Eusébio da Silva Ferreira pode ser o senhor que se segue. Numa altura em que são trasladados para o Panteão Nacional os restos mortais da escritora Sophia de Mello Breyner, já estão em marcha várias iniciativas para prestar igual homenagem a portugueses que se destacaram.

Em primeiro lugar, está o nome de Eusébio, lenda do futebol e do Benfica, que morreu em janeiro. Rapidamente, na comoção geral, o Parlamento pôs-se de acordo quando a esse ato, apenas o remeteu para um momento posterior. “A decisão política está tomada”, garantia o líder da bancada do PS, Alberto Martins, no fim de uma reunião da conferência de líderes, poucos dias depois da morte do futebolista, revelando que os vários partidos com assento parlamentar foram unânimes em apoiar a iniciativa.

“Esta é uma deliberação política de grande relevo, é uma exigência democrática, há um consenso unânime entre todos os grupos parlamentares de reconhecimento do Eusébio como uma grande figura nacional, um atleta ímpar, genial que foi uma referência de Portugal e da lusofonia”, acrescentou. Mas ninguém se atreveu ainda a pôr uma data – ainda estava a decorrer com grande discrição os preparativos para a trasladação de Sophia.

De acordo com a lei, essa trasladação só pode ocorrer depois de passar um ano sobre a data da morte.

No meio da discussão sobre Eusébio (proposto pelo PS), Manuel Alegre reivindicou as mesmas honrarias para o capitão de abril Salgueiro Maia que completaria esta terça-feira 70 anos, se fosse vivo. A família, contudo, já veio dizer publicamente que discorda pois essa nunca foi a vontade do militar, que pediu para ser enterrado em campa rasa, na sua terra natal, Castelo de Vide.

Estão ainda a decorrer várias petições para levar ao Panteão figuras como o cônsul-geral Aristides de Sousa Mendes, o músico Zeca Afonso e até o historiador José Hermano Saraiva.

“Aristides de Sousa Mendes dignificou e elevou a condição humana. Foi um homem e um português justo e bom, que teve a coragem de se erguer contra a injustiça dos homens, salvando milhares de vidas e tendo pago um preço elevado por isso. É hoje uma referência ética, moral e cívica para Portugal e para o mundo”, refere o texto da petição a favor do cônsul português em Bordéus, que tem 760 assinaturas. Em 1940, Aristides desobedeceu a ordens do regime de Salazar e concedeu milhares de vistos de entrada a judeus, ajudando-os, assim, a fugir dos nazis alemães.

O pedido de Zeca Afonso, por seu lado, lembra este músico como “uma voz inconfundível a favor da liberdade em Portugal”. “José Afonso esteve sempre ao lado dos desfavorecidos o que é bem notório nas letras das suas canções e baladas. José Afonso foi um cidadão perseguido e preso pela policia política do salazarismo. O seu talento como autor, músico e intérprete é ímpar. José Afonso merece ser trasladado para o Panteão Nacional fazendo-se jus à sua obra e nobilitando a democracia portuguesa reinstaurada em 25 de abril de 1974 com a própria senha por si criada num momento de notável inspiração – Grândola Vila Morena”, lê-se.

Há ainda uma petição a favor da trasladação do historiador José Hermano Saraiva, que morreu em 2012.

Sophia de Mello Breyner ficará na sala 3 do Panteão, ao lado de Aquilino Ribeiro e Humberto Delgado, restando apenas uma vaga por preencher nesse espaço.

Atualmente, estão no Panteão os restos mortais dos ex-presidentes da República Manuel de Arriaga, trasladado em 2004, Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona, dos escritores João de Deus, Almeida Garrett e Guerra Junqueiro. O escritor Aquilino Ribeiro, falecido em maio de 1963, foi a última personalidade que deu entrada no Panteão Nacional, para o qual foi trasladado em setembro de 2007.

A trasladação é um ato que só pode ser aprovado pela Assembleia da República. E tem que ser assinado pelo Presidente da República um termo de sepultura.

A lei prevê que as “honras do Panteão” se destinam “a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”.

No Panteão, encontram-se ainda cenotáfios — arcas tumulares de homenagem sem corpo – evocando as figuras de Luís de Camões, do infante D. Henrique, de D. Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.