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Haja uma alegria. Ou duas. Então se forem seguidas, espetáculo. Em 2014, a seleção estava a precisar. Não a sénior, a dos mais velhos que ao Brasil foi para sair do Mundial na fase de grupos, com a palidez de apenas conseguir uma vitória, um empate e uma derrota. Chegava a desilusão. A tal que, até agora, ao final de julho, não tinha motivos para se distrair. E eis que aparece um Campeonato da Europa. O de sub-19, na Hungria, onde Portugal marca presença com uma equipa. Melhor — com uma seleção que, em dois jogos, já deu nas vistas. Bastante.

Na estreia diz olá a Israel e despede-se uma hora e meia depois, com um 3-0. Vitória. E brilho, vindo dos pés de Marcos Lopes. Dois golos são dele, do menino prodígio, do extremo que, há três anos, o City foi buscar aos juniores do Benfica. Desde aí que o manteve escondido por Manchester, enquanto o treinou e aprimorou na equipa de reservas do clube. Por vezes, até chamava o português à primeira equipa, para mostrar o que aí vinha.

Em 2013/14, por exemplo, Marcos Lopes — ou Rony, alcunha pela qual é conhecido — aparece em três jogos da Taça da Liga inglesa e faz 57 minutos na Taça de Inglaterra. Esta época, finda a aventura da adolescência (tem 18 anos), já foi emprestado aos franceses do Lille. No Manchester City, já tem um recorde — foi o mais novo de sempre a marcar um golo pela equipa principal, com 17 anos e oito dias de vida. Isto em 2012/13.

Contra os israelitas, Marcos Lopes brilhou. Houve outro português, porém, que não quis ficar a assistir. André Silva, nome de avançado, marcou o segundo golo da partida. Passou a última temporada no Porto B, onde marcou três golos em 21 jogos. Pouco? Talvez, mas esta palavra não se aplica neste Europeu. E André Silva provou-o no segundo encontro da fase de grupos.

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Um, dois, três e quatro. Um de cabeça, dois de pé esquerdo e outro de pé direito. De André Silva veio um quarteto de golos, na terça-feira, contra a Hungria, seleção do país que acolhe o Europeu. Chegou aos cinco na prova, mais dois que Davie Selke, alemão que o persegue na corrida dos marcadores. “Era um sonho fazer tantos golos num só jogo com a camisola da seleção”, dizia, após o jogo que garantiu a passagem às meias-finais e reservou viagem para a Nova Zelândia, onde, em 2015, se realizará o Mundial de sub-20.

Os golos, como sempre, são os culpados por o destaque morar, sobretudo, em Marcos Lopes e André Silva. Mas há mais. Gerson Martins, extremo irrequieto da equipa, vindo do Sporting, também marcou contra a Hungria. É ele o maior fã de dribles e fintas nesta seleção. Passou 2013/14 nos juniores leoninos, onde marcou quatro golos em 26 jogos. Gelson é o quarto jogador do Sporting desta seleção. Ele e Domingos Duarte não espreitaram a equipa B do Sporting na última temporada, enquanto Mauro Riquicho e João Palhinha foram ambos chamados durante a época — o primeiro, aliás, esteve em 26 jogos.

Pouco de Braga e muito de duplas origens

Nesta seleção sub-19, os grandes fizeram tréguas. Benfica e Porto também deram quatro jogadores cada à equipa. Pedro Rebocho, João Nunes, Raphael Guzzo e Nuno Santos vieram dos encarnados (nenhum jogou pela equipa B). Entretanto, já são apenas três: um lesão obrigou Nuno Santos a abandonar o Europeu. Já Rafa, Tomás Podstawski, André Silva e Ivo Rodrigues vieram dos dragões — e todos fizeram pelo menos 10 jogos pela equipa B do Porto, na última temporada. De resto, entre os 18 convocados escolhidos por Hélio Sousa, o seleccionador — sim, o homem que, durante épocas, foi capitão do Vitória de Setúbal –, apenas um jogador veio de Braga. Foi André Sá, um guarda-redes.

E isto interessa pois, na última época, os minhotos foram campeões nacionais de juniores. Mas Agostinho Oliveira, diretor técnico do Sporting de Braga, explicou o porquê quando falou ao Mais Futebol. “Os jogadores mais aptos da nossa equipa eram juniores de primeiro ano. Para o escalão deles, são indiscutíveis, mas para a seleção mais acima podem estar ainda um bocado distantes”, analisou. O guardião do Braga ainda nem sequer apareceu no relvado. Os 180 minutos da seleção neste Europeu tiveram André Moreira na baliza, jovem do Ribeirão, clube do Campeonato Nacional de Seniores (3.ª divisão). Depois há Jordan Machado, vindo do Montpellier, e Jorginho, do Manchester City.

Com estes dois nome se faz outra paragem nesta seleção: ambos nasceram fora de Portugal. Jordan em França, e Jorginho na Guiné-Bissau. Algo que acontece com outros três jogadores. Marcos Lopes, por exemplo, é natural de Belém do Pará, no Brasil, tendo emigrado aos quatro anos para Portugal. Gelson Martins nasceu em Cabo Verde, enquanto Raphael Guzzo tem o seu local de nascimento em São Paulo.

Com Mauro Riquicho e Tomás Podstawski, que detêm ambos dupla nacionalidade (moçambicana e polaca), a seleção conta com sete jogadores com origens estrangeiras. Aliás, são oito, já que Romário Baldé, do Benfica e nascido na Guiné-Bissau, foi chamado para substituir Nuno Santos. Sinal dos tempos? Talvez. O que importa, contudo, é o facto de a equipa de Hélio Sousa, em duas partidas, ter nove golos marcados, um sofrido e a garantia de que estará nas meias-finais do Europeu sub-19. Na sexta-feira, às 17h, há mais: Portugal defronta a Áustria e basta um empate para terminar em primeiro lugar do grupo.