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Faltavam nove minutos para o árbitro apitar para o fim. A Itália jogava com menos um — expulsão de Marchisio — e estava estacionada bem atrás. O Uruguai insistia. Só ganhando chegariam aos “oitavos”. Canto para o Uruguai. A fé desta gente jamais os abandona, e eles queriam manter bem vivo o sonho de reeditar o Maracanazo. Gastón Ramírez levantou para a área e Godín, nas alturas e meio de costas, cabeceou para o fundo das redes de Buffon. Um-zero. A festa do central foi emocionante: beijava a bandeira na camisola enquanto corria para a sua gente, que saltava e berrava na bancada. Godín tem tido um final de época memorável: um golo seu em Camp Nou garantiu a Liga Espanhola aos colchoneros; depois, voltou a marcar na final da Liga dos Campeões, mas aí seria insuficiente.

The twilight zone. É este o resumo da partida para a Itália: faltas, expulsão, agressividade, vampiros, golo tardio e uma eliminação. Teve de tudo. Cesar Prandelli bem se pode queixar de si mesmo, pois montou uma equipa para empatar. E, já se sabe, quem joga para empatar…

O primeiro tempo ficou marcado pelas interrupções e pelo número sem fim de faltas (24). A qualidade do futebol era fraquinha, mas isso era compensado com o empenho e competitividade. Os jogadores estavam mais preocupados em não deixar os outros jogar. Pirlo estava vigiado por Cavani. Suárez teve um duelo durinho contra Barzagli e Chielinni. A Itália estava a jogar em 3-5-2, mas transformava-se em 5-3-2 quando perdia a bola. O catenaccio, que parecia ter sido abolido do ADN italiano depois daquela estreia contra a Inglaterra, parecia estar de volta.

O Uruguai estava a revelar, naturalmente, dificuldades em encontrar espaço, mas lá ia conseguindo, normalmente por Álvaro Pereira e Cristián Rodríguez. O posicionamento deste último fez lembrar Di María no Real Madrid: sólido a fechar no meio-campo e com liberdade para investir em diagonais ou colar à linha. Interessante.

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O primeiro lance de real perigo chegou aos 38′ e valeu um senhor de 36 anos a salvar o dia. Grande combinação entre Lodeiro e Suárez à entrada da área italiana. Suárez rematou primeiro e Lodeiro depois, na recarga. Buffon defendeu as duas. Enorme. O Uruguai esteve sempre melhor durante este primeiro tempo. Queria mais. A Itália ia colocando-se a jeito, embora registasse 61% de posse de bola. O intervalo chegaria pouco depois em Natal, uma boa altura para Pirlo e Cavani trocarem a camisola.

O segundo tempo começou com a mesma toada. Rasgadinho, lento e sem jogadas de ataque que deixam os olhos a brilhar. E bastariam 14′ para Prandelli receber um valente murro no estômago: vermelho direto para Marchisio, depois de tocar com os dentes da bota na perna de Ríos. Este foi o sétimo cartão vermelho direto visto por jogadores da seleção italiana em Mundiais. Já estão no pódio e, à sua frente, já só há a Argentina e o Uruguai (com oito) e o Brasil (com dez). Se esta Itália já estava defensiva e com medo, como ficaria agora?

Gigi Buffon voltaria a ser decisivo pouco depois. Cavani tentou primeiro, de longe, mas  o remate foi bloqueado pela povoada defesa italiana. A bola sobrou para Suárez, logo para ele. O avançado entrou na área e decidiu chutar mais ou menos de trivela. Buffon esticou o braço e voltou a ser o herói. Ou super-herói, tal foi o seu grito quando se levantou, enquanto erguia bem alto o punho, como se tivesse acabado de marcar um golo. Lembramos: 36 anos.

Os treinadores iam mexendo nas peças do xadrez. O italiano tentava equilibrar a equipa, o uruguaio lançava guerreiros para assaltar a baliza do rival. E foi por altura do minuto 79 que esta história ganha interesse. Pergunta para queijinho: o que têm ou tiveram em comum Bakkal, Ivanovic e Chielinni?… Os dentes de Suárez cravados no seu corpo. É verdade. Parece mentira mas o uruguaio voltou a atacar, qual vampiro na twilight zone. Chielinni ainda correu com o ombro despido para mostrar ao árbitro; Gastón Ramírez corria ao seu lado enquanto tentava tapar o ombro. Haverá punição para Suárez?

Quando o tema de conversa ainda era esse ataque de raiva de Suárez, o golo que relatámos no início aconteceu (81′). Canto de Ramírez para a cabeça de Godín e ciao, Itália. Terceiro golo para o central nos últimos seis jogos da seleção. Já a Itália tem de atinar nas bolas paradas: foi assim que sofreu sete dos últimos dez golos em Mundiais. Tabárez estava a poucos minutos de colocar o seu Uruguai nos “oitavos”, tal o fizera em 1990.

A Itália ainda beneficiou de um canto já perto do minuto 95, o tal que prometia a angustia. Até Buffon subiu à área adversária, mas nada feito… Apito final em Natal. O Uruguai garantia a passagem aos “oitavos” em dois Mundiais consecutivos (2010 e 2014), o que não acontecia desde 1986 e 1990.

Inglaterra e Itália fora do Mundial — Cesare Prandelli já pediu a demissão. Este grupo da morte surpreendeu toda a gente, com a Costa Rica e Uruguai a seguirem em frente. Nos “oitavos”, é muito provável que Suárez, Cavani e companhia encontrem a sensação colombiana de Cuadrado, James e Quintero.