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Eu, Vence Dorete, na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com Judite França, Anselmo Crespo e Alexandre Borges. Vamos falar da contestação social que está a aumentar, uma espécie de aquecimento para a greve geral. Vamos também às propostas feitas pelo PSD e CDS para atrair jovens para as Forças Armadas com oferta de carta de condução e o protesto dos reclusos do EPL, o Estabelecimento Prisional de Lisboa. Mas Anselmo Crespo, começamos pelas declarações de Mariana Vieira da Silva à Antena Um, que não põe de parte um dia candidatar-se à liderança do Partido Socialista, e vai também criticar a atitude de Pedro Nuno Santos, logo naquele dia de regresso ao Parlamento em que disparou em várias direções. Anselmo, que nota tens para Mariana Vieira da Silva? Não sei se queres começar pela nota ou pela justificação da nota.
Vamos começar já pela nota, arrumamos já o assunto. Eu dou um sete à Mariana Vieira da Silva e vou tentar explicar por que não é mais alto nem mais baixo. A melhor resposta que eu vi à Mariana Vieira da Silva foi de Ascenso Simões. Quando estava a vir pra cá, vi uma publicação que ele fez nas redes sociais, em que basicamente Ascenso Simões diz duas coisas. A primeira é que Mariana Vieira da Silva não tem nem o partido nem o país para poder sequer ponderar uma candidatura à liderança do Partido Socialista. Mas a segunda parte da resposta é melhor ainda, que é quando Ascenso Simões sugere que Mariana Vieira da Silva um dia se candidate a reitora do ISCTE. Talvez daqui a 10, 15 anos, diz Ascenso Simões, porque aí sim fará seguramente um bom lugar. Eu acho que com a acidez típica de Ascenso Simões, eu retiraria pelo menos a primeira parte, porque ele nota também uma certa contradição no discurso de Mariana Vieira da Silva, que diz por um lado que o Partido Socialista não pode estar a viver em permanente tensão. Na mesma entrevista em que diz: "Sim, não me excluo de ser candidata à liderança do Partido Socialista." Que faz o quê? Coloca ainda mais tensão. É muito óbvio, porque já todos vivemos isto. Vivemos, não, assistimos. Não vivemos propriamente, mas já todos assistimos a isto no PS, no PSD, sobretudo nestes dois grandes partidos, é muito óbvio o que está a acontecer no Partido Socialista. Já cheira a sangue, só ninguém sabe quando é que o óbito se vai dar. E portanto, está toda a gente a achar que está na altura de começar a dizer: "Eu estou aqui." A vida interna do Partido Socialista, obviamente, não me aflige nada, o partido decidirá o que acha que é melhor pra ele. Mas aflige-me que no momento que nós estamos a viver do país, político, em que há um governo sem maioria, em que há um conjunto de desafios pela frente, que nós nem sequer sabemos exatamente que dimensão é que vão ter, qual é a dimensão desta crise, do ponto de vista econômico, como é que isto vai impactar na vida das pessoas. Já vivemos outras recentemente, a da Ucrânia, da pandemia, portanto, temos aqui um termo de comparação bom, mas ninguém sabe exatamente o que é que vai acontecer. E portanto, numa altura em que o Partido Socialista, para além de precisar de se reerguer da hecatombe eleitoral que teve nas últimas eleições, precisa de se afirmar. E precisa, sobretudo, de se apresentar ao país com qualquer coisinha, qualquer coisa que as pessoas compreendam o que o Partido Socialista quer, que visão é que tem para o país. O partido insiste, e aqui o partido, é injusto para muita gente do Partido Socialista quando metemos toda a gente dentro do mesmo saco, mas algumas das figuras mais destacadas do Partido Socialista insistem em alimentar uma coisa que estava mais ou menos adormecida, que Pedro Nuno Santos acordou, e que agora toda a gente ficou muito assustada com o aparecimento de Pedro Nuno Santos e toda a gente decide pôr-se em bicos dos pés a dizer: "Eu estou aqui, eu também existo." Eu acho que isto é mau para o Partido Socialista, mas acho que isto é mau também para o país, porque, na verdade, eu acho que todos nós esperamos, até pela responsabilidade histórica que o Partido Socialista tem, que o PS diga qualquer coisa que não seja apenas qual é o prazo de validade do secretário-geral.
