições de António Costa nos debates e nos seus discursos de tomada de posse ou do 5 de outubro”.

Para Ascenso Simões, há três circunstâncias do foro pessoal que separam “com grande visibilidade” António Costa de António José Seguro. Primeiro, a “capacidade de articulação estratégica”. Para Ascenso Simões, o facto de António Costa ter sido titular de pastas ministeriais dá-lhe alguma vantagem em relação à promoção do diálogo inter-partidário. Em segundo lugar, “o estilo de liderança” – o autor considera Seguro “um coordenador” e Costa “uma força da natureza”. Em terceiro, a “formatação mental dos candidatos” – enquanto que Costa “habituou-se a não ligar ao que dizem dele”, Seguro “interioriza a crítica que, por vezes, o paralisa”.

A nível ideológico, as diferenças entre Costa e Seguro começam com a questão do Tratado Orçamental. António Costa é “mais incisivo na visão nacional das implicações europeias” e nega a “impossibilidade do PS de aceitar a transformação do Tratado Orçamental em dogma”. Recorde-se que António José Seguro votou a favor do Tratado Orçamental, em conjunto com a maioria governativa.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Em matéria fiscal, enquanto que o Contrato de Confiança de Seguro assenta “na redução do IVA na restauração, no não aumento da carga fiscal e na eliminação da contribuição de solidariedade”, Costa “aponta uma reponderação das tabelas do IVA”, de modo a torná-las mais compatíveis com as atividades económicas portuguesas, “uma política fiscal competitiva em relação a Espanha e o reforço das competências das polícias e da Autoridade Tributária na fraude e evasão” fiscais.

Também há diferenças no que diz respeito à sustentabilidade económica. “Enquanto o Contrato de Confiança se afirma pela existência de um Banco de Fomento, Costa parece discordar desta opção e optar pela valorização do papel da Caixa Geral de Depósitos no universo do financiamento da economia assumindo, ainda, a garantia da sua não alienação”, escreve o antigo secretário de Estado.

No que toca à sustentabilidade social, Ascenso Simões considera Costa mais “descentralizador” que Seguro em relação à autonomia das escolas, “assumindo a necessidade de revisão do enquadramento da autonomia”, e ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), onde Costa assume “a possibilidade de uma descentralização mais consistente de componentes de proximidade do SNS”.

Ao longo do texto, é ainda possível ler algumas diferenças difíceis de distinguir. Um exemplo: “Costa assume, para além das funções estruturantes da soberania, que são referidas no Contrato de Confiança, a promoção de bens sociais e a função de regulador e de motivador da atividade económica. Uma leitura mais espaçosa, mais socialista, das funções do Estado contemporâneo”.

Seguro e os seus apoiantes têm dito que nada separa o atual líder e Costa em termos ideológicos e que a guerra interna no PS deve-se a ambições pessoais e de poder do autarca de Lisboa.

O texto de Ascenso Simões termina com a evocação da palavra “traição” em relação a anteriores querelas internas no PS. “E já agora, para quem é velho e já assistiu às dissensões internas de 81/83; 91/92 e 2004/2005, a palavra “traição” foi sempre a mais utilizada, mas também a menos valorizada quando se tratou de escolher quem estaria em melhores condições para fazer regressar o PS à governação de Portugal”.