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As ondas de choque da crise no Grupo Espírito Santo (GES) estão a provocar efeitos no interior da Portugal Telecom (PT). Otávio Azevedo, um dos dois gestores que representavam interesses brasileiros no topo da operadora de telecomunicações e que decidiram apresentar a demissão dos cargos, pronunciou-se nesta quarta-feira pela primeira vez sobre a iniciativa que tomou, na sequência da subscrição, pela PT, de instrumentos de dívida de curto prazo emitidos pela RioForte, holding do GES, no valor total de 897 milhões de euros.

Em declarações ao jornal brasileiro Valor Económico, parceiro do Diário Económico, o ex-administrador da Portugal Telecom afirmou que foi o financiamento prestado pela PT, e que vence em meados de julho, que motivou o abandono da empresa e que a mesma razão terá levado Fernando Magalhães Portella a seguir o mesmo caminho. Otávio Azevedo, líder da construtora Andrade Gutierrez, manifestou-se “desconfortável” e acrescentou, em declarações ao mesmo jornal, que o conselho de administração da PT, presidido por Henrique Granadeiro, não foi consultado sobre a subscrição do papel comercial da unidade do GES.

A Comissão do Mercado de Valores está a analisar o tema. O BES é detentor de 10% do capital da PT e esta empresa possui cerca de 2% do capital atual do banco.

O volume da operação está, também, a causar apreensão entre os analistas e os investidores, que qualificam a iniciativa como de risco, perante as dificuldades financeiras que empresas do GES como a RioForte e a ESI (Espírito Santo International) estão a atravessar. Antes de renunciar ao cargo, o ainda presidente executivo do Banco Espírito Santo (BES), Ricardo Salgado, tentou, junto do Governo português e das autoridades angolanas, encontrar financiamentos no valor de 2,5 mil milhões de euros.

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As ações da Portugal Telecom têm vindo a ser alvo de uma onda vendedora que está a penalizar, de forma pesada, as cotações em bolsa.

Ao Jornal de Negócios, Steven Santos, da XTB Portugal, afirmou que “as acções da PT estão a ser penalizadas devido às implicações negativas que o investimento em dívida de curto prazo da RioForte poderão ter na fusão com a Oi”. Na mesma publicação, Albino Oliveira, da Fincor, considera que a situação pode perturbar a fusão, mas mostra-se céptico quanto à possibilidade de a operação vir a fracassar. “O processo de fusão entre as duas empresas vai já numa fase adiantada, pelo que torna difícil a definição de, por exemplo, um novo rácio entre accionistas da Portugal Telecom e da Oi”, comentou aquele analista.

O facto é que as ações da Portugal Telecom têm vindo a ser alvo de uma onda vendedora que está a penalizar, de forma pesada, as cotações em bolsa. Nesta quarta-feira, o preço por título ficou em 2,47 euros no fecho da sessão na Euronext Lisbon, o que representa um recuo superior a 3% em comparação com a véspera. O Negócios assinala que se trata da cotação mais baixa desde 1996 e que, em quatro dias, a desvalorização da PT já atingiu 15%.

Nesta quarta-feira, os cinco acionistas de referência do GES estão reunidos para discutir um plano de reestruturação financeira da estrutura. Em causa está, também, a necessidade de encontrar uma lista de candidatos consensual à próxima administração do BES, que tem uma assembleia geral de acionistas agendada para 31 de julho. Amílcar Morais Pires, o nome indicado por Ricardo Salgado para lhe suceder na liderança executiva do banco, pode não ter acolhimento junto do Banco de Portugal e Joaquim Goes, também atual gestor da instituição, pode vir a ser a solução que permita fumar o cachimbo da paz entre os acionistas tradicionais.