Diga alguma coisa de esquerda.
Diga alguma coisa de esquerda.
Alexandre, queres dizer alguma coisa sobre isto?
E agora eu dizia só não. Secamente. Isto é um programa ou um podcast livre.
Exatamente. Muito bem. Não tenho muito a dizer, concordo com o Anselmo, diria só duas coisas mínimas, que é apesar de tudo do que vejo nas declarações, se queria escapar-se à resposta, talvez pudesse ter sido mais hábil, mas é daquelas coisas que ela diz: "Bem, eu não posso afastar essa hipótese pra sempre."
Já tinha dito.
É daquelas coisas.
Já não é a primeira vez que o diz, atenção.
Pois, é verdade. Mas depois quando é questionada sobre esta próxima entrevista que Natália Carvalho lhe fizer já será à nova líder do PS, ela diz: "Acho que não." Portanto, quer dizer, ou está a dizer que não vai ser candidata a tão breve traço, ou então não acreditaria muito na sua própria candidatura, acho eu. Ascenso Simões também não é aquela pessoa que tem um dedinho onde ele toca tendencialmente no candidato, depende da forma como tocar, mas por exemplo, ele recomendou que Seguro não fosse, que o PS não apoiasse Seguro, aquelas coisas assim.Agora, é verdade que é a questão de que falávamos noutro dia. José Luís Carneiro, de cada vez que olhar para trás, vai ver muita gente a esconder objetos atrás das costas. É isto que vai ver. Não há a menor
Tipo macaquinhos chineses.
Exatamente. Não vejo a menor possibilidade de se concentrar no que deveria fazer. E atenção, sendo que o PS é exatamente o que o Anselmo dizia, não apresenta um plano que se perceba para o país, mas de repente já lidera as sondagens. O governo tem desbaratado de tal maneira alguma espécie de consistência ou autoridade nos últimos tempos, que se arrisca a que um dia destes, ou melhor, é daquelas coisas, o PS arrisca-se a ficar numa posição muito favorável por incapacidade do governo. Não tenho a certeza que isto vá assim durar tanto tempo quanto às vezes parece.
Eu acho que esta questão de Mariana Vieira da Silva ter admitido que o PS não está em condições de viver em permanência estado de tensão e depois ter dado esta entrevista, que objetivamente traz alguma tensão, quanto mais não seja quando ataca Pedro Nuno Santos e diz que Pedro Nuno Santos não devia ter dito o que disse. "Chegar e criticar todos não me pareceu bem." É verdade que Mariana Vieira da Silva também quis dizer que não está no barco, que Pedro Nuno Santos arregimentou muita gente para lá pôr. E eu acho que Mariana Vieira da Silva tem alguma razão quando diz que Pedro Nuno Santos se portou mal quando regressou e decidiu atacar os que tinham ficado. A verdade é que José Luís Carneiro, no meio disto tudo, espero que continue em silêncio e que seja um silêncio por sabedoria, ignorando que isto se passa à sua volta, que é o melhor que tem a fazer. Aliás, não há outra coisa que possa fazer, porque comentar isto não faz o mínimo sentido. O que fazia sentido era que estivessem todos a remar para o mesmo lado e enquanto estão a remar, não dessem este tipo de entrevistas. Eu acho que de facto dizer o que pensa é importante, mas há alturas em que o melhor é guardar para si aquilo que pensa e deixar que o líder do PS continue a fazer o seu trabalho. Deixa-me só fazer uma nota em relação à questão do pacto pra saúde, porque é a pessoa do Partido Socialista que vai lá estar.
Era um ótimo tema pra Mariana Vieira da Silva criar dois ou três títulos pra uma entrevista, era exatamente o tema da saúde.
