A vacina contra o papilomavírus humano (HPV) usada na prevenção do cancro do colo do útero também é eficaz na prevenção do cancro do ânus. A Comissão Europeia aprovou a utilização da vacina com esta finalidade, segundo o comunicado da empresa Sanofi Pasteur MSD.

O HPV, nome genérico para um conjunto de mais de 150 tipos de vírus, afeta exclusivamente humanos, mas os mais patogénicos são o tipo 6, 11, 16 e 18 – os quatro tipos presentes na vacina tetravalente usava na prevenção.

Os tipos 6 e 11 são responsáveis pelo aparecimento de verrugas genitais (condilomas acuminados), mas os tipos 16 e 18 têm um potencial oncogénico – podem causar cancro no colo do útero, vulva, vagina, ânus e orofaringe (região onde estão as amigdalas). A vacina pretende prevenir o aparecimento tanto de cancro como de lesões pré-cancerosas.

A vacina contra o HPV já faz parte do Plano Nacional de Vacinação português, com a recomendação de que deve ser administrada a raparigas com 13 anos. Embora a investigação científica tenha demonstrado os benefícios da vacina quando administrada até aos 26 anos, o ideal é que na altura da vacinação a rapariga ainda não tenha tido relações sexuais, explica ao Observador José Alberto Moutinho, presidente da secção de Colposcopia e Patologia do Trato Genital da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.

Embora a maioria das infeções sejam causadas pelo contacto sexual, seja vaginal, anal ou oral, também existem outras formas de contágio, como de mãe para filho durante a gravidez ou parto. “Para haver infeção tem de haver traumatismo da mucosa [que reveste o órgão] porque o vírus precisa penetrar profundamente no epitélio [tecido por baixo da mucosa]”, refere o médico ginecologista, dando como exemplo um vírus que exista na mucosa genital de uma rapariga virgem e que só penetre no epitélio aquando da primeira relação sexual, porque a fricção causa pequenas lesões nos órgãos.

Vacinar é a melhor solução

A vacinação de rapazes já é feita em alguns países, mas não em Portugal. Mesmo que não se aprove a vacinação para rapazes ou a vacinação como prevenção do cancro do ânus em Portugal, José Alberto Moutinho considera que a vacinação das mulheres e raparigas é suficiente para proteger a população como um todo – ao proteger as mulheres está a proteger-se os parceiros e filhos.

Contudo defende que as mulheres até aos 45 anos deviam ser vacinadas, mesmo que já tivessem sido infetadas antes. “É difícil uma mulher já ter sido infetada pelos dois vírus [16 e 18]. E o vírus não confere muita imunidade”, justifica. A vacinação aumenta o número de anticorpos no corpo logo potencia a resposta do sistema imunitário perante uma infeção.

Dos cerca de 6.800 novos casos de cancro do ânus que aparecem anualmente na Europa, 75 a 80% podem ser causados pelo tipo 16 e 18 do vírus, lê-se em comunicado. As mulheres são as mais afetadas, reunindo 60% dos casos. Os homens que mantém relações sexuais homossexuais e as pessoas imunodeprimidas fazem parte dos grupos de risco.

Para esta doença sem sintomas e que evolui lentamente não é feito um rastreio sistemático, mas José Alberto Moutinho aconselha a avaliação das pessoas dos grupos de risco. “A suspeição do médico leva a uma análise da região, mas fazer um rastreio na região anal é muito difícil.” A vacinação é o melhor remédio.