A bolsa de Lisboa fechou a sessão desta quinta-feira com uma queda de 4,1%, enquanto os mercados europeus também reagiram de forma negativa que é justificada pelos receios em redor da situação do Banco Espírito Santo (BES) e do Grupo em que se integra. Na Europa, os investidores afastaram-se das ações da banca, de acordo com a Reuters. Os títulos do BES e da Espírito Santo Financial Group (ESFG), cuja negociação foi suspensa, registaram quedas de 17,24% para 0,509 euros e de 8,85% para 1,185 euros, respetivamente.

O índice Stoxx Europe 600 Banking registou uma descida de 1,3%, ao resvalar para o valor mínimo dos últimos sete meses, enquanto o FTSEurofirst 300 recuou 0,95%, fixando-se no nível mais reduzido dos dois últimos meses. “O risco de contágio [da situação no BES] foi claramente visível hoje”, afirmou Philippe Gijsels, diretor de research no BNP Paribas Fortis Global Markets, em Bruxelas. O analista acrescentou que, do seu ponto de vista, trataria o problema como “um caso isolado, de momento”, mas que não se colocaria em posição compradora.

A situação no BES, afirmou à Reuters Lorne Baring, diretor do B Capital Wealth Management, “é uma história intrincada de participações cruzadas e de dívidas inexplicadas que colocou à luz do dia os riscos que ainda existem nalguns bancos europeus”. O especialista acrescentou que se verificou algum efeito de contágio nos mercados, mas adiantou que poderá ter havido uma “sobre reação” em relação às notícias sobre o BES, que surgiram em simultâneo com os dados que indicaram uma quebra na produção em Itália, o que contrariou as expetativas de subida. “Alguns investidores estarão a questionar a solidez da retoma na Europa periférica”, adiantou Lorne Baring.

Os títulos de dívida da maior economia do mundo, considerados dos ativos mais seguros, vêeem os juros a cair para o valor mais baixo das últimas cinco semanas.

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O principal índice da Bolsa de Nova Iorque, o Dow Jones, caiu 0,40% na abertura da sessão e os juros da dívida norte-americana desceram. Segundo a Reuters, os receios de que os problemas do BES tragam de volta mais instabilidade na zona euro estão a levar os investidores a vender os seus ativos mais arriscados e a investir o seu dinheiro em ativos mais seguros.

Os títulos de dívida da maior economia do mundo, considerados dos ativos mais seguros, vêeem os juros a cair para o valor mais baixo das últimas cinco semanas, devido à forte pressão compradora. A Bolsa de Nova Iorque abriu a perder, com o Dow Jones a cair 0,4% o S&P 500 0,6%.

Os analistas atribuem à situação que se vive no Grupo Espírito Santo (GES) a subida que se verifica nos juros da dívida soberana de Portugal no mercado secundário, assim como o atual mau desempenho dos mercados europeus. “Pode-se obviamente relacionar com a questão do Grupo, pela questão do risco sistémico que o mercado teme. Questiona-se até que ponto uma instituição financeira desta dimensão não pode ter repercussões na economia e afetar a qualidade do crédito do Estado”, afirmou o analista da Fincor Albino Oliveira à Lusa.

Analistas internacionais falam da pressão que a situação do grupo de que o BES faz parte está a ter sobre os mercados da periferia, tanto de obrigações como de ações.

Albino Oliveira disse que a situação, em Portugal, do GES a juntar à situação, em Espanha, da empresa Gowex, que reconheceu a falsidade das contas dos últimos quatro anos, está a pressionar os juros da dívida de todos os países da periferia do euro (Portugal e Espanha, mas também de Itália e Grécia), enquanto os juros da dívida de Alemanha e França descem.

Também analistas internacionais falam da pressão que a situação do grupo de que o BES faz parte está a ter sobre os mercados da periferia, tanto de obrigações como de ações, assim como da forma como está a abalar a confiança dos investidores na zona euro. “Portugal está claramente a alimentar o declínio nos mercados”, afirma Renaud Murail, manager do Barclays Bourse, citado pela AFP, que considerou que “os investidores estão a questionar a força do Banco Espírito Santo e o impacto que pode ter em todo o país”.

“As preocupações sobre a saúde do Banco Espírito Santo têm prejudicado o sentimento do mercado, com as ações de bancos a perderem em toda a linha”, disse, por seu lado, Fawad Razaqzada, da Forex.com. Também para o analista Markus Huber, da corretora Peregrine e Falcon, “não há dúvida” de que as manchetes que o BES está a fazer hoje contribuiem para a “queda forte nas ações portuguesas e de alguns outros países da periferia, como a Itália e Espanha”. Ainda assim, considerou, nada indica para já que os problemas encontrados na ESI contagiem todo o sistema bancário português.

Ao mercado será preciso que tanto o BES como o Espírito Santo Financial Group, maior acionista do banco, com 25%, venham prestar esclarecimentos públicos.

Sobre o efeito da situação no GES em específico nos juros da dívida de Portugal, Pedro Oliveira, operador de mercados do Banco Carregosa, diz à Lusa que “há realmente uma coincidência”, já que “desde que os títulos do BES e da Portugal Telecom começaram a ser penalizados em bolsa que os juros da dívida têm tido subida significativa e aproximam-se agora dos 4% [no prazo a 10 anos]”.

Para os analistas portugueses contactados pela Lusa, para regressar alguma tranquilidade ao mercado será preciso que tanto o BES como o Espírito Santo Financial Group (maior acionista do banco, com 25%) venham prestar esclarecimentos públicos. Os juros da dívida portuguesa continuavam hoje a subir em todos os prazos, perto das 14h00, nomeadamente no prazo a 10 anos para os 3,926%.

O BES não é, no entanto, a única notícia negativa do dia. Em França, os números da inflação e da produção industrial ficaram aquém do esperado, a que juntam ainda a desistência da farmacêutica italiana Rottapharm SpA da sua entrada em bolsa (que estava marcada para esta sexta-feira) e a escalada do conflito no Médio Oriente.