Era. E aquilo que fez é: "Acho muito difícil que se resolva um debate de 40 anos sobre a saúde" e arrumou pra canto. Tirando qualquer possibilidade que isto possa ter sucesso. O que eu acho que é um péssimo princípio de conversa para quem ainda não se sentou à mesa.
Ou pode ficar de fora de um eventual sucesso.
Sim, também.
Alexandre, tu queres falar sobre o protesto dos reclusos do EPL, do Estabelecimento Prisional de Lisboa. O que se passa?
Sim, ontem, 230 presos da ala B, que é essencialmente metade desta ala, recusou tomar o pequeno-almoço, tomar a medicação e mesmo voltar às celas. Sentaram-se no chão em protesto, exigindo uma reunião com o diretor do EPL, devido às condições degradantes, segundo eles, do estabelecimento e de facto, depois segundo quer a peça da Lusa, quer a do Diário de Notícias hoje, o rol é extensíssimo. Das condições em si de um edifício que tem quase 140 anos, janelas partidas, infiltrações, etc. A distância legal que não é respeitada entre as sanitas e as camas, a falta de visitas médicas, às vezes provocadas pelas greves dos guardas não comunicadas aos próprios presos, a duração das visitas mais breve do que deveria ser, porque são chamados tarde pra irem, cortes de luz, enfim, o rol é gigante. E há um conjunto de condenações já do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos a Portugal, por causa, em geral, das condições nas prisões e, em particular, das condições do EPL. O próprio Sindicato da Guarda Prisional diz que eles têm toda a razão. A coisa só se resolveu com a chamada do corpo de intervenção. Não houve confrontos, mas foi preciso chamar o corpo de intervenção e depois eles já estarem lá e dizerem: "Pronto, regressem lá às vossas celas." E depois de lhes ser prometida uma reunião, de facto, com o diretor da prisão para a tarde do próprio dia, isto é, ontem, às 14h, mas não sabemos ainda o que é que resultou.
Sabemos que houve reunião, não é?
Sabemos que houve reunião, exatamente, mas não sabemos o que é que resultou daí, sendo que os reclusos também ameaçaram com greve de fome, caso não resultasse nada dessa reunião. Vale a pena dizer que o estabelecimento tem mais de mil reclusos, mais de 400, portanto, um número muito significativo, 40% são presos preventivos.
Estamos a falar de um processo de encerramento que está prometido.
Que tem sido protelado, exatamente.
Estava aqui a confirmar o último calendário. A Ministra da Justiça em março dizia que este ano vai começar o encerramento gradual e que até 2028Vai estar encerrado.
Exato. Sendo que há muitos anos que se fala disso, depois em 2022 foi perfeitamente decidido, era para fechar em 2026. 2026 eventualmente irá começar.
É uma zona com terrenos muito apetecíveis.
Muito apetecíveis.
É um local nobre da cidade.
Depois tem essa ironia, mas nem isso até aqui tem feito acelerar o processo. E vai ser um encerramento faseado, segundo disse a ministra em março, vai começar pelas alas A e E, que são as que têm piores condições. Faço notar que nenhuma dessas é a que protestou hoje. A descrição do protesto de hoje da guarda prisional, do Sindicato da Guarda Prisional, é de início de motim. Espero que as coisas corram bem até lá ou que haja alguma forma, por mais que uma razão, de acudir ao problema antes de esperar por 2028. Isto é porque o que está a acontecer neste momento é dizer: "Isto é mesmo para fechar na mesma, portanto vamos deixando ficar". A quantidade de condenações no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos não nos permite olhar para isto com essa tranquilidade, até porque é vergonhoso. Portugal tem muitos problemas estruturais, estamos habituados a estar no fim de uma série de tabelas, mas que sejamos um dos países mais condenados no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, tipicamente pelas condições nas prisões e por crimes contra a liberdade de expressão, é uma vergonha. Não há explicação para isso.
Queres dar uma nota?
Sim, para a situação nas prisões é um dois.
Um dois. E já vamos voltar para a segunda parte de "E o Vencedor É", hoje com Anselmo Crespo, Alexandre Borges e a Judite França. Ainda vamos falar sobre uma espécie de aquecimento para a greve geral, que se antecipa para o início de junho. Esta semana, a UGT também vai tomar aquela que se aguarda que seja a decisão final sobre a questão do pacote laboral. Também ainda vamos olhar para as propostas do governo para tentar atrair os jovens para as Forças Armadas. Uma espécie de semana de campo com direito a carta de condução. Segunda parte de "E o Vencedor É", com a Judite França, o Anselmo Crespo e o Alexandre Borges. E vamos falar sobre a contestação social que parece estar a começar a aumentar. Anselmo, será esta uma espécie de aquecimento para a greve geral?
Sim, eu acho que há duas coisas que explicam esta contestação social que vai crescendo, e eu suspeito que ela vai continuar a crescer mesmo depois da greve geral. E a primeira explicação tem, para mim, uma razão muito simples. Na primeira legislatura de Luís Montenegro, a grande prioridade de Montenegro foi aumentar várias corporações da administração pública, professores, polícias, médicos. Portanto, ele entrou, por um lado, com os cofres cheios de dinheiro e, por outro, com a vantagem de ter tempo para fazer aquilo que António Costa não teve tempo para fazer. E também porque objetivamente esses aumentos e essas negociações, se bem se lembram, naquele ano de 2024, o governo parecia que tinha um livro de cheques infinito. Dava para tudo. Tudo aquilo que não tinha dado para fazer durante anos, deu para fazer naquele ano, ou praticamente tudo. Mas havia ali um propósito, que era: Luís Montenegro sabia que o prazo de validade do governo dele ia ser curto. Não sabia exatamente quão curto ia ser, mas sabia que ia ser curto. O segundo ano, 2025, continua a ser um ano muito marcado por eleições e, portanto, já não era o tema dos aumentos, já era o tema dos impostos, baixar impostos, aumentar pensões. Por quê? Porque mesmo tendo passado as legislativas, a seguir havia autárquicas, depois presidenciais e, portanto, estávamos ali num ciclo eleitoral. Agora acabou. E acabou as duas coisas. Acabaram as eleições e acabou o dinheiro. Essa é, para mim, uma das explicações. E a segunda explicação tem a ver com uma necessidade que eu acho que os sindicatos, entenda-se a esquerda, sentem em começar um processo de desgaste, de criação de percepção na opinião pública de que este governo está muito desgastado. E isso nós também sabemos, porque andamos aqui há muitos anos, faz-se na rua. Mesmo que não tenha uma adesão propriamente muito grande ou que essa adesão seja sobretudo da administração pública e menos do setor privado, nós todos sabemos que as televisões vão lá estar, as rádios vão lá estar e, portanto, midiaticamente isso vai encher o espaço público. Por que eu trago isto aqui? Por uma razão simples, é porque eu tenho cada vez mais a convicção de que nós somos um bocadinho aquele quadro do Abel Manta, de um problema difícil. Portugal é um problema difícil, porque nós andamos, parecemos aqueles filmes do Natal que todos os anos dão os mesmos e nós já sabemos as falas todas de cor. Nós já sabemos como é que isto vai tudo acontecer. E a única coisa que nós também sabemos é que verdadeiramente nada de estrutural muda na forma como o país funciona. Não é só na economia, a economia é uma das vertentes, mas é uma vertente muito importante, porque depois leva por arrasto tudo o resto. Nós vamos continuar com um Estado muito pesado em cima das pessoas, com uma carga fiscal brutal. Uma espécie de Estado tutor. Como o Estado cobra muitos impostosQualquer coisa, seja uma catástrofe, uma tragédia, um incêndio, uma tempestade ou uma situação de aperto, como uma crise externa internacional que tem um impacto em nós, faz com que as pessoas a seguir tenham que ir bater ao Estado e pedir.
Mas com aquela desconfiança, sabendo que o Estado não vai responder muitas vezes em tempo útil.
Sempre com essa desconfiança.
Em qualidade, nem em quantidade, se quiseres.
Portanto, do ponto de vista da dependência financeira, nós vamos, suspeito eu, continuar assim, porque eu não vejo nada acontecer. Não vejo rigorosamente nada. E depois do ponto de vista dos serviços públicos, mesmo para aqueles que não vão bater à porta do Estado, têm a vida feita num inferno, porque, na verdade, nós falamos muito da falência do Estado Social. Eu neste momento já acho que não é apenas o Estado Social. Eu acho que o país está a deixar de funcionar. É impossível arranjares um canalizador ou um eletricista, é impossível teres uma resposta do teu banco a tempo e horas. Parece que tudo se está a tornar difícil. Viver no país está a tornar-se difícil. E eu colo as duas coisas por isto, porque enquanto nós andamos aqui nesta espécie de roda de hamster, que é contestação social, desgaste do governo, novo ciclo político, depois ou há um problema judicial, ou então há uma crise, ou então vai haver um brutal aumento de impostos, qualquer coisa. Nós sabemos mais ou menos o que é que pode vir aí. No entretanto, não mudou nada. Não mudou nada no país e eu acho que isso está a matar-nos aos poucos. Enquanto país, porque está a defraudar brutalmente as expectativas de toda a gente, dos que já cá andam há muitos anos, das novas gerações, e isso preocupa-me profundamente.
Partilhas este otimismo do Anselmo, que está a matar aos poucos?
Se calhar estou um bocadinho mais otimista.
Por favor.
Só um bocadinho.
Devolve-nos uma luzinha de esperança.
Eu acho que, de facto, a contestação vai aumentar e acho que a contestação vai continuar depois do dia da greve geral. Acho que a expectativa que poderíamos ter em relação ao dia sete, que é o dia da reunião com a UGT, vai sair completamente gorada, dali não vai sair nada e é muito provável que a UGT se junte à greve da CGTP e em pouco tempo tínhamos duas greves gerais, que era uma coisa que já não tínhamos há anos. É evidente que temos aqui uma ministra do Trabalho que não sei o que é que lhe vai acontecer depois, porque ela tinha tornado esta reforma laboral quase como se fosse o alfa e o ômega da sua governação. Não sei exatamente o que é que pode acontecer a seguir, que decisão é que tomará a ministra do Trabalho depois de ver esta reforma, a não ser que seja como diz o primeiro-ministro, o país não morre, já não sei qual era a expressão, se a reforma não for feita. De facto, não, mas passámos os últimos tempos só a falar disso. Pensávamos que era importante. Se calhar não é assim tão importante como estávamos a pensar. Que há muita coisa do país que não funciona. Há, e eu acho que o próprio governo está neste momento a empancar a sua reforma do Estado, está a empancar no próprio Estado e é muito difícil trabalhar, seja com que parte do Estado for. É um bocadinho mais fácil, ainda assim, trabalhar com o privado.
Já foi mais, mesmo assim.
Sim, talvez. Há fases piores nos países. Eu acho que hoje estamos a atravessar uma fase difícil no mundo inteiro e acho que isso é também como a economia é um ambiente. A economia também se gere muito pelo ambiente e pela perceção que as pessoas têm daquilo que está a acontecer. E é uma bola de neve.
Desculpa, mas a brincar, a brincar, quando dizes hoje, nas minhas contas, é pelo menos desde 2008, 2009.
Portanto continuas, foi sempre.
Não, as dificuldades têm vindo sempre em crescendo, agora em geral. Ou é os materiais, ou é os transportes, ou é isto ou é aquilo. Isto vem em camadas, nós parecemos um mil folhas.
Mas o que o Anselmo diz é a mais pura das verdades. Tu não consegues tratar de nada.
É verdade.
Tu quando tens que tratar de alguma coisa.
Se for no Estado, não consegues tratar de nada.
E mesmo no privado.
E mesmo no privado. Bom, temos alguma nota para este estado otimista em que estamos, Anselmo?
Eu gostava muito de ser mais otimista. Eu gostava, sobretudo, que nós parássemos um bocadinho, esqueci-me de dizer isso há pouco, e eu dou a nota. Eu, apesar de tudo, vou dar um 10 de dúvida, porque nós temos muita tentação, nós, agora incluo-me mesmo a mim, que eu já muitas vezes disse publicamente que responsabilizei os governos dos últimos 30 anos, sobretudo porque não gosto de falar dos últimos 52, um bocadinho parto, mas os governos dos últimos 30 anos pelo estado a que nós chegámos. Mas eu hoje em dia acho que todos nós temos que fazer uma espécie de introspeção, porque eu não acho que o problema tenha que estar só nos governos. Há um conjunto de bloqueios no país, sejam corporações, sejam sindicatos, sejam tribunais.
O país é feito por nós, todos.
Certo, seja estruturas de poder dentro da administração pública, já agora, seja a própria comunicação social.
Exatamente.
Há um conjunto de bloqueios que impede que alguma coisa mude. A Judite dizia bem, nós estamos à mesa a discutir a reforma laboral. A reforma laboral ou a forma como ela está a ser negociada?
A forma como ela está a ser negociada.
Nós, todos, debatemos mais a forma como era negociada do que propriamente as medidas quais são. Portanto, eu dou um 10, na esperança que alguém perceba que isto não vai continuar a funcionar assim.
Custa-me concordar nisto, concordo com o Anselmo. Acho que perdemos muito tempo também com a forma e muito menos com o conteúdo. Portanto, vai um 10 também. Também para nós, se calhar.
Sim, acho que sim. Eu partilho esse 10. Vou também agora dar uma nota. Vamos também olhar para as propostas do governo para atrair jovens para as Forças Armadas. É caso, Judite de França, para ir buscar a versão dos Onda Choc do "In The Army Now", quando os Onda Choc cantavam: "Vais para a tropa, pá?"
Vais para a tropa, pá.Por acaso este projecto de resolução-
Neste momento chovem os downloads na internet, os cliques no Spotify.
Homem, ó pai.
O que é isso?
São os da choque.
São os da choque.
Isso era um chocolate?
E de estudar, meninos.
Mas eu acho que este projecto de resolução, que foi apresentado pelo PSD e pelo CDS, pela AD, que se chama Defender Portugal e que tem a duração de três a seis semanas, destinado a jovens entre os 18 e os 23 anos, pode ser bastante interessante. É preciso reforçar a defesa nacional, sobre isso não haja a menor dúvida. Cinco mil tropas norte-americanas a saírem da Europa é um número muito significativo e, portanto, nós precisamos disso. E acho curioso que isto traga uma espécie de brinde. Ou seja, pagam 400 € ou 439 €, mas ainda se pode ganhar a carta de condução.
Acho que receberiam. São pagos.
Sim.
Exato, recebem 439 € e o brinde, certo?
Sim, e a carta de condução.
Não sei se têm que passar um recibo verde.
Vão abrir uma exceção, de certeza.
Exato.
Vão obrigar a abrir atividade estes jovens de 18 anos.
O Estado preparava-se para cobrar imposto sobre as vítimas da violência.
Alexandre, se estivessem a carta e ias para a tropa ou não?
Estou agora voltando atrás.
Passar três semanitas.
Se fosse no meu tempo, não. Sim, eu acho uma ótima ideia, por várias razões. Já agora, também fica uma vantagem no currículo para estes jovens que depois queiram ingressar nas forças de segurança ou de facto na carreira militar. E também haveria uma inclusão na disciplina, na mítica disciplina de Cidadania, de matérias de defesa, portanto, em coordenação com este programa. E é uma ótima ideia por várias razões. Vamos ver, em princípio, isto passa porque o PS também no final de março tinha apresentado uma recomendação no mesmo sentido.
Isto é uma recomendação do PSD e do CDS.
Exatamente. O PS tinha dado entrada com uma proposta bastante mais geral, mas que basicamente recomendava um estudo destas possibilidades de programas de voluntariado e também da questão da articulação com a disciplina de Cidadania. Portanto, em princípio, isto é coisa para passar. O Chega não disse grande coisa sobre isto, mas tenho a certeza, se acharem que isto é popular.
O Chega já tinha apresentado uma proposta.
Tinha muito vaga.
De fazer uma semana, não em vez de ser o Dia da Defesa Nacional, era a Semana da Defesa Nacional.
Nota como é uma coisa mais tímida. Se isto de repente ganhar popularidade, o Chega passa pra frente desta iniciativa. Não há problema.
Passa a seis meses em vez de seis semanas.
Exatamente. Vale a pena lembrar que nesta última semana, Peter Hegseth, o ministro da Defesa americano.
Da Guerra.
Agora é da guerra, perdão.
Ele não está lá para defender nada.
Já me custa fazer a tradução de Secretary of State para ministro, e depois eu esqueço-me de traduzir a segunda parte em trampes. É verdade, Defesa/Guerra. Os Estados Unidos, ou melhor, a administração, solicitou ao Congresso um aumento de 50% do orçamento militar americano, que já é de longe o maior do mundo. Nesse orçamento, vale a pena dizer que estão exatamente $0 para a Ucrânia. Zero. E a resposta de Peter Hegseth ao Congresso é dizer: "A Europa é um continente rico, são países ricos, são muito mais ricos que a Rússia, podem pagar a sua defesa perante a Rússia." E portanto, para te dizer isto, em França, Alemanha, há programas do gênero a correr, particularmente em França as vagas ficaram preenchidas, é uma coisa bastante maior, são 10 meses, mas parece-me uma aproximação interessante a isso. Isto é, há países a reinstaurar o serviço militar obrigatório. Antes de chegarmos aí, é mais interessante ficarmos pela dimensão do voluntariado, da escolha e de ser uma oportunidade de carreira.
Anselmo, também a carta de condução chega?
Eu concordo. Não sei se chega.
Estou só a provocar.
Sim, eu sei. Não sei se chega, mas eu acho que todas as iniciativas que aproximem as novas gerações daquilo que são as Forças Armadas e da importância das Forças Armadas são boas iniciativas. Estranho que o PSD e o CDS, não sei se o PS fez isso, tenham apresentado esta proposta sem ouvir os militares, porque eu já ouvi militares a dizerem que isto não é muito boa ideia, mas sobretudo, acho que o tema do serviço militar obrigatório não se deve colocar porque não faz sentido colocá-lo agora. Mas faz sentido nós olharmos para as Forças Armadas de um outro ponto de vista, que é: elas hoje em dia são altamente profissionalizadas. Nós não podemos estar a imaginar as Forças Armadas hoje à luz do que víamos há 30 ou 40 ou 50 anos, em que qualquer pessoa que não tivesse uma carreira melhor ou um futuro à frente podia ir ali pra tropa e o Estado ficava a tomar conta dele, basicamente. Portanto, as Forças Armadas hoje precisam de profissionais mais qualificados do que antes precisavam. As novas tecnologias, os drones, a inteligência artificial exigem um perfil completamente diferente e isso eu acho que devia acrescentar a este debate. Não estou a dizer que as propostas que estão em cima da mesa não podem ser discutidas e não devem ser discutidas. Eu acho é que os partidos tinham a obrigação de estar a alargar este debate já há algum tempo. A Ucrânia não começou agora, começou em 2022, para reformular as nossas Forças Armadas.
Vamos dar uma nota rápida. Queres dar uma nota, Anselmo?
Dou 12 à intenção.
12. Alexandre?
Dou ao projeto do governo um 15.
Eu também ia pelo 15.
Muito bem, notas muito positivas a fechar "E o Vencedor É.". Amanhã há mais, nas manhãs 360, juntam-se ao José Manuel Fernandes e ao Paulo Ferreira, o Rui Pedro Antunes e o Luís Rosa.